sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Heróis e heróis

O humorismo, espontâneo, em nosso país não poupa nada. Digo espontâneo, porque o profissional anda cada vez mais chapa-branca, quando não infantilóide, reciclando pretensos sucessos de vinte anos atrás: Marcelo Tas, do CQC, por exemplo, não faz outra coisa que não repetir o seu personagem, Ernesto Varela, dos anos 1980. E, depois, datado seria o Chico Anysio... Mas, voltando ao tema inicial, o fato é que nem o episódio ocorrido recentemente no Chile escapou das piadas. Uma das boas que ouvi afirmava que tudo correu bem entre os 33 homens debaixo da terra porque eles eram mineiros: se fossem cariocas, teriam se dividido em facções pelo controle dos cigarros. Outra garantia que todos sobreviveram porque não eram gaúchos: se fossem, pelo menos um teria virado churrasco. Piada, aliás, que valeria para argentinos, também. Mas um comentário geral que ouvi foi que tudo até que pareceu bem lucrativo para eles, afinal, tornaram-se heróis nacionais, ganharam ingressos para disputadíssimos jogos europeus, cruzeiros para as ilhas gregas e muito, muito dinheiro. Houve gente que até disse que gostaria de ter passado o mesmo que eles passaram, só pelo prêmio, chamando o episódio de “um Big Brother com uma câmera só”.
E que circo foi aquele armado pela imprensa! Muitas vezes eu acho que, diante de tais espetáculos, sobretudo porque são involuntários, seus participantes deveriam ser regiamente pagos. Desastres como este, por exemplo. Aliás, todos eles. Pois vejamos bem alguns pontos. As únicas pessoas que deveriam realmente assistir, dia e noite, à cobertura do resgate, seriam os familiares, amigos, patrões e colegas daqueles mineiros. Os demais, vidrados nas telas de televisão, nada mais procuram nelas que, em tais casos, uma espécie de divertimento macabro (muitas vezes torcendo para que alguém morresse), ou voyerismo da desgraça alheia. Estes, de um lado. De outro, temos as emissoras de TV, rádio, jornais, etc., que percebem estes gostos mórbidos de sua clientela e apressam-se em satisfazê-lo da maneira mais ininterrupta possível – salvo para os comerciais, evidentemente. Fico imaginando a fortuna que deve render àquelas empresas... E aos atores do drama, nada. Ou quase nada...
Outra coisa que dá o que pensar é o tratamento de heróis dados às vítimas daquele infortúnio. Heróis não seria um pouco de exagero? Está certo, padeceram horrores ali, longe de suas famílias, sem conforto algum, etc. Por outro lado, o que poderíamos esperar deles? Que matassem uns aos outros? Que se alimentassem dos mais fracos quando a comida estivesse acabando? Que regredissem a uma condição inferior à selvageria? Que se tornassem algo abaixo do humano? É por que não sucumbiram a descalabros que se tornaram heróis? Convenhamos, é esperar muito pouco do gênero humano e de profissionais cujo interior de uma mina é o seu dia a dia ou sua noite sem fim. Acredito sinceramente que o termo correto seria vítimas, ao qual se poderia somar a expressão que se comportaram bravamente. Pois heroísmo, de fato, vi na equipe de socorro que desceu por aquele tubo numa engenhoca que ninguém sabia se daria certo. E voluntariamente, para salvar seu próximo. Estes sim, em minha opinião, foram os verdadeiros heróis.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de outubro de 2010].

Um pesadelo sem fim

Na semana passada, manifestei aqui minha extrema frustração e tristeza com o debate dos candidatos ao governo federal (e, no calor das emoções, até grafei um “observrador”, em lugar de “observador"), quer em relação aos participantes, quer à organização do mesmo. E concluí, numa tentativa honrada, exortando os leitores a evitarem votar nos “tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos”, visto que a “democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários”.
