quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Incêndios não deixam apenas cinzas

A destruição pelo fogo de uma grande parte do acervo legado pelo artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), foi um episódio mais do que lastimável. E quando se sabe os motivos, não do incêndio, mas das obras estarem quase todas reunidas entre uma sala e a garagem de uma casa de família, à lástima soma-se a raiva: a família, guardiã do espólio, desentendeu-se com a Prefeitura do Rio e com o Centro Municipal Hélio Oiticica – que até então abrigava o que poderia ter sido poupado das chamas– por que este não haviam pago 267 mil reais pelos direitos de uma exposição. Em suma, por cobiça, os herdeiros mataram a galinha dos ovos de ouro!
Quem viu as fotos ou as imagens da casa ficou de cabelos em pé. Via-se que parte do acervo estava praticamente na rua, na já mencionada garagem, protegida do tempo por uma reles grade de ferro. Qualquer fagulha de um cigarro esmagado na calçada por um inocente transeunte poderia ter causado o fogo. E mil outras coisas de menor monta. Mas a família escolheu por reunir as obras ali, um local que julgou mais seguro que a instituição municipal – criada para este único fim, frise-se – já que esta não tinha aparelhos desumidificadores suficientes! E, trágica ironia, não foi a umidade, tão temida pelos herdeiros, a causa da destruição do legado...
Nestas horas, qualquer pessoa de bom senso pensaria algo assim: “bem, eu herdei um conjunto de obras expressivas de um dos mais aclamados artistas brasileiros. Mas não tenho dinheiro para cuidar disto tudo, nem um local conveniente para abrigá-lo. O que faço então? Escolho algumas peças da coleção, vendo-as e, com o que apurar, construo um prédio para tal finalidade: vão-se os anéis, ficam os dedos. Ah, e como eu vivo – pago as minhas contas, tenho um papel na sociedade, etc. – graças à minha posição de guardião deste acervo, vou tratar de pô-lo no seguro: afinal, quem sabe o dia de amanhã?”, concluiria alguém ajuizado. Mas, ao que parece, não quiseram por a mão no bolso nem pra isto, para garantir o pão do dia seguinte.
Depois, há um fato a mais nesta história toda que é difícil de entender. Se a família é a legítima herdeira da coleção, mas era o poder público que a preservava, por que é que este ainda tinha de pagar aos herdeiros uma fortuna pelo direito de abri-la ao público, exibi-la, algo que, em princípio, é a função da obra de arte e a função de um museu? Podem dizer que é o que a lei determina. Mas que leizinha mais besta, sô! Que poder público mais bonzinho este, não? Um verdadeiro pai. Zela pelos bens alheios e ainda paga por isso. Não, decididamente, não são boas leis que regem esta relação.
Por outro lado, se do ponto de vista histórico, afetivo e mercadológico a perda das obras foi terrível, do ponto de vista estético até que não foi tanto assim. Quase toda a coleção já havia sido fotografada, catalogada, etc. A maioria delas pode ser literalmente refeita por conta de tais dados, e isto em nada desagradaria seu criador, pelo contrário. Ele próprio, por suas convicções pessoais e estéticas, era contra a idéia de que suas criações se tornassem – como vinham se tornando – uma espécie de fetiche, intocável, inviolável, único, e por aí vai. Queria que suas obras fossem tocadas pelo público, utilizadas, vestidas, e não trancadas e idolatradas por detrás de uma vitrine. É claro que a aura – e o valor de mercado – diminuem com a reprodução das obras. Mas e a intenção do autor, onde fica?
A destruição do acervo, portanto, apesar de triste, talvez tenha seu lado bom, num sentido, pois trouxe à tona uma série de discussões – direito de herança, finalidade da obra de arte, intencionalidade do artista, etc. – que há muito necessitavam vir à público e serem questionadas. Quem sabe se, destas cinzas, não nasça uma fênix?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de outubro de 2009].

Quem é o selvagem, afinal?

