A imprensa mundial anunciou que a primeira análise em profundidade do genoma do Homo neanderthalensi, levada a cabo por cientistas alemães, revelou que indivíduos daquela remota espécie, muito semelhante ao Homo sapiens, chegaram a se acasalar com nosso ancestrais, e que a marca de tal intercâmbio genético estaria ainda presente no genoma do Homem moderno.
Da minha própria parte acrescentaria que, muito provavelmente, o tal Homem moderno formou-se, especificamente, do cruzamento do Homo sapiens, dos neandertais e de uns tantos daqueles outros grupos que habitaram a Terra no Passado. Um inequívoco exemplo disto, acredito, foi o daquele jovem que viveu há cerca de 24 mil anos, descoberto já como um fóssil, em 1998, na região do Vale do Lapedo, em Portugal, que, pela localização do achado, recebeu o nome de Menino do Lapedo. Então se verificou a existência inequívoca de traços mistos entre o Homem moderno e nossos primos distantes neandertais, sobretudo no aspecto do crânio e das mandíbulas.
Para nossos irmãos separados criacionistas, talvez se trate da própria caveira de Abel, deformada pela pedrada que lhe desferiu Caim, provavelmente por volta de 3900 e poucos anos a.C., segundo a Cronologia de Ussher, da qual já nos referimos aqui – e, curiosamente ao mesmo tempo em que já datavam de mil anos inúmeras culturas que viviam em aldeias, do Egito à China. É verdade que o tal fóssil do Menino do Lapedo indicava que o mesmo teria por volta dos 4 anos de idade quando morreu. Mas, se como diz a Bíblia, Adão faleceu aos 930 anos de vida, porque seu filho não poderia ser um pastor de ovelhas e sacrificante ao Senhor antes dos 5?
Controvérsias à parte, confesso, de antemão que entendo tanto de Genética quanto de Química, ou seja, o mínimo, somente aquilo que é necessário para não fazer feio em público e para não misturar, por exemplo, manga com leite: que pode não matar, sei muito bem, mas que dá uma dor de estômago dos diabos. Em todo caso, aceito, não digo de maneira dócil, mas cordata, um conhecimento científico de uma área que não domino, enunciado por alguém que desconheço e obtido e praticado através de formas que ignoro. Da mesma maneira que um criacionista ou um crédulo – não são sinônimos, friso – recorrem a um ortodontista para colocar um aparelho dental na boca dos filhos, a um professor para que os eduque, ou a um médico para que os cure, ao invés de deixar tudo ao encargo do Espírito Santo, ou da Santa Chaga do Ombro de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou ainda da Hamsá, ou Mão de Fátima (a Fátima filha de Maomé, não a Virgem do santuário português de mesmo nome – o qual, aliás, é bem próxima de onde acharam o Menino do Lapedo). Afinal, deve se dar o crédito a quem é de direito.
Pois o meu campo de estudos, os leitores já sabem, é a História, da Arte e da Cultura, e da Sociedade, e, a seu tanto da Literatura, o que engloba também a Religião e a Mitologia, porque não há cultura sem sociedade, sem literatura, arte, religião ou mitologia (esta, aliás, em grande parte, o fundamento daquela última: pois revelação não que dizer, necessariamente, ditado, podendo muito bem ser compreensão, que se difunde pelo meio literário, como bem o souberam São Jerônimo e Martinho Lutero). E tais descobertas acerca deste “hibridismo entre espécies” – obviamente não estéril, daí as aspas e, afinal, nós mesmos, enquanto seres viventes – ao lado de comprovações, também atuais, de que o Homo sapiens foi responsável pela expulsão dos neandertais, numa primeira etapa, ou pelo seu posterior extermínio, todos esses fatores, em suma, nos permitem pensar numa série de hipóteses várias acerca do destino de uns e de outros, de nós mesmos e de nossa Cultura.
Tendo a acreditar num longo período, sujeito a contendas mútuas, guerras e violências várias, durante o qual houve, efetivamente, uma assimilação entre uns e outros. Não só a Antropologia e a Etnologia dão vários exemplos de situações análogas, como a própria História da América recente (depois da chegada dos europeus), confirma tal suposição. O encontro com o Outro (ainda que horrível, para ambos os lados), nunca impediu a miscigenação ou a troca de culturas. O primeiro Silva Leme que se tem notícia, tronco cujos ramos posteriores fundariam a cidade de Leme, além de várias antes dela, outro não era que não o Cacique, tupi, Tibiriçá. E os descendentes de índios e portugueses abundaram, isolados ou integrados, ao longo de nossa história, assim como os de espanhóis e incas, ou desse e astecas.
Aqueles conúbios em tempos tão recuados (falamos de muitos milhares de anos) ajudariam a explicar vários mitos recorrentes de toda Europa, como aquela casta de homens e mulheres selvagens chamada de sátiros, “homens verdes” (por viverem nas florestas – dos quais já tratamos noutra ocasião, quando das possíveis origens do Papai Noel) ou o Homo selvaticus (cujos sobreviventes, alega-se, viveriam ainda em meados do século XV d.C.: ou seja, pouco antes da descoberta da América). E, cabe destacar, no século XVII, os orangotangos de Sumatra e Bornéu, foram identificados pelos cientistas europeus que a eles tiveram acesso como Simia satyrus, “macacos sátiros”, por supostamente atacarem mulheres, como seus predecessores da mitologia grega. Diante de tal caso, caberia investigar o quanto entrariam os sátiros na designação do animal: em razão dos naturalistas encontrarem semelhanças de comportamento entre uns e outros ou por os julgarem os últimos descendentes, ou remanescentes, dos primeiros? Para a ciência daqueles tempos, esforçando-se ainda para não romper com a tradição, tal hipótese era ainda muito plausível.
E daí para o mito – não para a existência real, faço questão de dizer – de outros seres prodigiosos, mais ou menos modernos, é só um pulo. Pulo do Pé-grande? Pode ser. Ou de Hércules. Ou, em certa medida, de Sansão. Ou ainda de Enkidu, da epopéia de Gilgamesh. Pois os mitos, na maioria das vezes, se equivalem. Somente por um ato de força é que um pode anular o outro.
E como fica o nosso pobre Adão, ou melhor, como ficamos todos nós, seus descendentes, diante dessa história toda? Somos feitos do barro, e insuflados pelo sopro divino, ou da cruza de uma humanidade ainda em formação, que evoluiu sabe-se lá como, e porque motivo? Ou, por fim, somos um híbrido da evolução de um outro, rumo a algo que desconhecemos, por vontade de uma Força Superior, chame-se Ela como melhor Lhe aprouver, já que, em princípio, Ela, ou ELE, é Absoluto?
Em minha opinião, isto pouco importa. Filhos ou não de um Deus, seja porque maneira for, intermediados por um macaco, um sapo ou uma bactéria, até nossa forma final, creio que esta, de fato, nasce com a nossa consciência, formada não sabemos como, nem quando, e que nos permite tanto aceitar como renegar a suposta, ou real, existência de uma divindade, que talvez – ou certamente, como se queira – seja aquela mesma que nos permitiu a própria formulação de tal dúvida. Creio, portanto, que qualquer ligação de um fiel à sua religião, deve se dar mais em razão do cumprimento de seus deveres ao próximo, mesmo que o próximo seja o outro (todas as grandes religiões são unânimes neste ponto, mas o mesmo não posso dizer das várias seitas que hoje se alastram): deixando as questões de outra natureza, que não teológica, para quem está capacitado e livre de entraves dogmáticos. Afinal, onde mesmo foi dito que o “cumprimento da Lei” superaria a “pureza de origem”?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de maio de 2010].
