quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Incômodo João Batista

Certa vez um colega de estudos, membro de uma confissão evangélica, perguntou-me porque os católicos rendiam louvor ao Menino Jesus. Disse compreender que fossem dadas graças a Ele por ocasião do Natal, mas não entendia porque louvar uma parte da vida de Jesus, o Menino, como se fosse uma nova figura da Trindade, já que, afinal, o que deveria ser louvado era o Homem adulto e Seu ministério e sacrifício.
A resposta me veio fácil. Em primeiro lugar, como ele bem sabia, os católicos louvamos os santos e reconhecemos os milagres. Ora, são conhecidos muitos episódios das vidas dos mesmos santos em que os mesmos receberam a graça de contemplarem aparições de Jesus na forma do Menino – São Cristóvão e Santo Antônio de Lisboa são os exemplos mais conhecidos, dentre vários. Portanto, os católicos somos informados, por tais exemplos, que o Filho de Deus pode Se manifestar aos pios e devotos à Sua feição enquanto Menino. O meu colega de então não ficou muito satisfeito do ponto de vista teológico, mas como conhecia um pouco de como as coisas se davam no Catolicismo, dentre elas o apego à tradição e à história, entendeu a situação: se a autoridade (autorictas) autorizava, então ele compreendia (o que não queria dizer, evidentemente, que concordasse). E a conversa parou por aí.
Faço este preâmbulo porque dele me lembrei nesta última quinta-feira, dia de São João Batista. Estava passeando pela cidade, entrando em lojas, observando fachadas de casas, escolas, etc., quando vi, em diversos lugares, bandeiras de São João, no alto de mastros ou presas a barbantes, que retratavam o santo ainda como um menino. Ora – pensei no momento, à lembrança daquela conversa, que me ocorreu de pronto – a louvação ao Menino Jesus é compreensível, em vista do exposto. Mas qual seria a razão do Menino João Batista, já que ele também morreu adulto e, até onde conhecemos, não há registros de sua aparição na forma de criança na vida dos santos?
Do filho de Isabel, ainda criança, sabemos muito, e pouco, ao mesmo tempo. É conhecida a dificuldade de sua mãe em concebê-lo, o anúncio feito pelo anjo quanto ao seu nascimento, o que sucedeu a Zacarias, seu pai, e um episódio ainda ocorrido no ventre de sua progenitora, quando da visita de Maria à sua prima (Lc 1:5-25; 39-44), ocasião em que a criança “saltou de alegria” no ventre da mãe, diante da presença daquele daria à luz o Salvador. Depois, segue-se outro milagre envolvendo Zacarias e o nascimento de seu filho (Lc 1: 57-66), que rendem uma profecia quanto ao seu futuro: “E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, porque irá adiante do Senhor, para preparar os caminhos dele” (Lc 1: 76). Mas, efetivamente, quanto à sua infância, pelos Evangelhos, sabemos apenas que “O menino crescia e se fortalecia em espírito; e ele ficava nos lugares desabitados até o dia em que ele apareceu publicamente a Israel” (Lc 1:80): ou seja, quando já era adulto, pouco antes de batizar Jesus e ser decaptado por vontade de Salomé.
O fato é que, em nenhum ponto dos Evangelhos, há qualquer menção à juventude de São João Batista para além daquela já citada. Nem indício, salvo em texto apócrifo, que o mesmo tenha se encontrando com Jesus antes do batismo d’Este (Jo I: 15-34).
Por outro lado, temos inúmeras pinturas, ao longo da história da arte, representando cenas em que o Menino Jesus encontra-se junto a um também menino São João Batista. Representações que, após o Concílio de Trento (1545-1563), tendem a desaparecer, em prol de um São João Batista adulto, rústico, coberto de peles qual um troglodita, e de pelos qual um lobisomem, como ouvi de um estudante do ensino básico à vista de uma imagem barroca do referido santo.
Paira no ar a pergunta: qual o motivo desta represntação infantil de São João Batista que ainda hoje vemos? Seria um resquício de uma versão, tornada herege ao longo dos tempos, que poria o filho de Isabel num patamar quase tão elevado quanto o de Jesus? Uma visão que calou tão fundo na emotividade popular, a ponto de ser reproduzida pelos melhores artistas da época, e de forma acrítica, por gerações?
