sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Centenário de morte de Mark Twain

No último dia 21 de abril celebrou-se o centenário de morte do escritor norte-americano Mark Twain (pseudônimo que consagrou Samuel Langhorne Clemens, 1835-1910). Cem anos... Nem acredito!
Sua importância para a literatura daquele país foi enorme. Os aclamados escritores William Faulkner (1897-1962), e Ernest Hemingway (1899-1961), inclusive, a respeito dele disseram: “[ele] foi o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros” (W.F.); e “[...] toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain, chamado Huckleberry Finn [...]. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” (E.H).
De fato, o livro As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), no Brasil mais conhecido como As Aventuras de Huck, não só é divertidíssimo como muito bem escrito. Trata-se de uma espécie de clássico moderno, mais com aspecto do que seria criado a partir dos anos 1910 e 1920 (ou mesmo 1930), do que um fruto natural de sua época. E, ao mesmo tempo, um retrato curiosíssimo a respeito da escravidão, que Mark Twain conhecera em seu país. Pois a relação de camaradagem entre o jovem Huck e o escravo foragido Jim vale por mais de uma centena de teses acadêmicas sobre o trato entre homens livres, ainda que um rapazola, no caso de Huck, e cativos, mesmo que adultos, como no caso de Jim. São páginas tão reveladoras quanto só se leriam, mais tarde, no Casa-grande & Senzala (1933), este nosso clássico de Gilberto Freyre (1900-1987). O qual, certamente, conheceu a obra ainda em sua juventude, no original, ou no colégio americano em que estudou no Recife, ou na Universidade Colúmbia, de Nova Iorque. Não descarto a possibilidade, aliás, que a curiosa relação entre os dois personagens do romance tenha, em certos aspectos, influenciado sua opus magna.
Mas a questão do tratamento afável e justo que o jovem Huck dedica ao foragido Jim, que conhece desde há muito, foi sobremodo espicaçada pelos adeptos do politicamente correto nos EUA, que chegaram a proibir a leitura da obra em muitas escolas daquele país. Tudo por conta do emprego da expressão “nigger” para se referir a Jim. O termo, hoje, é considerado ofensivo e racista. Corresponde ao nosso “preto” ou “crioulo” em lugar de quem hoje chamamos de “negros”. Mas quem tem mais de trinta anos sabe muito bem que, num passado bem próximo, chamar alguém de “negro” é que era realmente ofensivo. Então, dizia-se, com respeito, que fulano era “um preto”, ou “preto”. “Negro” era, como se lembravam os mais velhos, e a história o comprova, o tratamento dado pelos senhores aos seus escravos. Mas certas militâncias, em geral, quando não desconhecem a História, procuram ajustá-la aos seus fins. Fazer o quê...
Voltando à copiosa obra de Mark Twain, sua qualidade e atualidade são notáveis. Relendo alguns fragmentos seus, publicados recentemente sob o título Patriotas e Traidores (Fundação Perseu Abramo, 2003), não deixei de me quedar surpreso, aqui e ali, com a acuidade de seus pensamentos políticos e de sua visão de mundo. E a leitura de qualquer um de seus contos, primorosos, é de rolar de rir. O Roubo do Elefante Branco, por exemplo, é uma sátira à polícia e à sociedade de seu tempo – seria somente daquele tempo? – como poucas vezes se viu. E o Diário de Adão e Eva, uma das mais finas ironias da relação entre homem e mulher que já li. Mas é difícil mencionar dois contos dentro da jovial, lúcida e excelente obra de Mark Twain e deixar tantos outros de lado. Além de sua influência na cultura moderna, graças às adaptações cinematográficas que pelo menos duas de suas obras receberam: falo de O Príncipe e o Plebeu (1882) e Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889). Quando assistirem um filme no qual um menino ou menina rica troca de lugar e vida com uma criança pobre, que é identica a ela fisionomicante, saibam que a fonte é a primeira obra. Ou quando a trama mostra um homem moderno que regressa ao passado e, entre desconfortos e incompreensões mútuas, faz valer sua vontade moderna, tenham ciência que a origem encontra-se na segunda.
Finalizando, recomendo a todos que nunca o leram, que leiam-no. E aqueles que o conhecem, que o releiam de vez em quando. Mark Twain continua ótimo, atual e vivo mesmo depois de cem anos de sua morte.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de maio de 2010].