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Pragmáticas
As leis, todas elas, são fontes muito interessantes para a pesquisa e o ensino da História. Até mesmo estas, tão mal escritas, que se editam hoje em dia: quem compara o Código Civil de 1916 – com sua elegância que nos faz recordar o quanto o português é uma forma moderna de latim – ao atual, sabe do que estou falando.
É claro que certos cuidados no estudo de tais documentos devam ser observados. O caso mais comum de uma má interpretação das leis frente a uma realidade vivida ainda é aquele da suposta inexistência de manufaturas no Brasil colonial. Tal equívoco se deu porque uns tantos historiadores republicanos viram que foram decretadas umas tantas leis proibindo a criação de pequenas fábricas de tecidos na colônia, em datas sucessivas. Com isso, compreenderam que aqueles teares jamais poderiam ter sido criados, enquanto que uma leitura exata do que ocorreu faz supor justamente o contrário: as leis se repetiam não para inibir a criação, mas para fechar o que estava em funcionamento. Em suma: as fabriquetas existiram, e quem afirma o contrário só está repetindo um erro de quase um século.
Um outro exemplo da leitura que pode ser feita das leis, para que se enxergue o real vivido, dá-se com o caso de certas leis chamadas pragmáticas, criadas pela Coroa portuguesa em inúmeras ocasiões – na verdade, todas as cortes européias possuíam às suas, somente os nomes mudavam. Tais leis determinavam o comportamento das variadas camadas sociais, frente ao rei e à nobreza, tanto em cerimônias públicas quanto na vida comum. Elas arbitravam até quantas mulas poderiam ser atreladas na carruagem de um burguês, quantas na de um magistrado, quantas na de um nobre e coisas que tais. Quem poderia usar uma espada e quem não era habilitado para tal, quem poderia usar tais ou quais tecidos, etc. A intenção era disciplinar as contendas entre os particulares e refrear um pouco o luxo numa sociedade que era um imenso teatro, feito de símbolos e ostentações em que a cada um cabia – ou deveria caber – um bem delimitado papel.
Os exemplos destes tipos de leis são vários. Na Rússia de Pedro, o Grande (1672-1725), aquele monarca aboliu os longos cabelos e barbas das cabeças dos nobres. E o uso de bigodes só era permitido aos oficiais de cavalaria. Na França de Luís XV (1710-1774), o burguês Voltaire (1694-1778) não pode se bater em duelo com um nobre que o insultara. E também havia leis determinando qual a velocidade em que poderia trafegar a carruagem de um barão, conde, marquês ou duque, de maneira que alguém mais baixo não passasse à frente de alguém mais alto.
Uma outra justificativa para estas leis, para além da mera etiqueta de corte e refreamento das pretensões individuais, era de natureza econômica. Muitos monarcas, pelos olhos de seus ministros, percebiam que somas extraordinárias de dinheiro eram gastas com objetos de luxo. Importâncias que poderiam ser revertidas em tarefas mais produtivas ou que acabavam por sair dos países de origem para o pagamento de bens importados. O Marquês de Pombal (1699-1782), por exemplo, chegou a proibir a importação de certos artigos de luxo para que se privilegiasse a produção local e se incentivasse as manufaturas portuguesas, então sendo criadas e desenvolvidas.
Hoje tais leis parecem extravagantes, ultrapassadas, velharias. Mas seu espírito continua bastante atual. Há menos de cinquenta anos, por exemplo, o General de Gaulle (1890-1970), Presidente da França (de 1959-1969), dizia aos seus ministros que evitassem os banhos de sol, pois se aparecessem bronzeados em público poderiam passar a idéia de que se entregavam ao ócio e aos luxos dos balneários. E, nos dias de hoje, práticas deste tipo ainda ocorrem: o “auxílio-cabide”, de que gozam certos políticos e funcionários públicos, nada mais é do que uma decorrência deste espírito de corte, de espetáculo, de cerimonial.
E muita gente que faz parte da dita sociedade civil, compartilha deste raciocínio, ainda que de uma forma um tanto caricata e grosseira, motivada pelo preconceito. Lembro-me de uma matéria de poucos anos atrás, publicada numa grande revista, que dava voz a umas mocinhas “da sociedade” indignadas por verem garotas de programa utilizando o mesmo vestuário que elas, e somente elas, se achavam no direito de usar... Irônico, não?
Portanto, as pragmáticas são, e ao mesmo tempo não são, coisas do Passado. Acredito que muita gente, aliás, bem que gostaria de decretar umas tantas delas, para seu conforto e garantia de bem-estar...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de maio de 2010].
É claro que certos cuidados no estudo de tais documentos devam ser observados. O caso mais comum de uma má interpretação das leis frente a uma realidade vivida ainda é aquele da suposta inexistência de manufaturas no Brasil colonial. Tal equívoco se deu porque uns tantos historiadores republicanos viram que foram decretadas umas tantas leis proibindo a criação de pequenas fábricas de tecidos na colônia, em datas sucessivas. Com isso, compreenderam que aqueles teares jamais poderiam ter sido criados, enquanto que uma leitura exata do que ocorreu faz supor justamente o contrário: as leis se repetiam não para inibir a criação, mas para fechar o que estava em funcionamento. Em suma: as fabriquetas existiram, e quem afirma o contrário só está repetindo um erro de quase um século.
Um outro exemplo da leitura que pode ser feita das leis, para que se enxergue o real vivido, dá-se com o caso de certas leis chamadas pragmáticas, criadas pela Coroa portuguesa em inúmeras ocasiões – na verdade, todas as cortes européias possuíam às suas, somente os nomes mudavam. Tais leis determinavam o comportamento das variadas camadas sociais, frente ao rei e à nobreza, tanto em cerimônias públicas quanto na vida comum. Elas arbitravam até quantas mulas poderiam ser atreladas na carruagem de um burguês, quantas na de um magistrado, quantas na de um nobre e coisas que tais. Quem poderia usar uma espada e quem não era habilitado para tal, quem poderia usar tais ou quais tecidos, etc. A intenção era disciplinar as contendas entre os particulares e refrear um pouco o luxo numa sociedade que era um imenso teatro, feito de símbolos e ostentações em que a cada um cabia – ou deveria caber – um bem delimitado papel.
Os exemplos destes tipos de leis são vários. Na Rússia de Pedro, o Grande (1672-1725), aquele monarca aboliu os longos cabelos e barbas das cabeças dos nobres. E o uso de bigodes só era permitido aos oficiais de cavalaria. Na França de Luís XV (1710-1774), o burguês Voltaire (1694-1778) não pode se bater em duelo com um nobre que o insultara. E também havia leis determinando qual a velocidade em que poderia trafegar a carruagem de um barão, conde, marquês ou duque, de maneira que alguém mais baixo não passasse à frente de alguém mais alto.