Tais hipóteses, acomodatícias, não nos parecem possíveis. Acreditamos que São João Batista, no imaginário popular, e cultural, é muito mais polifacetado e sujeito a análises heterodoxas do que julga a velha tradição. Pois, não é por acaso, que ele mesmo se envolve, diretamente, na gênese de dez entre dez confissões pentecostais: ainda que várias delas parecem querer esquecê-lo....
O fato é que tal assunto merece um estudo aprofundado. As linhas gerais, acima elencadas, não dão conta do assunto, evidentemente. Mas, acreditamos, melhor do que tudo, podem aguçar os paladares ante o prato que procuraremos servir proximamente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de junho de 2010].

A Farsa das bibliotecas falsas

No Brasil, por mais que se corra quanto a certos assuntos, que se busque rapidez nisto ou naquilo, somos ainda escravos de um atraso secular. E mesmo que algum progresso seja feito em certos campos, marchamos rumo a ele em passo de tartaruga. Para não dizer de caranguejo.
Veja-se o caso da Lei nº. 1244/2010, a qual determina que, dentro de um prazo de dez anos, todas as escolas brasileiras tenham uma biblioteca cujo acervo conte com pelo menos um título por aluno matriculado. Notem bem os números envolvidos: um título por aluno, em até dez anos. E, claro, a lei não diz uma só palavra quanto a possíveis punições a quem descumprir o que ela estabelece. Se forem os mesmos fiscais responsáveis pela verificação das bibliotecas de tantas faculdades particulares que existem por aí, tudo certamente ficará como está: o nada em pleno vazio. Ou, no máximo, poderá ser verificado aquele curioso fenômeno dos livros viajantes que se verifica em tantos centros de ensino superior privados: compram-se cinco mil volumes para a Unidade A, para fazer bonito na vistoria. Segue a fiscalização para a Unidade B e para ela, na véspera, muda-se o acervo. Quando chegada a hora da visita à Unidade C, lá estarão os mesmos livros viajantes. E no final se registra que o acervo total da instituição é de 15 mil volumes!
Que existam escolas públicas sem biblioteca, em minha opinião, já chega as raias do absurdo. Seria o mesmo que hospitais sem laboratório, ou quartel de bombeiros sem água encanada. Impossibilidades, em princípio, mas... paro por aqui: é bem provável que existam. Voltemos às bibliotecas e aos números.
O primeiro censo de bibliotecas públicas, encomendado pelo Ministério da Cultura e realizado pela Fundação Getúlio Vargas, traz resultados estarrecedores. Em primeiro lugar, ele revela que 445 cidades brasileiras ainda não tem bibliotecas municipais, o que equivale a quase 10% dos municípios em todo o país. E, ao mesmo tempo, apresenta gravíssimas distorções (os números, muitas vezes, suportam tudo). Sabemos através do levantamento, que Tocantins é o estado com maior índice de bibliotecas por grupo de 100 mil habitantes. Surpresa? Sim, mas esperem. É que ele possui 100 bibliotecas para 1 milhão e trezentos mil habitantes. E São Paulo – pobre São Paulo atrasado – quantas bibliotecas possui? Meras 673: arredondando, 7 vezes mais do que as de Tocantins, mas para uma população que é 32 vezes maior do que a daquele estado! Não é à toa que estamos em 22º lugar, perdendo até para o Maranhão! Situação pior (Acre, Pará e Amazonas não contam) só o que ocorre no Rio de Janeiro (38 bibliotecas a mais que Tocantins, para uma população 12 vezes maior), e no Distrito Federal (80 bibliotecas a menos – isto mesmo, a menos – do que Tocantins, para o dobro de habitantes daquele estado). Mas, em se tratando do Rio de Janeiro e DF (eternos motivos de críticas e piadas), e das administrações que tiveram por lá, já era de se esperar...
Surpreendente tal drama com ar de farsa. E as escolas ainda não têm bibliotecas. E terão ainda dez anos de prazo para implantá-las. Isto numa época em que tanto se tem discutido o futuro dos livros – não irão acabar, é certo, e deste assunto trataremos numa próxima ocasião – mas que sensíveis mudanças nos hábitos de leitura e publicações de títulos estão previstas, ou são vislumbradas.
Vejamos no que isto vai dar, mas as expectativas não são das melhores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de junho de 2010].

