quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ideias do Chirico

Já disse noutra ocasião que os governos passados e presente do PSDB em São Paulo criaram novas denominações para certas regiões do nosso estado. Oficializaram o Circuito das Águas Paulista (Amparo, Águas de Lindóia, Serra Negra, Jaguariúna, Lindóia, etc), o Circuito das Frutas (Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, etc.), criaram o Pólo Cuesta (Anhembi, Botucatu, Areiópolis, etc.), o Circuito dos Bandeirantes (Itu, Salto, etc.), além de outros cujos nomes esqueci ou desconheço. Chegaram mesmo a criar, não com o nome, mas na prática, na dura realidade, o Circuito dos Presídios, uma extensa malha de instituições prisionais que avança pelo Oeste do Estado a fora, iniciando ali por Itirapina e terminando quase na fronteira com o Mato Grosso do Sul. E, como vimos recentemente, o Ilustríssimo Senhor Governador José Serra de Chirico quer incluir Leme e região neste mal fadado circuito: a vizinha Aguaí já faz parte dele.
Que cadeias e presídios são necessários, ninguém tem dúvida. A questão é que instalá-las em pequenas e médias cidades, traz mais problemas que soluções. Criam-se demandas artificiais aos municípios, como moradias, vagas escolares e assistência médica para as famílias dos presos. Fala-se, também, que instaura-se um certo crescimento da violência – não porque o crime seja atávico, e que “filho de peixe, peixinho é” – mas, problemáticos como os jovens são hoje em dia, retirá-los de seus ambientes e transplantá-los a um lugar desconhecido, no rasto de um pai ou mãe encarcerado, certamente traz conseqüências em seu comportamento que não são, necessariamente, benéficas, pelo contrário. No fim das contas, tudo acaba sendo como “varrer a sujeira para debaixo do tapete”: alivia-se um lado, por um momento, e vire-se o outro lado com os resultados.
Já que foi instaurada esta praga de construções de presídios em pequenas e médias cidades, que as novas unidades a serem criadas recaíam naqueles municípios que já possuem os seus. É de se supor que, com a experiência, já saibam lidar com o assunto. E que não se façam novas vítimas. Que presente este do Chirico para Leme, Santa Cruz da Conceição e Pirassununga! É assim que ele agradece aos votos que o elegeram? Se for, tenho pena das cidades onde foi derrotado. É de se esperar que construa nelas presídios de altíssima segurança, manicômios judiciários, aterros para lixo tóxico, colônias para vítimas de doenças altamente contagiosas e coisas do gênero...
Curiosa esta política de terra arrasada do Senhor Governador e de seus antecessores. Privatizaram o ar e mais um pouco e, não obstante, não diminuíram a dívida pública. Os precatórios não são pagos e os investimentos sociais são mínimos. O que fizeram à Educação foi um verdadeiro horror, como comprovaram à farta os jornais e como vemos a todo momento. A criminalidade graça em todo o Estado (493 mortes, pelo PCC, em 2006) e falou-se mesmo de um verdadeiro “balcão de negócios” na Secretaria de Segurança Pública. Nos quatorze anos de governo do PSDB – tempo mais do que suficiente para se fazer algo de bom, mas, até onde a vista alcança, só se enxergam coisas ruins – cria-se, educa-se, forma-se toda uma geração. E, perguntamos: o que foi criado, educado, formado nesta quase uma década e meia? Quem souber, que responda. Não vale quem acredita em duendes, Papai Noel e mula-sem-cabeça...
E o Chirico ainda quer ser Presidente...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de maio de 2009].

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Passado presente: viva o toca-discos!