Uma outra justificativa para estas leis, para além da mera etiqueta de corte e refreamento das pretensões individuais, era de natureza econômica. Muitos monarcas, pelos olhos de seus ministros, percebiam que somas extraordinárias de dinheiro eram gastas com objetos de luxo. Importâncias que poderiam ser revertidas em tarefas mais produtivas ou que acabavam por sair dos países de origem para o pagamento de bens importados. O Marquês de Pombal (1699-1782), por exemplo, chegou a proibir a importação de certos artigos de luxo para que se privilegiasse a produção local e se incentivasse as manufaturas portuguesas, então sendo criadas e desenvolvidas.
Hoje tais leis parecem extravagantes, ultrapassadas, velharias. Mas seu espírito continua bastante atual. Há menos de cinquenta anos, por exemplo, o General de Gaulle (1890-1970), Presidente da França (de 1959-1969), dizia aos seus ministros que evitassem os banhos de sol, pois se aparecessem bronzeados em público poderiam passar a idéia de que se entregavam ao ócio e aos luxos dos balneários. E, nos dias de hoje, práticas deste tipo ainda ocorrem: o “auxílio-cabide”, de que gozam certos políticos e funcionários públicos, nada mais é do que uma decorrência deste espírito de corte, de espetáculo, de cerimonial.
E muita gente que faz parte da dita sociedade civil, compartilha deste raciocínio, ainda que de uma forma um tanto caricata e grosseira, motivada pelo preconceito. Lembro-me de uma matéria de poucos anos atrás, publicada numa grande revista, que dava voz a umas mocinhas “da sociedade” indignadas por verem garotas de programa utilizando o mesmo vestuário que elas, e somente elas, se achavam no direito de usar... Irônico, não?
Portanto, as pragmáticas são, e ao mesmo tempo não são, coisas do Passado. Acredito que muita gente, aliás, bem que gostaria de decretar umas tantas delas, para seu conforto e garantia de bem-estar...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de maio de 2010].
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O Centenário de morte de Mark Twain
No último dia 21 de abril celebrou-se o centenário de morte do escritor norte-americano Mark Twain (pseudônimo que consagrou Samuel Langhorne Clemens, 1835-1910). Cem anos... Nem acredito!
Sua importância para a literatura daquele país foi enorme. Os aclamados escritores William Faulkner (1897-1962), e Ernest Hemingway (1899-1961), inclusive, a respeito dele disseram: “[ele] foi o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros” (W.F.); e “[...] toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain, chamado Huckleberry Finn [...]. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” (E.H).
De fato, o livro As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), no Brasil mais conhecido como As Aventuras de Huck, não só é divertidíssimo como muito bem escrito. Trata-se de uma espécie de clássico moderno, mais com aspecto do que seria criado a partir dos anos 1910 e 1920 (ou mesmo 1930), do que um fruto natural de sua época. E, ao mesmo tempo, um retrato curiosíssimo a respeito da escravidão, que Mark Twain conhecera em seu país. Pois a relação de camaradagem entre o jovem Huck e o escravo foragido Jim vale por mais de uma centena de teses acadêmicas sobre o trato entre homens livres, ainda que um rapazola, no caso de Huck, e cativos, mesmo que adultos, como no caso de Jim. São páginas tão reveladoras quanto só se leriam, mais tarde, no Casa-grande & Senzala (1933), este nosso clássico de Gilberto Freyre (1900-1987). O qual, certamente, conheceu a obra ainda em sua juventude, no original, ou no colégio americano em que estudou no Recife, ou na Universidade Colúmbia, de Nova Iorque. Não descarto a possibilidade, aliás, que a curiosa relação entre os dois personagens do romance tenha, em certos aspectos, influenciado sua opus magna.
Mas a questão do tratamento afável e justo que o jovem Huck dedica ao foragido Jim, que conhece desde há muito, foi sobremodo espicaçada pelos adeptos do politicamente correto nos EUA, que chegaram a proibir a leitura da obra em muitas escolas daquele país. Tudo por conta do emprego da expressão “nigger” para se referir a Jim. O termo, hoje, é considerado ofensivo e racista. Corresponde ao nosso “preto” ou “crioulo” em lugar de quem hoje chamamos de “negros”. Mas quem tem mais de trinta anos sabe muito bem que, num passado bem próximo, chamar alguém de “negro” é que era realmente ofensivo. Então, dizia-se, com respeito, que fulano era “um preto”, ou “preto”. “Negro” era, como se lembravam os mais velhos, e a história o comprova, o tratamento dado pelos senhores aos seus escravos. Mas certas militâncias, em geral, quando não desconhecem a História, procuram ajustá-la aos seus fins. Fazer o quê...
Voltando à copiosa obra de Mark Twain, sua qualidade e atualidade são notáveis. Relendo alguns fragmentos seus, publicados recentemente sob o título Patriotas e Traidores (Fundação Perseu Abramo, 2003), não deixei de me quedar surpreso, aqui e ali, com a acuidade de seus pensamentos políticos e de sua visão de mundo. E a leitura de qualquer um de seus contos, primorosos, é de rolar de rir. O Roubo do Elefante Branco, por exemplo, é uma sátira à polícia e à sociedade de seu tempo – seria somente daquele tempo? – como poucas vezes se viu. E o Diário de Adão e Eva, uma das mais finas ironias da relação entre homem e mulher que já li. Mas é difícil mencionar dois contos dentro da jovial, lúcida e excelente obra de Mark Twain e deixar tantos outros de lado. Além de sua influência na cultura moderna, graças às adaptações cinematográficas que pelo menos duas de suas obras receberam: falo de O Príncipe e o Plebeu (1882) e Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889). Quando assistirem um filme no qual um menino ou menina rica troca de lugar e vida com uma criança pobre, que é identica a ela fisionomicante, saibam que a fonte é a primeira obra. Ou quando a trama mostra um homem moderno que regressa ao passado e, entre desconfortos e incompreensões mútuas, faz valer sua vontade moderna, tenham ciência que a origem encontra-se na segunda.
Finalizando, recomendo a todos que nunca o leram, que leiam-no. E aqueles que o conhecem, que o releiam de vez em quando. Mark Twain continua ótimo, atual e vivo mesmo depois de cem anos de sua morte.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de maio de 2010].
Sua importância para a literatura daquele país foi enorme. Os aclamados escritores William Faulkner (1897-1962), e Ernest Hemingway (1899-1961), inclusive, a respeito dele disseram: “[ele] foi o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros” (W.F.); e “[...] toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain, chamado Huckleberry Finn [...]. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” (E.H).
De fato, o livro As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), no Brasil mais conhecido como As Aventuras de Huck, não só é divertidíssimo como muito bem escrito. Trata-se de uma espécie de clássico moderno, mais com aspecto do que seria criado a partir dos anos 1910 e 1920 (ou mesmo 1930), do que um fruto natural de sua época. E, ao mesmo tempo, um retrato curiosíssimo a respeito da escravidão, que Mark Twain conhecera em seu país. Pois a relação de camaradagem entre o jovem Huck e o escravo foragido Jim vale por mais de uma centena de teses acadêmicas sobre o trato entre homens livres, ainda que um rapazola, no caso de Huck, e cativos, mesmo que adultos, como no caso de Jim. São páginas tão reveladoras quanto só se leriam, mais tarde, no Casa-grande & Senzala (1933), este nosso clássico de Gilberto Freyre (1900-1987). O qual, certamente, conheceu a obra ainda em sua juventude, no original, ou no colégio americano em que estudou no Recife, ou na Universidade Colúmbia, de Nova Iorque. Não descarto a possibilidade, aliás, que a curiosa relação entre os dois personagens do romance tenha, em certos aspectos, influenciado sua opus magna.
