segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falatório das listas de livros do vestibular

Aproxima-se uma nova lista de livros cuja leitura será exigida dos vestibulandos de USP e Unicamp. Tal mudança implica uma série de consequências, mais ou menos curiosas. Em primeiro lugar, os títulos descartados irão inundar as prateleiras dos sebos e alfarrábios, vendidos por uma ninharia. Em segundo lugar, os novos sairão a peso de ouro, e pequenas editoras publicarão exemplares de obras cujos direitos já caíram em domínio público, com as costumeiras deficiências de sempre: edições mal cuidadas, notas pueris, análises claudicantes, etc. Em terceiro lugar, as comissões avaliadoras dos vestibulares, responsáveis pela mudança, receberão uma chuva de impropérios e anátemas dos professores preguiçosos de cursinho e ensino médio, visto que estes terão de reler (quando não ler pela primeira vez) o tal “clássico” que ora adentra na relação. Mas, em terceiro lugar, as supraditas comissões serão envolvidas por uma nuvem de bons votos, emanados de todos aqueles profissionais que não aguentam mais repetir as mesmas análises, os mesmos discursos, sobre as mesmas obras, já lá se vão três anos.
Minha cunhada, que é professora de Literatura, e eu, que gosto da área e mais ainda quanto à me manifestar sobre este assunto, trocamos algumas ideias sobre o que viria na futura lista. Apostamos, por alto, que virá algum livro do Drummond e da Clarice Lispector (está na moda); São Bernardo, do Graciliano Ramos; nos retornos d’A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado, e d’O Primo Basílio, ou d’O Crime do Padre Amaro, do Eça, sem falar em Marília de Dirceu, do Tomás Antônio Gonzaga. Arriscamos ainda algo do Castro Alves e do Guimarães Rosa. Mas são meras suposições, evidentemente.
O que nos inquieta é a eterna recorrência dos mesmos títulos e autores, como se a literatura brasileira não tivesse outros nomes e obras. E assim retorno a um tema caro, que já tratei numa crônica de 15 de novembro de 2008. Trata-se do resgate de certos clássicos, relegados pelas autoridades a um papel menor e da necessidade de salvá-los do esquecimento. E uma das melhores maneiras para tal seria sua leitura e debate.
Por que, só para ficarmos na antiga literatura portuguesa, não entram na lista Francisco Sá de Miranda, ou O Lima (1594), de Diogo Bernardes? Ou ainda a poesia, ou o teatro, ou os apólogos dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, cujo Hospital das Letras, de 1657, é tido como a primeira obra de crítica literária consistente escrita em português? Sem falar na Fênix Renascida e no Postilhão de Apolo, compilações dos melhores poemas barrocos portugueses. Ou, mais para frente no tempo, em excertos da Nova Floresta (1710-1728), do Pe. Manuel Bernardes?
Por que não, quanto ao período colonial, uma peça do Padre Anchieta ou uma do Antônio José da Silva, o judeu? Ou as Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), do paulista Matias Aires, considerado por muitos o maior nome da filosofia de língua portuguesa no século XVIII? Ou o romance Aventuras de Diófanes (1777), da também paulista (irmã de Matias Aires) Teresa Margarida da Silva e Orta, reputada como a primeira mulher a escrever ficção em nosso idioma? O orgulho pátrio não seria exaltado com a escolha de tais obras? A preeminência e pioneirismo das mesmas não valeria a sua divulgação?
Bocage é ótimo. Mas por que todo o resto do arcadismo português é repelido?
Lembremos d’O Retrato de Vênus (1821), de Almeida Garrett. Um curto poema que se confunde com uma análise estética da pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), e que causa uma verdadeira e extensa polêmica artística no Portugal de seu tempo. Diz-se que é com Camões (1825), que Garrett instaura o romantismo em terras lusas. Sou mais favorável ao Retrato para este papel. E como ambos são ignorados?
Ainda dentre os portugueses, não compreendo por que rejeitam A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro. Para além das suas qualidades literárias foi, certamente, a fonte de onde beberam – e ainda bebem, mas tais águas, nos últimos tempos, foram engarrafadas por outrem – nove entre dez ateus ou projetos de ateus falantes do português. É, portanto, literatura cara e de fácil compreensão para a juventude universitária, naturalmente questionadora.
