domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – III: De Sebos e afins

O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].

Viagem sentimental à roda de meus livros – II



O estudo da história conduz muitas vezes a áreas bastante curiosas. Uma destas é a que trata da crença em valores, práticas, tradições, as quais a ciência, em seu curso, acaba pondo por terra – em mais uma prova de que as próprias ciências são históricas...
Um caso exemplar é o da fisiognomonia, ou fisiognomônica, que seria a arte, ou ciência, de conhecer o caráter de uma pessoa a partir de seu rosto, de seus traços faciais. Em linhas gerais, muita gente acredita nela até hoje. Basta pensar na pronta associação que a maioria das pessoas faz entre à visão de alguém de testa alta, atribuindo-lhe uma grande inteligência. Ou uma tendência aos instintos baixo frente a olhos miúdos, à semelhança dos porcos. E alguns tipos excêntricos chegam a afirmar que, enquanto prática científica, tais constatações ainda são válidas. Poucas mentes de juízo, entretanto, levam-nos a sério.
Desacreditada hoje, esta interpretação do caráter pelas feições de seu dono, sobretudo associando-se eventuais semelhanças entre homens e determinados animais, notórios por tal ou qual comportamento, vem de longo tempo. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) acreditava nela (como pode ser visto na História dos Animais – 491b8-9;492a10 – e em Analíticos anteriores – 2.27), e um tratado (Physiognomonica) versando sobre o tema foi durante muito tempo atribuído a ele. Os romanos lhe deram crédito e a Idade Média os seguiu. Mas seu amplo florescer se deu a partir do Renascimento, graças a Giambattista della Porta (1535–1615) e suas comparações entre humanos e animais (como no caso da primeira ilustração, em que a crueldade da águia, expressa em seu bico voraz, seria também visível na face do imperador romano Sérvio Galba, graças ao seu nariz adunco). E muitos outros os seguiram ao longo dos séculos. O pintor Charles Le Brun (1619-1690), deixou alguns impressionantes desenhos e uma conferência apresentada na Academia Real de Pintura e Escultura tratando do assunto.




Já no século XVIII e princípios do XIX, graças ao espírito do tempo, tais teorias foram proclamadas ciências graças a obra de três homens: Johann Kaspar Lavater (1741-1801), Franz Joseph Gall (1758-1828) e Johann Kaspar Spurzheim (1776-1832). O primeiro, em sua L’Art de connaître les hommes par la physionomie (escrita entre os anos de 1775-1778, mas somente publicada integralmente em 1820), fez um apanhado das idéias já conhecidas e sofisticou-as à luz de suas próprias observações. Mas os dois seguintes criaram a Frenologia, uma ciência capaz de conhecer o caráter dos homens (e seu grau de criminalidade) pelo formato da cabeça, analisando caroços ou protuberâncias localizados em determinadas partes do crânio (veja-se o mapeamento das áreas na ilustração acima).
A popularidade de tal teoria foi imensa, no tempo e no espaço. O mundo letrado inteiro a conheceu e por todo globo cientistas passaram a medir crânios dos mais diversos indivíduos, da Patagônia à China, do Congo ao Alasca. Algumas vozes, entretanto, já naquela época, levantaram-se contra tais idéias – curiosamente um dos primeiros críticos foi o Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), que, segundo a Duquesa de Abrantes, Laure Junot, considerava o sistema de Gall “uma loucura”, “destruidora de toda a ordem e de toda lei” (Memoirs of Napoleon, his court and his family. Londres, 1836, vol.2, p. 256).
Uma prova de sua influência no mundo moderno, é que as próprias teorias de Cesare Lombroso (1835-1909), o “pai da criminologia”, derivam da Frenologia. E esta, sobretudo em certos países, vicejou por muito tempo.
Como estudo este tipo de interpretações, dentre outros temas, adquiri recentemente um livro, A System of phrenology (c.1820), de George Combe (1788-1858), um advogado escocês que acreditava piamente nas idéias de Gall e Spurzhein. E chama a atenção que a edição de que disponho tenha sido publicada em Nova Iorque ainda em 1886, época em que médicos como Jean-Martin Charcot (1825-1893) já revolucionavam o estudo dos comportamentos (criminosos, inclusive) e das doenças mentais em termos muito mais científicos: menos em termos de predestinações anatômicas e mais em estudos caso a caso de disposições particulares e dos efeitos do meio. E é realmente curiosíssimo o sucesso que a Frenologia conheceu nos Estados Unidos da América, e do qual parece ainda desfrutar. Creio que tal se deva à forte origem calvinista das mentalidades locais: é mais fácil atribuir o desvio a uma predestinação, a uma marca divina distintiva, do que como resultado da pressão de homens bons tementes a Deus sobre um pobre coitado... Porém, curiosamente, Gall era católico, e provavelmente Spurzheim também. Mas Lavater foi pastor na Suíça e Combe, natural de Edimburgo, com quase toda certeza era calvinista.
Uma nota divertida do livro de Combe, na edição que adquiri, ficou por conta de um de seus antigos donos. Na última folha do volume, em caligrafia bastante clara, encontra-se a seguinte anotação:

property of that –
good for nada.
MR Livingston
August 6 1887.