Mas a questão do tratamento afável e justo que o jovem Huck dedica ao foragido Jim, que conhece desde há muito, foi sobremodo espicaçada pelos adeptos do politicamente correto nos EUA, que chegaram a proibir a leitura da obra em muitas escolas daquele país. Tudo por conta do emprego da expressão “nigger” para se referir a Jim. O termo, hoje, é considerado ofensivo e racista. Corresponde ao nosso “preto” ou “crioulo” em lugar de quem hoje chamamos de “negros”. Mas quem tem mais de trinta anos sabe muito bem que, num passado bem próximo, chamar alguém de “negro” é que era realmente ofensivo. Então, dizia-se, com respeito, que fulano era “um preto”, ou “preto”. “Negro” era, como se lembravam os mais velhos, e a história o comprova, o tratamento dado pelos senhores aos seus escravos. Mas certas militâncias, em geral, quando não desconhecem a História, procuram ajustá-la aos seus fins. Fazer o quê...
Voltando à copiosa obra de Mark Twain, sua qualidade e atualidade são notáveis. Relendo alguns fragmentos seus, publicados recentemente sob o título Patriotas e Traidores (Fundação Perseu Abramo, 2003), não deixei de me quedar surpreso, aqui e ali, com a acuidade de seus pensamentos políticos e de sua visão de mundo. E a leitura de qualquer um de seus contos, primorosos, é de rolar de rir. O Roubo do Elefante Branco, por exemplo, é uma sátira à polícia e à sociedade de seu tempo – seria somente daquele tempo? – como poucas vezes se viu. E o Diário de Adão e Eva, uma das mais finas ironias da relação entre homem e mulher que já li. Mas é difícil mencionar dois contos dentro da jovial, lúcida e excelente obra de Mark Twain e deixar tantos outros de lado. Além de sua influência na cultura moderna, graças às adaptações cinematográficas que pelo menos duas de suas obras receberam: falo de O Príncipe e o Plebeu (1882) e Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889). Quando assistirem um filme no qual um menino ou menina rica troca de lugar e vida com uma criança pobre, que é identica a ela fisionomicante, saibam que a fonte é a primeira obra. Ou quando a trama mostra um homem moderno que regressa ao passado e, entre desconfortos e incompreensões mútuas, faz valer sua vontade moderna, tenham ciência que a origem encontra-se na segunda.
Finalizando, recomendo a todos que nunca o leram, que leiam-no. E aqueles que o conhecem, que o releiam de vez em quando. Mark Twain continua ótimo, atual e vivo mesmo depois de cem anos de sua morte.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de maio de 2010].
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sexta-feira, 30 de abril de 2010
Pulseiras ou algemas?
Sempre achei o uso de pulseiras, sobretudo da parte dos homens, de uma cafonice atroz. Aliás, o simples ostentar de jóias, por alguém do sexo masculino, parece-me de um mau-gosto insuportável. Respeito alianças (de compromisso, noivado casamento), uma corrente com a medalha do santo de devoção (ou o Crucifixo, ou a Estrela de Davi, para os judeus, ou outros símbolos permitidos pelas demais religiões). Da mesma maneira, não sou contrário aos anéis de formatura – ainda que nunca fosse capaz de imaginar-me usando um. Não me oponho aos prendedores de colarinhos, ou de gravatas, nem a broches ou alfinetes (hoje chamados de pins e bottons) que indicam a filiação ou pertencimento de seu portador a uma confraria, partido político, clube, sociedade, ordem honorífica, etc. Nem me oponho àqueles que usem um brinco numa orelha – dois, convenhamos, já é demais. Mas admitindo-se que o uso deles é livre – como, defendo, devem mesmo ser – também há que se ter certa morigeração no seu emprego, sob o risco de, excedendo um certo equilíbrio, um sujeito vir a parecer uma vitrine ambulante de jóias, para ficarmos numa comparação lisonjeira: outras, muito piores, são possíveis. E nem sequer tratamos dos piercings ainda...
Confesso que, atualmente, surpreendem-me certos homens que se adornam com grossas correntes pendentes do pescoço e amplos medalhões em suas pontas, exibidos no peito aberto de uma camisa justa, geralmente acetinada. Tal modismo, ou ausência dele, parece-me, e a muitos, uma reprise do que de pior – salvo as ditaduras – os anos 1970 foram capazes de produzir.
Mas mesmo os outros itens mencionados, sem o correto emprego, sem economia, podem horrorizar qualquer pessoa. Imaginemos um hipotético exemplo, nem um pouco impossível, visto que já vi vários deles em pelo menos cinco estados brasileiros, sem contar o Distrito Federal: imaginemos, portanto, um jovem contestador (com pelo menos um piercing e um brinco, e seu botton do PV), recém graduado (com o anel de formatura que seus pais lhe deram) em Direito (com o seu broche da OAB na lapela do paletó), que está noivo (com sua aliança) e que acabou de voltar de uma viagem à Bahia (com sua pulseira/fita do Senhor do Bonfim). E acrescentemos à sua indumentária um prendedor de gravatas (destes que levam ainda uma correntinha, muito comuns entre os estagiários em Belo Horizonte). É ou não é de assustar?
Retornando às pulseiras, os leitores com mais de trinta anos talvez se recordem da Pulseira Sabona, feita originalmente de cobre e que muita gente honesta e decente a usou por seus supostos poderes curativos, antiestressantes ou que tais. Como a peça era um bocado feia, ou parecia um índice pouco sugestivo da “prosperidade” de seu possuidor (vivia-se, então, a legenda da eficácia do “pensamento positivo = riqueza”, que misturava uma escuma de conhecimento esotérico com a borra de um capitalismo tacanho), logo surgiram as versões com banho de prata ou de ouro, que eram uma tremenda negação do princípio ativo da coisa (a liberação de cobre a ser absorvida pela pele), em prol da, suposta, exibição de boa condição financeira. Não posso dizer se as tais pulseiras funcionavam ou não, porque em menos de uma década elas foram praticamente abolidas nestas plagas. Também não tenho profundos conhecimentos na área da Medicina (uma ciência em eterna mutação), para avaliar os dons curativos da pulseira. Como um estudioso da História, entretanto, conheço muito bem tal sorte de amuletos, de maneira geral conhecidos como simpáticos (“próximos à doença”, numa tradução livre). Grosso modo, sua utilização equivale a beber um copo de vinho, no qual esteve imerso um prego de ferro, para suprir as carências de Ferro que uma pessoa tem em seu organismo. Em suma: está mais próxima da Magia e da Alquimia do que da douta Medicina dos nossos tempos. Mas tudo bem, nada contra. O apego às tradições centenárias é, muitas vezes, uma delícia e um conforto.
O problema das pulseiras atuais, entretanto, é de outra natureza, como, acredito, todos saibam. Trata-se do uso delas, por adolescentes, como um código para aproximações físicas ou sexuais que, parece, chegou até mesmo a resultar no estupro de uma jovem em Londrina, PR.
