segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pausa para reflexão


Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda de Kanagawa, c.1829-32.
Xilogravura colorida, 25.7 cm x 37.8 cm.. Museu Britânico, Londres.

Em crônica publicada em 5 de fevereiro passado, abrindo a série Viagem sentimental à roda de meus livros, prometi “contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições [...] Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis”.
Pois é, bem que tentei contornar a crise política do Norte da África e de parte da Península Arábica. Visto que ouvi da própria boca do insigne historiador francês Roger Chartier, já lá se vão quase cinco anos, que o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro, ando declinando dos exercícios de futurologia, pelo menos em público. E preferi esperar. Caiu Mubarak, do Egito, e um outro desconhecido na Tunísia? Bom, agora é só aguardar a queda de Kadafi, pensei comigo. Mas ele permanece no posto, não sei se de joelhos, mas está lá.
A primeira reflexão neste campo é bem prosaica. O ex-presidente do Egito, que governou por trinta anos aquele país graças a eleições fraudulentas, nunca havia sido chamado de Ditador (o que, de fato era), não digo pela imprensa mundial, mas, certamente, pela nacional. Era sempre o “Presidente Mubarak aqui”, “o Presidente Mubarak ali”, e pronto. Somente quando os protestos eram irreversíveis, assim como suas conseqüências, é que passaram a chamar o homem de ditador. Vícios da nossa Grande Imprensa, que é mais realista que o rei (ou melhor, mais americanizada que a norte-americana). A sua falta de independência, em muitos casos, ou mera bajulação, na maioria deles, talvez enxergasse no defuncto presidente o último dos Abencerrajes, o derradeiro paladino muçulmano, ilustrado, contra as hordas fundamentalistas. E fazia-lhe vistas grossas.
A segunda tem a ver com o plenipotenciário da Líbia, que até anteontem era Muammar Kadafi (ou Khadafi), e agora passa a ser anunciado pela Grande Imprensa como Gaddafi. Imagino que enquanto vivia ele na periferia do Mediterrâneo, sem motivar praticamente qualquer notícia que não uns descalabrozinhos de ordem interna, por lá, ou umas truices berradas no campo da política externa, acolá, ninguém se preocupou como deveria der grafado seu nome. Reproduzia-se, automaticamente, a manchete de alguma agência de notícias, principalmente norte-americana, e pronto. Mas, agora, não mais. Acho que os editores, ou chefes de redação andam cobrando mais serviço dos seus meninos. Fico até imaginando a cena: um redator sênior grita para a patuléia de plantão: “Ô Fulano, liga para o consulado da Líbia e vê como é que se escreve o nome do presidente deles!”, e corre o rapaz a cumprir a ordem. Dada a situação geral, volta o jovem e diz ao chefe: “Ninguém atende!”, e o intrépido jornalista veterano estertora: “Veja então como está escrito no New York Times!”; mas, responde o aprendiz: “Eles escrevem Qaddafi”. Então, num arroubo de justiça salomônica, proclama o sumo-chefe: “Nem Kadafi nem Qaddafi: ponha aí Gaddafi e não se fala mais nisso!” – e, assim, vai sendo feito o jornalismo pátrio...
A terceira reflexão é quase fútil, beirando o banal. Mas tem uma certa razão de ser. Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano,passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo.
A quarta reflexão é ainda mais inútil: o resultado do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em que Roberto Carlos, mais uma vez, saiu triunfante, do que ninguém tinha dúvidas. Desfilasse a escola toda só coberta por uma folha de parreira, com a bateria desfalcada, passistas mancos e só um carro alegórico – o que traria “o Rei” – e ganharia do mesmo jeito. O tema era superior a qualquer quesito mensurável pelos juízes, que o digam os patrocinadores e transmissores da celebração...
Voltando aos temas sérios, quero concluir com o desastre ocorrido no Japão. Desastre, vígula, verdadeira catástrofe. Lamento, condoído, as vítimas do terremoto, da onda gigante que veio em seguida, e dos incêncios, de proporções lisboetas. Mas, com todo respeito, eles estão acostumados com isto. Terremoto no Japão é como eleição fraudada na África, sêca no Nordeste e chuva no Sul: todo ano tem. Tsunami, menos, mas há que se recordar que a obra de arte mais conhecida daquele país, e que ilustra esta crônica, retrata justamente, uma onda gigante, dentre as várias que o acometeram.
E, neste caso, os pontos de reflexão seriam pelo menos três. Vamos ao primeiro: se os pagodes, castelos, e sítios arqueológicos seculares não vieram abaixo, mas os prédios modernos, sim, não seria de se especular que estes últimos foram construídos seguindo o código de ética haitiano, ou bem parecido? Segundo: se o solo de lá é notória e milenarmente conhecido como sujeito a terremotos, como é que o Japão teve a coragem de instalar usinas nucleares em seu território? Economia? Ou, seguiu o padrão haitiano de qualidade e responsabilidade? Terceiro e último ponto: a Terra do Sol Nascente é uma das nações mais ricas do nosso planeta. Rica e perdulária. Como é que ela não tem alimentos de reserva para o seu povo, ou serviços de apoio que funcionem a contento, ou cidadãos dispostos a ajudarem seus irmãos? Querem, agora, que o mundo inteiro se condoa de suas imprevisões e políticas equivocadas?!
Respeito e admiro a cultura (artística) japonesa, mas o comportamento de seus praticantes frente à catástrofe tem deixado em muito a desejar. Que os ricos de lá (Aiwa, Honda, Kumon, Toyota, Sony, Fuji, Mitsubishi, Pentax, Pentel, dentre tantos outros), cuidem de seus desvalidos. Nós temos é de tratar dos nossos, como os de Alagoas, sem casas há mais de dois anos. Ou, mais recentemente, dos paranaenses do litoral.
Reconheço e louvo, entusiasticamente, o esforço de muitos brasileiros, de lá, que têm confortado e socorrido as vítimas de tal efeméride, dada a aparente inépcia ou falta de comoção dos naturais daquele país. Mas, convenhamos: organizarmos levas de doações para uma das nações mais ricos da Terra? Soa à piada de mau-gosto. Pois que eles se reorganizem, e aos seus modelos de gestão, e aprendam com tal calamidade. Temos ainda muita gente de quem cuidar, em nossas esquinas, grotões, etc.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 20 de março de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – IV – Editores à força