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pulseiras ou algemas?

Sempre achei o uso de pulseiras, sobretudo da parte dos homens, de uma cafonice atroz. Aliás, o simples ostentar de jóias, por alguém do sexo masculino, parece-me de um mau-gosto insuportável. Respeito alianças (de compromisso, noivado casamento), uma corrente com a medalha do santo de devoção (ou o Crucifixo, ou a Estrela de Davi, para os judeus, ou outros símbolos permitidos pelas demais religiões). Da mesma maneira, não sou contrário aos anéis de formatura – ainda que nunca fosse capaz de imaginar-me usando um. Não me oponho aos prendedores de colarinhos, ou de gravatas, nem a broches ou alfinetes (hoje chamados de pins e bottons) que indicam a filiação ou pertencimento de seu portador a uma confraria, partido político, clube, sociedade, ordem honorífica, etc. Nem me oponho àqueles que usem um brinco numa orelha – dois, convenhamos, já é demais. Mas admitindo-se que o uso deles é livre – como, defendo, devem mesmo ser – também há que se ter certa morigeração no seu emprego, sob o risco de, excedendo um certo equilíbrio, um sujeito vir a parecer uma vitrine ambulante de jóias, para ficarmos numa comparação lisonjeira: outras, muito piores, são possíveis. E nem sequer tratamos dos piercings ainda...
Confesso que, atualmente, surpreendem-me certos homens que se adornam com grossas correntes pendentes do pescoço e amplos medalhões em suas pontas, exibidos no peito aberto de uma camisa justa, geralmente acetinada. Tal modismo, ou ausência dele, parece-me, e a muitos, uma reprise do que de pior – salvo as ditaduras – os anos 1970 foram capazes de produzir.
Mas mesmo os outros itens mencionados, sem o correto emprego, sem economia, podem horrorizar qualquer pessoa. Imaginemos um hipotético exemplo, nem um pouco impossível, visto que já vi vários deles em pelo menos cinco estados brasileiros, sem contar o Distrito Federal: imaginemos, portanto, um jovem contestador (com pelo menos um piercing e um brinco, e seu botton do PV), recém graduado (com o anel de formatura que seus pais lhe deram) em Direito (com o seu broche da OAB na lapela do paletó), que está noivo (com sua aliança) e que acabou de voltar de uma viagem à Bahia (com sua pulseira/fita do Senhor do Bonfim). E acrescentemos à sua indumentária um prendedor de gravatas (destes que levam ainda uma correntinha, muito comuns entre os estagiários em Belo Horizonte). É ou não é de assustar?
Retornando às pulseiras, os leitores com mais de trinta anos talvez se recordem da Pulseira Sabona, feita originalmente de cobre e que muita gente honesta e decente a usou por seus supostos poderes curativos, antiestressantes ou que tais. Como a peça era um bocado feia, ou parecia um índice pouco sugestivo da “prosperidade” de seu possuidor (vivia-se, então, a legenda da eficácia do “pensamento positivo = riqueza”, que misturava uma escuma de conhecimento esotérico com a borra de um capitalismo tacanho), logo surgiram as versões com banho de prata ou de ouro, que eram uma tremenda negação do princípio ativo da coisa (a liberação de cobre a ser absorvida pela pele), em prol da, suposta, exibição de boa condição financeira. Não posso dizer se as tais pulseiras funcionavam ou não, porque em menos de uma década elas foram praticamente abolidas nestas plagas. Também não tenho profundos conhecimentos na área da Medicina (uma ciência em eterna mutação), para avaliar os dons curativos da pulseira. Como um estudioso da História, entretanto, conheço muito bem tal sorte de amuletos, de maneira geral conhecidos como simpáticos (“próximos à doença”, numa tradução livre). Grosso modo, sua utilização equivale a beber um copo de vinho, no qual esteve imerso um prego de ferro, para suprir as carências de Ferro que uma pessoa tem em seu organismo. Em suma: está mais próxima da Magia e da Alquimia do que da douta Medicina dos nossos tempos. Mas tudo bem, nada contra. O apego às tradições centenárias é, muitas vezes, uma delícia e um conforto.
O problema das pulseiras atuais, entretanto, é de outra natureza, como, acredito, todos saibam. Trata-se do uso delas, por adolescentes, como um código para aproximações físicas ou sexuais que, parece, chegou até mesmo a resultar no estupro de uma jovem em Londrina, PR.
Segundo o que o grosso da imprensa tem alardeado, o código das pulseiras – mais utilizadas pelas moças do que pelos rapazes – é baseado nas cores vermelho, amarelo e verde, reproduzindo o dos semáforos das esquinas. Assim, vermelho diria: “não estou a fim (sequer de aproximação)”; amarelo significaria: “estou aberta a uma cantada (desde que seja boa)”; e, verde: “venha aqui já, otário (pode fazer a festa)”.
Entretanto, me parece que esta sinalização é mais grave do que aparenta ser e do que a grande mídia nacional nos informa. Nos Estados Unidos da América, nosso Grande Irmão do Norte, esta prática vigorou há alguns anos (não sei se ainda vigora) e seu código, além de incluir mais cores no espectro das “disposições amorosas” de seus usuários, indicaria, isto sim, as práticas sexuais ou carícias que seus portadores estariam dispostos a oferecer, independentemente do rompimento das pulseiras. E, acredito, seja este o motivo do pânico gerado junto a certas famílias e autoridades daqui pelo uso destes “convites” nos pulsos dos jovens. Medo criado graças à inexatidão das informações à respeito dos “sinais” e de suas consequências, parcamente ventiladas, com a brandura da um movimento de leque, pela grande imprensa, a qual não procura relacionar as múltiplas implicações daquele sistema de sinais, O qual, possivelmente, vitimou a pobre jovem de Londrina.
E quanto à proibição das vendas das pulseiras por parte do Estado (já em vigor em Campinas e Hortolândia, até onde sei, pretendida em Holambra), creio que se trata de um absurdo. Hoje proíbem-se pulseiras coloridas, amanhã bottons e pins, depois de amanhã anéis e brincos, e... e depois, onde vamos parar?
O Estado não tem nada de que se envolver num assunto destes. Proibi-las nas escolas, sob sua responsabilidade, até que passa. Como o uso de celulares e bonés (uns porque atrapalham as aulas, outros porque os dissimulam e, afinal, nem são indispensáveis: não bate sol a pino dentro das salas de aula nem há nada que não possa ser resolvido pelo telefone fixo da escola).
O problema das ditas pulseiras é de âmbito puramente familiar e pessoal. Das famílias, que podem arrancá-las dos braços de seus petizes, ou cerrar-lhes as portas para que não saiam com elas, ou, antes e melhor, que os esclareçam da vulgaridade e dos riscos aos quais se expõem. E, finalmente, dos próprios usuários, sem dúvida, que parecem se escravizar a um comportamento estúpido imposto por uma suposta maioria e que se deixam algemar passivamente a ele, em completa subjeção.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de abril de 2010].

