Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].
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