segunda-feira, 18 de julho de 2011

Breve comentário acerca do casamento de Sua Alteza Real, Guilherme de Gales

Todas as nações do mundo têm um hábito, fortemente construído pela tradição, que é o de traduzir os nomes dos reis e príncipes de outras terras, para o correspondente na língua pátria de cada uma delas. O Brasil já integrou estas fileiras, por séculos, mas sabe-se lá por que motivo, deu para, desde umas décadas atrás, inverter o tratamento. Nestas nossas plagas, nunca se falou em Rainha Victoria, ou Kayser Willelm II, ou ainda Czar, ou Tzar Nikolai II, ou Nicholas II, por exemplo. Aqui sempre valeu a regra Rainha Vitória, Kaiser Guilherme II e Czar, ou Tzar, Nicolau II. Regra que perdurou, sobretudo no caso inglês – a última grande monarquia preservada na Europa – com os reis Eduardo VII (1841 – 1901 -1910), Jorge V (1865 - 1911 - 1936), Eduardo VIII (1894 – 1936-1936 – 1972) e Jorge VI (1895- 1936 -1952) – os itálicos se referem ao ano da coroação e, no caso de Eduardo VIII, ao tempo de seu reinado, do qual abdicou, como é vastamente conhecido o porquê e o como.
Porém, quando Isabel II (1926 -1952 -...) foi coroada, ela passou a ser chamada pela imprensa brasileira de Elizabeth II, rompendo, portanto, a tradição. E, a partir daí, seus filhos foram tratados, nas páginas dos jornais e revistas nacionais, pelos seus nomes originais, não mais traduzidos. Um amigo meu, que pesquisa este tipo de coisas, diz que foi uma tentativa de revistas como Manchete e Cruzeiro de fazer uma média com seus leitores. Algo parecido com o que as Caras, etc., etc., fazem hoje em dia, mencionando celebridades em suas manchetes apenas pelo primeiro nome, como se tal expediente fosse capaz de produzir um imediato e próximo contato entre o leitor e seu modelo. Daí lermos até hoje, Príncipe Charles, Princesa Anne, Princesa Diana (vulgo, em alto e bom som Daiana), e, agora, Príncipe William (Guilherme, e se assumir o trono, futuro rei Guilherme V) e sua consorte Kate (Catarina) Middleton (“Medianeira”? “Mediana”? “Medíocre”? “Meridiana é um melhor termo para uma futura rainha). É, aliás, plenamente compreensível o emprego da forma inglesa dos nomes em detrimento de sua tradução: basbaques que são, em geral, os brasileiros, não se sentem à vontade, ou não se consideram dignos de verter, com toda autonomia, os nomes estrangeiros ao vernáculo quotidiano. “Príncipe William é o correto, não pode ser rebaixado a um simples Guilherme”, creio que muitas pessoas pensam. O que é uma pena.
Mas a pior coisa desta marmota que é o casamento deste príncipe britânico, que, em princípio, só diz respeito à corte inglesa, é o fato da transformação do evento num fenômeno mundial de mídia. Vá lá, o espetáculo há de ser bonito – lembrando que escrevo esta crônica e submeto-a à publicação na quinta-feira, antes, portanto, do evento em si – mas, há que se perguntar, o que muda na vida de qualquer brasileiro o fato de Guilherme casar-se com Catarina? Tal episódio inflará os sentimentos monarquistas nacionais a ponto de rompermos com a República, reinstalarmos a Monarquia, para podermos celebrar algo do gênero? Certamente não.
É assustador observar como a grande imprensa – que neste episódio revela como seu papel é muito mais o de entreter o público e jogar pipocas aos macacos do que realmente informá-lo – tem tratado a coisa como uma espécie de folhetim que, por outro lado, nunca se cumpriu da maneira de costume, sujeito a embaraços vários e complicações mútuas. Pois o enlace principesco, ora em tela, deu-se pelo consentimento mútuo de seus envolvidos. Não houve razão de Estado, interesses nacionais, ou qualquer outro aspecto grave relacionado à questão: Guilherminho gostou de Catarininha, e como diria Totò Mattoli, "punto e basta"!
E, portanto, basta de especulações quanto a quem deveria ser convidado ou não para o enlace. Isto é fofoca, não é fato para jornalistas que pretendem fazer jus à sua profissão.
Que coisa mais patética este desfile de especialistas para analisarem o casamento! Que prova mais cabal de nossa exclusão de tal evento, qual o das crianças pobres da Itália do pós-guerra, que por desconhecerem o sabor de um sorvete, eram levadas pelos pais para verem as crianças ricas apreciá-los, mas por detrás das vidraças das sorveterias, e sem fazer muito alarde. Resumindo, que papelão: transformar um casamento numa façanha e um circo numa epopeia!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2011].