No que se refere à literatura brasileira (posterior à Independência), as lacunas permanecem de dimensões oceânicas. Aceita-se o chatíssimo Macedo d’A Moreninha (1844), e rejeita-se o ótimo Memórias da Rua do Ouvidor (1878), em essência tão romântico como aquele, só que retardatário no tempo, qual o Aleijadinho esculpindo anjos barrocos já no Classicismo. Foge-se, qual o diabo da cruz, d’O Guesa (1884), de Sousândrade. Abrenunciam-se a todos os romances simbolistas, dentre eles o ótimo Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque. Afonso Arinos, o velho, e João do Rio, são escolhidos quase com a mesma periodicidade da passagem do Cometa Halley. E já que falamos em alegorias estelares, é de se perguntar o caso de Monteiro Lobato: seria sua obra uma anã branca, uma supernova ou um buraco negro? Porque ele está sempre presente e, no entanto, quase invisível. E, por fim, se somos eternamente obrigados a louvar a glória de José de Alencar, por que não passarmos às ótimas crônicas de Ao Correr da pena (1874), ao invés dos purgantes indigenistas de sempre? E por que não se estudar certas traduções ou transcriações? O que Odorico Mendes fez, nas suas versões da Eneida (1864), da Ilíada e da Odisséia (publicadas após sua morte, em 1874 e 1928, respectivamente), diz muito mais sobre as potencialidades do lavor poético de então do que a obra das vacas sagradas pela crítica, de ontem e de hoje.
Mas só se escolhem os mesmos e velhos nomes, que são ótimos, mas não são os únicos. Às vezes dá vontade de bradar, como o protagonista do Falatório do Ruzante de volta da Guerra (c.1529), de Angelo Beolco: Cancaro ai campi e à la guera e ai soldè, e ai soldè e à la guera! (“Raios partam os campos [de batalha], a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!”). Ou, ante a presente questão, “que se danem as comissões avaliadoras, as listas, os livros escolhidos e os livros escolhidos e as listas”. E se me permitem uma paráfrase do Ruzante, em complemento, “a mim é que não me apanham mais: vou mais é ler o que não li, e me fartar destes livros até rebentar”!
Pois não é o que todos temos vontade de fazer? Portanto, vestibulando, leia o que lhe impingirem para a prova. Mas leia, também, muito e muito mais. A bagagem que se leva para os exames é leve, e limitada no tempo. Já a que se adquire por conta própria, às vezes é pesada, mas é de valia, e prazer, para a vida inteira.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de agosto de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma móvel feira de móveis, e certas ideias imutáveis

Um amigo convidou-me para visitar, recentemente, uma feira internacional de móveis ocorrida em São Paulo. Tratava-se de um evento fechado, destes dos quais só participam profissionais do setor, como era o caso de meu anfitrião. Curioso que sou, e mais ainda afeito a uma peta, fui até lá, passando-me por alguém do ramo, no que meu confrade ajudou. É muito fácil, aliás, conseguir tal coisa: basta alguém de dentro colaborar e despeja-se um ônibus inteiro de penetras (uma categoria a qual, pela primeira vez em minha vida, posso dizer que pertenci, momentaneamente). E, assim, por aqueles corredores – vazios – passeei qual um comprador atacadista, empresário moveleiro, decorador ou arquiteto, mal ocultando minha diversão por saber-me um intruso ali.
Como nada do que era exposto naquele recinto era passível de ser comprado individualmente, flanei por lá e cá na busca de alguma coisa que pudesse me interessar, menos como objeto de compra e mais por sua beleza de acabamento, ou proposta de decoração, ou, em suma, para saber o que as fábricas de móveis fazem que pudesse interessar a uma pessoa afeita a certos valores estéticos. Mas, para a minha surpresa (tratava-se de um evento internacional, com dúzias de expositores!), a curiosidade foi cedendo espaço, metro a metro caminhado ali, à mais completa decepção. E vejamos por que.
Logo à entrada, havia um mostruário com os móveis que ganharam um prêmio interno (criado pelos organizadores) para avaliar o melhor design de uma cadeira, mesa, etc., nos últimos anos. Desconsiderei os premiados de dois ou três anos passados e me concentrei no vencedor de 2010. Pensei: “se este móvel ganhou um prêmio tão importante concedido por profissionais da área, o mínimo a se supor é que boa parte do que adiante estará exposto faça alguma referência à obra premiada”. Qual o quê! Mais uma vez deparei-me com um daqueles casos já mencionados de um “discurso loquaz” lançado a uma “plateia surda”. O “gênio de ontem” não deixou descendência hoje. E, portanto, restou-me vagar por uma sucessão, quase infinita, de cópias de cópias, que seguem tendências, e passam longe de ideias ou conceitos.
Entendo que alguns setores da indústria e do comércio sejam conservadores. Quem haveria de investir num novo e radical produto se o tradicional (ainda que este seja só uma voga) venda bem? Que se faça más de lo mismo. Porque sai, tem compradores. E agrada a todos. Mas não a mim.
Invejo algumas gerações anteriores à minha, que iam a uma loja de móveis e compravam, por exemplo, uma sala de jantar. Naqueles tempos, uma compra desta não se resumia à mesa e às cadeiras, mas incluía um aparador, um armário, não raro um bufê, uma cristaleira, além de um carrinho de serviço. De forma que se montava um ambiente da melhor maneira que se podia, numa tacada só, e no mesmo estilo. Por outro lado, de uns tempos para cá, valoriza-se a escolha aleatória de tais objetos, da qual não discordo totalmente.
Mas, convenhamos, nos dias de hoje, dá um trabalho miserável, e cansativo, ir de seca a meca, tentando descobrir um armário, console, ou o que for, que combine com a mesa de jantar. Ou que nem sequer combine, e que seja, por sua vez, diferente. O trabalho é o mesmo... E nisto perdem dinheiro os fabricantes de móveis. Pela concorrência do antigo ou do aleatório que suprem as carências de ocupação de espaço? Exatamente. Se o objetivo é vender o máximo para as massas, que se passe um projeto completo. Cabal. Que não se abram tais brechas à concorrência. Mas a visão dos empresários de certos setores é muito obtusa. E não esperemos deles tais reflexões. Às voltas, que vivem, com acrobacias contábeis e malandrices fiscais, têm eles pouco tempo para pensarem na produção. Melhor é lesar o fisco, “meter o pau” no governo (seja ele qual for), arrochar os empregados e seguir fazendo o mesmo que sempre foi feito. Seguir a tendência: fabricar cópias de cópias, por que assim o mercado quer...
Mas qual mercado, cara-pálida? Amanhã estaremos comprando noutro fornecedor, noutros meios, noutras fontes do belo, contra a mesmice de praxe que nos empurram goela abaixo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de agosto de 2011].

Machos medrosos não são bons para a continuação da espécie

O Dia do Orgulho Heterossexual é a maior aberração política, social e cultural que já vi em toda a minha vida. Declaro isto solidamente plantado na minha condição de homem, heterossexual, historiador, leitor e pesquisador, culturalmente católico e, como tal, aberto à tolerância e à inclusão – em suma: jamais um defensor dos preconceitos.
São Paulo se jacta de sua modernidade, de sua riqueza, de seus avanços e, no entanto, muitas vezes se comporta como uma vila dos grotões, elegendo umas figuras arcaicas, metidas a coronelões, ou párocos de antigamente, destes que só devem existir ainda em reprises de telenovelas. E não é só na cidade, não. Nosso Estado vem sendo governado e representado (na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados) por umas criaturas que parecem ter saído de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva. A única diferença é o sotaque. Trata-se do triunfo da caipirice naquilo que esta tem de pior: uma atração por invencionices novidadeiras que ofuscam a visão do verdadeiro atraso em que se vive. Pensa-se Nova Iorque, mas não passa da Itaoca criada por Monteiro Lobato. Ou uma Síria metida à França. Pois esse tal de “Dia do Machão” parece coisa de fundamentalista islâmico, gente de um livro só, pronto para ser invocado – ou sacado, como um revólver – diante de cada episódio da vida, e aplicado na sua inteira literalidade.
Talvez mesmo se tratem de fundamentalistas, mas de outras igrejas, os que estavam por trás – ops! – da referida lei. Quais serão as novas conquistas sociais, por força de normas, que tentarão nos empurrar? O apedrejamento de blasfemos (Levítico 24:22-23) ou de mulheres que não cheguem virgens ao casamento (Deuteronômio 22:20-21)? Ou ainda um “Dia do Orgulho Careca”, em que será celebrada a intervenção de Deus, na forma de dois ursos, que despedaçaram quarenta e dois meninos, os quais teriam zombado da calva do profeta Eliseu (2 Reis 2: 23-25)? Terá direito à marcha pela Avenida Paulista e carro alegórico, puxado por um cordão de carecas, onde vermos os ursos, o profeta e as crianças em pedaços?
Brincadeiras à parte (brincadeiras bem sérias, diga-se de passagem), este monstro parido por vinte e oito homens e três mulheres, concebido sabe-se lá como, é algo de horrorizar por um motivo muito claro. Ele se apoia falsamente na ideia de que numa democracia todos têm o direito de manifestação pública de seus pensamentos e defesa e acolhimento das mesmas pelas instituições. Valendo-se deste preceito, o nazismo, o racismo e a xenofobia poderiam também se fazer ouvidos, acatados, defendidos, etc. Algo do que até uma pessoa de poucas luzes, mas bondosa e honesta, discordaria.
Claro que nem todo heterossexual é preconceituoso, pelo contrário, dentre eles este que vos escreve. Mas a criação de uma data para celebrar o seu orgulho soa à provocação e desconsideração por parte dos que não se incluem nesta categoria. O que é muito diferente dos casos de um Dia da Mulher, do Orgulho Negro ou do Orgulho Gay, estes sim, vítimas de preconceitos e violências de homens heterossexuais (ou que assim dizem ser) e brancos. Ora, parafraseando uma música de Caetano Velloso, mas conservando o seu sentido original, “o macho adulto branco” não esteve sempre no comando? Então por que agora ele parece se sentir acuado? Ui, que meda...
