sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Passado presente: viva o toca-discos!

Há muitos anos, em Brasília, pude observar um gosto curioso pela aquisição de antiguidades, verificado numa certa população endinheirada local. Lá por meados dos anos 1980, havia ali uma verdadeira febre de leilões, feiras de antiguidades, inaugurações de antiquários e coisas do gênero. Tratava-se, à primeira vista, de algo completamente paradoxal: se aquela era “a cidade moderna por excelência”, por que aquele resgate meio insensato do passado, um passo que ali não se manifestara, pelo contrário, passara longe daquelas plagas? Mais tarde fui entender a necessidade que muitas pessoas têm de se sentirem presas a uma tradição, qualquer que seja, mesmo que inventada. Hoje este fenômeno alastrou-se por toda parte. Há gente que compra em sebos, antiquários e feiras velhas fotografias de completos desconhecidos, emolduram-nas e dizem às visitas que se tratam de avós, tios-avós, primos distantes, etc. O mesmo se dá com objetos, móveis, livros: na ânsia de inventarem um passado, já vi muito traste de brechó que foi anunciado como uma herança de uma Tia Lídia, presente de uma avó Josefina, e por aí vai.
Mas voltando àquele surto arqueológico sofrido por Brasília naqueles remotos anos, lembro-me que, então, a oferta era inferior à demanda. E como nem todos podiam ter antigos quadros, relógios de carrilhão, pratarias ou móveis suntuosos, instaurou-se uma mania por antigas geladeiras. Não, não se trata daquelas Frigidaires, dos anos 1950 ou 1960, que ainda hoje são vistas nalgumas casas, ou disputadas a tapas por decoradores moderninhos. Eram verdadeiros armários de madeira, dos anos 1910 ou 1920, nos quais se metia uma barra de gelo para a conservação da comida. Peças raras, é verdade – quantas delas o Brasil as teve naquelas décadas, visto que as geladeiras, antes do presente governo, só para termos uma ideia, eram utilidades ausentes de muitas casas? Pouquíssimas, portanto, as que deveriam existir e, certamente, localizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nas capitais, bem entendido. Porém o aspecto mais curioso é que aquela mobília feia – porque era mesmo feia – ganhava posição de destaque nas salas dos brasilienses endinheirados, algo como a mesinha onde se encontra a Bíblia aberta sobre um atril, em certas casas, ou o oratório com os santos de devoção, noutras. Era realmente de embasbacar. E, rapazola que era na época, não pude me furtar a refletir quanto à diferença entre as antiguidades, reais, e os trastes velhos.
Continuo gostando de antiguidades, como sempre as apreciei. Alguns avanços da tecnologia, por exemplo, permitem até que as usufruamos melhor. Veja-se o caso dos laptops ou notebooks. Por sua versatilidade de conexão e alimentação elétrica, podemos usá-los em boas e velhas escrivaninhas, em lugar daqueles racks horrendos diante dos quais nos sentávamos, geralmente contra a parede, num ponto meio escuro do cômodo, meio espremidos, desviando-nos de mouses, impressoras, fios e mais fios.
Mas tenho criado, recentemente, uma certa simpatia por velharias, tenho que confessar. Pois quem já não perdeu a hora de acordar, graças a um rádio-relógio ou moderno despertador à pilha? Eu, várias vezes. E, digo, não adianta programar a função no celular. Em determinadas partes de nosso país, o aparelho entra em colapso. Como solucionei, então, o problema? Comprei um bom e velho despertador movido à corda, estridente, barulhento, e que nunca falha. Posso colocá-lo no banheiro, no quarto ao lado – para livrar-me do seu tique-taque – mas o som de sua campainha me desperta da mesma maneira.
Outra maravilha tecnológica do passado que resgatei foi um telefone dos anos 1960, pouco mais ou pouco menos. Tenho há um ano e nunca me deu um problema sequer, diferente de tantos outros descartáveis que se vendem por aí, ou que entram em pane depois da menor oscilação elétrica. Quem nunca ficou em palpos de aranha com um telefone sem fio? Eu não fico mais.
Meu próximo passo nesta viagem “de volta para o passado” – sem nostalgia boba – é comprar um velho toca-discos, ou vitrola, principalmente agora que novos títulos tem sido lançados no formato do vinil, e que os velhos são comprados de graça em sebos e lojas específicas. Pois aquilo sim é que era som.
Não sou um passadista. Gosto de conforto e eficiência. Se tais facilidades se encontram em velhos objetos, que eles sejam bem vindos. E que viva o LP!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de dezembro de 2009].

sábado, 5 de dezembro de 2009

Oklahoma,1935. Brasil, 2010?