Porém muito mais triste foi o resultado das urnas! A corriola que deveria ser evitada foi consagrada nas urnas, a começar pelo inclassificável deputado federal mais votado no país. Sua eleição, sem dúvida, deporá contra o eleitorado paulista durante muitos anos. Por muito tempo não se poderá falar mal, como era costume, nestas terras, dos outrora famigerados políticos nordestinos, eleitos por uma malta de ignorantes. Pois em matéria de ignorância e irresponsabilidade política, São Paulo marcou um tento sem par, digno de entrar no rol das infâmias públicas nacionais. E que não se argumente que o voto no circense candidato foi uma mera reação de protesto: uma coisa é preencher a cédula eleitoral do rinoceronte Cacareco (100 mil votos para vereador na eleição paulistana de 1959), outra, muito diferente, é contabilizar votos, válidos, numa urna eletrônica. Em suma, observou-se a um desastre. E o pior é que ele foi anunciado. Mesmo assim, 1.353.820 abestados paulistas elegeram como seu representante uma figura, para dizer o mínimo, incapaz: pois quando um palhaço, que vive do riso, não se mostra sequer hábil o bastante para provocá-lo (palhaço, aliás, valeria como um título de pós-graduação frente às parcas atividades e míseros recursos cômicos que o citado senhor sempre apresentou), o que se pode dizer quanto a qualquer outra atuação pública? “Como palhaço, ele é um ótimo político”? Ou “como político, ele é um perfeito palhaço”? Duvido muito quanto à primeira proposta. Quanto à segunda, é bem possível que seja válida. Mas por que elegê-lo, em detrimento de outros vários, que cumpriam, à risca, igual papel?
Porém, o mais cruel resultado das urnas foi a eleição, em primeiro turno, do picolé de chuchu, do Senhor Pedágio, também conhecido como Mestre dos Presídios. Ela comprova não só a falta de organização política dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, como, ao mesmo tempo, o supremo descaso do eleitorado paulista frente a assuntos cruciais como a Educação, a Saúde, a Previdência Social em âmbito paulista e a Segurança Pública. Mais, do mesmo, mais uma vez, será sempre menos, e menos do mesmo. Todavia nossos bravos conterrâneos devem estar satisfeitos com o resultado. Quem sabe, agora, todas as cidades de nosso Estado poderão contar com presídios, pedágios, postos de saúde e escolas sucateadas. Poderemos ver grassar, em todas as nossas plagas, o ensino técnico – este prêmio de consolação que os governos dão aos filhos dos pobres que não ingressam nas universidades públicas. Pois, afinal, por que pretender entrar em universidades públicas, visto que elas são mais um ponto fraco das políticas educacionais da emplumada administração que governa nosso Estado faz duas décadas? Não! Que os jovens se lancem às privadas! Isto é, aqueles que sobreviverem ao analfabetismo funcional, endêmico, que nos assola desde os anos 1990.
Outro lastimável aspecto desta campanha eleitoral, que aqui ventilamos quando nos referimos à censura (?), melhor dizendo, à omissão da grande imprensa quanto a fatos relevantes ou críticas aos candidatos, plasma-se, claramente na atitude de um grande diário paulista quando demitiu uma de suas colunistas por estar não seguir a cartilha ideológica de seus patrões. E, depois, é o Presidente da República quem ameaça a liberdade de Imprensa? É ele, e tão somente ele, quem conta com órgãos jornalísticos intrinsecamente ligados à sua pessoa?
Quanto ao cachorro morto, confesso que o subestimei. Mas o que poderia fazer? Nada entendo da sobrevida dos vampiros, e de seus poderes, macabros, de regeneração... Cumpre agora, ao eleitorado nacional, exorcizá-lo de uma vez. Cravar uma estaca (ou poste) em seu peito. Porque o eleitorado paulista, longe de execrá-lo, só o alimentou com mais e mais sangue, de inocentes e ignorantes. Ou abestados...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de outubro de 2010].

Últimas palavras (não no sentido de definitivas, pois não sou pretensioso) sobre as eleições

Confesso que um dos episódios mais frustrantes a que assisti em toda minha vida, não só como cidadão, mas como observrador da política instaurada em nosso país, foi o último debate dos candidatos à Presidência exibido pela Rede Globo. Sobretudo em razão do apresentador e de um ou outro participante terem feitos comentários ao caráter democrático da iniciativa. Democrático uma ova! Iniciar um programas às dez e tanta da noite e encerrá-lo mais de meia-noite passada, não tem nada de democrático. O povo, que acorda cedo para o trabalho, jamais teria oportunidade de assisti-lo a contento. Democrático seria o debate se invadisse o sacrossanto espaço da telenovela das nove horas, da mesma maneira como um pífio jogo entre São Paulo e Grêmio o fez na véspera. Pois aos milhões de eleitores do país interessa muito mais ouvir as idéias dos postulantes ao cargo máximo de nossa República, do que o desempenho futebolístico de uma equipe do Sudeste e de outra do Sul.