Há muitos anos, em Brasília, pude observar um gosto curioso pela aquisição de antiguidades, verificado numa certa população endinheirada local. Lá por meados dos anos 1980, havia ali uma verdadeira febre de leilões, feiras de antiguidades, inaugurações de antiquários e coisas do gênero. Tratava-se, à primeira vista, de algo completamente paradoxal: se aquela era “a cidade moderna por excelência”, por que aquele resgate meio insensato do passado, um passo que ali não se manifestara, pelo contrário, passara longe daquelas plagas? Mais tarde fui entender a necessidade que muitas pessoas têm de se sentirem presas a uma tradição, qualquer que seja, mesmo que inventada. Hoje este fenômeno alastrou-se por toda parte. Há gente que compra em sebos, antiquários e feiras velhas fotografias de completos desconhecidos, emolduram-nas e dizem às visitas que se tratam de avós, tios-avós, primos distantes, etc. O mesmo se dá com objetos, móveis, livros: na ânsia de inventarem um passado, já vi muito traste de brechó que foi anunciado como uma herança de uma Tia Lídia, presente de uma avó Josefina, e por aí vai.
Mas voltando àquele surto arqueológico sofrido por Brasília naqueles remotos anos, lembro-me que, então, a oferta era inferior à demanda. E como nem todos podiam ter antigos quadros, relógios de carrilhão, pratarias ou móveis suntuosos, instaurou-se uma mania por antigas geladeiras. Não, não se trata daquelas Frigidaires, dos anos 1950 ou 1960, que ainda hoje são vistas nalgumas casas, ou disputadas a tapas por decoradores moderninhos. Eram verdadeiros armários de madeira, dos anos 1910 ou 1920, nos quais se metia uma barra de gelo para a conservação da comida. Peças raras, é verdade – quantas delas o Brasil as teve naquelas décadas, visto que as geladeiras, antes do presente governo, só para termos uma ideia, eram utilidades ausentes de muitas casas? Pouquíssimas, portanto, as que deveriam existir e, certamente, localizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nas capitais, bem entendido. Porém o aspecto mais curioso é que aquela mobília feia – porque era mesmo feia – ganhava posição de destaque nas salas dos brasilienses endinheirados, algo como a mesinha onde se encontra a Bíblia aberta sobre um atril, em certas casas, ou o oratório com os santos de devoção, noutras. Era realmente de embasbacar. E, rapazola que era na época, não pude me furtar a refletir quanto à diferença entre as antiguidades, reais, e os trastes velhos.
Continuo gostando de antiguidades, como sempre as apreciei. Alguns avanços da tecnologia, por exemplo, permitem até que as usufruamos melhor. Veja-se o caso dos laptops ou notebooks. Por sua versatilidade de conexão e alimentação elétrica, podemos usá-los em boas e velhas escrivaninhas, em lugar daqueles racks horrendos diante dos quais nos sentávamos, geralmente contra a parede, num ponto meio escuro do cômodo, meio espremidos, desviando-nos de mouses, impressoras, fios e mais fios.
Mas tenho criado, recentemente, uma certa simpatia por velharias, tenho que confessar. Pois quem já não perdeu a hora de acordar, graças a um rádio-relógio ou moderno despertador à pilha? Eu, várias vezes. E, digo, não adianta programar a função no celular. Em determinadas partes de nosso país, o aparelho entra em colapso. Como solucionei, então, o problema? Comprei um bom e velho despertador movido à corda, estridente, barulhento, e que nunca falha. Posso colocá-lo no banheiro, no quarto ao lado – para livrar-me do seu tique-taque – mas o som de sua campainha me desperta da mesma maneira.
Outra maravilha tecnológica do passado que resgatei foi um telefone dos anos 1960, pouco mais ou pouco menos. Tenho há um ano e nunca me deu um problema sequer, diferente de tantos outros descartáveis que se vendem por aí, ou que entram em pane depois da menor oscilação elétrica. Quem nunca ficou em palpos de aranha com um telefone sem fio? Eu não fico mais.
Meu próximo passo nesta viagem “de volta para o passado” – sem nostalgia boba – é comprar um velho toca-discos, ou vitrola, principalmente agora que novos títulos tem sido lançados no formato do vinil, e que os velhos são comprados de graça em sebos e lojas específicas. Pois aquilo sim é que era som.
Não sou um passadista. Gosto de conforto e eficiência. Se tais facilidades se encontram em velhos objetos, que eles sejam bem vindos. E que viva o LP!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de dezembro de 2009].

sábado, 5 de dezembro de 2009

Oklahoma,1935. Brasil, 2010?

