quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Literatura e História — Parte I: Seguindo pistas

Há muito tempo, acredito que a melhor forma de se compreender a cultura de um povo ou país num determinado período de sua história seria bastante viável não pelo estudo das grandes obras que um e outro produziram então, mas pela análise do que subjazia e era compreendido, e consumido, pela população em geral.
Explicando melhor, quero dizer que se entende mais a sociedade romana, por exemplo, à leitura das peças muitas vezes vulgares de Plauto e Terêncio, e tendo próximo dos olhos os combates dos gladiadores entre si e contra feras, do que pela plácida contemplação dos textos de Virgílio, Sêneca e Marco Aurélio. Quer porque o povo não lia estes últimos, quer porque povo, elite e estamentos médios assistiam àquelas comédias e freqüentavam os circos e arenas.
Vá lá que os gregos norteassem suas vidas públicas e privadas por Homero. Mas não deixa de ser curioso que o número de comédias de Aristófanes (onze, remanescentes) supere o das tragédias de seu contemporâneo Sófocles (sete, conservadas).
Já foi dito, alhures, que se apreende muito mais a Inglaterra e a Itália medievais através dos Contos de Cantuária, de Chaucer, e do Decamerão, de Bocaccio, do que pelas crônicas oficiais ou oficialescas daqueles tempos. Mas os modernos fizeram vistas grossas a isto em sua época. Tudo o que viesse do povo, ou cheirasse à literatura barata, foi escorraçado do horizonte dos historiadores do século XVI ao XVIII. Os românticos até que tentaram, reabilitando os contos de fada e tentando compreender o período em que foram escritos, ou presumivelmente escritos. Todavia o fizeram mais como antiquários do que pesquisadores sérios, científicos, metódicos.
Já os norte-americanos foram bastante espertos quanto a esta percepção, muito antes mesmo da L'École des Annales e da Microstoria italiana. E o testemunho é de ninguém menos do que o de um seu ex-presidente. Abraham Lincoln, quando encontrou a escritora Harriet Beecher Stowe, no início da Guerra Civil, teria chegado a dizer: “Então esta é a pequena senhora (little lady) que causou esta grande guerra (big war)”, tal a repercussão de seu romance junto aos leitores. Em suma, naqueles tempos, o grande livro, para tal povo, foi A Cabana do Pai Tomás, e não Moby Dick, de Melville, ou A Casa das Sete Torres, de Hawthorne, ambos publicados em 1851, um ano antes daquele. E os dois últimos, que já nasceram clássicos, e modernos – pela visão de congraçamento racial do primeiro, e pelas pontuais inovações críticas às tradições fossilizadas, do segundo – parecem não ter feito qualquer eco na consciência de seus contemporâneos.
De modo que, acredito, compreende-se menos a França do século XIX por Balzac do que, por exemplo, por um Eugène Sue, ou um Alexandre Dumas, ou qualquer outro autor de folhetins. Ainda que não fossem repórteres de seu tempo, como o primeiro, e não escrevessem tão bem – é inegável este ponto – como o autor da Comédia Humana, eram eles muito mais lidos pelo público. Eram formadores de opinião, de desejos e esperanças. Nutridos por histórias cheias de reviravoltas, de tirar o fôlego, de ações providenciais de príncipes até então incógnitos, que disfarçavam sua real natureza até o grande lance em que desatavam os nós do destino, entende-se porque os franceses foram tão complacentes com a ascensão, folhetinesca, de Napoleão III.
No Reino Unido, cujo público leitor era muito mais amplo, chegando mesmo à ralé mais explorada, uma análise do apogeu do Império, creio, seria muito melhor realizada não à leitura de Dickens, ou Thackeray, mas sim à das sanguinolentas páginas dos Penny Dreadfuls (em tradução livre, mas apropriada: “horrores a um centavo”), com suas narrativas escandalosas, violentas, terríveis, muitas delas incluindo fantasmas, monstros e assassinos impiedosos. Em boa medida, as Dime Novels (valendo a regra anterior: “novelas a um centavo”), suas correspondentes norte-americanas, com crimes urbanos e facínoras do Oeste Selvagem, cumprem também o seu papel quanto a revelar aquela sociedade. Como, a seu tanto, a bibliothèque bleue, na França, e os cordéis, na Espanha, Portugal e Brasil.
Há poucos anos, foi publicado um livro bastante interessante que contém, em boa parte, uma série de fontes preciosas para o desenvolvimento desta questão. Trata-se de Páginas de Sensação, de Alessandra El Far. Nele, a autora não se detém sobre os integrantes do cânone literário, mas, sim, no que liam os populares – e nem tão populares assim, mas em segredo – entre fins do século XIX e começo do XX no Brasil. A lista de escritores e livros desconhecidos é grande e instigante. Muito mais porque, somos informados, contaram eles com um grande público então (lembrando-se, todavia, que, então, o analfabetismo grassava em grande número e por toda parte em nosso país).
Através dele podemos vislumbrar os gostos da população urbana brasileira de então, dos mais humildes aos mais proeminentes – ainda que secretamente lidos por estes. Uma pesquisa realizada em certos acervos pessoais de alguns notáveis talvez nos enchesse de espanto. Fica, aqui, portanto, uma proposta, neste sentido : vasculhar a baixa literatura nas bibliotecas dos homens de subida fama. É um bom projeto, e uma forma de melhor conhecê-los e ao seu tempo. Imaginem só : pornografia na bilioteca de Rui Barbosa ; romances policiais na de Joaquim Nabuco. Daria o que pensar. E muito...

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de agosto de 2009).

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