Certa vez um colega de estudos, membro de uma confissão evangélica, perguntou-me porque os católicos rendiam louvor ao Menino Jesus. Disse compreender que fossem dadas graças a Ele por ocasião do Natal, mas não entendia porque louvar uma parte da vida de Jesus, o Menino, como se fosse uma nova figura da Trindade, já que, afinal, o que deveria ser louvado era o Homem adulto e Seu ministério e sacrifício.
A resposta me veio fácil. Em primeiro lugar, como ele bem sabia, os católicos louvamos os santos e reconhecemos os milagres. Ora, são conhecidos muitos episódios das vidas dos mesmos santos em que os mesmos receberam a graça de contemplarem aparições de Jesus na forma do Menino – São Cristóvão e Santo Antônio de Lisboa são os exemplos mais conhecidos, dentre vários. Portanto, os católicos somos informados, por tais exemplos, que o Filho de Deus pode Se manifestar aos pios e devotos à Sua feição enquanto Menino. O meu colega de então não ficou muito satisfeito do ponto de vista teológico, mas como conhecia um pouco de como as coisas se davam no Catolicismo, dentre elas o apego à tradição e à história, entendeu a situação: se a autoridade (autorictas) autorizava, então ele compreendia (o que não queria dizer, evidentemente, que concordasse). E a conversa parou por aí.
Faço este preâmbulo porque dele me lembrei nesta última quinta-feira, dia de São João Batista. Estava passeando pela cidade, entrando em lojas, observando fachadas de casas, escolas, etc., quando vi, em diversos lugares, bandeiras de São João, no alto de mastros ou presas a barbantes, que retratavam o santo ainda como um menino. Ora – pensei no momento, à lembrança daquela conversa, que me ocorreu de pronto – a louvação ao Menino Jesus é compreensível, em vista do exposto. Mas qual seria a razão do Menino João Batista, já que ele também morreu adulto e, até onde conhecemos, não há registros de sua aparição na forma de criança na vida dos santos?
Do filho de Isabel, ainda criança, sabemos muito, e pouco, ao mesmo tempo. É conhecida a dificuldade de sua mãe em concebê-lo, o anúncio feito pelo anjo quanto ao seu nascimento, o que sucedeu a Zacarias, seu pai, e um episódio ainda ocorrido no ventre de sua progenitora, quando da visita de Maria à sua prima (Lc 1:5-25; 39-44), ocasião em que a criança “saltou de alegria” no ventre da mãe, diante da presença daquele daria à luz o Salvador. Depois, segue-se outro milagre envolvendo Zacarias e o nascimento de seu filho (Lc 1: 57-66), que rendem uma profecia quanto ao seu futuro: “E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, porque irá adiante do Senhor, para preparar os caminhos dele” (Lc 1: 76). Mas, efetivamente, quanto à sua infância, pelos Evangelhos, sabemos apenas que “O menino crescia e se fortalecia em espírito; e ele ficava nos lugares desabitados até o dia em que ele apareceu publicamente a Israel” (Lc 1:80): ou seja, quando já era adulto, pouco antes de batizar Jesus e ser decaptado por vontade de Salomé.
O fato é que, em nenhum ponto dos Evangelhos, há qualquer menção à juventude de São João Batista para além daquela já citada. Nem indício, salvo em texto apócrifo, que o mesmo tenha se encontrando com Jesus antes do batismo d’Este (Jo I: 15-34).
Por outro lado, temos inúmeras pinturas, ao longo da história da arte, representando cenas em que o Menino Jesus encontra-se junto a um também menino São João Batista. Representações que, após o Concílio de Trento (1545-1563), tendem a desaparecer, em prol de um São João Batista adulto, rústico, coberto de peles qual um troglodita, e de pelos qual um lobisomem, como ouvi de um estudante do ensino básico à vista de uma imagem barroca do referido santo.
Paira no ar a pergunta: qual o motivo desta represntação infantil de São João Batista que ainda hoje vemos? Seria um resquício de uma versão, tornada herege ao longo dos tempos, que poria o filho de Isabel num patamar quase tão elevado quanto o de Jesus? Uma visão que calou tão fundo na emotividade popular, a ponto de ser reproduzida pelos melhores artistas da época, e de forma acrítica, por gerações?
Tais hipóteses, acomodatícias, não nos parecem possíveis. Acreditamos que São João Batista, no imaginário popular, e cultural, é muito mais polifacetado e sujeito a análises heterodoxas do que julga a velha tradição. Pois, não é por acaso, que ele mesmo se envolve, diretamente, na gênese de dez entre dez confissões pentecostais: ainda que várias delas parecem querer esquecê-lo....
O fato é que tal assunto merece um estudo aprofundado. As linhas gerais, acima elencadas, não dão conta do assunto, evidentemente. Mas, acreditamos, melhor do que tudo, podem aguçar os paladares ante o prato que procuraremos servir proximamente.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de junho de 2010].
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