Igualmente frustrante foi observar, no nefando debate, um venerando e honrado homem público paulista, da melhor grei, bater-se não por causas perdidas, mas, sim, por questões equivocadas, procurando abater seus aliados de outrora, e preservando de seus ataques seus inimigos de sempre.
Tristíssimo foi também observar que a nova oposição, dogmática, pouco tem a apresentar que não uma verdejante utopia mal sustentada pelas nuvens de sonho que a embalam em seus devaneios, justos, mas ainda assim devaneios.
E foi também de se lamentar o comportamento da candidata do governo. Suas palavras não inspiravam confiança, nem no tom, nem na dicção, nem nas propostas. Até o cachorro morto que é seu principal concorrente pareceu sobressair-se com uma ligeira vantagem.
Faltou à candidata oficial do poder ora em exercício ter explicitado certas pujantes questões não mencionadas pela grande imprensa, esta mesma que afirma que seu padrinho quer cassar-lhes os direitos de pública manifestação. Se o “líder” da candidata falou de um “partido da grande imprensa”, não estava totalmente equivocado. Vejam-se as análises de campanha da grossa media, os malabarismos que esta faz com os números das pesquisas, e sua tentativa de inocentar, ou tomar como mártir, uma jovem senhora cujo sigilo bancário teria sido violado, ao passo que a mesma, quando proprietária de uma empresa de inquietantes relações com o poder público, escancarou os dados financeiros de mais de quarenta milhões de contribuintes! Por que o silêncio, da grande imprensa ante a tal fato, divulgado pela revista Carta Capital? Acaso ninguém a lê? Duvido. Os homens de grosso cabedal, os ricos, de fato, do país, a lêem. E saltaram da campanha do azarão tristonho. Ah! Mas ele, como já dissemos, é só um defuncto governador. Ainda que bem relacionado, diga-se, Pois conseguiu sustar por um dia, ao menos, junto a um seu contato no STF, e por telefone, o pleno acesso ao voto: o quase derrotado candidato queria impedir que os eleitores votassem com apenas com a universal célula de identidade, insistindo que todos comparecessem com ela e o título de eleitor, aquele documento que, junto com o certificado de alistamento, sempre perdemos em mudança de uma casa para outra, ou do armário para a cômoda.
O que tinha a dizer quanto aos candidatos em nível federal, já disse. No âmbito estadual, vale o mesmo raciocínio. Vejam quem está , ou procurando chegar , e quem está aqui, ou tentando chegar aqui, ou não querendo largar o osso que aqui rói. Aliás, é patético verificar que um partido, ajudado por umas tantas ou quantas instituições da dita sociedade civil, prega mudanças e alternância do poder e, ao mesmo tempo, não quer largar a carcaça, da qual sugou o tutano e mais além, perpetuando-se como se fossem eternos donos desta presa.
Opa! Agora me dei conta de que devo parar por aqui! Estas linhas sairão na véspera do pleito! E algum zelota, fariseu, sicário ou militante partidário poderia entender estas linhas como propaganda política fora de hora, além do prazo determinado por lei. Então, me calo. Ou melhor, irei sugerir apenas alguns pontos que não hão de ferir nenhum saduceu ou fiscal partidário. Nem, tampouco, aos soberanos, augustos, infalíveis e magníficos magistrados que nos regem.
Se minhas palavras, que os leitores estão acostumados a ler neste espaço, têm algum valor, que as valham nesta eleição. Portanto, sugiro que não votemos em palhaços, esportistas aposentados e sem futuro, tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos. A democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários. Política é para a maioria, não para a minoria: a qual deve ser respeitada, sem dúvida. E quem nega tal princípio, não é somente um safado eleitoreiro: é alguém que procurará, de fato, atentar contra a liberdade. De todos. E de cada um.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de outubro de 2010].