A Ciranda de desgraças a girar

Todos os dias, por volta da uma da tarde, minha mulher e eu tomamos um café expresso numa confeitaria a uma quadra de nossa casa. O lugar é bastante agradável, tanto pela proximidade quanto pelo ambiente – salvo aos fins de semana: como se tornou um lugar meio que da “moda”, como dizem, uma gente estranha, mal-educada, pretensamente rica e claramente falastrona invade o lugar aos sábados e domingos. Nós, é claro, evitamo-los nestes dias.
Muito bem, há cerca de uma quinzena, pouco mais ou pouco menos, entramos ali e vimos um pequeno cartaz convidando os freqüentadores para uma festa, com fins filantrópicos, cujo cardápio seria um “porco no rolete”. Confesso que tenho verdadeira aversão a este tipo de prato, se é que o termo prato cabe a este tipo de coisa. Carneiros, novilhos e até mesmo bois – sim, perpetram isto em Cândido Rondon, Paraná – “no rolete” sugerem-me cerimônias bárbaras, banquetes selvagens, festins diabólicos: a refeição de um Gêngis Cã num dia de mau humor; ou de Átila, o Huno, em festa; ou de Vlad Drácula, o Empalador, num acesso de momentosa criatividade. Chego até mesmo a vislumbrar os preparativos, que , acredito, devem fazer eco à Orgia dos Duendes:

“[...] Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia. [...]