Na semana passada, tratei de sebos, físicos e virtuais, que têm ótimos acervos, enriquecidos por muitos títulos. São, todos eles, alternativas eficientes para quem procura verdadeiras raridades, ou até livros mais comuns, e não têm como pagar por eles, nem acesso à bibliotecas que os emprestem, até mesmo por não terem exemplares da referida obra.
Mas aqueles que procuram raridades fora de catálogo, devem recorrer a sítios interessantes como o www.books.google.com e o – na minha opinião, muito melhor – www.archive.org. O primeiro tem dois defeitos: um de natureza moral, outro de natureza técnica. Do ponto de vista moral porque sua ação sobre os acervos, e seu critério de cópia, são altamente excludentes e monopolistas. Robert Darnton, historiador americano que é, atualmente diretor da biblioteca da prestigiadíssima Universidade Harvard, tem falado exaustivamente quanto a isto. E, do ponto de vista técnico, ressente-se, o books.google, do fato de que muitos dos livros que anuncia só podem ser visualizados (por que não lidos?) parcialmente. Já o segundo, além das riquíssimas obras que possui, tem uma apresentação impecável e total dos volumes, que podem ser baixados de várias maneiras. A ponto de, para quem tenha certa preguiça ou desconforto em ler na tela do computador, poder imprimi-las e, quem sabe, encaderná-las, rumo à coleção incompleta que grita nostálgica da estante. Ou, também, a uma nova a ser criada, naquele nicho onde se abrigavam Ian Fleming, a Enciclopédia do Comércio, etc.
Caso alguém queira optar pelas reimpressões, elas não saem muito caras, graças às novas técnicas e à concorrência entre quem oferece tais serviços. Há, inclusive, uma editora norte-americana – Kessinger Publising Rare Prints (www.kessinger.net) – que publica um sem fim de raridades, a grande maioria em língua inglesa, as quais podem ser adquiridas pelo próprio sítio ou por outras de importação. Mas o preço sobe às alturas, graças ao envio e à tributação. O irônico da coisa toda é que muito do que eles publicam é retirado diretamente do Google books, imagem por imagem, e com as falhas que este sistema de cópias de livros reproduz ad nauseam.
Neste ponto poderia ser concedida uma trégua aos pesquisadores. Eu mesmo já me meti em arquivos, fotografando livros, cujas condições eram das mais infelizes. Tente-se manusear um livro de trezentos anos, calçado de luvas cirúrgicas. No rosto, uma máscara de mesma função. A temperatura ambiente elevada, fazendo a testa porejar o suor adquirido durante dias de má alimentação e pior hospedagem. O tempo correndo até o quase sempre iminente fechamento do acervo – decorrente da espera, interminável, até que se encontrem a obra, e do horário do almoço dos funcionários, sempre dilatável. A mesa, ou atril, onde o volume que nos é exposto, não correspondendo às mínimas noções de ergonometria ou conforto. E a iluminação, parca. Misture tudo isso e acrescentem a dificuldade no manejo de uma sensível câmera fotográfica digital, pelas mãos cujo tato foi prejudicado pelas luvas . Sem falar que não se manuseiam livros tão antigos como se fossem uma lista telefônica. Moral da história: passado um certo tempo, qualquer um pensa em se dedicar a outro ramo de atividades. São raros, aliás, os pesquisadores de acervos religiosos que não se tornem ateus ou agnósticos – e violentamente anticlericais – depois de um certo tempo, tal o montante de imposições, restrições e suspeições que são levantadas em torno de quem pesquisa. Os poucos que se livram de tais achaques são os membros da famiglia. Mas pouca gente lê o que eles escrevem, tal o aspecto ínfimo de seus trabalhos, em geral sonsas e soníferas cronologias das ordens religiosas, encômios a um Frei Fulano ou Bispo Beltrano de quem ninguém mais lembra e só.
Porém, retornando aos sítios provedores de obras raras, as quais são essenciais para o conhecimento geral de nossa cultura ocidental, recomendo a todos que busquem tais fontes. Um sem fim de documentos encontram-se ali, à nossa disposição. A bibliografia mais rara, os estudos mais distintos e vários, encontram-se ao alcance de poucos “cliques”.
Não há, portanto, qualquer motivo para que se diga, em nosso país, que os livros são inacessíveis pelo seu custo. Que compreendam isto os leitores, mais ou menos relapsos, os professores preguiçosos, os bibliotecários ineptos e os administradores da coisa pública iletrados, diante das verbas que têm de gastar nas pastas de “Educação e Cultura”. Livros são caros apenas para aqueles que não gostam de ler. Quem gosta, de fato, troca a picanha e a cervejada por eles. Um bom livro é melhor do que a melhor iguaria servida à mesa, e sustenta uma pessoa, moralmente, muitíssimo mais do que mil porcos no rolete, destes que são assados em cerimônias políticas, para o contento do eleitorado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – III: De Sebos e afins