Faz muito tempo que li o romance de John Steinbeck (1902-1968), As Vinhas da Ira (1939). Tanto tempo, aliás, a ponto de acreditar que me recordo mais de sua adaptação cinematografia – o excelente filme do mestre John Ford, de 1940, com Henry Fonda como protagonista – do que do livro em si.
Para quem não conhece a trama, ela conta a saga de uma família de agricultores do Oklahoma, EUA, que perde suas terras durante a Grande Depressão (1929-1939). Como a produção da fazenda ficara aquém do esperado, no ano anterior, o clã hipotecou as terras, e sem ter como pagá-la, foi executado. Assim, eles partem em busca de um lugar hipoteticamente melhor, na Califórnia. É claro que a história não se resume a isto. É movimentada, cheia de elementos, trata da questão da terra, da violência policial, e de uma série de outros temas interessantes, e tudo muito bem escrito. Mas a lembrança que mais se agarrou em minha memória, é a dos constantes ventos de poeira que acompanham os personagens, até eclodirem numa verdadeira tempestade de pó. Pensei, à época, que o fenômeno fosse uma certa licença poética do escritor. Ledo engano. Foi um evento real, como descobri esta semana, num programa do History Channel.
A tempestade ocorreu no dia 14 de abril de 1935, um domingo que se tornou conhecido pelos norte-americanos como o “Domingo Negro" (Black Sunday). Ventos de quase cem quilômetros por hora sopraram do Oklahoma à capital, Washington, levantando um volume de poeira que, dividido por cada habitante daquele país, corresponderia a três toneladas por pessoa. E quais foram as causas da catástrofe? O mau uso do solo.
Os especialistas, à época, já tinham conseguido identificar os motivos. O Oklahoma era um estado cujo solo era seco, ainda que coberto de pasto. Fôra, a região, por longo tempo, voltada à criação de gado, com bastante sucesso, alimentada pela rude flora local. Porém, no começo do século XX, acreditou-se, erroneamente, que se poderia plantar naquelas terras. Um programa de emissões de títulos de terras, equivocado, vendeu propriedades a milhares de famílias empobrecidas do Sul dos EUA, que às pressas, ocuparam o lugar. As pastagens foram arrasadas, os terrenos, arados – não como deveria ser para aquele tipo de solo, mas, sim, como os colonos estavam acostumados a fazer. O resultado? As terras tornaram-se inférteis, as chuvas lavaram as plantações e, depois, sobreveio uma tremenda seca. E como o estado era em grande parte desprovido de florestas, as ventanias foram se tornando cada vez piores. Até culminarem naquela do Domingo Negro. As autoridades tomaram suas providências, e o evento não mais se repetiu. Até agora. Ou, pelo menos, não lá.
Esta história me fez pensar no que o Brasil anda fazendo com o seu Cerrado, este imenso e frágil bioma que começa em São Paulo, chegando até as franjas da Amazônia, e que se tornou, pela cupidez e incompetência, um novo pólo de produção agrícola, uma nova fronteira do agronegócio. Seu desmatamento ocorre em ritmo muito maior do que o sofrido pela Floresta Amazônica em seus momentos mais críticos. Ipês, macaúbas e onças, tiveram seus espaços tomados por cana, soja e gado. E tal invasão, e destruição, não conta sequer com um motivo social para, senão abrandá-las, ao menos tolerá-las, pontualmente: ali não há o assentamento de famílias, de trabalhadores, mas de grandes grupos, mega-empresas – a exploração que não ousa dizer seu nome.
Os efeitos deste equívoco, mais do que isto, desta verdadeira má-fé, parecem que já se fazem sentir. Lembremos da tempestade de poeira que varreu Uberaba e outras cidades próximas em meados do mês passado. Não é um claro sinal de que com o Cerrado não se mexe?
Mas, no Brasil, parece que nunca aprendemos com os erros dos outros: fazemos questão de recriá-los, de repeti-los, desde que seja à nossa maneira. Erramos? Sim. Mas nosso erro... é do Brasil-sil-sil...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de novembro de 2009].