Quinta-Feira Santa ou Quarta-Feira Santa?

Nesta semana, tão venerável aos católicos, uma notícia publicada pela agência internacional de notícias Reuters – e pavorosamente mal-traduzida por sites confiáveis em nosso país – causou um certo alarde em diversos meios. Trata-se daquela referente à hipótese de que a derradeira Ceia de Cristo, na qual Ele instituiu a Eucaristia, teria ocorrido numa quarta-feira, ao invés da tradicional Quinta-Feira Santa.
Tal é o que sustenta o professor Colin Humphreys, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um declarado cristão e físico aclamado (além de Cavaleiro do Império Britânico – um Sir, portanto – ) que estuda o assunto desde 1983. Segundo ele, que se dedica a resolver algumas das várias contradições da Bíblia, a discrepância em relação à data do acontecimento seria resultante do emprego de diferentes referências por parte dos Evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas dataram a última Ceia com base no calendário mosaico, lunar, e João, situou o acontecimento a partir do calendário oficial então em curso na Palestina (o texto não fala, mas, indagamos: por acaso não seria o Calendário Juliano?), o que permitiria tal variação para o estabelecimento do dia correto. E, de acordo com o mesmo Sir Colin, para reconstruir o calendário referente ao ano de 33 d.C, e para chegar às conclusões que chegou, teria o mesmo se valido da ajuda de um astrônomo e de seus cálculos precisos. Finalmente, comenta o referido professor:

“[...] Eu estava intrigado com as histórias bíblicas sobre a última semana de Jesus, nas quais ninguém consegue encontrar nenhuma menção de quarta-feira. É chamado de um dia perdido [...] Mas isso parecia ser tão improvável: afinal de contas Jesus era um homem muito ocupado.”

De fato, sempre me pareceu que a conta não fechava muito bem naqueles movimentadíssimos dias que vão do Domingo de Ramos até a Ressurreição. E, sobretudo, no que dizia respeito ao desenlace final. Situar a Ceia, o sono dos apóstolos, a traição de Judas, a prisão de Cristo, o processo movido contra Ele, os suplícios que Lhe foram impostos, Seu julgamento, a Via Crucis, a Crucificação, a Agonia no Calvário e a Sua Morte, além de todos aqueles outros eventos intermediários dos quais tanto se falou ao longo dos séculos, e tudo isto em menos de vinte e quatro horas, é um tanto inconcebível. A justiça romana tinha lá a sua práxis. E por mais que fosse aquele um caso de exceção, urgente, a burocracia, com seus eternos entraves, retardaria todo o episódio. Sem falar que tal vertiginosa, variada e terrível sucessão de acontecimentos não poderia ter se iniciado na madrugada de uma sexta-feira e ser concluída às seis horas da tarde do mesmo dia. E é de se espantar como os jesuítas, por exemplo, que meditaram tão profundamente, emotiva e vivamente, sobre o assunto, nunca pareceram ter pensado nisto... Pois, convenhamos, nunca tanto poderia ter acontecido em tão pouco tempo. Nem mesmo para um Deus, sobretudo, como no caso, um Deus sujeito às vagarosas e imperfeitas ações humanas.
A teoria de Sir Collins, portanto, em minha opinião, é bastante válida em muitos pontos. Só me intriga porque acolheu, para sua base de cálculo, o ano de 33 – tradicional, evidentemente, mas do ponto de vista histórico, cada vez mais questionado, da mesma maneira que o ano 1, como os limites da vida de Jesus. Não, não pretendo supor que Ele sobreviveu à cruz e foi pregar no Tibete, como querem alguns. Pelo contrário. Mas não é de hoje que se levantam convincentes dúvidas quanto ao ano de Seu Nascimento e de Sua Morte, um intervalo que poderia ser situado entre os anos de 7 e 2 a.C, e 30 e 36 d.C., pela cronologia romana, pela do cronista judeu Flávio Josefo (37-100 d.C), e em relação à vida de Herodes, o Grande (sic). De modo que, neste campo, parece que o sábio inglês parece ter seguido mais a tradição, oriunda da escolástica, e a convenção, relacionada à sua crença manifesta, do que o método científico, ou a investigação, o que é uma pena, e uma surpresa, de algum da Física...
Pois bem, como historiador, e pesando bem a situação, gostaria de dizer que a precisão quanto às datas são extremamente importantes, nalguns casos, e absolutamente irrelevantes, noutros. Desde que não se confunda uma década com outra, que não se situe uma conseqüência como anterior ao fato que a produziu, não se erra muito em história. Datas são, na maioria dos casos, balizas, para que não se perca a visão de conjunto. Ninguém pode dizer, por exemplo, que Cabral avistou o Monte Pascoal em 1499 ou 1501. Sabemos que tal se deu em 1500. Mas qual foi o dia exato? Segundo o Calendário Juliano, vigente à época do avistamento, era o dia 22 de abril. Mas quando passou a vigorar o Calendário Juliano, em 1582, pelo qual foram descontados 10 dias, a celebração de tal episódio deveria passar a ser comemorada em 2 de maio.
Em suma, o que eu queria dizer é que pouco deve importar, a todos que creem Nele, se Jesus, o Cristo, nasceu antes ou depois da data convencional do ano 1, ou se morreu antes ou depois do ano 33. Por mais que Sua presença histórica tenha de ser continuamente declarada – vide o Credo, com aquele Pilatos muito fragilmente citado na historiografia romana, mas largamente mencionado em diversos Apócrifos que, certamente, ajudaram a constituir o cânone, ainda que fossem mais tarde rejeitados – qualquer pessoa de bom senso há de concordar que a importância de Jesus, o Cristo, se dá por Sua Pessoa, ensinamentos, palavras, e não por uma suposta exatidão cronológica a ser encontrada nos Evangelhos, esta obra coletiva, coligida sabe-se lá por quantas mãos, traduzida sabemos muito bem como, e que tantas edições conheceu, ampliadas e reduzidas, não só quanto ao tamanho, mas quanto à essência, também.
Concluindo, reitero minha simpatia à nova cronologia da Semana-Santa proposta por Sir Colin Humphreys. Tal justifica e santifica a quarta-feira e permite compreender o desenrolar dos fatos posteriores numa sequência possível: permite mais tempo a todos aqueles terríveis acontecimentos que envolveram Jesus e seu martírio. Penso até em retornar a este assunto noutra ocasião. Mas, para que não digam que sou um desmancha-prazeres, um impenitente ou demasiado ácido, o que não sou, quero desejar, do fundo de meu coração, isento de maus humores eventuais, uma Feliz Páscoa a todos os colaboradores, funcionários e leitores d’A Notícia e seus familiares, e mesmo para aqueles que não têm a oportunidade de ler este bravo jornal (o quê é uma pena). Uma Feliz Páscoa, com menos ovos de chocolate e mais espírito ecumênico, fraterno, humano.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2011].