Faz muito tempo que li o romance de John Steinbeck (1902-1968), As Vinhas da Ira (1939). Tanto tempo, aliás, a ponto de acreditar que me recordo mais de sua adaptação cinematografia – o excelente filme do mestre John Ford, de 1940, com Henry Fonda como protagonista – do que do livro em si.
Para quem não conhece a trama, ela conta a saga de uma família de agricultores do Oklahoma, EUA, que perde suas terras durante a Grande Depressão (1929-1939). Como a produção da fazenda ficara aquém do esperado, no ano anterior, o clã hipotecou as terras, e sem ter como pagá-la, foi executado. Assim, eles partem em busca de um lugar hipoteticamente melhor, na Califórnia. É claro que a história não se resume a isto. É movimentada, cheia de elementos, trata da questão da terra, da violência policial, e de uma série de outros temas interessantes, e tudo muito bem escrito. Mas a lembrança que mais se agarrou em minha memória, é a dos constantes ventos de poeira que acompanham os personagens, até eclodirem numa verdadeira tempestade de pó. Pensei, à época, que o fenômeno fosse uma certa licença poética do escritor. Ledo engano. Foi um evento real, como descobri esta semana, num programa do History Channel.
A tempestade ocorreu no dia 14 de abril de 1935, um domingo que se tornou conhecido pelos norte-americanos como o “Domingo Negro" (Black Sunday). Ventos de quase cem quilômetros por hora sopraram do Oklahoma à capital, Washington, levantando um volume de poeira que, dividido por cada habitante daquele país, corresponderia a três toneladas por pessoa. E quais foram as causas da catástrofe? O mau uso do solo.
Os especialistas, à época, já tinham conseguido identificar os motivos. O Oklahoma era um estado cujo solo era seco, ainda que coberto de pasto. Fôra, a região, por longo tempo, voltada à criação de gado, com bastante sucesso, alimentada pela rude flora local. Porém, no começo do século XX, acreditou-se, erroneamente, que se poderia plantar naquelas terras. Um programa de emissões de títulos de terras, equivocado, vendeu propriedades a milhares de famílias empobrecidas do Sul dos EUA, que às pressas, ocuparam o lugar. As pastagens foram arrasadas, os terrenos, arados – não como deveria ser para aquele tipo de solo, mas, sim, como os colonos estavam acostumados a fazer. O resultado? As terras tornaram-se inférteis, as chuvas lavaram as plantações e, depois, sobreveio uma tremenda seca. E como o estado era em grande parte desprovido de florestas, as ventanias foram se tornando cada vez piores. Até culminarem naquela do Domingo Negro. As autoridades tomaram suas providências, e o evento não mais se repetiu. Até agora. Ou, pelo menos, não lá.
Esta história me fez pensar no que o Brasil anda fazendo com o seu Cerrado, este imenso e frágil bioma que começa em São Paulo, chegando até as franjas da Amazônia, e que se tornou, pela cupidez e incompetência, um novo pólo de produção agrícola, uma nova fronteira do agronegócio. Seu desmatamento ocorre em ritmo muito maior do que o sofrido pela Floresta Amazônica em seus momentos mais críticos. Ipês, macaúbas e onças, tiveram seus espaços tomados por cana, soja e gado. E tal invasão, e destruição, não conta sequer com um motivo social para, senão abrandá-las, ao menos tolerá-las, pontualmente: ali não há o assentamento de famílias, de trabalhadores, mas de grandes grupos, mega-empresas – a exploração que não ousa dizer seu nome.
Os efeitos deste equívoco, mais do que isto, desta verdadeira má-fé, parecem que já se fazem sentir. Lembremos da tempestade de poeira que varreu Uberaba e outras cidades próximas em meados do mês passado. Não é um claro sinal de que com o Cerrado não se mexe?
Mas, no Brasil, parece que nunca aprendemos com os erros dos outros: fazemos questão de recriá-los, de repeti-los, desde que seja à nossa maneira. Erramos? Sim. Mas nosso erro... é do Brasil-sil-sil...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de novembro de 2009].

