Os mineiros, de uma maneira geral, são bastante ponderados. Mas quando cometem alguma bobagem, às vezes ela é monumental. Dizem que a maior delas foi Brasília...
Brincadeiras à parte, é curioso este episódio do casal da cidade de Timóteo, MG, condenado pela Justiça por “abandono intelectual” dos filhos, visto que há quatro anos os retiraram da escola para que fossem educados em casa. Um pormenor interessante é que os rapazes, submetidos a uma prova de conhecimentos gerais elaborada pela Secretaria Estadual de Educação, não só foram aprovados como também conseguiram uma nota acima da média. E, ao que parece, os pais não possuem método educacional nenhum, deixando os estudos ao critério dos filhos.
O sucesso dos rapazes, neste caso, diante do exposto, deve ter se dado mais pela boa natureza e discernimento de ambos do que pela eficácia da educação doméstica. Pois, francamente, pensemos na maioria dos adolescentes que conhecemos se expostos a tais direitos de escolha, senhores de sua própria educação: ao cabo de um ano, ao invés de aprovados em sabatinas, seriam especialistas em Twitter, profundos conhecedores de frivolidades que circulam na internet ou coisas que tais. Em suma, se no caso dos mineiros deu certo, foi porque o material humano dos jovens era bom, de fato. Circunstância que não deve ser generalizada, evidentemente.
Esta história de educação caseira, entretanto, não é uma exclusividade daquela família mineira. Em todo país, sobretudo no Sul, tem aumentado o número de famílias que preferem que seus pimpolhos estudem só e exclusivamente em casa. Parece que é um modismo importado dos EUA, o nascedouro de nove entre dez excentricidades. Mas por lá existe toda uma série de aspectos por trás da questão. Muitos norte-americanos, por exemplo, tem uma tal aversão ao Estado, e a tudo que ele representa, a ponto de pretenderem passar ao largo de qualquer relação com “os burocratas de Washington”. E alegam razões tanto políticas quanto – na maioria dos casos – religiosas para tal comportamento. Por isso, metem seus rebentos em casa para lerem a Bíblia e aprenderem com o Arcebispo (anglicano) Ussher, que a Terra foi criada exatamente às 9 horas da manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C....
No fundo o que verdadeiramente tem ocorrido, no caso do Brasil, para criarem-se tais manias, nada mais é do que a insatisfação de uma certa classe média que se indigna com tudo, menos com o que deveria. Critica o Estado mas não se opõe a ele, somente às suas representações. Acostumada que está a viver em cápsulas (o trabalho monótono, o clube, o condomínio, o shopping center), pretende que seus filhos também vivam encapsulados, convivendo somente entre os “eleitos”, livres da convivência democrática (que para tal segmento social cheira à baderna – bom mesmo era no tempo da ditadura e do “sabe com quem está falando?”) que os filhos usufruiriam nas escolas.
Convenhamos que o ensino – público ou privado – tem se revelado muito insatisfatório em nosso país. No Estado de São Paulo, então, a situação é calamitosa desde, os leitores sabem muito bem, que um certo partido agarrou-se ao poleiro do poder por aqui. Se o raciocínio do casal de Timóteo vingasse nestas terras, a rede pública de ensino fecharia por falta de público – iriam todos para a privada. E não se culpe o professor por isto, é toda a estrutura que está errada, do maternal ao vestibular (e, em grande parte, nas próprias universidades também).
Ora, educação não é só transmissão de informações. É convívio com o outro, é troca entre colegas, multidisciplinaridade, convívio, e outras coisas mais que uma casa, por melhor abastecida de livros que possa ser, é incapaz de dar. Ou mesmo os pais seriam capazes, por mais bem intencionados que sejam.
Em suma, educação em casa é indispensável. Mas para que reafirme ou até conteste o que se aprende fora dela. O que ela não pode ser é exclusiva.
Não acredito que este modismo vingue. Entretanto no Brasil, em se tratando de modismos ruins, tudo é possível.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].
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