O Louco menino do Rio

Dizem que a origem do nome do bairro carioca do Realengo deve-se ao fato dele ter se formado ao longo da linha de bondes, ainda puxados por burros, que levava ao Real Engenho, abreviado na tabuleta do alto dos carros como Real Engº. E, até quinze dias atrás, parecia ser esse o único aspecto de interesse no que se referia àquela localidade. Mas, desde então, como é público e notório, o bairro entrará para a história – não sei por quanto tempo – por nele ter se desenrolado aquele tristíssimo episódio no qual doze crianças perderam a vida pelas mãos de um desatinado.
O fato, verdadeiro motivo de desespero para os familiares e amigos das vítimas, e de profunda consternação para todo o país, foi, por outro lado, uma típica festa para a grande imprensa e para meia dúzia de especialistas ávidos pelos holofotes da mídia. Poucas vezes tornou-se mais evidente um certo desserviço prestado pelos meios de comunicação quanto neste caso. O crime tornou-se um espetáculo, a investigação jornalística foi substituída por um impressionismo sensacionalista, quando não abertamente fantasioso, e sempre hidrófobo, espumando pelo canto da boca e clamando por sangue.
Fosse Lula ainda presidente, alguns jornalões e revistas de grande tiragem diriam até, na falta de se poder culpar alguém, que a responsabilidade seria do Governo Federal. Mas não foi, é claro. E nem se pode falar, num caso destes, de completa responsabilidade de quem quer que seja. Pois tudo indica que o moço que matou aquelas crianças era um completo demente e, como sabemos, loucos são inimputáveis, ou, melhor dizendo: como doidos não sabem o que fazem, a lei não pode considerá-los iguais aos sãos – vale o mesmo com os menores de idade, cuja capacidade de conhecimento da realidade, muitas vezes, corresponde à daqueles, aos olhos da legislação. Além disso, ainda há uma outra questão que em grande parte exime as autoridades de segurança quanto ao que ocorreu. Lembro-me de uma entrevista lida lá pelos anos 1980, pouco depois do atentado sofrido pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan, em que um ex-membro da CIA – a principal agência de informação daquele país – dizia, para quem quisesse ouvir, algo mais ou menos assim: “quando um louco, ou até uma pessoa qualquer, pretende matar alguém e está disposto a morrer por isto, ninguém consegue detê-lo”. Os inúmeros homens-bomba, a todo o momento confirmam tal teoria. O jovem carioca, também.
Os sabujos da grande imprensa – convertidos em animadores dos ódios mais extremados e das paixões mais vis em prol dos níveis de audiência – não deram trégua, portanto, ao assunto, explorando-o de uma maneira que, antigamente, cabia apenas à chamada imprensa marrom, ou aos antigos jornais “espreme-sai-sangue”. E, secundando-lhes as opiniões disparatadas, toda uma récua de peritos nisto e naquilo, quais vivandeiras abastecendo a malta dos espectadores do horror. Os quais alegaram que o motivo da atitude do jovem seria uma vingança por ter sofrido bullying, o assédio escolar; que, se louco, deveria ser medicado; e até de radical islâmico foi chamado, aquele infeliz!
Bem, é verdade que o bullying vem crescendo em gênero, número e grau. Em grande parte tolerado pelos ouvidos moucos dos pais dos agressores, e em maior parte ainda estimulado por filmes norte-americanos que retratam a vida escolar de uma maneira em que tal agressão é tão previsível e quotidiana quanto o horário das aulas e do lanche entre elas. Todavia, ele não é um fenômeno recente, pelo contrário. Quem leu o romance de Raul Pompéia, O Ateneu, de 1888, lembra-se de tais práticas ocorridas dentre os muros do colégio do Professor Aristarco, e os sonhos de vingança do protagonista.