Não imagino quem seja este MR Livingston, que não encontrou propriedade alguma na obra, considerando-a “boa para nada”, mesclando o inglês ao português em seu comentário. O que vale, além da impressão do referido senhor, é a data em que foi registrada. É mais uma prova de que os espíritos críticos existem, nadando contra a corrente das modas e loucuras de seu tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de fevereiro de 2011].

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].

Contra o calor

Assim como há quem prefira o azul ao vermelho, o queijo minas ao queijo prato, e as listras aos xadrezes, há também aqueles que preferem o frio ao calor. E, dentre os últimos, inscrevo-me na turma da frente dos primeiros desde que me conheço por gente: mil vezes uma fresca aragem correndo por sobre a pele do que um bafo quente castigando o couro; e um milhão de vezes dormir debaixo de cobertas que seminu, implorando por uma brisa que sopre da janela quando nem o ventilador de teto da conta. Ar-condicionado, evidentemente, é muito bom. Mas há sempre o desconforto criado quando deixamos um ambiente sob sua graciosa mercê e enfrentamos o mundo real. Portanto, o ideal é um clima ameno. E, acredito, em vista da onda de calor que vimos atravessando, tenho certeza de que o número de correligionários em prol do frio, ou seus admiradores, há de aumentar.
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As Chuvas, outra vez

Numa crônica (De volta à colônia, de 5/5/2007) publicada neste mesmo espaço, referi-me, em linhas gerais, à perpétua repetição de certos eventos dignos de comentários que, dada a sua regularidade, dir-se-ia serem mesmo sazonais. Ou seja, o que pensei na hora, mas que então não pus em letra de forma, como se diz, foi que parecia haver, de fato, uma espécie de estação do ano para que ocorressem tais episódios; ou, ainda, que mesmo que livres de uma tal regra, visto que todos os anos ocorria algo do gênero, tratar de tais temas era tão obrigatório, e esperado, quanto escrever a crônica do Natal, do Fim do Ano, etc.
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:

“Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais”.



O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:

“[...]a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc”..


Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. [...]Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.


E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:

“ [...] São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país”.


Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].

De alguns milagres e coisas que tais

O agudíssimo filósofo Voltaire (1694-1778), numa série de textos tornados imprescindíveis ao conhecimento dos homens inteligentes, tratou largamente da questão dos milagres e de uma maneira tal que quase os inviabilizava. Pois, segundo ele, em termos gerais, se um milagre é uma violação das leis eternas e imutáveis estabelecidas por Deus, ninguém mais do que Ele seria zeloso pelo cumprimento das mesmas. Seria, portanto, impossível que um Ser infinitamente sábio criasse normas passíveis de serem quebradas, ainda que pelo onipotente criador daquelas normas. Pois Ele nada teria feito sem razão e, pois, com que razão poderia Ele desfigurar, por algum tempo que fosse Sua própria obra? Da mesma maneira, dada a relativa raridade dos milagres, seria possível supor que o Criador agisse em prol de algumas pessoas em específico e que ignorasse os anseios ou necessidades de milhares, se não milhões, de outras. Mas se houvesse tal distinção entre uns e outros, seria necessário que Ele mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares como doutrina a ser seguida, como prática a ser cumprida por Seus fiéis, e veríamos Sua figura, enquanto ideal de extrema Justiça, de forma bastante enviesada. Ou relativizada. O que seria impossível a um Absoluto de tão excelente natureza. De forma que, para encerrar a questão de uma maneira que fosse conveniente à questão da Onipotência divina e que não ferisse a lógica, o sábio francês acabou por renegar os milagres enquanto eventos maravilhosos, inesperados e contrários à natureza, preferindo-os definir como ação deliberada da Providência, nada aleatória e nem um pouco inexplicável. E assim Voltaire silenciou por um tempo seus censores enquanto apaziguava sua consciência.
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].

sábado, 15 de janeiro de 2011

Reflexão num dia de chuva

[Texto publicado em 15 de janeiro de 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers. EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da Jihad contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, saca seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva!