domingo, 29 de agosto de 2010

Vinhos raros salvados de adegas velhas

Durante uma campanha eleitoral, com a magnitude desta que ocorre, é muito difícil tratar de outro tema que não este: quem pode ganhar, quem pode perder, e seus satélites erráticos gravitando ao redor dos astros, são temas que não nos saem da cabeça.
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:

Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.

Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:

Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.

E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].

Zé Chirico, o argentinito e popular, e sua trupe

O defuncto governador de São Paulo, José Serra Chirico, deu agora, em sua campanha, de anunciar suas origens humildes, um aspecto nada desabonador na vida de qualquer um, pelo contrário, mas que o mesmo parece ter omitido o quanto pôde e quis, e que só agora vem à tona, e a público. Tudo isto porque está interessado em pegar uma carona – deve ser no bagageiro – de Lula: se este tem sua biografia de homem humilde como um fator relevante em seu prestígio, o Chirico resolveu dizer que também é de extração baixa, trabalhador, filho de um vendedor de frutas no Mercado da Cantareira: o Zé, em suma, em mais um lance demagógico.
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].

Violência policial francesa?

Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].

Permissão para rir

Li recentemente, e com bastante assombro, que os programas humorísticos da televisão em breve irão censurar piadas e não mais fazer paródias de candidatos às próximas eleições. Tudo isto por causa da interpretação feita pelas emissoras da resolução 23.191./2009 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].

Citazione

Há décadas, para dizermos pouco, muitos alegam que nenhuma história, enquanto trama, narrativa, é essencialmente original.
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...

P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].