Quanto à necessidade de medicação de pessoas com problemas mentais, é claro que ela é imprescindível. Mas é muito fácil falar. Pois como se convence, pela lógica, uma pessoa em parte alienada da lógica, a fazer isto ou aquilo? Se em casos mais leves, ou menos antissociais – depressão, bipolaridade, etc. – já é um custo fazer com que o paciente tome seus remédios, que dizer nos casos de esquizofrenia ou piores? Voltaremos às práticas dos grandes hospícios, verdadeiras máquinas de moer gente? O de Barbacena, por exemplo, célebre em prosa e verso, por trás de suas intenções humanitárias e sanitaristas, tinha uma média de mortalidade anual que não devia nada a certos campos de concentração nazistas – uma grande amiga, cujo pai tinha um sítio ao pé do morro daquela instituição contou-me como, depois de uma chuva e do deslizamento de terra da encosta, foram vistos incontáveis esqueletos sem identificação qualquer, descendo pela enxurrada, rolando pelos roçados. É isto que queremos?
Por fim, a questão religiosa. Argumentou-se, a princípio, que o moço do Rio era um fanático muçulmano. Todavia, nos vários depoimentos que deixou gravados, mencionava a todo momento o nome de Jesus, a necessidade de pureza, ou purificação, e coisas que tais. Então, a grande mídia silenciou. Curioso, muito curioso... Não falo que a crença em Jesus Cristo leve às pessoas, necessariamente, a atos insanos contra o próximo, apesar dos exemplos históricos dos donatistas, valdenses, bogomilos, dentre tantos outros hereges que se consideravam autênticos cristãos e não pensavam duas vezes antes de derramar o sangue dos impuros. O mesmo valeria para os cruzados, para os dominicanos, para a conquista da América pelos espanhóis, etc. Tais horrores de então se justificavam, em parte, pela própria época violenta em que se deram. Não possuíam a mesma sensibilidade de hoje. Não tinham formulado uma Declaração Universal dos Direitos Humanos como a temos desde fins dos anos 1940.
Pois bem, salto para o começo desta semana, depois que o infelicíssimo episódio do Realengo tornou-se conhecido no mundo inteiro. Conforme me contou uma amiga professora, dois alunos seus – do ensino médio, um casal de irmãos de classe média alta, ele de aspecto normal, nem feio nem bonito, ela com vastos e belos cabelos – voltam de um retiro espiritual num acampamento – que tenho quase a absoluta certeza de que não seja católico – com os cabelos completamente tosados, raspados à máquina zero. Indagados do porquê de terem feito aquilo, ela obteve a seguinte resposta: “Porque Jesus nos ordenou!”. Assustador...
Defendo o Estado Laico na exata e igual medida em que defendo o Ecumenismo e a liberdade de qualquer pessoa a abraçar a religião que for de seu desejo ou, se assim o achar, fruto de uma Revelação, quiçá. Preocupa-me, entretanto, esta nova e violenta militância religiosa, que ignora as várias experiências religiosas e, qual numa nova Cruzada, só enxerga infiéis naqueles que não rezem em seus – verbi gratia – “catecismos”. Precisamos de paz e inclusão, e não sectarismo e intransigência. Pois se o Homem foi feito à imagem de Deus, ele há de ter um pouco da misericórdia d’Aquele. E por ser criatura, e não Criador, não deve se considerar o derradeiro Juiz. Tampouco Seu mensageiro privilegiado. Nem, muito menos, os carrascos do Altíssimo. Como, assim parece, julgou-se ser o louco menino do Rio.

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2011].

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

Tudo pelo Cine Alvorada!

Quando o leitor tiver em mãos, sob seus olhos, esta página com minha crônica, e de minha cara vizinha Berenice, espero ainda que, com os mesmos olhos, possa avistar, firme e inabalável, o Cine Alvorada, em seu mesmíssimo lugar, físico e cultural, na cidade de Leme. Anseio, sinceramente, que as autoridades locais – públicas, mas não só, pois a sociedade civil é também uma autoridade, senão a primeira, de direito – tomem as medidas necessárias para que um foco irradiador de cultura, e uma interessante construção de fins dos anos 1950, seja preservado com todo o respeito de que faz jus.
Já de antemão afianço que a responsabilidade final caberá ao poder executivo ou à Câmara, em suma, às esferas municipais. Só a eles cabe o tombamento do prédio. Que não se, recorra, portanto, às avaliações do Condephaat – míope na análise de casos (os abatedouros parecem ter primazia frente aos avoengos solares) e manco na celeridade com que os encaminha à preservação – ou àquelas do IPHAN – este é cego de um olho (só enxerga valor artístico, histórico ou arquitetônico em construções com mais de cento e cinquenta anos) e perneta (seus processos de tombamento seguem o ritmo da marcha do Saci). Quanto à boa-vontade do novo proprietário – do, agora friamente chamado, imóvel – duvido de que a mesma possa ser abalada. Quem cogita em pôr abaixo um marco cultural e arquitetônico do município para, em seu lugar, erguer – que digo, e desde quando tal coisa se ergue? – um pátio de vendas de automóveis demonstra não ter sensibilidade alguma frente à cidade em que vive. Nem, tampouco, boa visão para os negócios, pois, afinal, o mesmo se localizaria no término de uma Avenida, na qual a concorrência já se encontra estabelecida e atuante. Ninguém desce ao fim de nada para tomada de preços, sobretudo neste ramo comercial. Quem compra carros – e isto é sabido do Oiapoque ao Chuí – procura os estacionamentos à entrada das cidades e próximos às rodovias: ninguém desbrava ruas das quais não sabe como retornar.
Considero também lamentável que a família proprietária do Cine Alvorada tenha querido livrar-se dele, sem pensar no destino que o mesmo poderia ter. Pois não se fecha um cinema como se fecha uma venda ou um armarinho. Graças à sua influência política, poderia ter planejado um fim mais nobre para o empreendimento, como transformá-lo, por exemplo, num Cine-Teatro Municipal, ou algo do gênero, encampado pela Prefeitura ou, ainda, pela Câmara – a casa dos edis de Itatiba, SP, por exemplo, mantém, em suas dependências, um excelente teatro. Tal proposta, se aberta à manifestação pública, frisando-se a sua necessidade para a manutenção do prédio e de suas funções, certamente granjearia a adesão de muitos munícipes. Mas, a política, sabemos todos como ela é: mãe num dia, madrasta no outro, e que se percam os anéis para se salvarem os dedos.
Saindo da esfera monetária e política, retornando à espiritual, sinto-me no dever de afirmar que tenho gratas lembranças do Cine Alvorada. Namorei muito pouco dentro dele, mas, por outro lado, diverti-me à farta, junto a amigos, com o objetivo primeiro e principal da casa, afinal de contas: assistir aos filmes. E, em especial, as reprises. Até hoje tenho amigos que não acreditam que, um dia, eu possa ter visto Ben-Hur em exibição panorâmica. Pois não só o vi, como revi, quase toda semana-santa, exibido na tela – panorâmica – do Alvorada. Quem se lembra do filme, sobretudo da corrida de bigas, sabe do que estou falando. Pois se trata de uma experiência única. Às vezes, na mesma temporada, éramos sujeitos a alguns abacaxis, como O Manto Sagrado – ao qual apelidávamos de O Manto Sangrado, porque a chatice do filme sangrava nossa paciência. Por outro lado, havia ainda um excelente filme espanhol, do qual nunca consegui lograr maiores informações além do título: O Beijo de Judas (“El Beso de Judas”), cujo artista que interpretava Jesus parecia ter mais de dois metros de altura e seu rosto nunca era mostrado. O que valia por dezenas de tratados teológicos (não só cristãos, mas até judaicos e islâmicos), quanto à representação humana de um Messias e nossa capacidade de compreendê-los. Acho que até alguns ateus endossariam a abordagem humana de toda a questão.
Enfim, reitero meus votos – mais que votos, pois subescrevi o abaixo-assinado virtual (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2011N8232 ) – de que o Cine Alvorada permaneça onde está. E apoiarei, publicamente, todos os que se manifestarem por tal. Entretanto, não sei ainda o destino do mesmo ante aos olhos do leitor (esta crônica é enviada entre às quintas e sextas-feiras). Caso o nosso velho cinema venha abaixo, digo só uma coisa: para mim, e espero que outros pensem o mesmo, a 29 de agosto passará a acabar na Newton Prado – o resto já não mais me interessa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de abril de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – VI – O Ódio emburrece