Fetichismo rastaquera

Fetiche é uma palavra que confunde muitas pessoas. A maioria delas, hoje em dia, só consegue relacioná-la a acessórios que poderiam incrementar seus momentos de prazer lúbrico. Para uns são botas, para outros lingeries de seda desta ou daquela cor, e coisas que tais: a imaginação, neste campo, é vastíssima... Todavia, o termo, em sua origem, nasceu no âmbito do sagrado. Ele remete ao português feitiço, que foi o nome dado pelos portugueses do século XVI aos objetos utilizados pelos africanos em seus cultos religiosos (o termo então empregado para o que hoje chamamos de feitiço era então bruxedo: “algo feito por bruxas”). Porque empregamos o galicismo fetiche – transliteração integral do idioma francês – é uma longa história que não cabe aqui. Mas sua significação primordial seria, de fato, um objeto concreto ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, sejam eles positivos ou negativos. Nesta categoria incluem-se os talismãs e as imagens sacras ditas miraculosas – desde que reverenciadas somente enquanto objeto e não por sua referência à divindade ou santo que procura representar. Quando um católico, julgando não ter recebido uma graça de seu santo de devoção, volta sua imagem contra a parede, “de castigo”, ele está sendo fetichista. Quando um neopentecostal condena todas as imagens de santos como símbolos do demônio, também está sendo fetichista: mais razoável seria se dissesse que elas são inúteis ou desnecessárias. Mas não é da precariedade teológia de certos indivíduos que tratamos aqui.
O conceito moderno de fetiche foi criado pelo pensador alemão Karl Marx (1818-1883), um sujeito notável sob muitos aspectos, mas considerado uma besta fera por muitos ignorantes. Não quero dizer com isto que ele era infalível, como, de Moscou a Cuba, foi dito por muito tempo. Que ele cometeu erros, é fato. E mais ainda os cometeram seus pretensos seguidores. Todavia uma série de argumentos dele continuam inabaláveis, e, dentre eles, o conceito da fetichização da mercadoria.
Em linhas gerais, Marx procurou dizer o seguinte: diversas mercadorias extrapolam o seu valor de uso – a sua utilidade – e acabam sendo revestidas (pelos produtores e pelos meios de comunicação de massa) de atributos superiores ao que eles possuem. Ao mesmo tempo, ele parece ser acessível a todos, mesmo que, na verdade, somente o seja a alguns poucos. E, por isso, ele se torna um símbolo de uma certa posição social, e sua acessibilidade, supostamente intrínseca, acaba se tornando uma exclusividade de fato, negada ao grosso das pessoas. Em suma: aparentemente, todos podem tê-la, isto é fundamental para a propaganda, mas somente uns poucos e bons podem adquirí-la, e, assim, estes se tornam melhores, tão somente por tê-las, do que os outros que não as possuem.
Exemplificando melhor, aproveitemos o caso recente do assalto de uma relojoaria num shopping center paulistano. Foi dito que alguns dos relógios ascendiam aos cinquenta mil reais, o preço de um bom automóvel que leva uma pessoa trabalhadora aos seus compromissos e ao seu lazer. Ora, qual a razão de um valor tal para um simples ornato de pulso produzindo em escala industrial? Acaso os engenheiros e desenhistas da indústria automobilística são menos capazes do que aqueles empregados na produção de um relógio? Seria o ato de consultar as horas (disponível em qualquer painel de carro, telefone celular, ou relógio de torre de igreja) uma função de tal crucial que justificaria o preço absurdo cobrado pelo instrumento que o propiciona? É claro que não. Trata-se de um puro fetiche. “Sou melhor porque tenho, nesta terra de desdentados, um relógio cujo preço, convertido em dinheiro, consertaria a boca de vinte famílias. Não importa que da minha avis rara exista centenas de similares na América do Norte, Europa e Ásia: nesta terra de bugres só poucos têm o que tenho”.
É triste saber que gente que ganha muito dinheiro não tem mais onde empregá-lo se não em adornos pessoais, para deleite exclusivo de seus prazeres. Leva-nos mesmo a pensar se, com tais fetiches, não procuram compensar uma série de fraquezas que enxergam nelas mesmas, de origem física e, até, eróticas, também, por que não? Pois quantos não devem pensar (não nos termos em que apresento, porque este tipo de gente costuma ser rala em termos de vocabulário): “Substituirei minha potência sexual, combalida, pela do motor do carro que comprarei”; ou “minha obesidade e calva avantajada afastam-me das mulheres [ou dos jovens: a quantidade de machões empedernidos que têm se aventurado em busca de novas experiências, saciados e cansados das tradicionais, aumenta a cada dia: que o diga um certo Fênomeno]: então está resolvido: desfilarei com um relógio caro”.
