A destruição pelo fogo de uma grande parte do acervo legado pelo artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), foi um episódio mais do que lastimável. E quando se sabe os motivos, não do incêndio, mas das obras estarem quase todas reunidas entre uma sala e a garagem de uma casa de família, à lástima soma-se a raiva: a família, guardiã do espólio, desentendeu-se com a Prefeitura do Rio e com o Centro Municipal Hélio Oiticica – que até então abrigava o que poderia ter sido poupado das chamas– por que este não haviam pago 267 mil reais pelos direitos de uma exposição. Em suma, por cobiça, os herdeiros mataram a galinha dos ovos de ouro!
Quem viu as fotos ou as imagens da casa ficou de cabelos em pé. Via-se que parte do acervo estava praticamente na rua, na já mencionada garagem, protegida do tempo por uma reles grade de ferro. Qualquer fagulha de um cigarro esmagado na calçada por um inocente transeunte poderia ter causado o fogo. E mil outras coisas de menor monta. Mas a família escolheu por reunir as obras ali, um local que julgou mais seguro que a instituição municipal – criada para este único fim, frise-se – já que esta não tinha aparelhos desumidificadores suficientes! E, trágica ironia, não foi a umidade, tão temida pelos herdeiros, a causa da destruição do legado...
Nestas horas, qualquer pessoa de bom senso pensaria algo assim: “bem, eu herdei um conjunto de obras expressivas de um dos mais aclamados artistas brasileiros. Mas não tenho dinheiro para cuidar disto tudo, nem um local conveniente para abrigá-lo. O que faço então? Escolho algumas peças da coleção, vendo-as e, com o que apurar, construo um prédio para tal finalidade: vão-se os anéis, ficam os dedos. Ah, e como eu vivo – pago as minhas contas, tenho um papel na sociedade, etc. – graças à minha posição de guardião deste acervo, vou tratar de pô-lo no seguro: afinal, quem sabe o dia de amanhã?”, concluiria alguém ajuizado. Mas, ao que parece, não quiseram por a mão no bolso nem pra isto, para garantir o pão do dia seguinte.
Depois, há um fato a mais nesta história toda que é difícil de entender. Se a família é a legítima herdeira da coleção, mas era o poder público que a preservava, por que é que este ainda tinha de pagar aos herdeiros uma fortuna pelo direito de abri-la ao público, exibi-la, algo que, em princípio, é a função da obra de arte e a função de um museu? Podem dizer que é o que a lei determina. Mas que leizinha mais besta, sô! Que poder público mais bonzinho este, não? Um verdadeiro pai. Zela pelos bens alheios e ainda paga por isso. Não, decididamente, não são boas leis que regem esta relação.
Por outro lado, se do ponto de vista histórico, afetivo e mercadológico a perda das obras foi terrível, do ponto de vista estético até que não foi tanto assim. Quase toda a coleção já havia sido fotografada, catalogada, etc. A maioria delas pode ser literalmente refeita por conta de tais dados, e isto em nada desagradaria seu criador, pelo contrário. Ele próprio, por suas convicções pessoais e estéticas, era contra a idéia de que suas criações se tornassem – como vinham se tornando – uma espécie de fetiche, intocável, inviolável, único, e por aí vai. Queria que suas obras fossem tocadas pelo público, utilizadas, vestidas, e não trancadas e idolatradas por detrás de uma vitrine. É claro que a aura – e o valor de mercado – diminuem com a reprodução das obras. Mas e a intenção do autor, onde fica?
A destruição do acervo, portanto, apesar de triste, talvez tenha seu lado bom, num sentido, pois trouxe à tona uma série de discussões – direito de herança, finalidade da obra de arte, intencionalidade do artista, etc. – que há muito necessitavam vir à público e serem questionadas. Quem sabe se, destas cinzas, não nasça uma fênix?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de outubro de 2009].
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