As pessoas, em geral, têm o hábito de considerarem as palavras equívoco, engano e erro como mais do que sinônimos, as consideram, praticamente, como termos de idêntico significado, o que, é claro, não são. Há toda uma gradação entre elas, para dizer o mínimo. Por exemplo, podemos dizer que uma mulher se equivoca ao escolher um mau sujeito como marido. Que ela se engana ao pensar que ele pode melhorar, e que ela erra ao continuar vivendo com ele. Ou melhor, pensemos em Cristóvão Colombo. Quando chegou ao Novo Mundo, ele equivocou-se ao julgá-lo ser a Índia. Mais tarde ele enganou-se ao considerá-lo pouco distante da Ásia, e errou, renitentemente, ao não considerá-lo um novo continente. Último corolário: metade do mundo se equivocou com a ascensão do nazifascismo nos anos 1920-1930, julgando-o uma alternativa aceitável à inepta democracia liberal (francesa, alemã e norte-americana), ao odioso imperialismo (britânico) e ao temível comunismo (russo). Metade daquela metade se enganou ao não perceber os horrendos ataques movidos por aqueles regimes contra a liberdade e contra os direitos humanos em geral. E uns tantos ainda erram ao julgarem tais formas de poder como viáveis e justas – sim, é de pasmar, mas há ainda quem pense assim.
Fazendo-nos valer do último exemplo, ele traz à memória o Integralismo, a nossa versão tapuia do Fascismo, encarnado na figura de Plínio Salgado (1895-1975), um bom escritor que se tornou um mau político. Todo mundo associa, prontamente, os galinhas verdes (como eram chacoteados, pelo uso das camisas daquela cor, e por seu comportamento de bando, cacarejando as verdades ditas pelo galo,) ao seu líder máximo, mas muita gente tida como boa foi integralista ou flertou com aquele movimento. Tais foram os casos, dentre outros, dos escritores Augusto Frederico Schmidt, Gerardo Mello Mourão, Ribeiro Couto, José Lins do Rego, Adonias Filho e Madeira de Freitas (o Mendes Fradique, autor da História do Brasil pelo método confuso), dos historiadores Hélio Viana e Américo Jacobina Lacombe, do jurista Miguel Reale (ideólogo máximo do Integralismo, além de conterrâneo de Plínio Salgado) e de quatro insuspeitáveis senhores: o político San Tiago Dantas, o mais tarde cardeal Dom Hélder Câmara e o poeta Vinícius de Morais. Desta claque fazem ainda parte o folclorista Câmara Cascudo e o escritor e historiador Gustavo Barroso.
Câmara Cascudo, como escritor e pesquisador, assemelhava-se a um caçador que encontra um coelho minúsculo, onde ninguém avistou nada, desentoca-o e o abate com um tiro de fuzil! Foi um caso raro de alguém que se equivocou, se enganou e errou politicamente até o fim da vida, apoiando, até seu último sopro como vivente, a Ditadura Militar de 1964. Mas Gustavo Barroso foi ainda mais além. Se não viveu para assistir ao golpe, morreu como um empedernido defensor das ditaduras (a última foi a de Salazar) e um declarado antissemita. Seu caso é muito mais de um erro, permanente e reiterado, do que de equívoco ou engano. Duvidam? Pois vejam. Dizem que o Diabo é o pai do erro. Prefiro a máxima que afirma que “errar é humano, perdoar [ou corrigir-se] é [dom] divino, e persistir no erro é diabólico”. Porque o ódio por uma etnia, cultura, religião é tão certamente um erro quanto igualmente diabólico. E, o que é quase tão grave quanto, o ódio emburrece. E o antissemitismo, ou antijudaísmo de Gustavo Barroso, certamente o emburreceu.