Na última quinta-feira fui encontrar uns amigos mineiros em São Paulo. Estavam ali num trabalho de reconhecimento de alguns museus paulistanos: uma turma de Museologia e os professores, um deles de História, que é um grande amigo. Fomos à Pinacoteca – sempre irrepreensível – e ao Museu da Língua Portuguesa – do qual cada vez mais gosto menos.
No começo da noite, foi sugerida uma visita ao Instituto Itaú Cultural – isto mesmo, o nome segue esta ordem. Aliás, o Instituto vai por minha conta: na placa na rua, no site e nas publicações consta apenas Itaú Cultural, com este jeitão de instituição gringa. Fomos até lá: era a inauguração de uma mostra fotográfica, com obras pertencentes à Maison Européenne de La Photographie: mais um destes eventos homenageando o Ano da França no Brasil.
Confesso que só estive uma vez no tal Itaú Cultural, e logo bati em retirada. O espaço é grande, quatro andares, ligados por escadas não propriamente suaves, e somente um banheiro, do tamanho de um desses de bar. Lembrei-me a todo momento do ex-prefeito Jânio Quadros que dizia que São Paulo, no entendimento de muitos, era uma cidade habitada por anjos: nela não se construíam sanitários públicos (a mesma crítica, aliás, vale para o Museu da Língua Portuguesa, mas isto é outra história).
Voltando ao tema, a exposição em tela chamava-se A Invenção de um Mundo e, segundo o texto de divulgação, suas obras “questionam o conceito de realidade e ficção no registro fotográfico e abrem um painel de discussão do estágio atual da fotografia. São trabalhos assinados por artistas que, à revelia do registro do que existe, escolheram a construção de cenas, de personagens para inaugurar outros mundos. A fotografia como documento cede lugar a narrativas subjetivas. Ela não mais é um registro do real. Ela cria realidades e, ao fazê-lo, resvala em teatro, cinema, pintura”. E prossegue afirmando que essa nova fotografia, “por vezes denominada pós-moderna, que transgride os códigos tradicionais da imagem, se apodera das novas tecnologias e reinventa tudo aquilo que são lembranças, sonhos e desejos”.
Mas, resumindo a história, tudo não passa de uma série de colagens, fotografias de maquetes e brinquedos, montagens, brincadeiras de Photoshop, e coisas do gênero, que também poderia ser chamada de O Ontem, Hoje, O Hoje, Ontem, Zero mais Infinito, Sombra e Luz, Eros Enjaulado, Antigos olhares: Novas abordagens – em suma, qualquer nome que se quisesse dar, porque nada é muito claro na coisa toda, que se propõe como nova.
Muitas, aliás, nem tão novas assim: contei várias obras de 1978, 1979, ou por aí. Outras tantas, aproveitando-se de antigas imagens pornográficas francesas, cartões postais de mulheres nuas que se vendiam aos marinheiros e aos turistas libertinos no século XIX e início do XX. O que é também problemático: se a vanguarda do século XXI bebe tão sofregamente das fontes da retaguarda do século anterior, alguma coisa vai mal...
Outro aspecto curioso da mostra foi a extrema hostilidade – verdadeira misoginia – no tratamento das imagens das mulheres. Sobre um pretenso registro sensual, havia toda uma coleção de beldades (ao lado de verdadeiras monstruosidades) nuas ou seminuas em posições degradantes, simulando como se estivessem mortas ou feridas de morte, deformadas, ou ridicularizadas. Já a representação masculina, primava por jovens esbeltos, ou musculosos, em cenários floridos, bem iluminados... Não tenha nada contra os gostos pessoais de quem quer que seja. Se o artista prefere uns a outras, isto é lá problema dele. Mas quando ele transfere suas preferências para a arte, e aparentemente, apenas suas preferência, eu não só posso como devo discordar. Arte não é um mero catálogo das inclinações particulares.
O registro mais curioso, no entanto, se deu por um acontecimento fortuito. Entre o público que compareceu à exposição, encontravam-se dois índios, acompanhados por seus anfitriões brancos. E quando digo índios, quero dizer isto mesmo. Estavam vestidos, evidentemente. Mas seus adornos faciais e corporais, seus cortes de cabelo, davam-lhes o ar de terem recém-chegado da aldeia onde vivem.
No que diz respeito à reação deles às obras expostas, não pude perceber muito. Os rostos indígenas são, muitas vezes, imperscrutáveis, enigmáticos: seus códigos para a manifestação de gosto ou desgosto não raro são opostos aos nossos. Mas num deles notei um inequívoco olhar de reprovação a certas obras, sobretudo àquelas de temática violenta e degradante. Via-se claramente que ele não gostava do que fora feito às mulheres das fotografias.
A conclusão a que cheguei, e as ilações que fiz, é certo, já pairavam no ar. A associação entre França, índios e costumes, faz pensar imediatamente no célebre ensaio Dos Canibais, de Michel de Montaigne (1533-1592), no qual este pensador, comparando certas práticas dos tupinambás (se a memória não me trai), mostra-as como até superiores às de seus compatriotas, chegando mesmo a dizer que na guerra eles se portavam de maneira mais digna do que a soldadesca que infernizava a vida dos franceses durante as guerras de religião (entre católicos e protestantes).
E quase quinhentos anos depois, eis que suas palavras se confirmavam no simples olhar desgostoso daquele índio em São Paulo, diante da fotografia pós-moderna francesa. Preso ainda aos seus elegantes grafismos geométricos, aos requintados arranjos plumários, aos seus inocentes e belos animais entalhados na madeira das matas, nosso índio certamente só poderia deplorar aquela violência e gratuidade: civilizados resultados dos gostos corrompidos, como diria Montaigne.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de outubro de 2009].