"As Fortunas" do Chirico

Numa crônica intitulada Sexta-Feira treze, outra vez, publicada neste mesmo espaço no dia 14 de março último, alertei aos leitores que acreditam no azar para que pusessem suas barbas de molho, visto que teríamos mais uma efeméride semelhante em novembro. Pois o nefando dia passou e seu saldo foi realmente digno de nota nos anais da urucubaca! Nele, eis que um viaduto, sequer ainda concluído, veio abaixo, destruindo dois automóveis e um caminhão. Pareceria até música de Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, mas o tombo do viaduto foi concreto, com perdão do trocadilho.
E não foi em qualquer obra, não. O caso não se deu numa estradinha vicinal de Ariquemes-RO, ou em Brejolândia-BA, numa obra de algum prefeito sem experiência. Ocorreu, isto sim, no bilionário Rodoanel, a menina dos olhos da administração tucana e um trampolim político para muita gente. É uma coisa de espantar. Um viaduto caiu graças, simplesmente, ao peso do ar, já que nenhum outro esforço lhe foi imposto. Imaginem, então, quando se trafegasse por cima dele: talvez ruísse todo o complexo!
Já numa outra crônica, cujo título era Tempos interessantes, publicada em 27 de abril de 2008, vejam o que escrevi:
De fato, nós, brasileiros e, sobretudo, paulistas, temos vivido tempos ‘muito mais do que interessantes’. Assistimos a crimes mal-solucionados, ao desmanche do ensino público, ao superfaturamento de obras públicas que resulta em buracos, tragando gente, carros, moradias. E, agora, até mesmo um terremoto entrou para o rol das mazelas paulistas. Já disse, noutras ocasiões, da urucubaca que cerca um dos maiores próceres da política paulista. Portanto, frente à possibilidade de que tal insigne tribuno galgue — um poleiro por vez, mas com uma velocidade acintosa — outras posições de relevo, sobretudo nacionais, temos de nos precaver. Pois azar tem nome. E, no caso, nome e sobrenome — seu raio de atuação mostrou-se, mais uma vez, bastante claro”.
Como podem ver, o Ilustríssimo Governador do Estado de São Paulo, o Chirico, parece que tem mesmo urucubaca. Tanto que, nome forte da disputa à Presidência para o próximo ano, tem caído nas intenções dos eleitores e sua proeminência é cada vez mais sombreada pela de Aécio Neves. O patinho feio – feio não, medonho – ao invés de ir se tornando um gracioso cisne, vai é dia a dia se convertendo num ganso desajeitado.
Resta saber, agora, se as fortunas do Chirico vão pesar ao seu favor, ao nosso, ou ao de quem quer que seja. Pois se ele é eleito Presidente, São Paulo livra-se dele, mas o Brasil inteiro arca com sua desdita. Se, por outro lado, for o Governador de Minas o escolhido de sua agremiação como candidato, os paulistas correm o risco de ter de enfrentar mais quatro anos de uruca. Isto se, retomamos, as fortunas do homem não contribuírem, mais uma vez, para um lado ou para o outro. Com a sua reforma intentada na Saúde, que lembra tanto o funesto PAS, de Maluf; com sua mania por grandes obras viárias (parece com quem? Maluf, novamente); perde, no entanto, o atual Governador, na comparação: pois até onde se sabe nenhum túnel do metrô aberto nos tempos de Maluf ruiu, tragando gente. Nem viaduto caiu. E o preço das obras, então, parecem bagatelas se comparados aos de hoje.
Vejam só como as coisas são: numa destas idas e vindas da sorte, de herdeiro eleitoral de Maluf, o Chirico acaba por se tornar seu principal cabo eleitoral, por contraste! Em todo caso, veja o peso do azango do homem: ou ele, ou Maluf: aut Caesar aut nihil (“ou César ou nada”)! Que tremenda urucubaca!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de novembro de 2009].