Li, recentemente, o primeiro volume de sua obra História Secreta do Brasil, no qual ele atribui todas as mazelas sofridas por nosso país, do descobrimento às vésperas da Independência, a uma conspiração judaica para a dominação do mundo e exploração dos povos. Os mesmos argumentos defendidos pela imbecil e criminosa falsificação literária (já largamente demonstrada enquanto tal) que são Os Protocolos dos Sábios do Sião (nem um pouco coincidentemente editados e publicados por Gustavo Barroso, em 1936, um pouco antes de livros de sua autoria com escancarados títulos tais como A Sinagoga Paulista (1937), A Maçonaria: Seita Judaica (1937) e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo (1937).
Pois bem, a burrice odiosa, ou o ódio burro de Gustavo Barroso, subverte o que de mais importante ele pretendia na sua História Secreta: o convencimento do leitor. Porque, de fato, ele, em grande parte, nos convence da presença judaica nas terras do Brasil muito antes mesmo que este recebesse o seu nome. Tal seria o caso, por exemplo, de João Ramalho, genro do cacique Tibiriçá (demonstrado, anteriormente, por Teodoro Sampaio, Orville Derby e Horácio de Carvalho, dentre outros, na Revista do IHGSP, v. VII, 1902, pp. 255-368 – meu exemplar da mesma edição pertenceu ao ex-governador/presidente estadual de São Paulo Bernardino de Campos, mineiro de Pouso Alegre). Barroso também afirma (baseado quase que exclusivamente em Solidônio Leite, que ele considera um defensor entusiástico dos judeus – e, no entanto, o cita...) que o capital empregado na exploração do pau-brasil e, posteriormente, na produção da cana-de-açúcar, bem como seu comércio e distribuição pela Europa, além do utilizado no tráfico de escravos era proveniente dos cristãos-novos (judeus batizados à força e que, não necessária ou suficientemente, abraçaram a fé cristã). Aos judeus também atribui, de um lado, os planos da invasão holandesa no Nordeste, e, por outro, a facilitação para tal fim promovida pelos cristãos-novos da mesma região, que atuavam como espiões. E mais ou menos conclui o primeiro volume, alegando que os judeus, controladores do comércio de diamantes no mundo – que, se não é um fato completo, é 99% dele) – desvalorizavam os brilhantes brasileiros, pagando por eles uma mixaria aos portugueses e faturando alto nos mercados europeus.
Não há como discordar de muitos dos argumentos apresentados por Barroso. Salvo que, em primeiro lugar, onde ele vê cobiça, podemos entender como pioneirismo. Onde enxerga exploração, talento empreendedor. Conspiração? Por que não uma eficiente organização comercial? Depois, tanto o tráfico negreiro, quanto a baixa avaliação das gemas e brilhantes, que não provindas das possessões orientais inglesas – como até hoje tal se verifica, no caso das pedras – se deram por responsabilidade absoluta dos ingleses (e, note-se, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, retornando somente por volta de 1656 – o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, portanto, foi construído estritamente na base de um estereótipo, não da observação factual do autor).
Por fim, o que mata a intenção – maléfica – de Gustavo Barroso são os seus recorrentes comentários à perfídia dos judeus, à sua covardia, usura, despotismos, crueldades, canalhices várias, seus complôs demoníacos, suas degenerações morais supostamente plasmadas em seus corpos e feições. Em suma, não dá para engolir. Quando estamos quase convencidos de sua tese, ele nos afronta com as generalizações mais grosseiras e vulgares, avessas figadalmente à ética científica e moral, à lógica, à História enquanto disciplina, enquanto registro dos fatos e gênero literário, em suma, a toda e qualquer retórica plausível. Seu ódio o emburreceu.
É lamentável o esquecimento a que foram relegadas as obras de Barroso relativas à colonização portuguesa na Ásia, ricas de informações e análises. Por outro lado, se um homem pode ser medido por sua obra, ele recebeu aquilo que merecia. Um tácito esquecimento. E que assim seja!