Nenhum crime é pequeno

No Brasil, proclama-se a cada instante que todos os políticos são corruptos e ineptos. Que a iniciativa privada, esta sim, é eficientíssima, livre de vícios. E que a prática de esportes fortalece o caráter.
O recente episódio – ainda não concluído – do roubo da prova do Enem desmonta uma por uma as afirmações acima. Não que, por isso, muitos políticos sejam imediatamente inocentados, o empresariado torne-se, todo ele, incompetente, nem faz supor que a totalidade dos esportistas seja fraca de caráter. Mas toda esta embrulhada dá o que pensar.
A prova roubada não o foi de uma gráfica pública e, sim, particular. Não houve também nenhum funcionário do governo envolvido, mas três da dita empresa privada. E o mentor da história toda vem a ser, por coincidência, um esportista, praticante de capoeira, uma atividade “relaxante”, “honesta”, “altruísta”, como dizem por aí... E quanto aos políticos nesta história toda? Fizeram o que deveriam fazer e em prazo recorde. Aliás, como a Polícia Federal também o fez, com uma ligeireza notável: já indiciou os envolvidos por extorsão, peculato e violação de sigilo funcional. As penas para cada crime são: de quatro a dez anos para extorsão, de dois a doze para peculato e de dois a cinco para a quebra de sigilo. Todavia, são réus primários, tem bons antecedentes e, por isso, nenhum deles foi preso e responderão ao processo em liberdade. O Ministro da Justiça qualificou-os de meros “marginais”. E a Polícia Federal afirmou que o grupo é “amador”. Moral da história: provavelmente vão sair ilesos ou, depois de uns cascudos, com uma pena alternativa, ou coisa do gênero. Entretanto, amadores ou não, palermas ou não, acho que mereceriam um tratamento mais duro. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar, há os crimes propriamente cometidos, que falam por si. O problema é que eles não se extinguem neles mesmos, pois causaram um prejuízo milionário aos cofres públicos, graças a todas as alterações que o governo foi forçado a fazer depois do episódio. Mas não foi só o governo que perdeu com tal patifaria, nós também perdemos, porque o dinheiro, na verdade, é nosso, dos nossos impostos. O fato é que milhões de estudantes em todo o país foram prejudicados por conta disso. Financeira e emocionalmente. Estudantes têm gastos com livros, material de estudo, inscrições de vestibulares. Muitos se preparavam para provas de acesso a universidades fora de seus domicílios e entram aí gastos com transporte (a passagem aérea comprada na promoção, meses antes do embarque), depósitos adiantados para hotéis ou pensões, e mais uma infinidade de outros. E ora veem-se ameaçados de não poder prestar os exames pela mudança da data do Enem. Ou, em boa parte, os prestarão com prejuízos, já que algumas universidades não mais aceitarão as notas da avaliação nacional como elemento classificatório disponível a tais candidatos. Não se trata do caso de dizer – como alguns babaquaras disseram em entrevistas – que “todos os seus esforços foram perdidos”. O que se aprendeu se aprendeu: o intervalo para a próxima prova não produz nenhuma lavagem cerebral ou surto de amnésia. Aliás, quem pensa assim, em minha opinião, já foi reprovado. Entretanto, convenhamos, ter os sonhos e planos adiados – às vezes até por um ano – é coisa muito séria.
Em segundo lugar, há algo também muito sério no procedimento dos três patetas responsáveis pelo roubo. Eles insinuaram à reportagem, para qual tentaram vender as provas, que as mesmas teriam sido fornecidas por alguém graúdo do Ministério da Educação, o que foi completamente desmentido pelos fatos. Ora, não se envolve uma instância do governo numa tramoia destas tão levianamente que se possa passar impune. O risco de uma crise institucional foi imenso. Boatos não são tão inocentes quanto se pensam, muito menos um de tal envergadura. O Código Penal trata muito bem destes casos e, creio, o Ministério Público deveria estar atento a isto.
Uma coisa é o furto de parafusos. Outra coisa é o furto de parafusos de uma ponte pela qual passam trens. Se eles seguem incólumes, fica-se somente no furto. Mas se um deles descarrila tudo muda de figura. O Trem do Enem descarrilou, causando prejuízos a milhões e de milhões, além de ameaçar o funcionamento do Estado. Vamos só dar um croques na cabeça dos culpados?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de outubro de 2009].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trabalho sem fim