Repúdio aos homens de um livro só

O Antigo Testamento refere-se a alguns causos curiosíssimos. Não falo dos sete dias da Criação, de Adão ser feito de barro e Eva de sua costela, porque, afinal, um Deus supremo é capaz de tudo. A curiosidade começa a partir de Gn 4:14, quando lemos o que Caim diz ao Criador temer que o primeiro que o encontre acabe por matá-lo. Como assim? Havia mais gente no mundo, que não os filhos do casal primordial? E foram criadas pelo mesmo Deus? Ou por outro? Interessantíssimo...E a confusão só aumenta quando vemos que, logo em seguida, nos versículos 17-19, “Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Enoque. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Enoque. /Enoque gerou Irade, Irade gerou Maviael; Maviael gerou Matusael, Matusael gerou Lameque./ Lameque tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela”. E tudo se agrava ainda mais quando sabemos, no mesmo capítulo, versículo 26, da descendência do caçula da família adâmica: “Sete teve também um filho, que chamou Enos”. Filho, não filha, logo a mulher de Caim não poderia sequer ser sua sobrinha. E o que dizer da mulher de Sete? E com quem casaram-se Enoque, Irade, Maviael e Matusael? E filhas de quem eram Ada e Sela? Mistério... Quem baseia-se no princípio da Sola Scriptura deve se sentir num mato sem cachorro. Daí a importância da tradição, andando lado a lado com a Bíblia, ao menos no que diz respeito a dirimir certas dúvidas, se não de natureza místicas, ao menos, vá lá, históricas. Pois, segundo Genebrardo (Chronographiae libri quatuor...,1580, l.1), Caim teria uma irmã gêmea, Calmaná, e Abel, outra, de nome Delbora, de acordo com a tradição rabínica, conforme Frei Bernardo de Brito em sua Monarchia Lusitana, 1597, l.1. Mas boa parte das perguntas feitas acima ainda não foram esclarecidas.
A coleção de causos é incomparável. Como aquela infinidade de personagens gerando filhos aos noventa nos de idade e morrendo com mais de trezentos. Ou a arca prodigiosa que abrigou sabe-se lá quantos milhões de indivíduos em 64.745 m3, ou aproximadamente 26 piscinas olímpicas. E lá estavam, protegidos do dilúvio, e alimentados por oito pessoas, incontáveis indivíduos, macho e fêmea de cada espécie, do tamanduá ao ornitorrinco. Como estes últimos desceram do monte Ararat, na atual Turquia, e vieram parar, um na América do Sul, outro na Austrália, infelizmente a Bíblia não revela. Nem o que ocorreu com os peixes de água salgada ou de água doce, já que todas, em princípio, se misturaram.
A série não tem fim. Basta pensarmos em Sansão dizimando um exército inteiro, Elias levado aos céus num carro de fogo, Josué parando o sol nas alturas, e na burra falante de Balaão.
Todavia o que parecia ser um tremendo causo dos bons, parece que de fato foi verdade. Este seria o caso da travessia dos hebreus através do Mar Vermelho, liderados por Moisés. A passagem é a seguinte: “Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se/ e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda” (Ex 14: 21-22).Pois segundo dois pesquisadores norte-americanos, de acordo com simulações por computador, um vento cuja velocidade fosse próxima a 100 km/h, soprando sobre a desembocadura do rio Nilo durante 12 horas, seria capaz de fazer regredir as águas e abrir uma passagem com alguns quilômetros de largura. Quer dizer, não teria sido o Mar Vermelho a ser aberto, mas sim o chamado “mar de Caniços”, uma área pantanosa onde o Nilo encontra o mar Mediterrâneo. Um evento que, documentadamente, teria ocorrido também em 1882, na região, segundo o depoimento de oficiais britânicos ali sediados. Mas não consta que, nesta época mais recente, nenhum “povo escolhido” estivesse fugindo do cativeiro egípcio.
Pois bem, ainda que causas climáticas, que podem ter se repetido várias vezes, mesmo que sem registro, no exato local, possam ter sido as que permitiram a travessia de Moisés, tais, ao contrário do que muitos possam pensar, em nada depõem quanto à veracidade do relato tradicional. Santo Agostinho muito bem esclareceu, em várias ocasiões, que Deus pode ter se utilizado de meios naturais diversos para o cumprimento de Sua vontade. Soa meio como um Deus ex machina mas é melhor que uma ação divina ex nihilo: um milagre hollywoodiano em cinemascope, como a maioria das pessoas parecem enxergar a maneira como o Criador costumaria agir.