"As Fortunas" do Chirico

Numa crônica intitulada Sexta-Feira treze, outra vez, publicada neste mesmo espaço no dia 14 de março último, alertei aos leitores que acreditam no azar para que pusessem suas barbas de molho, visto que teríamos mais uma efeméride semelhante em novembro. Pois o nefando dia passou e seu saldo foi realmente digno de nota nos anais da urucubaca! Nele, eis que um viaduto, sequer ainda concluído, veio abaixo, destruindo dois automóveis e um caminhão. Pareceria até música de Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, mas o tombo do viaduto foi concreto, com perdão do trocadilho.
E não foi em qualquer obra, não. O caso não se deu numa estradinha vicinal de Ariquemes-RO, ou em Brejolândia-BA, numa obra de algum prefeito sem experiência. Ocorreu, isto sim, no bilionário Rodoanel, a menina dos olhos da administração tucana e um trampolim político para muita gente. É uma coisa de espantar. Um viaduto caiu graças, simplesmente, ao peso do ar, já que nenhum outro esforço lhe foi imposto. Imaginem, então, quando se trafegasse por cima dele: talvez ruísse todo o complexo!
Já numa outra crônica, cujo título era Tempos interessantes, publicada em 27 de abril de 2008, vejam o que escrevi:
De fato, nós, brasileiros e, sobretudo, paulistas, temos vivido tempos ‘muito mais do que interessantes’. Assistimos a crimes mal-solucionados, ao desmanche do ensino público, ao superfaturamento de obras públicas que resulta em buracos, tragando gente, carros, moradias. E, agora, até mesmo um terremoto entrou para o rol das mazelas paulistas. Já disse, noutras ocasiões, da urucubaca que cerca um dos maiores próceres da política paulista. Portanto, frente à possibilidade de que tal insigne tribuno galgue — um poleiro por vez, mas com uma velocidade acintosa — outras posições de relevo, sobretudo nacionais, temos de nos precaver. Pois azar tem nome. E, no caso, nome e sobrenome — seu raio de atuação mostrou-se, mais uma vez, bastante claro”.
Como podem ver, o Ilustríssimo Governador do Estado de São Paulo, o Chirico, parece que tem mesmo urucubaca. Tanto que, nome forte da disputa à Presidência para o próximo ano, tem caído nas intenções dos eleitores e sua proeminência é cada vez mais sombreada pela de Aécio Neves. O patinho feio – feio não, medonho – ao invés de ir se tornando um gracioso cisne, vai é dia a dia se convertendo num ganso desajeitado.
Resta saber, agora, se as fortunas do Chirico vão pesar ao seu favor, ao nosso, ou ao de quem quer que seja. Pois se ele é eleito Presidente, São Paulo livra-se dele, mas o Brasil inteiro arca com sua desdita. Se, por outro lado, for o Governador de Minas o escolhido de sua agremiação como candidato, os paulistas correm o risco de ter de enfrentar mais quatro anos de uruca. Isto se, retomamos, as fortunas do homem não contribuírem, mais uma vez, para um lado ou para o outro. Com a sua reforma intentada na Saúde, que lembra tanto o funesto PAS, de Maluf; com sua mania por grandes obras viárias (parece com quem? Maluf, novamente); perde, no entanto, o atual Governador, na comparação: pois até onde se sabe nenhum túnel do metrô aberto nos tempos de Maluf ruiu, tragando gente. Nem viaduto caiu. E o preço das obras, então, parecem bagatelas se comparados aos de hoje.
Vejam só como as coisas são: numa destas idas e vindas da sorte, de herdeiro eleitoral de Maluf, o Chirico acaba por se tornar seu principal cabo eleitoral, por contraste! Em todo caso, veja o peso do azango do homem: ou ele, ou Maluf: aut Caesar aut nihil (“ou César ou nada”)! Que tremenda urucubaca!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de novembro de 2009].

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Saias curtas a idéias menores ainda

