quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte II: Ateísmo e revolução em Vila Rica

Acredito que todos os leitores aprenderam na escola a seguinte lição: no Brasil colonial, não existiam manufaturas, de espécie alguma, porque a Coroa portuguesa proibia sua instalação na Colônia. Para quem duvidasse, citavam-se uns tantos decretos que reforçavam o fato, o último deles de 1785. E muitos historiadores de um passado nem tão remoto, presos a certas correntes ideológicas bem específicas, abraçavam esta teoria, justamente se baseando nas tais leis que impediam a criação de pequenas metalúrgicas, fábricas de pólvora e de pano grosso, e por aí adiante. Hoje, a interpretação é completamente outra e, à primeira vista, até óbvia: ora, se sucessivas leis eram promulgadas proibindo uma dada coisa, é porque, na realidade, as leis não eram cumpridas, sendo necessárias outras que as reafirmassem. Pois bem, parece tudo muito natural, não é? Mas levaram-se décadas para que a sua naturalidade fosse enxergada.
Outro mito corrente é de que no período chamado de Renascimento, os homens de letras e estudos voltaram suas costas para a Igreja, renegaram suas práticas como atos supersticiosos e por bem pouco não mergulharam num feroz ateísmo, ainda que disfarçado hipocritamente. As provas seriam a valorização do homem nas artes, uns tantos ou quantos livros escandalosos (uns, cheirando à heresia, outros tresandando ao que hoje chamaríamos de pornografia). Pois tal legenda também foi desmontada há muito tempo graças ao estudo da obra de um genial e desbocado escritor francês: François Rabelais (1483-1553). E por duas autoridades em suas áreas: o linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), no seu “Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais” (na sexta edição em 2008, e mais uma vez esgotado), e pelo historiador também francês Lucien Febvre (1878-1956), em “O Problema da incredulidade no século XVI: A Religião de Rabelais” (um clássico publicado em 1942 e só traduzido – inexplicavelmente – em nosso idioma neste ano). Ambos os autores demonstram muito bem como era impossível ser ateu naquele período, visto que o catolicismo se entranhara não só em todos os aspectos da sociedade como também em cada nervura dos indivíduos.
E for falar em ateísmo, há também aqueles que interpretam que se não se deu no Renascimento o seu berço, teria sido no século dezoito a sua crisma. E citam o iluminista Voltaire (1694-1778) a torto e a direito, quando nada há de concreto que ateste que o mesmo era ateu: um grande questionador de absolutamente todas as religiões, mas nunca um total incrédulo. Não importa: vendem-no como tal, e dão de brinde os seus leitores da época, que seriam, evidentemente, também ateuzinhos. Para não dizer revolucionários. Por conta disto, muita gente embarca na canoa furada que é propor que os inconfidentes de Minas Gerais, eram todos uns acerbos críticos da política e da sociedade de seu tempo, bafejados de incredulidade e, acima de tudo, anticlericais. E, desta vez, segundo estes marinheiros desavisados, a prova encontrar-se-ia nas bibliotecas dos envolvidos na conjura, apreendidas pelas autoridades. Porque lá estavam livros de Voltaire, as obras completas de Montesquieu (1689-1755), o proibido abade Raynal (1711-1796), mais uns, poucos, heréticos e, outros, vários, polêmicos, entende-se que aqueles mineiros eram todos ateus e, repitamos, revolucionários. O que se esquecem de dizer os partidários de tal teoria – que leram apressadamente O Diabo na livraria do Cônego, o pioneiro, e insuperável, estudo de Eduardo Frieiro (1889-1982) sobre as bibliotecas dos inconfidentes – é que Voltaire era também muito lido por suas qualidades poéticas (era reputado, então, como o maior poeta do século XVIII, o que era um evidente exagero). Como também não mencionam que, para cada polemista, havia mais de três ortodoxos, consagrados, conservadores. Os livros de temática sacra (Teologia é só uma das suas subdivisões) eram os que mais se contavam nos acervos dos inconfidentes. É esta, sim, uma prova do quanto a religião fazia parte de suas vidas e pensamentos.
Em suma, tal como o livro, que não se compra pela capa, que não se tome o homem apenas por um ou outro livro que tenha lido como tudo que leu e que o formou. Eles são indícios, muito bons, por meio dos quais podemos conhecer seus leitores enquanto homens de letras, mas daí a vislumbrar radicais de gabinete, ou de barricadas não passa de especulação. Forçada, aliás.

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de agosto de 2009).

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