Mas resta um problema sério quanto ao episódio – diga-se, antes de tudo o que se segue, que os pesquisadores não alegaram, em momento algum, terem provado a veracidade do relato tal como consta do Êxodo. E tal se daria, segundo diversos historiadores e arqueólogos, por diversos fatores. O primeiro decorre do fato de que não há uma menção sequer à fuga dos hebreus nos registros egípcios. Tudo bem, pode-se dizer que os dominadores não quiseram deixar rastros de tal acachapante derrota. Mas, em segundo lugar, jamais se encontrou qualquer artefato relacionado à errância de quarenta anos do povo de Moisés pelo Deserto – um tempo, aliás, que deve ter se baseado na mesma cronologia insólita que fazia as pessoas morrerem com trezentos anos de idade, pois quatro décadas, perdidos, é demais, só se andassem em círculo, o que logo perceberiam: e se assim não o fosse, ou teriam chegado à Europa ou à Índia, senão à China. E, em terceiro lugar, tanto a língua, quanto os objetos pertencentes aos povos que formariam mais tarde o reino de Israel, são quase idênticos àqueles dos povos que já habitavam a antiga terra de Canaã. Ou seja, não haveria êxodo algum: se tanto, uma migração.
No fundo, quer a travessia das águas tenha se dado em razão de uma causa natural, ou pela vontade de Deus, ou por esta agindo sobre aquela, ou ainda que todas elas jamais tenham ocorrido, isto é o que menos importa, ou menos deveria importar, para quem toma as Escrituras como um guia espiritual. E nem digo moral, porque a conduta de alguns patriarcas e profetas do Antigo Testamento é de eriçar os cabelos, de tão cabeludas que foram. Sem falar do comportamento do velho Javé veterotestamentário, cuja cólera faz mais lembrar um impaciente Júpiter, do que a justíssima primeira pessoa da Trindade. Disse que tais questões acima expostas não importam, porque o Antigo Testamento não pode, nem deve, ser tomado como o único e absoluto vade mecum da Cristandade, nem, muito menos, enciclopédia da vida na Terra, da qual retiramos placidamente nossos conceitos quanto às ciências biológicas, quanto à física, à história, economia, tributação, política, etc.
É um livro de um “reino que não é deste mundo”. E tão só. O que, de maneira nenhuma, diminui sua importância e valor, pelo contrário. Pois seu objetivo é completamente outro, e que, no entanto, só é conhecido individualmente, quando o é, e caso, de fato, o possa vir a ser. Mas, reiteramos, ele nunca será o único livro. E é bom desconfiar de quem afirma isto e diz-se pautar apenas por ele. Pois como bem dizia São Tomás de Aquino, odie hommo liber unicum: “repudio o homem de um livro só”. O que certas pessoas fazem a partir do Corão, aliás, é um ótimo exemplo disto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de setembro de 2010].

Coronéis de meia pataca e o novo curralismo eleitoral

O eleitor de bom senso geralmente torce o nariz quando sente o cheiro de um candidato tresandando a curral eleitoral. É por este motivo, de um modo geral, que poucos coronéis são eleitos por um estado como São Paulo, por exemplo. O que não quer dizer que estejamos livres deles.
Alguns analistas políticos e historiadores, entretanto, vêm analisando a reformulação do coronelismo eleitoreiro nos últimos anos e têm chegado a interessantes constatações. A velha figura do senhor de terras, de terno branco e botas, já desapareceu da agenda política. Mas muitos de seus herdeiros – alguns de sangue, outros de ideário político – ainda estão aí, tratando a política na base de favores pessoais: o seu voto por uma “quebrada de galho” minha, parecem dizer. Neste rol entrariam os candidatos médicos – esta proliferação de Doutores Fulanos e Doutores Beltranos que vemos por aí, com direito ao Dr. antes do nome até no santinho e na, verbi gratia, cédula eleitoral: no nome de guerra, que aparece na urna eletrônica. Outros seriam os donos de rádios, que, por um dia terem cobrado das autoridades a pavimentação da rua dos Lírios na Vila Oncinha, ou mais iluminação na avenida dos Cravos, no Jardim Jabuti, até hoje contam com os votos daquelas comunidades. Mas é claro que há os grandalhões da turma, os proprietários de retransmissoras de televisão, que coíbem toda a crítica, sufocam a oposição, e repetem, em escala maior a defesa da Vila Oncinha e do Jabuti, a meia dúzia de municípios ou microrregiões. Um exemplo perfeito que abarca todos estes níveis de coronelismo moderno é o do defunto Antônio Carlos Magalhães (ex-Demo, porque morto: se vivo fosse, continuaria naquela agremiação). Outro que mistura o assistencialismo à política paroquial, e é herdeiro de sangue de uma das mais antigas oligarquias do país, é o deputado Bonifácio de Andrada, de Minas Gerais, do PSDB. Outro ainda, segundo o historiador cearense André Heráclio do Rego (Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº. 60, setembro de 2010), seria o seu conterrâneo, o senador Tasso Jereissati, também do PSDB. Coronelzinho agrário, do tipo dos velhos tempos, seriam poucos hoje em dia, e o mais evidente – que também é médico – é Ronaldo Caiado, outro Demo.