[...] Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo [...]”.


Deixando o velho Bernardo Guimarães (1825-1884) de lado, autor dos versos acima, retorno ao assunto para esclarecer o fim benemérito de tal manjar: o dinheiro arrecadado no funesto convescote seria revertido para as vítimas do terremoto do Haiti.
Não há dúvidas que o motivo é elevado, apesar da baixeza da proposta. Porém, ao mesmo tempo, dediquei-me a uma pequena contagem das desgraças mais recentes às para as quais pediram-se doações, para muitos, ou o cumprimento das Obras da Misericórdia, para alguns poucos e bons.
Contando somente a partir do fim do ano passado, assistimos às catástrofes de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, São Paulo, Haiti, Chile, Niterói, Rio de Janeiro e, mais recentemente, China. Se escapou alguma, depois de tantas, peço desculpas aos leitores. Mas o fato é que, por baixo, tivemos oito hecatombes em meros quatro meses, ou seja, quase duas por mês, na média. Ora, Como disse um amigo meu, “não há bolso nem armário que aguente! Mal despachei uma leva de roupas para Angra, e veio o Haiti. Agora me pedem contribuição para o Rio: será que pensam que sou dono de tecelagem? Mais um pouco e estarei tirando a roupa do corpo para doar! Vai com calma, ô Natureza!”.
Brincadeiras à parte – pois brincadeiras não cabem diante de tais descalabros, e os excelentes exemplos de São Martinho de Tours e São Francisco de Assis devem ser sempre lembrados como lições a serem seguidas para o conforto de quem dele necessita – o fato é que ando meio desconfiado de quem promove certas práticas caritativas com um certo alarde e por meio de expedientes tão suspeitosos. Um untuoso banquete (banquete?) cujos fundos serão revertidos para famélicos, não cheira a certa hipocrisia, quer de quem organiza, quer de quem toma parte? Benemerência, agora, tem de vir acompanhada de publicidade e satisfação (satisfação?) dos sentidos?
De fato, assistimos, nos últimos meses, a uma ciranda de desgraças monumentais poucas vezes vistas – e que não se culpem a rapidez na circulação das informações ou a fome da grande imprensa por tais mazelas. Nem, acredito, são sinais do Juízo Final, como aqueles horrorosos History Channel (que divulga mais boatos que História) e Discovery Channel (cada vez com menos descobertas) parecem alardear. Na minha sincera opinião, os motivos de muitas dessas calamidades são, e para sempre serão, insondáveis. Por outro lado, as conseqüências, evidentemente, poderiam ser minoradas com um mínimo de vontade pública. Mas o que esperar de uma época em que as consciências se apaziguam ao frigir das banhas de um filantrópico porco no rolete, anunciado aos quatro ventos, coberto pela imprensa, com direito a várias fotografias dos beneméritos de pança cheia?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2010].

Mais uma vez o desastre

No dia 6 de dezembro de 2008 – vejam lá quanto tempo faz – aqui neste mesmo espaço, comentei uma colossal enchente em Santa Catarina? Acaso alguém ainda se lembra do episódio, depois do que ocorreu em Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, no Haiti e no Chile? Tenho minhas dúvidas...
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.


Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].