Heróis lendários e farsantes de ocasião

Quando alguém quer ridicularizar a organização dos esportes no Brasil, costuma contar um causo de um nadador brasileiro sem braço que teria participado da Olimpíada de 1920, em Antuérpia. Trata-se de um exagero, é verdade, mas parece aquele tipo de piada pronta, e irresistível, diante da qual ninguém verifica os fatos. Aceita-se, porque o chiste é ótimo, mesmo que inexato.
Mas, na verdade, não era bem assim. O atleta que hoje se tornou alvo involuntário e imerecido de galhofas foi, no passado, um dos maiores nomes da natação brasileira. Chamava-se Abraão Saliture, foi o primeiro campeão brasileiro dos 1.500 m, nado livre, no mar, em 1898, e venceu diversos campeonatos, vários deles internacionais, entre os anos de 1901 a 1906 e 1909 a 1920, o ano da Olimpíada. A qual, aliás, não seria a sua última: participou ainda da Olimpíada de Los Angeles, de 1932, com 49 anos de idade. Quanto ao seu problema físico, ele era, na verdade, um defeito no braço, adquirido na infância, resultado de uma doença não diagnosticada então. O que não o impediu de competir, naqueles jogos de 1920, para além da natação, e também no remo e no pólo aquático. Infelizmente, pouco mais se conhece deste intrépido herói: não encontramos registros de seu nascimento (presumivelmente 1883), origem, vida após os Jogos Olímpicos, ou de sua morte. Seus dados pessoais que chegaram até nós em pouco diferem do que sabemos dos antigos atletas gregos: um nome, uma participação olímpica, e pouco mais.
O leitor, ao cabo das linhas acima, deve ter ficado absurdado com a longevidade profissional, atlética, do bravo Abraão Saliture. “Competindo, ainda, aos 49 anos? E com um defeito no braço?”, deve ter pensado. Pois é. E, ao que tudo indica, cumpriu muito bem o que se esperava dele. Assim como o remador Amir Klink, com um defeito na mão, e 29 anos nas costas (em termos esportivos já não poderia ser considerado um jovem) cruzou sozinho o Atlântico, sem contar outras façanhas que fez depois. Sem falarmos nos intrépidos atletas paraolímpicos brasileiros, muitos deles já meio passados da idade, em comparação aos seus êmulos ditos normais, e que triunfam sobre suas desvantagens de forma briosa, quase mágica, e trazem muito mais medalhas das competições que a média dos ditos perfeitos.
Mais uma questão a ser colocada. O primeiro ouro olímpico brasileiro, a primeira prata e o primeiro bronze, couberam, respectivamente, a Guilherme Paraense, Afrânio da Costa e à equipe brasileira de tiro, à qual os dois primeiros pertenciam. Um pormenor curioso da trajetória deles pode ser verificado nos percalços que sofreram até chegarem a Antuérpia. Viajando às suas próprias expensas, tiveram de desembarcar, do navio que os levaria até a Bélgica, ainda em Lisboa, informados que foram de que o mesmo não chegaria a tempo para as provas. Seguindo de trem, tiveram parte das armas e da munição roubadas. Chegando a Antuérpia, com fome e quase sem o material esportivo – suas ferramentas de trabalho – foram salvos pela equipe norte-americana, que, deles condoída, emprestou-lhes armas e munições que os brasileiros não conheciam. E, ainda assim, nosso representantes triunfaram.
Pois bem, todos estes fatos vêm à mente quando pensamos no pífio resultado nesta Copa de nossa Seleção Canarinha (ou Canalhinha, como querem alguns), também conhecida como Legião Estrangeira (como querem outros, pelo fato da maioria dos jogadores atuar noutros países que não o nosso). Um grupo nababescamente pago, regiamente hospedado, divinamente incensado por público, imprensa e marketing, e que nada mostrou, nada fez. Ou melhor, fez e mostrou (para além de um gol de braço, ocorrido antes), apenas no primeiro tempo do jogo em que acabaria por ser desclassificado, e de virada.
Os motivos para a derrota apresentados – não pelos jogadores, estes deuses de chuteiras Nike incapazes de uma séria autocrítica: deuses, afinal, não se contradizem – mais uma vez repousam, alegadamente, nos problemas físicos de um único jogador. O que, à primeira vista, pode parecer perseguição a ele, o que, todavia, não é. Se o dito ataque brasileiro tinha como base três jogadores, e um deles não estava em plena condição de jogo – já de saída, dizem, graças a problemas nas partes pudendas – nada, evidentemente, poderia dar certo. Pensemos num banco de três pés. Afrouxemos um. No que resulta? Tombo na certa. E o que mais irrita é que noutras copas, com outros envolvidos, também ocorreu o mesmo: escalaram-se elementos sem fôlego, ou avariados, ou um pouco passados da idade, e sobre tais ruínas resolveram erigir fortalezas. Naquela ocasião, como agora, deu-se o que era de se esperar.
Entretanto, busquemos informações sobre estas nulidades efêmeras, cometas radiantes e passageiros, astros em ocaso: encontraremos legiões de fãs, páginas e mais páginas de amenidades tratadas como registro histórico, discursos laudatórios, e apaixonados, defendendo seus gostos pessoais, desejos, vontades. Sua fama, transitória na essência, parece imorredoura, na aparência que alguns a ela querem dar. Mas serão, no futuro, evidentemente, palavras ao vento.
Os velhos Abraão Saliture e Guilherme Paraense têm, de fato, o estofo e a fama dos atletas gregos: legendária, heróica e concisa. Os novos – o nome deles será irrelevante daqui a alguns anos – gozam, por enquanto, da mesma parcela da Fama que, no Passado, usufruíram os semi-aleijados, e mercenários, gladiadores romanos: um certo grau de onipresença na atenção popular, inscrita em paredes e objetos de adorno de gosto discutível. E o completo esquecimento por parte das gerações vindouras.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].

A Emulsão Scott e o Elixir do Pajé: história e política brasileiras sob um véu de alegoria