Porém as análises mais modernas consideram um coronel de uma forma mais ampla. De modo que os eternos detentores de cargos eletivos, gente que está no seu quarto ou quinto mandato, no mesmo posto, entraria para a lista dos mandões da política, dos mantenedores de currais. São eles os eternos defensores da microrregião tal, da cidade qual, desta ou daquela categoria de profissionais, empresários, funcionários públicos, militares, etc. Coroneizinhos de fancaria. Porque uma andorinha não faz verão. Que o digam todos os eleitores iludidos que votam nos “defensores” dos aposentados, do funcionalismo civil e militar, e por aí vai, mantendo eternamente certos nomes em trocas de migalhas, quando não em troca de coisa alguma, porque suas situações só deterioraram ao longo do tempo. Ex-delegados da Polícia Civil e ex-oficiais da Polícia Militar são verdadeiros modelos da inoperância frente às suas representações: que o digam os seus “representados”. É verdade que a turma do agro negócio (leia-se: “latifúndio monopolista”) consegue emplacar seus defensores, e estes são muito ativos em agradar seus amos. Mas fazem alguma coisa pelo grosso dos eleitores? Nada!
Aprendi com meu pai – homem honradíssimo, filho de um deputado federal mineiro e constituinte de 1934, e este também um homem de olímpica honradez – que acima dos interesses do curral e da paróquia está o bem publico universal. De modo que não se vota no Dr. Manuel dos Anzóis porque ele trará um quartel para Esperantópolis, em detrimento da Dra. Maria das Couves, que levaria o dito quartel para a vizinha Bonitolândia. Antes, é de se perguntar: necessitam, quaisquer uma delas, do tal quartel? E se, de fato, precisam, não está de bom tamanho que o mesmo venha para a microrregião onde elas se encontram?
Esta história de querer eleger um candidato desta ou daquela região, deste ou daquele segmento, é coisa ultrapassada e atenta contra a amplitude dos direitos de cada cidadão. E é de estarrecer verificar que o curralismo eleitoral parece que só aumenta. Vejam-se os candidatos de torcidas organizadas de times de futebol. O que era para ser uma pura diversão, ou entretenimento, se converteu numa espécie de ideologia, de razão ética, de modo de vida, para além da sociedade como um todo. Deplorável. Ou a proliferação de pastores candidatos, alguns ameaçando com o fogo do Inferno quem neles não votar, outros proclamando que o voto neles seria a própria manifestação do Espírito Santo! Ora, o Estado é laico e plural: não pode, nem deve, ser aparelhado por esta ou aquela religião ou doutrina. Pois tal não passaria de um golpe branco contra a impessoalidade do Estado e contra os direitos dos católicos, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, evangélicos tradicionais, umbandistas, maçons, rosacruzes, e o que mais se quiser – inclusive ateus – que têm todo o direito de se proclamarem enquanto tal e contam com a salvaguarda da lei para tanto: graças a Deus! Ou será que pretendem, no fundo, uma guerra religiosa: não mais as Cruzadas, mas a antecipação do Armagedom?
Aliás, é realmente preocupante quando vemos certas pessoas que pertencem a seitas apocalípticas ou flagrantemente fanáticas – “a Verdade está comigo e com meus irmãos, e que o resto arda no fogo do Inferno” – tentando formar blocos no Legislativo. A sociedade laica e ordeira não precisa de talebãs neopentecostais. A visão do Paraíso alheio não tem que ser, necessariamente, a minha. Nem, muito menos, o mundo tem de ser moldado – este mundo com o qual convivemos dia a dia – pelo filtro estreito de caçadores de danados. Devemos aceitar o direito dos outros dizerem o que bem entendem. Se é que entendem: mas desde que os mesmos não queiram cassar nossa palavra.
Trato deste assunto enquanto cidadão de uma República laica, e também membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), por meio da qual conheço e me relaciono com inúmeras pessoas das mais variadas vocações religiosas – neopentecostais, inclusive, ainda que poucos – que temem, de forma absoluta, a tomada do Estado pelo fanatismo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de setembro de 2010].