Ofício de Trevas

Na quarta-feira desta semana, dia em que o Catolicismo celebra a triste cerimônia do Ofício de Trevas com o fim de lembrar a toda humanidade que o mundo já está em trevas devido à proximidade da morte de Jesus Cristo, o então Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, José Serra de Chirico, anunciou seu afastamento do cargo a que foi eleito para disputar a Presidência da República.
Muitos piadistas ficaram em polvorosa. Ouvi de alguns: “O Serra, que muitos chamam de “o vampiro brasileiro”, se afastando em plenas Trevas, tem tudo a ver: vai ocupar seu espaço natural”. Um outro acrescentou, em tom de censura: “Depois ele não gosta que o comparem a Nosferatu,” – o vampiro da célebre adaptação cinematográfica do Drácula, de Bram Stoker, por F.W Murnau, de 1922 – “mas, vejam só, como o porte, a pele, a calva, e as orelhas, que noite após noite vão ficando mais pontiagudas, se assemelham à caracterização que o ator Max Schreck deu ao personagem” – concluiu. Um outro ainda declarou que, além do oportuno da data, via uma grande possibilidade de ascenção de sua campanha: “Já que tanta gente se interessa por vampiros hoje em dia – veja-se o fenômeno da série Crepúsculo, de Stephenie Meyer – é provável que ele tenha um grande número de cabos-eleitorais. O problema vai ser, com aquela cara, provar que é um vampiro do bem”.
Concordo que, apesar de risíveis, tais afirmações não são dignas de serem proferidas quanto ao Ilustríssimo Titular do Executivo Estadual. Como também não o são ao defuncto governador que em meio às Trevas se licencia – defuncto, na etimologia latina, é o nome que se dá a quem já exerceu sua função, functio, como no caso). E, igualmente, acho deploráveis quaisquer alusões quanto à sua aparência física. Àtila, o huno (406-453 d.C.) e Gêngis Cã (c. 1162-1227), jamais foram exemplos de beleza e, no entanto, foram homens de expressiva dedicação, vontade de trabalhar e amor por sua terra, a ponto de quase unificarem Europa e Àsia – pretensões que, até onde sabemos, não tem o nosso ex-excelentíssimo senhor governador. Em suma, que cada um seja feliz com a cara que tem e que se respeite isto.
O que me preocupa muito mais são as intensões do agora cidadão Chirico, o Breve, aquele que eleito senador, em 1994, com uma expressiva votação, abriu mão do posto (quem se lembra de seu suplente, eleito sem votos?), para ser Ministro do Planejamento. Pois ele cumpriu a função até seu término? Não: em 1996 largou o posto para concorrer à Prefeitura de São Paulo, perdendo-a para Celso Pitta. Gozando de uma espécie de Seguro-Desemprego jamais conhecida por qualquer cidadão brasileiro, foi ele reconduzido a outro cargo, mais uma vez de Ministro, desta vez da Saúde. E concluiu sua administração da pasta? Mais uma vez não: lançou-se candidato à Presidência da República. Resultado? Derrota. Do limbo político em que mergulhou – ou das trevas, como diriam outros – candidatou-se à Prefeitura de São Paulo, à qual logrou. Porém, menos de um ano e três meses depois, deixou a administração da maior cidade da América Latina a um político sem expressão nenhuma até o momento. E apresentou-se como candidato a Governador.
Pois se o seu amor por São Paulo é tão intenso como diz, seria de se esperar que continuasse no governo até o fim de seu mandato. E, até – valha-nos Deus! – que tentasse a reeleição. Por que, então, abandonar seus eleitores por uma aventura meramente pessoal? Porque ele tem uma obsessão, como declarou ao deixar o cargo.
Uma obsessão! Esta palavra fere os ouvidos até dos menos incultos, dentre os quais, acredita-se, ou acreditava-se, o defuncto Chirico, o Breve, não gostaria de se ver incluído. E ele pronunciou-a, e a seu modo de ver o mundo, com toda a ênfase: “Sou considerado um grande obsessivo, mas minha grande obsessão foi servir aos interesses gerais do meu estado e do meu país”.
Ora, uma obsessão, salvo ignorância de quem usa o termo, o que não parece ser o caso, seria um tipo de mania, ou melhor, uma patologia, que necessecita de um tratamento psicológico, e clínico, adequado. Como, também, em termos espíritas – concordemos com eles ou não – o resultado da influência nefasta de espíritos mal-intencionados sobre uma pessoa. Portanto, o que justificaria seu emprego naquela solene despedida do cargo? Pobreza vernacular (ignorância), declaração de princípios (mal ocultada, por julgar a audiência abaixo de sua pessoa), ou exposição de sua alma e de sua psique (revelada por uma sensação inerente de culpa que não lho permite silenciar – à qual chamam, por vezes, de lapsu linguae)?
Jamais saberemos o que se passa pela cabeça do, doravante, Cidadão Chirico, o Breve. Mas sinto-me forçado a reformar uma antiga suspeita. Não chegaria ao ponto de dizer, como alguns amigos, que, dado o hábito daquele senhor de tantas vezes candidatar-se a cargos públicos cada vez mais poderosos (e visto que anunciou seu afastamento do Palácio dos Bandeirantes na Quarta-Freira de Trevas), sua intenção seria anunciar-se como o Salvador da Pátria, ressucitado, em pleno Domingo de Páscoa.
Não! Isto é uma infâmia! Acredito piamente que o Chirico, o Breve, jamais se deixaria aproximar de tal heresia – sabe-se, aliás, que ele, espiritual e intelectualmente, sempre esteve ligado à sua paróquia na Mooca. E, depois, as campanhas não lhe dão tanta vantagem assim.
Mas como gosto de me precaver, peço, mais uma vez, a Deus – por conta dos trâmites eleitorais, ou pelo passar do tempo e da política, ou quanto aos dias que nos esperam no futuro, e, por garantia – que Ele conserve em saúde o Santo Padre. Pois, na sua ausência, não é de se duvidar que surja um candidato paulista, deixando o cargo, qualquer que seja ele, que porventura ocupe. Pois não seria bem do feitio de uma certa pessoa candidatar-se a uma vaga num puleiro ainda mais alto, ainda mais sensacional?
Em vista de tudo isto, e de outras mais, compunjamo-nos, todos, portanto, pelo período de trevas que se iniciou na quarta-feira passada. Que Deus expulse as trevas. E uma Feliz Páscoa.