O PSDB, que não é qualquer partidozinho de meia-tigela (governou o País por oito anos, e governa o estado de São Paulo há quase dezesseis – com os resultados
que todos sabem) desempenhou um curiosíssimo papel nos últimos meses. Sua busca por um nome para vice do Chirico beirou às raias da farsa, ou da tragicomédia: um poema herói-cômico, com pouco heroísmo e quase nenhuma poesia. O partido parecia aquele homem de cara amarrada, que carrega o bacalhau no rótulo da Emulsão Scott. Vergado ante ao fardo, tenta “vender seu peixe”, sabendo que ele custa caro, é salgado, se mal preparado torna-se um horror e que o óleo de seu fígado é sinônimo de amargor. Como o homem tristonho do rótulo, sabe que não é fácil empurrar ao público um tal acepipe. Mas ao contrário do que se vê no rótulo, o partido só tinha para oferecer a cabeça do bacalhau – esta que todos juram nunca ter visto. Faltava-lhe, pois, o corpo. E saiu a pescá-lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
O primeiro pescado, já caído na rede e içado, revelou-se, à beira já da água, “impróprio para o consumo”, graças a sua dieta de panetones. E rejeitaram o Arruda. Depois, cogitaram a deputada Kátia Abreu, líder da bancada ruralista. Mas latifundiário, no Brasil, é sinônimo de tubarão, e não fica bem o corpo de um esqualo debaixo de uma cabeça de bacalhau. Alguns outros peixes miúdos também foram apanhados na rede. Mas de tão pequenos, escaparam por entre suas malhas. Tão fugaz foi sua presença ali, que mal foram identificados. Até que um peixe do Rio Paraná saltou para dentro da canoa e, olhando bem, ainda que não fosse da mesma espécie, era bem parecido. Juntando um ao outro, formava-se um todo, senão harmonioso, um bocado melhor do que aquelas sereias falsas que se fabricam com a parte de cima de um macaco e, a de baixo, de um peixe.
Mas um bando de caciques aliados daqueles pescadores – estes também caciques – não gostaram do que viram. Lembraram que bacalhau se pesca no mar, não em água de rio, seja do Centro-oeste ou do Sul. Conduziram o barco até a Costa, atiraram o peixe que para dentro dele saltara, e a cacicada esperta colocou em seu lugar um índio.
Quem foi comunicado de tal sucesso – a maioria do povo brasileiro, além de todo o resto da tripulação daquele barco, a qual não deu um pio, nem foi consultada – achou a solução um bocado estranha. Afinal, cabeça de bacalhau com corpo de índio cria uma monstruosidade infernal aos olhos. A própria fronte do bicho, aliás, já era um bocado assustadora. Mas os caciques aliados logo se apressaram a explicar: o índio entrava não para a montagem do todo, mas no lugar do homem que carregava a carcaça – alegoricamente, é claro. Caberia a ele, e aos seus jovens músculos, a responsabilidade de erguê-la em seus ombros, de vender o peixe seco e tentar convencer a todos que óleo de fígado de bacalhau é refresco. Juntava-se, assim, o vigor mercadológico dos Fogos Caramuru à combalida propaganda da tradicional emulsão e criava-se, deste modo, um eficiente genérico: o Elixir do Pajé sabor tubaína, capaz de levantar qualquer campanha ou candidato, murcho e cabisbaixo, sumido entre as tretas marqueteiras, mole, rolando por ladeira abaixo! E ao som das inúbias, ao som do boré, saudaram o índio que punha a campanha, deitada, de pé.
De nossa parte – e nesta se incluem algo em torno de uma centena e muitos milhões de eleitores –, pouco sabemos deste índio da costa fluminense, responsável pelos tais milagrosos efeitos que julgam seus confrades. A história nos conta que os silvícolas que habitavam aquela porção do litoral eram todos do tronco Tupinambá e dividiam-se em diversos grupos, inimigos entre si, cujos mais conhecidos eram os Terminiós e os Tamoios. Os primeiros, aliados dos portugueses (ou da Situação), e os segundos, dos franceses (membros da Oposição). Objetivo das lutas? O controle da Baía da Guanabara e adjacências (hoje, o terceiro maior colégio eleitoral do país).
Como a história nos mostra, os Tamoios (a Oposição) foram completamente desbaratados pela Situação, ou melhor, pela aliança entre o governo e os naturais da terra. E o jovem líder dos Tamoios, Aimberê, que se julgou oprimido pelos paulistas, terminou massacrado. Mas enterrado, piamente, pelo paulista por adoção, Padre José de Anchieta.
Portanto, é ver se este novo Aimberê – sem a pena de um Gonçalves de Magalhães que o embeleze – logrará sua vitória, ou será logrado pela fortuna, expirando, qual mártir equivocado, como o primeiro.
Finalmente nos ocorre que justamente este primeiro era de Niterói. E o atual é da Zona Sul carioca. Nada temos contra isso ou contra ele – visto que dele praticamente nada se sabe. Portanto, a sina de seu predecessor talvez não se confirme: pode ser derrotado, mas não massacrado: um grande prêmio por sustentar, sozinho, uma carcaça – alegoricamente falando, é claro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia,de Leme, São Paulo, em 3 de julho de 2010].