Acredito que o país inteiro tenha assistido ao episódio envolvendo uma moça, sua minissaia e o efeito que ambas causaram numa universidade particular. Além da repercussão na imprensa, nas rodas de bar, na conversa de fila de banco, e por aí vai. Todos pareciam ter sua opinião para dar, contra ou a favor. Nos jornais, foram vistos claros sinais de respeito à estudante e de censura ao comportamento de horda manifestado por seus colegas. Já nas ruas, uma vaga moralista bramiu enfurecida, desqualificando a pobre coitada, falando em falta de decoro, e coisas do gênero. Muitos pareciam até endossar a selvageria daqueles rapazes que a vaiaram e apuparam, aos gritos de “prostituta” – na versão rimada e mais chula do termo – e de “estupra, estupra!” e que tais. Decerto acrescentariam, mentalmente, “mas não mata”: um eco a certo pensamento reinante instituído por um político de má-figura.
O que mais chamou minha atenção, no entanto, foi uma série de fatores justamente relacionados à perseguição à moça. Vejamos quais são eles.
Em primeiro lugar, a estudante parecia bonita, assim como suas pernas. Ora, como todo mundo sabe, gente moça gosta de se exibir. Logo, nada mais natural que mostrasse suas qualidades aos olhos de todos. Não se faz isto nas ruas, nos dias e nas noites quentes? Nos bares, restaurantes, danceterias, boates, em toda parte? Quem nunca viu uma jovem com um imenso decote ou saias curtas numa sala de aula de faculdade – sobretudo numa noite em que “rola uma balada” – é porque nunca passou sequer na porta de uma instituição de ensino superior. E tal vestuário ofende alguém? Pelo que me lembro, só mulheres feias e invejosas ou rapazes que não apreciam semelhante paisagem... E não é que, para pasmo de todos, as vozes vociferantes que acuavam a moça não vinham justamente de homens? Que homens são estes? E, pior, que universitários são esses, que reagem quais fanáticos talebãs aos centímetros a mais de coxa mostrados pela jovem? Queriam que ela viesse de burka?
Se há uma típica canalhice dos povos latinos – mas não é exclusividade destas plagas, alguns mediterrâneos pensam ainda assim, e o Oriente quase inteiro adota esta causa – é a que consiste em depreciar e difamar uma bela mulher inalcançável. Em resumo, é mais ou menos assim: um sujeito deseja uma mulher, mas ela o rejeita ou sequer percebe que ele existe. Assim, ferido nos seus brios de macho desprezado, passa a dizer absurdos quanto àquela que o enjeitou – ou nem notou sua patética existência. É a versão humana da vingança dos mais fracos do bando, como se verifica na sociedade animal: também os macacos gritam estranhos impropérios quando um macho alfa arrebata-lhes a fêmea ou ela não lhes dá bola.
E não foi isto que verificamos no tal episódio?Foi, mas não só. Quem olhou com atenção para a jovem acuada, deve ter notado que suas formas, belas, contrastavam com cabelos mal pintados, um pouco secos, pouco cuidados, em suma. Seu polêmico vestido ou saia, também não pareciam dos mais caros que há na praça. Logo podemos inferir que a estudante longe está de ser rica. Acrescente-se a isto o fato de que a universidade que ela cursa, segundo todos os comentários, é freqüentada por jovens ricos preguiçosos ou esforçados rapazes e moças egressos da escola pública, cujo histórico recente, todos sabemos, é dos piores quanto à preparação para o vestibular (mais uma conquista do PSDB!). Em suma, ela pode não ser pobre, mas certamente não é endinheirada. Mas isto faz diferença? Faz, e muita.
Vivemos numa cultura de bajuladores, em que a maioria se comporta como cães à beira da mesa de seus donos. Abana-se o rabo e tolera-se tudo em troco das migalhas que os amos lançam. Só isso explica o sucesso de certas revistas e programas de televisão, por exemplo. Assim, os ricos são vistos como deuses, e os não ricos, investem-se como fiéis sem paga, adorando-os pelo prazer de adorá-los, perdoando-lhes as faltas, pois assim reza seu credo, e não se importando se os seus ídolos dourados percebem-nos ou não. De modo que, fosse a moça da minissaia ou microvestido alguém de posses, com roupa de grife e cabelos bem tratados, ninguém diria um ai a seu respeito. Antes, sairiam em sua defesa, até mesmo se a direção da escola objetasse ao seu vestuário – fosse ela rica, ou nem tanto, mas escandalosa como algumas o são, e talvez até lhe oferecessem um emprego de apresentadora de televisão, dessas emissoras que não tem o menor pudor em mostrar roupas curtíssimas de manhã, de tarde, de noite, etc., esses programas para a “família brasileira”...
Concluindo, cada um que se vista como quiser, onde puder. A moça não estava numa igreja, no fórum, na prefeitura, num velório ou numa escola de freiras. Mas numa universidade. Um local de tolerância, de mentes abertas. E ainda assim foi vaiada por seus colegas. É de se pensar que raios de universitários as privadas estão acolhendo e formando. Que raios de homens estão surgindo em nosso país, que não suportam, sequer, a vista das belas pernas de uma moça. A saia era curta? Pois a mentalidade deles é muito menor ainda.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de novembro de 2009].

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Celebrando Hemingway

Acima, o velho Hem fazendo duas coisa que sabia muito bem...