O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].

Viagem sentimental à roda de meus livros – II



O estudo da história conduz muitas vezes a áreas bastante curiosas. Uma destas é a que trata da crença em valores, práticas, tradições, as quais a ciência, em seu curso, acaba pondo por terra – em mais uma prova de que as próprias ciências são históricas...
Um caso exemplar é o da fisiognomonia, ou fisiognomônica, que seria a arte, ou ciência, de conhecer o caráter de uma pessoa a partir de seu rosto, de seus traços faciais. Em linhas gerais, muita gente acredita nela até hoje. Basta pensar na pronta associação que a maioria das pessoas faz entre à visão de alguém de testa alta, atribuindo-lhe uma grande inteligência. Ou uma tendência aos instintos baixo frente a olhos miúdos, à semelhança dos porcos. E alguns tipos excêntricos chegam a afirmar que, enquanto prática científica, tais constatações ainda são válidas. Poucas mentes de juízo, entretanto, levam-nos a sério.
Desacreditada hoje, esta interpretação do caráter pelas feições de seu dono, sobretudo associando-se eventuais semelhanças entre homens e determinados animais, notórios por tal ou qual comportamento, vem de longo tempo. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) acreditava nela (como pode ser visto na História dos Animais – 491b8-9;492a10 – e em Analíticos anteriores – 2.27), e um tratado (Physiognomonica) versando sobre o tema foi durante muito tempo atribuído a ele. Os romanos lhe deram crédito e a Idade Média os seguiu. Mas seu amplo florescer se deu a partir do Renascimento, graças a Giambattista della Porta (1535–1615) e suas comparações entre humanos e animais (como no caso da primeira ilustração, em que a crueldade da águia, expressa em seu bico voraz, seria também visível na face do imperador romano Sérvio Galba, graças ao seu nariz adunco). E muitos outros os seguiram ao longo dos séculos. O pintor Charles Le Brun (1619-1690), deixou alguns impressionantes desenhos e uma conferência apresentada na Academia Real de Pintura e Escultura tratando do assunto.