[Publicado originalmente no Jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].

terça-feira, 30 de março de 2010

Educação doméstica: esta moda pega?

Os mineiros, de uma maneira geral, são bastante ponderados. Mas quando cometem alguma bobagem, às vezes ela é monumental. Dizem que a maior delas foi Brasília...
Brincadeiras à parte, é curioso este episódio do casal da cidade de Timóteo, MG, condenado pela Justiça por “abandono intelectual” dos filhos, visto que há quatro anos os retiraram da escola para que fossem educados em casa. Um pormenor interessante é que os rapazes, submetidos a uma prova de conhecimentos gerais elaborada pela Secretaria Estadual de Educação, não só foram aprovados como também conseguiram uma nota acima da média. E, ao que parece, os pais não possuem método educacional nenhum, deixando os estudos ao critério dos filhos.
O sucesso dos rapazes, neste caso, diante do exposto, deve ter se dado mais pela boa natureza e discernimento de ambos do que pela eficácia da educação doméstica. Pois, francamente, pensemos na maioria dos adolescentes que conhecemos se expostos a tais direitos de escolha, senhores de sua própria educação: ao cabo de um ano, ao invés de aprovados em sabatinas, seriam especialistas em Twitter, profundos conhecedores de frivolidades que circulam na internet ou coisas que tais. Em suma, se no caso dos mineiros deu certo, foi porque o material humano dos jovens era bom, de fato. Circunstância que não deve ser generalizada, evidentemente.
Esta história de educação caseira, entretanto, não é uma exclusividade daquela família mineira. Em todo país, sobretudo no Sul, tem aumentado o número de famílias que preferem que seus pimpolhos estudem só e exclusivamente em casa. Parece que é um modismo importado dos EUA, o nascedouro de nove entre dez excentricidades. Mas por lá existe toda uma série de aspectos por trás da questão. Muitos norte-americanos, por exemplo, tem uma tal aversão ao Estado, e a tudo que ele representa, a ponto de pretenderem passar ao largo de qualquer relação com “os burocratas de Washington”. E alegam razões tanto políticas quanto – na maioria dos casos – religiosas para tal comportamento. Por isso, metem seus rebentos em casa para lerem a Bíblia e aprenderem com o Arcebispo (anglicano) Ussher, que a Terra foi criada exatamente às 9 horas da manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C....
No fundo o que verdadeiramente tem ocorrido, no caso do Brasil, para criarem-se tais manias, nada mais é do que a insatisfação de uma certa classe média que se indigna com tudo, menos com o que deveria. Critica o Estado mas não se opõe a ele, somente às suas representações. Acostumada que está a viver em cápsulas (o trabalho monótono, o clube, o condomínio, o shopping center), pretende que seus filhos também vivam encapsulados, convivendo somente entre os “eleitos”, livres da convivência democrática (que para tal segmento social cheira à baderna – bom mesmo era no tempo da ditadura e do “sabe com quem está falando?”) que os filhos usufruiriam nas escolas.
Convenhamos que o ensino – público ou privado – tem se revelado muito insatisfatório em nosso país. No Estado de São Paulo, então, a situação é calamitosa desde, os leitores sabem muito bem, que um certo partido agarrou-se ao poleiro do poder por aqui. Se o raciocínio do casal de Timóteo vingasse nestas terras, a rede pública de ensino fecharia por falta de público – iriam todos para a privada. E não se culpe o professor por isto, é toda a estrutura que está errada, do maternal ao vestibular (e, em grande parte, nas próprias universidades também).
Ora, educação não é só transmissão de informações. É convívio com o outro, é troca entre colegas, multidisciplinaridade, convívio, e outras coisas mais que uma casa, por melhor abastecida de livros que possa ser, é incapaz de dar. Ou mesmo os pais seriam capazes, por mais bem intencionados que sejam.
Em suma, educação em casa é indispensável. Mas para que reafirme ou até conteste o que se aprende fora dela. O que ela não pode ser é exclusiva.
Não acredito que este modismo vingue. Entretanto no Brasil, em se tratando de modismos ruins, tudo é possível.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].