Segundo o que o grosso da imprensa tem alardeado, o código das pulseiras – mais utilizadas pelas moças do que pelos rapazes – é baseado nas cores vermelho, amarelo e verde, reproduzindo o dos semáforos das esquinas. Assim, vermelho diria: “não estou a fim (sequer de aproximação)”; amarelo significaria: “estou aberta a uma cantada (desde que seja boa)”; e, verde: “venha aqui já, otário (pode fazer a festa)”.
Entretanto, me parece que esta sinalização é mais grave do que aparenta ser e do que a grande mídia nacional nos informa. Nos Estados Unidos da América, nosso Grande Irmão do Norte, esta prática vigorou há alguns anos (não sei se ainda vigora) e seu código, além de incluir mais cores no espectro das “disposições amorosas” de seus usuários, indicaria, isto sim, as práticas sexuais ou carícias que seus portadores estariam dispostos a oferecer, independentemente do rompimento das pulseiras. E, acredito, seja este o motivo do pânico gerado junto a certas famílias e autoridades daqui pelo uso destes “convites” nos pulsos dos jovens. Medo criado graças à inexatidão das informações à respeito dos “sinais” e de suas consequências, parcamente ventiladas, com a brandura da um movimento de leque, pela grande imprensa, a qual não procura relacionar as múltiplas implicações daquele sistema de sinais, O qual, possivelmente, vitimou a pobre jovem de Londrina.
E quanto à proibição das vendas das pulseiras por parte do Estado (já em vigor em Campinas e Hortolândia, até onde sei, pretendida em Holambra), creio que se trata de um absurdo. Hoje proíbem-se pulseiras coloridas, amanhã bottons e pins, depois de amanhã anéis e brincos, e... e depois, onde vamos parar?
O Estado não tem nada de que se envolver num assunto destes. Proibi-las nas escolas, sob sua responsabilidade, até que passa. Como o uso de celulares e bonés (uns porque atrapalham as aulas, outros porque os dissimulam e, afinal, nem são indispensáveis: não bate sol a pino dentro das salas de aula nem há nada que não possa ser resolvido pelo telefone fixo da escola).
O problema das ditas pulseiras é de âmbito puramente familiar e pessoal. Das famílias, que podem arrancá-las dos braços de seus petizes, ou cerrar-lhes as portas para que não saiam com elas, ou, antes e melhor, que os esclareçam da vulgaridade e dos riscos aos quais se expõem. E, finalmente, dos próprios usuários, sem dúvida, que parecem se escravizar a um comportamento estúpido imposto por uma suposta maioria e que se deixam algemar passivamente a ele, em completa subjeção.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de abril de 2010].
Confesso que, atualmente, surpreendem-me certos homens que se adornam com grossas correntes pendentes do pescoço e amplos medalhões em suas pontas, exibidos no peito aberto de uma camisa justa, geralmente acetinada. Tal modismo, ou ausência dele, parece-me, e a muitos, uma reprise do que de pior – salvo as ditaduras – os anos 1970 foram capazes de produzir.
Mas mesmo os outros itens mencionados, sem o correto emprego, sem economia, podem horrorizar qualquer pessoa. Imaginemos um hipotético exemplo, nem um pouco impossível, visto que já vi vários deles em pelo menos cinco estados brasileiros, sem contar o Distrito Federal: imaginemos, portanto, um jovem contestador (com pelo menos um piercing e um brinco, e seu botton do PV), recém graduado (com o anel de formatura que seus pais lhe deram) em Direito (com o seu broche da OAB na lapela do paletó), que está noivo (com sua aliança) e que acabou de voltar de uma viagem à Bahia (com sua pulseira/fita do Senhor do Bonfim). E acrescentemos à sua indumentária um prendedor de gravatas (destes que levam ainda uma correntinha, muito comuns entre os estagiários em Belo Horizonte). É ou não é de assustar?
Retornando às pulseiras, os leitores com mais de trinta anos talvez se recordem da Pulseira Sabona, feita originalmente de cobre e que muita gente honesta e decente a usou por seus supostos poderes curativos, antiestressantes ou que tais. Como a peça era um bocado feia, ou parecia um índice pouco sugestivo da “prosperidade” de seu possuidor (vivia-se, então, a legenda da eficácia do “pensamento positivo = riqueza”, que misturava uma escuma de conhecimento esotérico com a borra de um capitalismo tacanho), logo surgiram as versões com banho de prata ou de ouro, que eram uma tremenda negação do princípio ativo da coisa (a liberação de cobre a ser absorvida pela pele), em prol da, suposta, exibição de boa condição financeira. Não posso dizer se as tais pulseiras funcionavam ou não, porque em menos de uma década elas foram praticamente abolidas nestas plagas. Também não tenho profundos conhecimentos na área da Medicina (uma ciência em eterna mutação), para avaliar os dons curativos da pulseira. Como um estudioso da História, entretanto, conheço muito bem tal sorte de amuletos, de maneira geral conhecidos como simpáticos (“próximos à doença”, numa tradução livre). Grosso modo, sua utilização equivale a beber um copo de vinho, no qual esteve imerso um prego de ferro, para suprir as carências de Ferro que uma pessoa tem em seu organismo. Em suma: está mais próxima da Magia e da Alquimia do que da douta Medicina dos nossos tempos. Mas tudo bem, nada contra. O apego às tradições centenárias é, muitas vezes, uma delícia e um conforto.
O problema das pulseiras atuais, entretanto, é de outra natureza, como, acredito, todos saibam. Trata-se do uso delas, por adolescentes, como um código para aproximações físicas ou sexuais que, parece, chegou até mesmo a resultar no estupro de uma jovem em Londrina, PR.
Segundo o que o grosso da imprensa tem alardeado, o código das pulseiras – mais utilizadas pelas moças do que pelos rapazes – é baseado nas cores vermelho, amarelo e verde, reproduzindo o dos semáforos das esquinas. Assim, vermelho diria: “não estou a fim (sequer de aproximação)”; amarelo significaria: “estou aberta a uma cantada (desde que seja boa)”; e, verde: “venha aqui já, otário (pode fazer a festa)”.
Entretanto, me parece que esta sinalização é mais grave do que aparenta ser e do que a grande mídia nacional nos informa. Nos Estados Unidos da América, nosso Grande Irmão do Norte, esta prática vigorou há alguns anos (não sei se ainda vigora) e seu código, além de incluir mais cores no espectro das “disposições amorosas” de seus usuários, indicaria, isto sim, as práticas sexuais ou carícias que seus portadores estariam dispostos a oferecer, independentemente do rompimento das pulseiras. E, acredito, seja este o motivo do pânico gerado junto a certas famílias e autoridades daqui pelo uso destes “convites” nos pulsos dos jovens. Medo criado graças à inexatidão das informações à respeito dos “sinais” e de suas consequências, parcamente ventiladas, com a brandura da um movimento de leque, pela grande imprensa, a qual não procura relacionar as múltiplas implicações daquele sistema de sinais, O qual, possivelmente, vitimou a pobre jovem de Londrina.
