O Festival de Inverno de Ouro Preto foi, por décadas, um dos eventos culturais de maior importância no país. Para ele vinham artistas e público das mais diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas apresentações, peças e oficinas tornaram-se lendárias, e o número de inscritos para muitas atividades superava em muito o de vagas. Este quadro durou, seguramente, até alguns poucos anos atrás, quando a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que cuidava do festival, desentendeu-se sabe lá com quem e montou um outro evento em Diamantina. De lá para cá, a decadência mostrou-se visível, ainda que não acentuada. E, neste ano, a situação revelou-se traumática. Poucos espetáculos, muitos artistas desconhecidos, oficinas entre passáveis e sofríveis e um sensível esvaziamento de espectadores e participantes.
O motivo, alegado, para a edição deste ano ter sido muito abaixo de passável, foi, segundo os organizadores, a crise mundial. Poucas empresas teriam encampado o patrocínio e dado menos dinheiro que o esperado. Vá lá que isto seja verdade. Todavia nada justifica o fato de que a programação completa somente foi divulgada no exato primeiro dia do festival. Assim, nem quem quisesse vir poderia estar por aqui. Faltou-se apenas culpar a gripe H1N1, a outra vilã da vez, pelo pouco comparecimento de público e artistas...
Está bem, não sejamos tão duros. Se faltou dinheiro, poderiam caprichar nos cuidados gerais, certo? Na valorização dos artistas regionais, etc. Pois é, isto também não ocorreu.
O som era péssimo, a ponto dos próprios técnicos queixarem, bem como da acústica do local e do palco. Em suma, ou tinha-se barulho, ou uma chiadeira miserável. Num espetáculo de dança, por sinal, o som foi interrompido durante toda uma cena!
Os sanitários químicos eram insuficientes, mesmo com a reduzida audiência – e neste ponto, até que foi bom: não quero nem imaginar o resultado de uma multidão tendo a seu dispor apenas doze cabines.
Quanto aos artistas locais e regionais, que são muitos, não tiveram o destaque que mereciam. Nem mesmo quando eram as estrelas da noite. Ou apresentavam-se longe do palco principal, em horários inexequíveis, ou tinham ordem de deixar o palco logo depois do espetáculo, sem bisar uma vez sequer. E, à meia-noite, pouco mais ou pouco menos, encerrava-se completamente o espetáculo, quando, pela tradição, o evento estendia-se madrugada a fora.
Os únicos pontos positivos a serem destacados foram três. Em primeiro lugar, a mudança do palco principal, da combalida Praça Tiradentes para a nova Praça da UFOP, junto ao centro de convenções, no Pilar. Uma boa medida para preservar os monumentos do centro da invasão de uma massa saltitante, gritante e dançante. O segundo ponto foi a ótima apresentação daquele estupendo grupo teatral que é o Galpão, adaptando de maneira circense a história de Till Eulenspiegel, uma mistura de Pedro Malasartes e Macunaíma alemão. Ótimos, como sempre, e brindando a cidade com uma encenação que recém estreou em Belo Horizonte. E, por fim, a apresentação daquele jovem mestre do violão que é Yamandú Costa. Perfeito, simpático, brilhante.
No mais, foi tudo muito fraco e triste. O ácido bom humor ouropretano sequer poupou, em represália, o nome do festival. Era comum ouvir as pessoas perguntarem umas às outras o que estavam achando do “Funeral de Inverno”.
Esperemos que fique só na blague, pois o Festival, quando bem feito, é ótimo. Mas o clima geral era de melancolia. Fim de festa. Quase velório. O que é uma pena...
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de julho de 2009]
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