Toda ponte paira sobre o vazio

Em crônica intitulada “Um novo cartão-postal paulistano”, de 15 de dezembro de 2007, tratei, neste espaço, de uma certa ponte estaiada que se ergueu sobre o rio Pinheiros – aquele que separa o Palácio dos Bandeirantes da verdadeira São Paulo.
À época comentei a falta de necessidade de um tal projeto e método construtivo, e mencionei outras pontes muito maiores às quais tentaram comparar aquela pretensiosa pinguela pênsil sobre o rio. Dentre elas, citei a Ponte do Brooklyn, de Nova Iorque, e a Golden Gate, de São Francisco, Califórnia. E meio que conclui dizendo:

É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!”.

Pois é, a macaquice campeia. Agora se quer construir um arremedo nanico de uma Golden Gate ligando Santos ao Guarujá. E, por conta disto, até o nosso Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o sempre solícito e disponível Chirico, desceu a serra para inaugurar...uma maquete!
Os defensores do projeto alegam que aquele monstrengo – a ponte, não o Excelentíssimo Senhor Governador – é uma demanda das duas cidades, visto que as ligaria mais rapidamente. Ora, quem as conhece sabe que já existe serviços de balsas e barcas cumprindo tal fim, e para quem quer ir de automóvel, uma ponte que as une mais para o interior, aliviando o fluxo dos centros daquelas cidades. Com o novo projeto, pretende-se justamente intensificar o tráfego nos centros dos dois municípios, uma idéia condenada por dez entre dez urbanistas de qualquer parte do mundo. E por quem pensa um pouco que seja e conhece Santos e Guarujá. Pois imaginemos os fins-de-semana prolongados e as temporadas, quando milhares de automóveis despencam serra abaixo rumo ao local. Pensemos como ficariam aquelas cidades frente a uma nova e intensa circulação de automóveis, acima dos números absurdos ao quais já se sujeitam. Um caos, um verdadeiro caos. Ou melhor, dois: um para cada uma.
E não falamos ainda do impacto paisagístico. Pois, convenhamos, Santos está longe de ter um dos melhores cenários em seu entorno. Salvam-lhe da completa feiúra o mar – este ninguém consegue impedir de ser o que é – e o estuário com a Serra do Mar ao fundo. Pois é justamente neste último que querem meter o raio da ponte, arruinando de vez aquela bela vista.
E tudo isto para quê? Para brincarmos que somos norte-americanos, copiando-lhes os prédios, as pontes, imitando-lhes o número de automóveis e o consumo desenfreado, fingindo que somos o que não somos, ou o que meia dúzia de brocoiós gostaríamos que fôssemos.
Em suma, tudo que disse da outra ponte, reitero e acrescento para a nova, que sequer saiu do papel e será completada e paga não pelo Chirico, o Breve, mas por quem quer que lhe herde a cadeira. E tomara que ela não vingue, que não passe da reles maquete que é. Basta de macaquices caras e de construir pontes sobre um vazio de idéias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de março de 2010].