E quanto à proibição das vendas das pulseiras por parte do Estado (já em vigor em Campinas e Hortolândia, até onde sei, pretendida em Holambra), creio que se trata de um absurdo. Hoje proíbem-se pulseiras coloridas, amanhã bottons e pins, depois de amanhã anéis e brincos, e... e depois, onde vamos parar?
O Estado não tem nada de que se envolver num assunto destes. Proibi-las nas escolas, sob sua responsabilidade, até que passa. Como o uso de celulares e bonés (uns porque atrapalham as aulas, outros porque os dissimulam e, afinal, nem são indispensáveis: não bate sol a pino dentro das salas de aula nem há nada que não possa ser resolvido pelo telefone fixo da escola).
O problema das ditas pulseiras é de âmbito puramente familiar e pessoal. Das famílias, que podem arrancá-las dos braços de seus petizes, ou cerrar-lhes as portas para que não saiam com elas, ou, antes e melhor, que os esclareçam da vulgaridade e dos riscos aos quais se expõem. E, finalmente, dos próprios usuários, sem dúvida, que parecem se escravizar a um comportamento estúpido imposto por uma suposta maioria e que se deixam algemar passivamente a ele, em completa subjeção.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de abril de 2010].
A Ciranda de desgraças a girar
Todos os dias, por volta da uma da tarde, minha mulher e eu tomamos um café expresso numa confeitaria a uma quadra de nossa casa. O lugar é bastante agradável, tanto pela proximidade quanto pelo ambiente – salvo aos fins de semana: como se tornou um lugar meio que da “moda”, como dizem, uma gente estranha, mal-educada, pretensamente rica e claramente falastrona invade o lugar aos sábados e domingos. Nós, é claro, evitamo-los nestes dias.
Muito bem, há cerca de uma quinzena, pouco mais ou pouco menos, entramos ali e vimos um pequeno cartaz convidando os freqüentadores para uma festa, com fins filantrópicos, cujo cardápio seria um “porco no rolete”. Confesso que tenho verdadeira aversão a este tipo de prato, se é que o termo prato cabe a este tipo de coisa. Carneiros, novilhos e até mesmo bois – sim, perpetram isto em Cândido Rondon, Paraná – “no rolete” sugerem-me cerimônias bárbaras, banquetes selvagens, festins diabólicos: a refeição de um Gêngis Cã num dia de mau humor; ou de Átila, o Huno, em festa; ou de Vlad Drácula, o Empalador, num acesso de momentosa criatividade. Chego até mesmo a vislumbrar os preparativos, que , acredito, devem fazer eco à Orgia dos Duendes:
“[...] Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia. [...]
[...] Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo [...]”.
Deixando o velho Bernardo Guimarães (1825-1884) de lado, autor dos versos acima, retorno ao assunto para esclarecer o fim benemérito de tal manjar: o dinheiro arrecadado no funesto convescote seria revertido para as vítimas do terremoto do Haiti.
Não há dúvidas que o motivo é elevado, apesar da baixeza da proposta. Porém, ao mesmo tempo, dediquei-me a uma pequena contagem das desgraças mais recentes às para as quais pediram-se doações, para muitos, ou o cumprimento das Obras da Misericórdia, para alguns poucos e bons.
Contando somente a partir do fim do ano passado, assistimos às catástrofes de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, São Paulo, Haiti, Chile, Niterói, Rio de Janeiro e, mais recentemente, China. Se escapou alguma, depois de tantas, peço desculpas aos leitores. Mas o fato é que, por baixo, tivemos oito hecatombes em meros quatro meses, ou seja, quase duas por mês, na média. Ora, Como disse um amigo meu, “não há bolso nem armário que aguente! Mal despachei uma leva de roupas para Angra, e veio o Haiti. Agora me pedem contribuição para o Rio: será que pensam que sou dono de tecelagem? Mais um pouco e estarei tirando a roupa do corpo para doar! Vai com calma, ô Natureza!”.
Brincadeiras à parte – pois brincadeiras não cabem diante de tais descalabros, e os excelentes exemplos de São Martinho de Tours e São Francisco de Assis devem ser sempre lembrados como lições a serem seguidas para o conforto de quem dele necessita – o fato é que ando meio desconfiado de quem promove certas práticas caritativas com um certo alarde e por meio de expedientes tão suspeitosos. Um untuoso banquete (banquete?) cujos fundos serão revertidos para famélicos, não cheira a certa hipocrisia, quer de quem organiza, quer de quem toma parte? Benemerência, agora, tem de vir acompanhada de publicidade e satisfação (satisfação?) dos sentidos?
De fato, assistimos, nos últimos meses, a uma ciranda de desgraças monumentais poucas vezes vistas – e que não se culpem a rapidez na circulação das informações ou a fome da grande imprensa por tais mazelas. Nem, acredito, são sinais do Juízo Final, como aqueles horrorosos History Channel (que divulga mais boatos que História) e Discovery Channel (cada vez com menos descobertas) parecem alardear. Na minha sincera opinião, os motivos de muitas dessas calamidades são, e para sempre serão, insondáveis. Por outro lado, as conseqüências, evidentemente, poderiam ser minoradas com um mínimo de vontade pública. Mas o que esperar de uma época em que as consciências se apaziguam ao frigir das banhas de um filantrópico porco no rolete, anunciado aos quatro ventos, coberto pela imprensa, com direito a várias fotografias dos beneméritos de pança cheia?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2010].
Muito bem, há cerca de uma quinzena, pouco mais ou pouco menos, entramos ali e vimos um pequeno cartaz convidando os freqüentadores para uma festa, com fins filantrópicos, cujo cardápio seria um “porco no rolete”. Confesso que tenho verdadeira aversão a este tipo de prato, se é que o termo prato cabe a este tipo de coisa. Carneiros, novilhos e até mesmo bois – sim, perpetram isto em Cândido Rondon, Paraná – “no rolete” sugerem-me cerimônias bárbaras, banquetes selvagens, festins diabólicos: a refeição de um Gêngis Cã num dia de mau humor; ou de Átila, o Huno, em festa; ou de Vlad Drácula, o Empalador, num acesso de momentosa criatividade. Chego até mesmo a vislumbrar os preparativos, que , acredito, devem fazer eco à Orgia dos Duendes:
“[...] Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia. [...]
[...] Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo [...]”.
Deixando o velho Bernardo Guimarães (1825-1884) de lado, autor dos versos acima, retorno ao assunto para esclarecer o fim benemérito de tal manjar: o dinheiro arrecadado no funesto convescote seria revertido para as vítimas do terremoto do Haiti.
Não há dúvidas que o motivo é elevado, apesar da baixeza da proposta. Porém, ao mesmo tempo, dediquei-me a uma pequena contagem das desgraças mais recentes às para as quais pediram-se doações, para muitos, ou o cumprimento das Obras da Misericórdia, para alguns poucos e bons.
Contando somente a partir do fim do ano passado, assistimos às catástrofes de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, São Paulo, Haiti, Chile, Niterói, Rio de Janeiro e, mais recentemente, China. Se escapou alguma, depois de tantas, peço desculpas aos leitores. Mas o fato é que, por baixo, tivemos oito hecatombes em meros quatro meses, ou seja, quase duas por mês, na média. Ora, Como disse um amigo meu, “não há bolso nem armário que aguente! Mal despachei uma leva de roupas para Angra, e veio o Haiti. Agora me pedem contribuição para o Rio: será que pensam que sou dono de tecelagem? Mais um pouco e estarei tirando a roupa do corpo para doar! Vai com calma, ô Natureza!”.