É lamentável que tantos ricos brasileiros se comportem assim, macaqueando os norte-americanos somente no seu consumo voraz. Não aprendem com eles que financiar a cultua, o estudo, a saúde e tantas outras causas sociais, além de sua utilidade, para o grosso do país, também poderia ser uma forma de divertimento para suas vidas tão ocupadas. Infelizmente, em lugar disso, prestam eles cultos a qualquer excentricidade vinda de fora que os faça sentir superiores aos outros: tal e qual os feiticeiros vodus do Caribe que, por usarem cartolas na cabeça, julgavam-se acima de todos. E tal comportamento, ao menos para mim, me recorda uma velha frase, não lembro dita por quem, que diz que no Brasil não existe luta de classes. Existiria, isto sim, uma gente sem classe alguma, no centro do poder político e econômico (cada vez mais irmanados), tentando se impor sobre um bando de desclassificados: cujo resultado é esta mixórdia geral que assistimos, quotidianamente, em todas as esferas, em todos os setores.
Até quando, meu Deus! Até quando, Júpiter e Olorum?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de junho de 2010].

Entre cobras e lagartos

No sábado passado correu a notícia de que um terrível incêndio teria destruído o Instituto Butantã. Foi dito que mais de cem anos de pesquisa científica foram perdidos graças às chamas. Além de milhares de répteis e insetos vivos, mortos pelo fogo.
Pois é, nada como um dia após o outro: nesta sexta-feira as informações já eram bem diferentes. Sabe-se que pelo menos 42 livros que contêm o registro de coleção de serpentes foram recuperados, além de animais mortos conservados em formol, além de aparelhos e objetos vários. Quanto aos animais vivos, foram todos salvos pelos pesquisadores, que merecem nossos parabéns pela coragem: por mais que estejam acostumados a lidar com simpáticos bichos quais serpentes, lagartos, escorpiões e aranhas, enfrentar um incêndio para salvá-los, dão provas de sua grande abnegação e valor.
Mas o saldo da destruição, ainda assim, não foi pequeno: mais de 70 mil espécimes foram destruídos – e combalida, também, ficou à nossa língua, graças às matérias que transformaram espécimes em substantivo feminino (confusão motivada pela palavra espécie), à qual adicionaram o adjetivo conservadas (que proporciona um inequívoco pleonasmo, pois espécime é sempre algo já conservado). Tudo isto enquanto o prédio ainda fumegava... Aliás, o fogo deu-se justamente na ala do Instituto que abrigava a coleção relacionada à ecologia e à evolução das espécies. É de se imaginar que os Criacionistas devem estar dando graças à Javé por isto: “as chamas do Senhor queimaram as crias de Satã”, devem estar bradando, regozijados, em seu templos...
Voltando ao campo da razão, é realmente lastimável o que ocorreu. O Butantã sempre foi um centro de excelência na pesquisa científica e, nos últimos anos, tornou-se o maior fornecedor de vacinas e soro antiofídico do país. Ao mesmo tempo em que convivia com uma biblioteca repleta de goteiras, infiltrações e cupins, e até de uma sala, sem teto, que precisou ser interditada no início do ano por conta de um deslocamento de vigas. Sem falar nas instalações elétricas do complexo, improvisadas e abaixo das necessidades, as quais acabaram por dar causa ao incêndio. Como se vê, seus pesquisadores são, de fato, heróis: lidam com bichos pelos quais todo mundo tem horror, enfrentam o fogo para salvá-los e, ao mesmo tempo, trabalham, produzem, em condições precaríssimas.
A Secretaria estadual – está explicado! – de Saúde, à qual está subordinado o Instituto, procurou defender-se alegando ter investido R$ 2,6 milhões na infraestrutura nos últimos quatro anos. È de se perguntar onde foi parar tanto dinheiro visto que, por exemplo, a coleção de obras raras, que abriga publicações dos séculos XVIII e XIX, encapadas com pele de cobra, “está espremida em um armário de ferro comum, cheirando à naftalina”, segundo a bibliotecária responsável. E, acrescentou, para a reportagem de um grande jornal: “Faz dez anos que cheguei aqui e faz dez anos que peço para comprarem um armário novo”, para guardar as raridades. Façam os cálculos: já sabem que partido, e que pessoas, estavam no comando do estado de São Paulo há dez anos...