Na última quinta-feira, 29 de outubro, um noticiário da Globo News anunciava o aniversário de 110 anos de nascimento do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961). Achei estranha tal efeméride. Ninguém comemora cento e dez anos de nada e, além disso, a data me parecia incorreta. Li todos os livros sobre ele publicados em português, alguns em inglês e espanhol e, até onde me lembrava, seu aniversário era num 21 de julho. Assim, chequei minhas fontes: eu estava certo. De onde tiraram tal informação é que não sei. Em todo caso, não custa falar um pouco do velho Hemingway, hoje meio esquecido, sobretudo entre os brasileiros.

Durante sua vida, ou melhor, dos seus trinta e poucos anos até a morte, foi ele o escritor mais famoso de seu tempo. Gerações de escritores, aspirantes de escritores, ou mesmo fãs sem qualquer talento, procuraram imitá-lo na escrita, no tipo de vida ou, como tais feitos não eram para todos, pelo menos nas bebedeiras. E como ele bebia! O dramaturgo e crítico literário inglês Kenneth Tynan (1927-1980) resolveu contabilizar o quanto bebeu no espaço de um dia, o casal de protagonistas de Do outro lado do rio, entre as árvores (1950): o homem, com cinqüenta e poucos anos, alter ego do autor, e a moça, deixando a adolescência, sua namorada. O personagem, sozinho, bebeu três martinis duplos e um gim duplo com Campari. Ao encontrá-la, dividem oito Montgomerys duplos (martinis secos preparados numa proporção de quinze para um). No jantar, tomam uma garrafa de vinho branco, uma de vinho tinto e duas de champanhe – uma outra ainda seria bebida mais tarde. E o homem encerra a noite, sozinho, esvaziando uma garrafa de vinho. Se alguém acha que esta é uma quantidade normal – a ponto de pô-la por escrito, e Hemingway era um escravo da verossimilhança – imaginem o quanto ele entornava...

Mas não é justo falar apenas de seus porres. Pois que vida ele teve! Tomou parte da Primeira Guerra Mundial, pescou no Caribe, participou de safáris, cobriu a Guerra Civil Espanhola, a invasão japonesa da China e a Segunda Guerra, conviveu com os maiores artistas de seu tempo, salvou-se milagrosamente de dois acidentes aéreos, quando foi dado como morto, casou-se quatro vezes, foi amigo de toureiros, lutou boxe como quase um profissional e ainda teve tempo de ver a Revolução Cubana. Ganhou muito dinheiro – e pagou uma fortuna em impostos – graças aos seus livros e de suas adaptações para o cinema (alguns bons, mas sempre muitíssimo inferiores ao original). E ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Até que pôs fim à sua vida da mesma forma intensa e drástica como a levara: encostou o cano duplo de uma espingarda Boss & Co. na testa (não no céu da boca, como muitos acreditam) e puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo. O motivo? Hipertensão, depressão e paranoia, agravada por um tratamento à base de eletro choques.

Mas tudo isto, na verdade, não é o principal sobre ele. A vida de um escritor na verdade pouco importa e, sim, sua obra. Se é certo que seus personagens eram quase que uma cópia fiel do homem, é igualmente correto que ele escrevia muito, mas muito bem. Não sei se releria com prazer seus romances – salvo O Sol também se levanta, o primeiro publicado, de 1926 – ou mesmo sua única peça teatral, A Quinta Coluna, de 1938, mas, seus contos, soberbos em sua maioria, certamente que sim. Sua prosa seca, lapidar, clara onde deveria ser, porém altamente sugestiva na sua concisão, quando necessário, serviu de modelo a nove entre dez escritores, ou aspirantes a tal, seguramente, dos anos 1930 a 1970, ou 1980, eu arriscaria dizer. Tornou-se quase que um falar do século 20. O nosso Rubem Braga (1913-1990) que o diga: imitou-o na prosa e na vida – o que era aquela cobertura dele em Ipanema se não uma cópia em escala menor da casa de Hemingway em Cuba, a célebre Finca Vigía?

