O Antigo Testamento refere-se a alguns causos curiosíssimos. Não falo dos sete dias da Criação, de Adão ser feito de barro e Eva de sua costela, porque, afinal, um Deus supremo é capaz de tudo. A curiosidade começa a partir de Gn 4:14, quando lemos o que Caim diz ao Criador temer que o primeiro que o encontre acabe por matá-lo. Como assim? Havia mais gente no mundo, que não os filhos do casal primordial? E foram criadas pelo mesmo Deus? Ou por outro? Interessantíssimo...E a confusão só aumenta quando vemos que, logo em seguida, nos versículos 17-19, “
Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Enoque. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Enoque. /Enoque gerou Irade, Irade gerou Maviael; Maviael gerou Matusael, Matusael gerou Lameque./ Lameque tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela”. E tudo se agrava ainda mais quando sabemos, no mesmo capítulo, versículo 26, da descendência do caçula da família adâmica: “Sete teve também um filho, que chamou Enos”. Filho, não filha, logo a mulher de Caim não poderia sequer ser sua sobrinha. E o que dizer da mulher de Sete? E com quem casaram-se Enoque, Irade, Maviael e Matusael? E filhas de quem eram Ada e Sela? Mistério... Quem baseia-se no princípio da
Sola Scriptura deve se sentir num mato sem cachorro. Daí a importância da tradição, andando lado a lado com a Bíblia, ao menos no que diz respeito a dirimir certas dúvidas, se não de natureza místicas, ao menos, vá lá, históricas. Pois, segundo Genebrardo (
Chronographiae libri quatuor...,1580, l.1), Caim teria uma irmã gêmea, Calmaná, e Abel, outra, de nome Delbora, de acordo com a tradição rabínica, conforme Frei Bernardo de Brito em sua
Monarchia Lusitana, 1597, l.1. Mas boa parte das perguntas feitas acima ainda não foram esclarecidas.
A coleção de
causos é incomparável. Como aquela infinidade de personagens gerando filhos aos noventa nos de idade e morrendo com mais de trezentos. Ou a arca prodigiosa que abrigou sabe-se lá quantos milhões de indivíduos em 64.745 m3, ou aproximadamente 26 piscinas olímpicas. E lá estavam, protegidos do dilúvio, e alimentados por oito pessoas, incontáveis indivíduos, macho e fêmea de cada espécie, do tamanduá ao ornitorrinco. Como estes últimos desceram do monte Ararat, na atual Turquia, e vieram parar, um na América do Sul, outro na Austrália, infelizmente a Bíblia não revela. Nem o que ocorreu com os peixes de água salgada ou de água doce, já que todas, em princípio, se misturaram.
A série não tem fim. Basta pensarmos em Sansão dizimando um exército inteiro, Elias levado aos céus num carro de fogo, Josué parando o sol nas alturas, e na burra falante de Balaão.
Todavia o que parecia ser um tremendo
causo dos bons, parece que de fato foi verdade. Este seria o caso da travessia dos hebreus através do Mar Vermelho, liderados por Moisés. A passagem é a seguinte: “
Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se/ e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda” (Ex 14: 21-22).Pois segundo dois pesquisadores norte-americanos, de acordo com simulações por computador, um vento cuja velocidade fosse próxima a 100 km/h, soprando sobre a desembocadura do rio Nilo durante 12 horas, seria capaz de fazer regredir as águas e abrir uma passagem com alguns quilômetros de largura. Quer dizer, não teria sido o Mar Vermelho a ser aberto, mas sim o chamado “mar de Caniços”, uma área pantanosa onde o Nilo encontra o mar Mediterrâneo. Um evento que, documentadamente, teria ocorrido também em 1882, na região, segundo o depoimento de oficiais britânicos ali sediados. Mas não consta que, nesta época mais recente, nenhum “povo escolhido” estivesse fugindo do cativeiro egípcio.
Pois bem, ainda que causas climáticas, que podem ter se repetido várias vezes, mesmo que sem registro, no exato local, possam ter sido as que permitiram a travessia de Moisés, tais, ao contrário do que muitos possam pensar, em nada depõem quanto à veracidade do relato tradicional. Santo Agostinho muito bem esclareceu, em várias ocasiões, que Deus pode ter se utilizado de meios naturais diversos para o cumprimento de Sua vontade. Soa meio como um
Deus ex machina mas é melhor que uma ação divina
ex nihilo: um milagre hollywoodiano em
cinemascope, como a maioria das pessoas parecem enxergar a maneira como o Criador costumaria agir.
Mas resta um problema sério quanto ao episódio – diga-se, antes de tudo o que se segue, que os pesquisadores não alegaram, em momento algum, terem provado a veracidade do relato tal como consta do
Êxodo. E tal se daria, segundo diversos historiadores e arqueólogos, por diversos fatores. O primeiro decorre do fato de que não há uma menção sequer à fuga dos hebreus nos registros egípcios. Tudo bem, pode-se dizer que os dominadores não quiseram deixar rastros de tal acachapante derrota. Mas, em segundo lugar, jamais se encontrou qualquer artefato relacionado à errância de quarenta anos do povo de Moisés pelo Deserto – um tempo, aliás, que deve ter se baseado na mesma cronologia insólita que fazia as pessoas morrerem com trezentos anos de idade, pois quatro décadas, perdidos, é demais, só se andassem em círculo, o que logo perceberiam: e se assim não o fosse, ou teriam chegado à Europa ou à Índia, senão à China. E, em terceiro lugar, tanto a língua, quanto os objetos pertencentes aos povos que formariam mais tarde o reino de Israel, são quase idênticos àqueles dos povos que já habitavam a antiga terra de Canaã. Ou seja, não haveria êxodo algum: se tanto, uma migração.
No fundo, quer a travessia das águas tenha se dado em razão de uma causa natural, ou pela vontade de Deus, ou por esta agindo sobre aquela, ou ainda que todas elas jamais tenham ocorrido, isto é o que menos importa, ou menos deveria importar, para quem toma as Escrituras como um guia espiritual. E nem digo moral, porque a conduta de alguns patriarcas e profetas do Antigo Testamento é de eriçar os cabelos, de tão
cabeludas que foram. Sem falar do comportamento do velho Javé veterotestamentário, cuja cólera faz mais lembrar um impaciente Júpiter, do que a justíssima primeira pessoa da Trindade. Disse que tais questões acima expostas não importam, porque o Antigo Testamento não pode, nem deve, ser tomado como o único e absoluto
vade mecum da Cristandade, nem, muito menos, enciclopédia da vida na Terra, da qual retiramos placidamente nossos conceitos quanto às ciências biológicas, quanto à física, à história, economia, tributação, política, etc.
É um livro de um “reino que não é deste mundo”. E tão só. O que, de maneira nenhuma, diminui sua importância e valor, pelo contrário. Pois seu objetivo é completamente outro, e que, no entanto, só é conhecido individualmente, quando o é, e caso, de fato, o possa vir a ser. Mas, reiteramos, ele nunca será
o único livro. E é bom desconfiar de quem afirma isto e diz-se pautar apenas por ele. Pois como bem dizia São Tomás de Aquino,
odie hommo liber unicum: “repudio o homem de um livro só”. O que certas pessoas fazem a partir do Corão, aliás, é um ótimo exemplo disto.
[Publicado originalmente no jornal
A Notícia, de Leme, SP, em 25 de setembro de 2010].