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 26 de março de 2011].

Pausa para reflexão


Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda de Kanagawa, c.1829-32.
Xilogravura colorida, 25.7 cm x 37.8 cm.. Museu Britânico, Londres.

Em crônica publicada em 5 de fevereiro passado, abrindo a série Viagem sentimental à roda de meus livros, prometi “contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições [...] Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis”.
Pois é, bem que tentei contornar a crise política do Norte da África e de parte da Península Arábica. Visto que ouvi da própria boca do insigne historiador francês Roger Chartier, já lá se vão quase cinco anos, que o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro, ando declinando dos exercícios de futurologia, pelo menos em público. E preferi esperar. Caiu Mubarak, do Egito, e um outro desconhecido na Tunísia? Bom, agora é só aguardar a queda de Kadafi, pensei comigo. Mas ele permanece no posto, não sei se de joelhos, mas está lá.
A primeira reflexão neste campo é bem prosaica. O ex-presidente do Egito, que governou por trinta anos aquele país graças a eleições fraudulentas, nunca havia sido chamado de Ditador (o que, de fato era), não digo pela imprensa mundial, mas, certamente, pela nacional. Era sempre o “Presidente Mubarak aqui”, “o Presidente Mubarak ali”, e pronto. Somente quando os protestos eram irreversíveis, assim como suas conseqüências, é que passaram a chamar o homem de ditador. Vícios da nossa Grande Imprensa, que é mais realista que o rei (ou melhor, mais americanizada que a norte-americana). A sua falta de independência, em muitos casos, ou mera bajulação, na maioria deles, talvez enxergasse no defuncto presidente o último dos Abencerrajes, o derradeiro paladino muçulmano, ilustrado, contra as hordas fundamentalistas. E fazia-lhe vistas grossas.
A segunda tem a ver com o plenipotenciário da Líbia, que até anteontem era Muammar Kadafi (ou Khadafi), e agora passa a ser anunciado pela Grande Imprensa como Gaddafi. Imagino que enquanto vivia ele na periferia do Mediterrâneo, sem motivar praticamente qualquer notícia que não uns descalabrozinhos de ordem interna, por lá, ou umas truices berradas no campo da política externa, acolá, ninguém se preocupou como deveria der grafado seu nome. Reproduzia-se, automaticamente, a manchete de alguma agência de notícias, principalmente norte-americana, e pronto. Mas, agora, não mais. Acho que os editores, ou chefes de redação andam cobrando mais serviço dos seus meninos. Fico até imaginando a cena: um redator sênior grita para a patuléia de plantão: “Ô Fulano, liga para o consulado da Líbia e vê como é que se escreve o nome do presidente deles!”, e corre o rapaz a cumprir a ordem. Dada a situação geral, volta o jovem e diz ao chefe: “Ninguém atende!”, e o intrépido jornalista veterano estertora: “Veja então como está escrito no New York Times!”; mas, responde o aprendiz: “Eles escrevem Qaddafi”. Então, num arroubo de justiça salomônica, proclama o sumo-chefe: “Nem Kadafi nem Qaddafi: ponha aí Gaddafi e não se fala mais nisso!” – e, assim, vai sendo feito o jornalismo pátrio...
A terceira reflexão é quase fútil, beirando o banal. Mas tem uma certa razão de ser. Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano,passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo.
A quarta reflexão é ainda mais inútil: o resultado do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em que Roberto Carlos, mais uma vez, saiu triunfante, do que ninguém tinha dúvidas. Desfilasse a escola toda só coberta por uma folha de parreira, com a bateria desfalcada, passistas mancos e só um carro alegórico – o que traria “o Rei” – e ganharia do mesmo jeito. O tema era superior a qualquer quesito mensurável pelos juízes, que o digam os patrocinadores e transmissores da celebração...
Voltando aos temas sérios, quero concluir com o desastre ocorrido no Japão. Desastre, vígula, verdadeira catástrofe. Lamento, condoído, as vítimas do terremoto, da onda gigante que veio em seguida, e dos incêncios, de proporções lisboetas. Mas, com todo respeito, eles estão acostumados com isto. Terremoto no Japão é como eleição fraudada na África, sêca no Nordeste e chuva no Sul: todo ano tem. Tsunami, menos, mas há que se recordar que a obra de arte mais conhecida daquele país, e que ilustra esta crônica, retrata justamente, uma onda gigante, dentre as várias que o acometeram.
E, neste caso, os pontos de reflexão seriam pelo menos três. Vamos ao primeiro: se os pagodes, castelos, e sítios arqueológicos seculares não vieram abaixo, mas os prédios modernos, sim, não seria de se especular que estes últimos foram construídos seguindo o código de ética haitiano, ou bem parecido? Segundo: se o solo de lá é notória e milenarmente conhecido como sujeito a terremotos, como é que o Japão teve a coragem de instalar usinas nucleares em seu território? Economia? Ou, seguiu o padrão haitiano de qualidade e responsabilidade? Terceiro e último ponto: a Terra do Sol Nascente é uma das nações mais ricas do nosso planeta. Rica e perdulária. Como é que ela não tem alimentos de reserva para o seu povo, ou serviços de apoio que funcionem a contento, ou cidadãos dispostos a ajudarem seus irmãos? Querem, agora, que o mundo inteiro se condoa de suas imprevisões e políticas equivocadas?!
Respeito e admiro a cultura (artística) japonesa, mas o comportamento de seus praticantes frente à catástrofe tem deixado em muito a desejar. Que os ricos de lá (Aiwa, Honda, Kumon, Toyota, Sony, Fuji, Mitsubishi, Pentax, Pentel, dentre tantos outros), cuidem de seus desvalidos. Nós temos é de tratar dos nossos, como os de Alagoas, sem casas há mais de dois anos. Ou, mais recentemente, dos paranaenses do litoral.
Reconheço e louvo, entusiasticamente, o esforço de muitos brasileiros, de lá, que têm confortado e socorrido as vítimas de tal efeméride, dada a aparente inépcia ou falta de comoção dos naturais daquele país. Mas, convenhamos: organizarmos levas de doações para uma das nações mais ricos da Terra? Soa à piada de mau-gosto. Pois que eles se reorganizem, e aos seus modelos de gestão, e aprendam com tal calamidade. Temos ainda muita gente de quem cuidar, em nossas esquinas, grotões, etc.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 20 de março de 2011].