Que azar ronda o nosso estado! Que urucubaca! Por que tanta penúria? Por que tanta incúria? Que sombra negra é esta que paira sobre nós? Até a ciência padece nesta terra desolada, entregue às cobras e aos lagartos. E nem mesmo estes, como se vê, estão livres do perigo...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de maio de 2010].

Novas notícias da prole de Adão

A imprensa mundial anunciou que a primeira análise em profundidade do genoma do Homo neanderthalensi, levada a cabo por cientistas alemães, revelou que indivíduos daquela remota espécie, muito semelhante ao Homo sapiens, chegaram a se acasalar com nosso ancestrais, e que a marca de tal intercâmbio genético estaria ainda presente no genoma do Homem moderno.
Da minha própria parte acrescentaria que, muito provavelmente, o tal Homem moderno formou-se, especificamente, do cruzamento do Homo sapiens, dos neandertais e de uns tantos daqueles outros grupos que habitaram a Terra no Passado. Um inequívoco exemplo disto, acredito, foi o daquele jovem que viveu há cerca de 24 mil anos, descoberto já como um fóssil, em 1998, na região do Vale do Lapedo, em Portugal, que, pela localização do achado, recebeu o nome de Menino do Lapedo. Então se verificou a existência inequívoca de traços mistos entre o Homem moderno e nossos primos distantes neandertais, sobretudo no aspecto do crânio e das mandíbulas.
Para nossos irmãos separados criacionistas, talvez se trate da própria caveira de Abel, deformada pela pedrada que lhe desferiu Caim, provavelmente por volta de 3900 e poucos anos a.C., segundo a Cronologia de Ussher, da qual já nos referimos aqui – e, curiosamente ao mesmo tempo em que já datavam de mil anos inúmeras culturas que viviam em aldeias, do Egito à China. É verdade que o tal fóssil do Menino do Lapedo indicava que o mesmo teria por volta dos 4 anos de idade quando morreu. Mas, se como diz a Bíblia, Adão faleceu aos 930 anos de vida, porque seu filho não poderia ser um pastor de ovelhas e sacrificante ao Senhor antes dos 5?
Controvérsias à parte, confesso, de antemão que entendo tanto de Genética quanto de Química, ou seja, o mínimo, somente aquilo que é necessário para não fazer feio em público e para não misturar, por exemplo, manga com leite: que pode não matar, sei muito bem, mas que dá uma dor de estômago dos diabos. Em todo caso, aceito, não digo de maneira dócil, mas cordata, um conhecimento científico de uma área que não domino, enunciado por alguém que desconheço e obtido e praticado através de formas que ignoro. Da mesma maneira que um criacionista ou um crédulo – não são sinônimos, friso – recorrem a um ortodontista para colocar um aparelho dental na boca dos filhos, a um professor para que os eduque, ou a um médico para que os cure, ao invés de deixar tudo ao encargo do Espírito Santo, ou da Santa Chaga do Ombro de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou ainda da Hamsá, ou Mão de Fátima (a Fátima filha de Maomé, não a Virgem do santuário português de mesmo nome – o qual, aliás, é bem próxima de onde acharam o Menino do Lapedo). Afinal, deve se dar o crédito a quem é de direito.
Pois o meu campo de estudos, os leitores já sabem, é a História, da Arte e da Cultura, e da Sociedade, e, a seu tanto da Literatura, o que engloba também a Religião e a Mitologia, porque não há cultura sem sociedade, sem literatura, arte, religião ou mitologia (esta, aliás, em grande parte, o fundamento daquela última: pois revelação não que dizer, necessariamente, ditado, podendo muito bem ser compreensão, que se difunde pelo meio literário, como bem o souberam São Jerônimo e Martinho Lutero). E tais descobertas acerca deste “hibridismo entre espécies” – obviamente não estéril, daí as aspas e, afinal, nós mesmos, enquanto seres viventes – ao lado de comprovações, também atuais, de que o Homo sapiens foi responsável pela expulsão dos neandertais, numa primeira etapa, ou pelo seu posterior extermínio, todos esses fatores, em suma, nos permitem pensar numa série de hipóteses várias acerca do destino de uns e de outros, de nós mesmos e de nossa Cultura.
Tendo a acreditar num longo período, sujeito a contendas mútuas, guerras e violências várias, durante o qual houve, efetivamente, uma assimilação entre uns e outros. Não só a Antropologia e a Etnologia dão vários exemplos de situações análogas, como a própria História da América recente (depois da chegada dos europeus), confirma tal suposição. O encontro com o Outro (ainda que horrível, para ambos os lados), nunca impediu a miscigenação ou a troca de culturas. O primeiro Silva Leme que se tem notícia, tronco cujos ramos posteriores fundariam a cidade de Leme, além de várias antes dela, outro não era que não o Cacique, tupi, Tibiriçá. E os descendentes de índios e portugueses abundaram, isolados ou integrados, ao longo de nossa história, assim como os de espanhóis e incas, ou desse e astecas.
Aqueles conúbios em tempos tão recuados (falamos de muitos milhares de anos) ajudariam a explicar vários mitos recorrentes de toda Europa, como aquela casta de homens e mulheres selvagens chamada de sátiros, “homens verdes” (por viverem nas florestas – dos quais já tratamos noutra ocasião, quando das possíveis origens do Papai Noel) ou o Homo selvaticus (cujos sobreviventes, alega-se, viveriam ainda em meados do século XV d.C.: ou seja, pouco antes da descoberta da América). E, cabe destacar, no século XVII, os orangotangos de Sumatra e Bornéu, foram identificados pelos cientistas europeus que a eles tiveram acesso como Simia satyrus, “macacos sátiros”, por supostamente atacarem mulheres, como seus predecessores da mitologia grega. Diante de tal caso, caberia investigar o quanto entrariam os sátiros na designação do animal: em razão dos naturalistas encontrarem semelhanças de comportamento entre uns e outros ou por os julgarem os últimos descendentes, ou remanescentes, dos primeiros? Para a ciência daqueles tempos, esforçando-se ainda para não romper com a tradição, tal hipótese era ainda muito plausível.
E daí para o mito – não para a existência real, faço questão de dizer – de outros seres prodigiosos, mais ou menos modernos, é só um pulo. Pulo do Pé-grande? Pode ser. Ou de Hércules. Ou, em certa medida, de Sansão. Ou ainda de Enkidu, da epopéia de Gilgamesh. Pois os mitos, na maioria das vezes, se equivalem. Somente por um ato de força é que um pode anular o outro.
E como fica o nosso pobre Adão, ou melhor, como ficamos todos nós, seus descendentes, diante dessa história toda? Somos feitos do barro, e insuflados pelo sopro divino, ou da cruza de uma humanidade ainda em formação, que evoluiu sabe-se lá como, e porque motivo? Ou, por fim, somos um híbrido da evolução de um outro, rumo a algo que desconhecemos, por vontade de uma Força Superior, chame-se Ela como melhor Lhe aprouver, já que, em princípio, Ela, ou ELE, é Absoluto?
Em minha opinião, isto pouco importa. Filhos ou não de um Deus, seja porque maneira for, intermediados por um macaco, um sapo ou uma bactéria, até nossa forma final, creio que esta, de fato, nasce com a nossa consciência, formada não sabemos como, nem quando, e que nos permite tanto aceitar como renegar a suposta, ou real, existência de uma divindade, que talvez – ou certamente, como se queira – seja aquela mesma que nos permitiu a própria formulação de tal dúvida. Creio, portanto, que qualquer ligação de um fiel à sua religião, deve se dar mais em razão do cumprimento de seus deveres ao próximo, mesmo que o próximo seja o outro (todas as grandes religiões são unânimes neste ponto, mas o mesmo não posso dizer das várias seitas que hoje se alastram): deixando as questões de outra natureza, que não teológica, para quem está capacitado e livre de entraves dogmáticos. Afinal, onde mesmo foi dito que o “cumprimento da Lei” superaria a “pureza de origem”?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de maio de 2010].

Pragmáticas

As leis, todas elas, são fontes muito interessantes para a pesquisa e o ensino da História. Até mesmo estas, tão mal escritas, que se editam hoje em dia: quem compara o Código Civil de 1916 – com sua elegância que nos faz recordar o quanto o português é uma forma moderna de latim – ao atual, sabe do que estou falando.