Já no século XVIII e princípios do XIX, graças ao espírito do tempo, tais teorias foram proclamadas ciências graças a obra de três homens: Johann Kaspar Lavater (1741-1801), Franz Joseph Gall (1758-1828) e Johann Kaspar Spurzheim (1776-1832). O primeiro, em sua L’Art de connaître les hommes par la physionomie (escrita entre os anos de 1775-1778, mas somente publicada integralmente em 1820), fez um apanhado das idéias já conhecidas e sofisticou-as à luz de suas próprias observações. Mas os dois seguintes criaram a Frenologia, uma ciência capaz de conhecer o caráter dos homens (e seu grau de criminalidade) pelo formato da cabeça, analisando caroços ou protuberâncias localizados em determinadas partes do crânio (veja-se o mapeamento das áreas na ilustração acima).
A popularidade de tal teoria foi imensa, no tempo e no espaço. O mundo letrado inteiro a conheceu e por todo globo cientistas passaram a medir crânios dos mais diversos indivíduos, da Patagônia à China, do Congo ao Alasca. Algumas vozes, entretanto, já naquela época, levantaram-se contra tais idéias – curiosamente um dos primeiros críticos foi o Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), que, segundo a Duquesa de Abrantes, Laure Junot, considerava o sistema de Gall “uma loucura”, “destruidora de toda a ordem e de toda lei” (Memoirs of Napoleon, his court and his family. Londres, 1836, vol.2, p. 256).
Uma prova de sua influência no mundo moderno, é que as próprias teorias de Cesare Lombroso (1835-1909), o “pai da criminologia”, derivam da Frenologia. E esta, sobretudo em certos países, vicejou por muito tempo.
Como estudo este tipo de interpretações, dentre outros temas, adquiri recentemente um livro, A System of phrenology (c.1820), de George Combe (1788-1858), um advogado escocês que acreditava piamente nas idéias de Gall e Spurzhein. E chama a atenção que a edição de que disponho tenha sido publicada em Nova Iorque ainda em 1886, época em que médicos como Jean-Martin Charcot (1825-1893) já revolucionavam o estudo dos comportamentos (criminosos, inclusive) e das doenças mentais em termos muito mais científicos: menos em termos de predestinações anatômicas e mais em estudos caso a caso de disposições particulares e dos efeitos do meio. E é realmente curiosíssimo o sucesso que a Frenologia conheceu nos Estados Unidos da América, e do qual parece ainda desfrutar. Creio que tal se deva à forte origem calvinista das mentalidades locais: é mais fácil atribuir o desvio a uma predestinação, a uma marca divina distintiva, do que como resultado da pressão de homens bons tementes a Deus sobre um pobre coitado... Porém, curiosamente, Gall era católico, e provavelmente Spurzheim também. Mas Lavater foi pastor na Suíça e Combe, natural de Edimburgo, com quase toda certeza era calvinista.
Uma nota divertida do livro de Combe, na edição que adquiri, ficou por conta de um de seus antigos donos. Na última folha do volume, em caligrafia bastante clara, encontra-se a seguinte anotação:

property of that
good for nada.
MR Livingston
August 6 1887.

Não imagino quem seja este MR Livingston, que não encontrou propriedade alguma na obra, considerando-a “boa para nada”, mesclando o inglês ao português em seu comentário. O que vale, além da impressão do referido senhor, é a data em que foi registrada. É mais uma prova de que os espíritos críticos existem, nadando contra a corrente das modas e loucuras de seu tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de fevereiro de 2011].

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].

Contra o calor

Assim como há quem prefira o azul ao vermelho, o queijo minas ao queijo prato, e as listras aos xadrezes, há também aqueles que preferem o frio ao calor. E, dentre os últimos, inscrevo-me na turma da frente dos primeiros desde que me conheço por gente: mil vezes uma fresca aragem correndo por sobre a pele do que um bafo quente castigando o couro; e um milhão de vezes dormir debaixo de cobertas que seminu, implorando por uma brisa que sopre da janela quando nem o ventilador de teto da conta. Ar-condicionado, evidentemente, é muito bom. Mas há sempre o desconforto criado quando deixamos um ambiente sob sua graciosa mercê e enfrentamos o mundo real. Portanto, o ideal é um clima ameno. E, acredito, em vista da onda de calor que vimos atravessando, tenho certeza de que o número de correligionários em prol do frio, ou seus admiradores, há de aumentar.
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]