Brincadeiras à parte – pois brincadeiras não cabem diante de tais descalabros, e os excelentes exemplos de São Martinho de Tours e São Francisco de Assis devem ser sempre lembrados como lições a serem seguidas para o conforto de quem dele necessita – o fato é que ando meio desconfiado de quem promove certas práticas caritativas com um certo alarde e por meio de expedientes tão suspeitosos. Um untuoso banquete (banquete?) cujos fundos serão revertidos para famélicos, não cheira a certa hipocrisia, quer de quem organiza, quer de quem toma parte? Benemerência, agora, tem de vir acompanhada de publicidade e satisfação (satisfação?) dos sentidos?
De fato, assistimos, nos últimos meses, a uma ciranda de desgraças monumentais poucas vezes vistas – e que não se culpem a rapidez na circulação das informações ou a fome da grande imprensa por tais mazelas. Nem, acredito, são sinais do Juízo Final, como aqueles horrorosos History Channel (que divulga mais boatos que História) e Discovery Channel (cada vez com menos descobertas) parecem alardear. Na minha sincera opinião, os motivos de muitas dessas calamidades são, e para sempre serão, insondáveis. Por outro lado, as conseqüências, evidentemente, poderiam ser minoradas com um mínimo de vontade pública. Mas o que esperar de uma época em que as consciências se apaziguam ao frigir das banhas de um filantrópico porco no rolete, anunciado aos quatro ventos, coberto pela imprensa, com direito a várias fotografias dos beneméritos de pança cheia?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2010].
Mais uma vez o desastre
No dia 6 de dezembro de 2008 – vejam lá quanto tempo faz – aqui neste mesmo espaço, comentei uma colossal enchente em Santa Catarina? Acaso alguém ainda se lembra do episódio, depois do que ocorreu em Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, no Haiti e no Chile? Tenho minhas dúvidas...
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:
“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.
Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:
“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.
Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].
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Ofício de Trevas
Na quarta-feira desta semana, dia em que o Catolicismo celebra a triste cerimônia do Ofício de Trevas com o fim de lembrar a toda humanidade que o mundo já está em trevas devido à proximidade da morte de Jesus Cristo, o então Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, José Serra de Chirico, anunciou seu afastamento do cargo a que foi eleito para disputar a Presidência da República.
Muitos piadistas ficaram em polvorosa. Ouvi de alguns: “O Serra, que muitos chamam de “o vampiro brasileiro”, se afastando em plenas Trevas, tem tudo a ver: vai ocupar seu espaço natural”. Um outro acrescentou, em tom de censura: “Depois ele não gosta que o comparem a Nosferatu,” – o vampiro da célebre adaptação cinematográfica do Drácula, de Bram Stoker, por F.W Murnau, de 1922 – “mas, vejam só, como o porte, a pele, a calva, e as orelhas, que noite após noite vão ficando mais pontiagudas, se assemelham à caracterização que o ator Max Schreck deu ao personagem” – concluiu. Um outro ainda declarou que, além do oportuno da data, via uma grande possibilidade de ascenção de sua campanha: “Já que tanta gente se interessa por vampiros hoje em dia – veja-se o fenômeno da série Crepúsculo, de Stephenie Meyer – é provável que ele tenha um grande número de cabos-eleitorais. O problema vai ser, com aquela cara, provar que é um vampiro do bem”.
Concordo que, apesar de risíveis, tais afirmações não são dignas de serem proferidas quanto ao Ilustríssimo Titular do Executivo Estadual. Como também não o são ao defuncto governador que em meio às Trevas se licencia – defuncto, na etimologia latina, é o nome que se dá a quem já exerceu sua função, functio, como no caso). E, igualmente, acho deploráveis quaisquer alusões quanto à sua aparência física. Àtila, o huno (406-453 d.C.) e Gêngis Cã (c. 1162-1227), jamais foram exemplos de beleza e, no entanto, foram homens de expressiva dedicação, vontade de trabalhar e amor por sua terra, a ponto de quase unificarem Europa e Àsia – pretensões que, até onde sabemos, não tem o nosso ex-excelentíssimo senhor governador. Em suma, que cada um seja feliz com a cara que tem e que se respeite isto.
O que me preocupa muito mais são as intensões do agora cidadão Chirico, o Breve, aquele que eleito senador, em 1994, com uma expressiva votação, abriu mão do posto (quem se lembra de seu suplente, eleito sem votos?), para ser Ministro do Planejamento. Pois ele cumpriu a função até seu término? Não: em 1996 largou o posto para concorrer à Prefeitura de São Paulo, perdendo-a para Celso Pitta. Gozando de uma espécie de Seguro-Desemprego jamais conhecida por qualquer cidadão brasileiro, foi ele reconduzido a outro cargo, mais uma vez de Ministro, desta vez da Saúde. E concluiu sua administração da pasta? Mais uma vez não: lançou-se candidato à Presidência da República. Resultado? Derrota. Do limbo político em que mergulhou – ou das trevas, como diriam outros – candidatou-se à Prefeitura de São Paulo, à qual logrou. Porém, menos de um ano e três meses depois, deixou a administração da maior cidade da América Latina a um político sem expressão nenhuma até o momento. E apresentou-se como candidato a Governador.
Pois se o seu amor por São Paulo é tão intenso como diz, seria de se esperar que continuasse no governo até o fim de seu mandato. E, até – valha-nos Deus! – que tentasse a reeleição. Por que, então, abandonar seus eleitores por uma aventura meramente pessoal? Porque ele tem uma obsessão, como declarou ao deixar o cargo.
Uma obsessão! Esta palavra fere os ouvidos até dos menos incultos, dentre os quais, acredita-se, ou acreditava-se, o defuncto Chirico, o Breve, não gostaria de se ver incluído. E ele pronunciou-a, e a seu modo de ver o mundo, com toda a ênfase: “Sou considerado um grande obsessivo, mas minha grande obsessão foi servir aos interesses gerais do meu estado e do meu país”.
Ora, uma obsessão, salvo ignorância de quem usa o termo, o que não parece ser o caso, seria um tipo de mania, ou melhor, uma patologia, que necessecita de um tratamento psicológico, e clínico, adequado. Como, também, em termos espíritas – concordemos com eles ou não – o resultado da influência nefasta de espíritos mal-intencionados sobre uma pessoa. Portanto, o que justificaria seu emprego naquela solene despedida do cargo? Pobreza vernacular (ignorância), declaração de princípios (mal ocultada, por julgar a audiência abaixo de sua pessoa), ou exposição de sua alma e de sua psique (revelada por uma sensação inerente de culpa que não lho permite silenciar – à qual chamam, por vezes, de lapsu linguae)?
Jamais saberemos o que se passa pela cabeça do, doravante, Cidadão Chirico, o Breve. Mas sinto-me forçado a reformar uma antiga suspeita. Não chegaria ao ponto de dizer, como alguns amigos, que, dado o hábito daquele senhor de tantas vezes candidatar-se a cargos públicos cada vez mais poderosos (e visto que anunciou seu afastamento do Palácio dos Bandeirantes na Quarta-Freira de Trevas), sua intenção seria anunciar-se como o Salvador da Pátria, ressucitado, em pleno Domingo de Páscoa.