De uns tempos para cá, entretanto, pouco se fala dele por aqui. O que é uma pena. Sua obra é sólida. Meritória. Um homem escrevendo para os homens do seu tempo. De forma dura e pontual. Não se entende, aliás, o comportamento masculino do século XX sem ler os seus livros. Nem a educação que muitos filhos receberam, e ainda recebem até hoje.
Pois que seja então celebrado o seu centésimo décimo aniversário, ainda que em data equivocada. O velho Hemingway, aliás, nem se incomodaria com isto. Desde que se levante um brinde a ele e que se leia algo do que escreveu, já ficaria contente. Reconhecido. Satisfeito.
Da minha parte, é isto que vou fazer. Tão logo tenha posto o ponto final desta crônica, prepararei um drinque e lerei um de seus contos. Isto sim é que é homenagem.
À sua saúde, Papa Hemingway!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de outubro de 2009].

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Incêndios não deixam apenas cinzas

A destruição pelo fogo de uma grande parte do acervo legado pelo artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), foi um episódio mais do que lastimável. E quando se sabe os motivos, não do incêndio, mas das obras estarem quase todas reunidas entre uma sala e a garagem de uma casa de família, à lástima soma-se a raiva: a família, guardiã do espólio, desentendeu-se com a Prefeitura do Rio e com o Centro Municipal Hélio Oiticica – que até então abrigava o que poderia ter sido poupado das chamas– por que este não haviam pago 267 mil reais pelos direitos de uma exposição. Em suma, por cobiça, os herdeiros mataram a galinha dos ovos de ouro!
Quem viu as fotos ou as imagens da casa ficou de cabelos em pé. Via-se que parte do acervo estava praticamente na rua, na já mencionada garagem, protegida do tempo por uma reles grade de ferro. Qualquer fagulha de um cigarro esmagado na calçada por um inocente transeunte poderia ter causado o fogo. E mil outras coisas de menor monta. Mas a família escolheu por reunir as obras ali, um local que julgou mais seguro que a instituição municipal – criada para este único fim, frise-se – já que esta não tinha aparelhos desumidificadores suficientes! E, trágica ironia, não foi a umidade, tão temida pelos herdeiros, a causa da destruição do legado...
Nestas horas, qualquer pessoa de bom senso pensaria algo assim: “bem, eu herdei um conjunto de obras expressivas de um dos mais aclamados artistas brasileiros. Mas não tenho dinheiro para cuidar disto tudo, nem um local conveniente para abrigá-lo. O que faço então? Escolho algumas peças da coleção, vendo-as e, com o que apurar, construo um prédio para tal finalidade: vão-se os anéis, ficam os dedos. Ah, e como eu vivo – pago as minhas contas, tenho um papel na sociedade, etc. – graças à minha posição de guardião deste acervo, vou tratar de pô-lo no seguro: afinal, quem sabe o dia de amanhã?”, concluiria alguém ajuizado. Mas, ao que parece, não quiseram por a mão no bolso nem pra isto, para garantir o pão do dia seguinte.
Depois, há um fato a mais nesta história toda que é difícil de entender. Se a família é a legítima herdeira da coleção, mas era o poder público que a preservava, por que é que este ainda tinha de pagar aos herdeiros uma fortuna pelo direito de abri-la ao público, exibi-la, algo que, em princípio, é a função da obra de arte e a função de um museu? Podem dizer que é o que a lei determina. Mas que leizinha mais besta, sô! Que poder público mais bonzinho este, não? Um verdadeiro pai. Zela pelos bens alheios e ainda paga por isso. Não, decididamente, não são boas leis que regem esta relação.
Por outro lado, se do ponto de vista histórico, afetivo e mercadológico a perda das obras foi terrível, do ponto de vista estético até que não foi tanto assim. Quase toda a coleção já havia sido fotografada, catalogada, etc. A maioria delas pode ser literalmente refeita por conta de tais dados, e isto em nada desagradaria seu criador, pelo contrário. Ele próprio, por suas convicções pessoais e estéticas, era contra a idéia de que suas criações se tornassem – como vinham se tornando – uma espécie de fetiche, intocável, inviolável, único, e por aí vai. Queria que suas obras fossem tocadas pelo público, utilizadas, vestidas, e não trancadas e idolatradas por detrás de uma vitrine. É claro que a aura – e o valor de mercado – diminuem com a reprodução das obras. Mas e a intenção do autor, onde fica?
A destruição do acervo, portanto, apesar de triste, talvez tenha seu lado bom, num sentido, pois trouxe à tona uma série de discussões – direito de herança, finalidade da obra de arte, intencionalidade do artista, etc. – que há muito necessitavam vir à público e serem questionadas. Quem sabe se, destas cinzas, não nasça uma fênix?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de outubro de 2009].