Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Contra o calor
Assim como há quem prefira o azul ao vermelho, o queijo minas ao queijo prato, e as listras aos xadrezes, há também aqueles que preferem o frio ao calor. E, dentre os últimos, inscrevo-me na turma da frente dos primeiros desde que me conheço por gente: mil vezes uma fresca aragem correndo por sobre a pele do que um bafo quente castigando o couro; e um milhão de vezes dormir debaixo de cobertas que seminu, implorando por uma brisa que sopre da janela quando nem o ventilador de teto da conta. Ar-condicionado, evidentemente, é muito bom. Mas há sempre o desconforto criado quando deixamos um ambiente sob sua graciosa mercê e enfrentamos o mundo real. Portanto, o ideal é um clima ameno. E, acredito, em vista da onda de calor que vimos atravessando, tenho certeza de que o número de correligionários em prol do frio, ou seus admiradores, há de aumentar.
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
As Chuvas, outra vez
Numa crônica (De volta à colônia, de 5/5/2007) publicada neste mesmo espaço, referi-me, em linhas gerais, à perpétua repetição de certos eventos dignos de comentários que, dada a sua regularidade, dir-se-ia serem mesmo sazonais. Ou seja, o que pensei na hora, mas que então não pus em letra de forma, como se diz, foi que parecia haver, de fato, uma espécie de estação do ano para que ocorressem tais episódios; ou, ainda, que mesmo que livres de uma tal regra, visto que todos os anos ocorria algo do gênero, tratar de tais temas era tão obrigatório, e esperado, quanto escrever a crônica do Natal, do Fim do Ano, etc.
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:
O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:
Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:
E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:
Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:
“Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais”.
O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:
“[...]a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc”..
Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:
“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. [...]Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:
“ [...] São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país”.
Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].
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De alguns milagres e coisas que tais
O agudíssimo filósofo Voltaire (1694-1778), numa série de textos tornados imprescindíveis ao conhecimento dos homens inteligentes, tratou largamente da questão dos milagres e de uma maneira tal que quase os inviabilizava. Pois, segundo ele, em termos gerais, se um milagre é uma violação das leis eternas e imutáveis estabelecidas por Deus, ninguém mais do que Ele seria zeloso pelo cumprimento das mesmas. Seria, portanto, impossível que um Ser infinitamente sábio criasse normas passíveis de serem quebradas, ainda que pelo onipotente criador daquelas normas. Pois Ele nada teria feito sem razão e, pois, com que razão poderia Ele desfigurar, por algum tempo que fosse Sua própria obra? Da mesma maneira, dada a relativa raridade dos milagres, seria possível supor que o Criador agisse em prol de algumas pessoas em específico e que ignorasse os anseios ou necessidades de milhares, se não milhões, de outras. Mas se houvesse tal distinção entre uns e outros, seria necessário que Ele mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares como doutrina a ser seguida, como prática a ser cumprida por Seus fiéis, e veríamos Sua figura, enquanto ideal de extrema Justiça, de forma bastante enviesada. Ou relativizada. O que seria impossível a um Absoluto de tão excelente natureza. De forma que, para encerrar a questão de uma maneira que fosse conveniente à questão da Onipotência divina e que não ferisse a lógica, o sábio francês acabou por renegar os milagres enquanto eventos maravilhosos, inesperados e contrários à natureza, preferindo-os definir como ação deliberada da Providência, nada aleatória e nem um pouco inexplicável. E assim Voltaire silenciou por um tempo seus censores enquanto apaziguava sua consciência.
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].
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sábado, 15 de janeiro de 2011
Reflexão num dia de chuva
[Texto publicado em 15 de janeiro de 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento.
Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers. EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da Jihad contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, saca seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Papai Noel subiu no telhado...
Por iniciativa de uma entidade assistencial ligada à Confederação dos Bispos da Alemanha, foi criada uma campanha intitulada “Zona livre de Papai Noel”. Seu objetivo é o de resgatar São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), no século IV, que, por ajudar as pessoas pobres e ser um amigo das crianças, serviu de inspiração para o símbolo do Natal. E a causa do resgate de seu culto relacionado a tal data é bem simples: porque este santo sempre foi o símbolo da celebração natalina naquele país (ao lado do Presépio, é claro, o primeiro e mais importante) e porque se pretende combater o “consumismo” nas festas de fim de ano, identificado com o “Bom Velhinho”. A pequena cidade alemã de Fluorn-Winzeln aderiu ao apelo da campanha e declarou seu território, portanto, uma “Zona livre de Papai Noel”: as escolas e os comerciantes retiraram as decorações relativas ao recém-banido Noel, e colaram, nas vitrines e muros da região, adesivos com um sinal de “proibido”. E cartazes com o rosto do personagem atravessado por uma faixa vermelha, semelhante às placas de trânsito de “proibido estacionar” podem ser vistos no interior de lojas, repartições públicas e junto à sinalização que marca as entradas do município. Especula-se que outras municipalidades irão aderir ao movimento.
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:
“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.
É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:
“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.
É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].
A Mais delicada pessoa que conheci
“Voialtri pochi che drizzaste il collo
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.
Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.
Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].
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