Não! Isto é uma infâmia! Acredito piamente que o Chirico, o Breve, jamais se deixaria aproximar de tal heresia – sabe-se, aliás, que ele, espiritual e intelectualmente, sempre esteve ligado à sua paróquia na Mooca. E, depois, as campanhas não lhe dão tanta vantagem assim.
Mas como gosto de me precaver, peço, mais uma vez, a Deus – por conta dos trâmites eleitorais, ou pelo passar do tempo e da política, ou quanto aos dias que nos esperam no futuro, e, por garantia – que Ele conserve em saúde o Santo Padre. Pois, na sua ausência, não é de se duvidar que surja um candidato paulista, deixando o cargo, qualquer que seja ele, que porventura ocupe. Pois não seria bem do feitio de uma certa pessoa candidatar-se a uma vaga num puleiro ainda mais alto, ainda mais sensacional?
Em vista de tudo isto, e de outras mais, compunjamo-nos, todos, portanto, pelo período de trevas que se iniciou na quarta-feira passada. Que Deus expulse as trevas. E uma Feliz Páscoa.
[Publicado originalmente no Jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].
Muitos piadistas ficaram em polvorosa. Ouvi de alguns: “O Serra, que muitos chamam de “o vampiro brasileiro”, se afastando em plenas Trevas, tem tudo a ver: vai ocupar seu espaço natural”. Um outro acrescentou, em tom de censura: “Depois ele não gosta que o comparem a Nosferatu,” – o vampiro da célebre adaptação cinematográfica do Drácula, de Bram Stoker, por F.W Murnau, de 1922 – “mas, vejam só, como o porte, a pele, a calva, e as orelhas, que noite após noite vão ficando mais pontiagudas, se assemelham à caracterização que o ator Max Schreck deu ao personagem” – concluiu. Um outro ainda declarou que, além do oportuno da data, via uma grande possibilidade de ascenção de sua campanha: “Já que tanta gente se interessa por vampiros hoje em dia – veja-se o fenômeno da série Crepúsculo, de Stephenie Meyer – é provável que ele tenha um grande número de cabos-eleitorais. O problema vai ser, com aquela cara, provar que é um vampiro do bem”.
Concordo que, apesar de risíveis, tais afirmações não são dignas de serem proferidas quanto ao Ilustríssimo Titular do Executivo Estadual. Como também não o são ao defuncto governador que em meio às Trevas se licencia – defuncto, na etimologia latina, é o nome que se dá a quem já exerceu sua função, functio, como no caso). E, igualmente, acho deploráveis quaisquer alusões quanto à sua aparência física. Àtila, o huno (406-453 d.C.) e Gêngis Cã (c. 1162-1227), jamais foram exemplos de beleza e, no entanto, foram homens de expressiva dedicação, vontade de trabalhar e amor por sua terra, a ponto de quase unificarem Europa e Àsia – pretensões que, até onde sabemos, não tem o nosso ex-excelentíssimo senhor governador. Em suma, que cada um seja feliz com a cara que tem e que se respeite isto.
O que me preocupa muito mais são as intensões do agora cidadão Chirico, o Breve, aquele que eleito senador, em 1994, com uma expressiva votação, abriu mão do posto (quem se lembra de seu suplente, eleito sem votos?), para ser Ministro do Planejamento. Pois ele cumpriu a função até seu término? Não: em 1996 largou o posto para concorrer à Prefeitura de São Paulo, perdendo-a para Celso Pitta. Gozando de uma espécie de Seguro-Desemprego jamais conhecida por qualquer cidadão brasileiro, foi ele reconduzido a outro cargo, mais uma vez de Ministro, desta vez da Saúde. E concluiu sua administração da pasta? Mais uma vez não: lançou-se candidato à Presidência da República. Resultado? Derrota. Do limbo político em que mergulhou – ou das trevas, como diriam outros – candidatou-se à Prefeitura de São Paulo, à qual logrou. Porém, menos de um ano e três meses depois, deixou a administração da maior cidade da América Latina a um político sem expressão nenhuma até o momento. E apresentou-se como candidato a Governador.
Pois se o seu amor por São Paulo é tão intenso como diz, seria de se esperar que continuasse no governo até o fim de seu mandato. E, até – valha-nos Deus! – que tentasse a reeleição. Por que, então, abandonar seus eleitores por uma aventura meramente pessoal? Porque ele tem uma obsessão, como declarou ao deixar o cargo.
Uma obsessão! Esta palavra fere os ouvidos até dos menos incultos, dentre os quais, acredita-se, ou acreditava-se, o defuncto Chirico, o Breve, não gostaria de se ver incluído. E ele pronunciou-a, e a seu modo de ver o mundo, com toda a ênfase: “Sou considerado um grande obsessivo, mas minha grande obsessão foi servir aos interesses gerais do meu estado e do meu país”.
Ora, uma obsessão, salvo ignorância de quem usa o termo, o que não parece ser o caso, seria um tipo de mania, ou melhor, uma patologia, que necessecita de um tratamento psicológico, e clínico, adequado. Como, também, em termos espíritas – concordemos com eles ou não – o resultado da influência nefasta de espíritos mal-intencionados sobre uma pessoa. Portanto, o que justificaria seu emprego naquela solene despedida do cargo? Pobreza vernacular (ignorância), declaração de princípios (mal ocultada, por julgar a audiência abaixo de sua pessoa), ou exposição de sua alma e de sua psique (revelada por uma sensação inerente de culpa que não lho permite silenciar – à qual chamam, por vezes, de lapsu linguae)?
Jamais saberemos o que se passa pela cabeça do, doravante, Cidadão Chirico, o Breve. Mas sinto-me forçado a reformar uma antiga suspeita. Não chegaria ao ponto de dizer, como alguns amigos, que, dado o hábito daquele senhor de tantas vezes candidatar-se a cargos públicos cada vez mais poderosos (e visto que anunciou seu afastamento do Palácio dos Bandeirantes na Quarta-Freira de Trevas), sua intenção seria anunciar-se como o Salvador da Pátria, ressucitado, em pleno Domingo de Páscoa.
Não! Isto é uma infâmia! Acredito piamente que o Chirico, o Breve, jamais se deixaria aproximar de tal heresia – sabe-se, aliás, que ele, espiritual e intelectualmente, sempre esteve ligado à sua paróquia na Mooca. E, depois, as campanhas não lhe dão tanta vantagem assim.
Mas como gosto de me precaver, peço, mais uma vez, a Deus – por conta dos trâmites eleitorais, ou pelo passar do tempo e da política, ou quanto aos dias que nos esperam no futuro, e, por garantia – que Ele conserve em saúde o Santo Padre. Pois, na sua ausência, não é de se duvidar que surja um candidato paulista, deixando o cargo, qualquer que seja ele, que porventura ocupe. Pois não seria bem do feitio de uma certa pessoa candidatar-se a uma vaga num puleiro ainda mais alto, ainda mais sensacional?
Em vista de tudo isto, e de outras mais, compunjamo-nos, todos, portanto, pelo período de trevas que se iniciou na quarta-feira passada. Que Deus expulse as trevas. E uma Feliz Páscoa.
[Publicado originalmente no Jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].
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