Depois da metade de um dia de pesquisa na Biblioteca dos Bispos de Mariana, num ambiente escuro, cercado por raridades, julguei que merecia uma pequena pausa. Deixei o prédio e fui esticar as pernas, num banco da praça fronteira.
Por sorte, àquela hora da tarde, a temperatura abrandara um pouco, o sol se escondera atrás das nuvens e um vento bastante ameno passara a soprar. E vi que a ideia de aproveitar aquele ambiente sombreado não fora só minha. Por toda a praça viam-se pessoas, refesteladas, nos bancos. Chamaram minha atenção três senhoras, em pontos distantes uns dos outros, com vassouras apoiadas nos encostos de madeira. Eram, evidentemente, varredoras de rua, que aproveitavam um breve descanso.
O tempo foi passando e aquela ligeira pausa se seguia, aparentemente sem fim. Até que todas, ao mesmo tempo, se levantaram, varreram algumas folhas – poucas, e nada do lixo que as circundava – e recolheram-nas com uma pá. Poucas folhas foram para uma lixeira, já transbordante e, claro, a maior parte delas voltou para o chão. As mulheres pareceram não se importar. Tanto que voltaram, logo em seguida, placidamente, aos seus bancos. Novo descanso.
Não fiquei ali para ver por quanto tempo mais repetiriam aquela rotina. Afinal, tinha meus afazeres. De volta à biblioteca, entre a consulta de um livro e outro, eu aproveitava para dar uma espiada pela janela. E a toda vez as via sentadas, mas agora mais próximas, e conversando.
Perto do fim da tarde, finalmente atingiram o canto da praça mais próximo do prédio onde me encontrava. Não precisava mais acompanhá-las com o canto dos olhos. Agora, o ruído da varrição me informaria de seu ritmo de trabalho. E os ouvidos confirmaram aquilo que tinha visto. Varriam muito pouco e, logo em seguida, paravam. E conversavam, conversavam, conversavam...
Para mim, já bastava daquilo. Atirei-me aos livros, e me esqueci delas, de seu trabalho duplamente leve, fingido e um tanto inútil.
Ao fim do dia, saí e passei por elas. A praça continuava coberta de folhas e de um pouco de lixo, em idêntica forma a que a vira horas antes. Mas, naquele instante, um vento súbito, razoavelmente forte, soprou por entre as árvores, desfolhando-as com rigor. O calçamento, então, cobriu-se quase completamente. E ouvi de uma das varredoras, que contemplava a mesma cena e seus resultados, a seguinte frase, lançada às outras:
– Que coisa! Todo um dia de trabalho perdido...
Um dia de trabalho perdido! Pensei na tarefa inútil e sem fim que é varrer folhas. Inútil e infinito porque elas sempre, e sempre, continuarão a cair. Mas dia após dia, lá estão as mulheres, que são pagas para isto, a varrer e a fingir que varrem, ignorando o lixo, enchendo transbordantes cestos que devolvem ao calçamento as folhas que deveriam conter. Pensei, mais brandamente, que talvez fosse pelas varredoras saberem da inutilidade daquele trabalho, que as levava a simular algum esforço. Pode ser. Em todo caso, ainda que finjam por conhecerem aquela faina infinita, tal fingimento não desvia um palmo de um fato inquestionável: há algo, naquela atividade constante e sem frutos, de vagamente infernal...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 03 de outubro de 2009.]

Nenhum idílio resiste a um escrutínio

Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]