É claro que certos cuidados no estudo de tais documentos devam ser observados. O caso mais comum de uma má interpretação das leis frente a uma realidade vivida ainda é aquele da suposta inexistência de manufaturas no Brasil colonial. Tal equívoco se deu porque uns tantos historiadores republicanos viram que foram decretadas umas tantas leis proibindo a criação de pequenas fábricas de tecidos na colônia, em datas sucessivas. Com isso, compreenderam que aqueles teares jamais poderiam ter sido criados, enquanto que uma leitura exata do que ocorreu faz supor justamente o contrário: as leis se repetiam não para inibir a criação, mas para fechar o que estava em funcionamento. Em suma: as fabriquetas existiram, e quem afirma o contrário só está repetindo um erro de quase um século.
Um outro exemplo da leitura que pode ser feita das leis, para que se enxergue o real vivido, dá-se com o caso de certas leis chamadas pragmáticas, criadas pela Coroa portuguesa em inúmeras ocasiões – na verdade, todas as cortes européias possuíam às suas, somente os nomes mudavam. Tais leis determinavam o comportamento das variadas camadas sociais, frente ao rei e à nobreza, tanto em cerimônias públicas quanto na vida comum. Elas arbitravam até quantas mulas poderiam ser atreladas na carruagem de um burguês, quantas na de um magistrado, quantas na de um nobre e coisas que tais. Quem poderia usar uma espada e quem não era habilitado para tal, quem poderia usar tais ou quais tecidos, etc. A intenção era disciplinar as contendas entre os particulares e refrear um pouco o luxo numa sociedade que era um imenso teatro, feito de símbolos e ostentações em que a cada um cabia – ou deveria caber – um bem delimitado papel.
Os exemplos destes tipos de leis são vários. Na Rússia de Pedro, o Grande (1672-1725), aquele monarca aboliu os longos cabelos e barbas das cabeças dos nobres. E o uso de bigodes só era permitido aos oficiais de cavalaria. Na França de Luís XV (1710-1774), o burguês Voltaire (1694-1778) não pode se bater em duelo com um nobre que o insultara. E também havia leis determinando qual a velocidade em que poderia trafegar a carruagem de um barão, conde, marquês ou duque, de maneira que alguém mais baixo não passasse à frente de alguém mais alto.
Uma outra justificativa para estas leis, para além da mera etiqueta de corte e refreamento das pretensões individuais, era de natureza econômica. Muitos monarcas, pelos olhos de seus ministros, percebiam que somas extraordinárias de dinheiro eram gastas com objetos de luxo. Importâncias que poderiam ser revertidas em tarefas mais produtivas ou que acabavam por sair dos países de origem para o pagamento de bens importados. O Marquês de Pombal (1699-1782), por exemplo, chegou a proibir a importação de certos artigos de luxo para que se privilegiasse a produção local e se incentivasse as manufaturas portuguesas, então sendo criadas e desenvolvidas.
Hoje tais leis parecem extravagantes, ultrapassadas, velharias. Mas seu espírito continua bastante atual. Há menos de cinquenta anos, por exemplo, o General de Gaulle (1890-1970), Presidente da França (de 1959-1969), dizia aos seus ministros que evitassem os banhos de sol, pois se aparecessem bronzeados em público poderiam passar a idéia de que se entregavam ao ócio e aos luxos dos balneários. E, nos dias de hoje, práticas deste tipo ainda ocorrem: o “auxílio-cabide”, de que gozam certos políticos e funcionários públicos, nada mais é do que uma decorrência deste espírito de corte, de espetáculo, de cerimonial.
E muita gente que faz parte da dita sociedade civil, compartilha deste raciocínio, ainda que de uma forma um tanto caricata e grosseira, motivada pelo preconceito. Lembro-me de uma matéria de poucos anos atrás, publicada numa grande revista, que dava voz a umas mocinhas “da sociedade” indignadas por verem garotas de programa utilizando o mesmo vestuário que elas, e somente elas, se achavam no direito de usar... Irônico, não?
Portanto, as pragmáticas são, e ao mesmo tempo não são, coisas do Passado. Acredito que muita gente, aliás, bem que gostaria de decretar umas tantas delas, para seu conforto e garantia de bem-estar...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de maio de 2010].