Esta questão de orgulho cheira mal também por uma outra coisa. Sempre acreditei que um indivíduo só pode se orgulhar de algo que tenha conquistado por si próprio. Ninguém se orgulha de ser honesto ou virtuoso. A pessoa é simplesmente honesta ou virtuosa, ou não. Possuir tal conceito de si mesmo é hipocrisia, santarronice, farisaísmo. Pois seguir tais comportamentos, ou preceitos, não é mais do que a obrigação de cada um. É certo alguém se orgulhar, por exemplo, de ter atingido um bom padrão de vida. Mas um herdeiro milionário que se jactasse desta sua condição, no mínimo provocaria, ou deveria provocar, risos e censuras. E, portanto, orgulhar-se de uma condição ditada pela natureza – como a Ciência vem demonstrando nos últimos tempos, no que se refere a homossexuais e heterossexuais – têm sentido apenas para os segundos. Porque estes são criados e educados para seguirem práticas e hábitos que contrariam seus instintos e, portanto, quando assumem sua condição homossexual, de fato conquistaram algo em suas vidas. Já uma pessoa é heterossexual sem qualquer esforço, e tudo o favorece neste sentido. Se ela tem dificuldades, neste ponto, é porque realmente não é aquilo que gostaria de ser.
Os machões que aprovaram a lei e que a endossam será que estão tendo dificuldades quanto a serem machos? Sentem-se fragilizados, temerosos, ou o quê? Pelo que me consta não têm sido eles espancados nas ruas por grupos de gays adeptos da heterofobia (veja-se, aliás, que existe o termo homofobia, mas não aquele que lhe seria análogo, porque este realmente não existe sequer como prática). Trata-se de um discurso destes senhores que, me parece, acaba soando mais ou menos assim: “Olhem, apesar de todas as tentações e fraquezas, de nossa vontade em contrário, continuamos heterossexuais, por isso nos orgulhamos tanto disto. Deixem-nos em paz, sim? Parem de nos seduzir. Estamos com medo”. Isto, realmente, é de lascar...
Portanto, senhoras e senhoritas, tomem cuidado. Se estes medrosos machos serão os perpetuadores de nossa espécie, se precavenham deles. Boa coisa não há de sair desta semente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de agosto de 2011].

Uma nova face do terror ou mais um maluco rancoroso?

Os atentados terroristas, tal como os conhecemos, foram criados no Ocidente no século XIX. Perpetrados por anarquistas, nacionalistas e nihilistas – radicais russos que, frente a um estado tirânico, preconizavam uma redução ao “nada” (nihil, em latim) de tudo aquilo que eram contra, para, enfim, partindo do zero, poderem construir o que achavam justo – os ataques se caracterizavam por alguns tipos clássicos de ações: o assassínio puro e simples de uma autoridade, de forma pessoal (tiro ou facada) ou de maneira pública (bomba); havia também alguns casos, raros, de ataques a certos símbolos do poder. Assim foi a tentativa de explosão do Observatório de Greenwich, cuja destruição, alegoricamente, seria também a do horário internacional (e do trabalho) relacionado ao local. Um episódio maravilhosamente aproveitado, e adaptado, num romance (O Agente secreto) do sempre excelente escritor Joseph Conrad (1857-1924).
É claro que o assassinato de tal ou qual líder, como tentativa de se impedir esta ou aquela política, é tão velho quanto o mundo. Marco Bruto (85-42 a.C.) – o assassino de Júlio César (100-44 a.C.) e de sua intenção de se tornar Imperador – gostava de ser relacionado a Tarquínio (535-509 a.C.), um seu antepassado, responsável ele próprio pela morte de um rei, Sérvio Túlio (séc. VI a.C.). O profeta Maomé (c.570-632) também escapou de umas tantas ameaças contra a sua vida. Houve também a Ordem de Assassinos, uma seita fundada por Hassan ibn Sabbah (1034-1124), mais conhecido como O Velho da montanha, que eliminava as autoridades contrárias aos seus objetivos, através de uma rede de fanáticos suicidas. No Renascimento, é impossível compreender a política (civil e papal) da Itália, sem ignorar o homicídio de pessoas ilustres como prática de poder. No século XVII, houve um católico, Guy (ou Guido) Fawkes (1570-1606), membro da chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot) que pretendia assassinar o rei protestante Jaime I (1566-1625) da Inglaterra, juntamente com todos os membros do parlamento, durante uma sessão em 1606, através da explosão do prédio onde aqueles senhores se encontravam, visando, com tal ato, a iniciar um levante católico. Um episódio tão terrível para os ingleses que geraria toda uma série de cantigas populares, e até curiosos poemas escritos em latim por John Milton (1608-1674) – o autor do magistral Paraíso Perdido – iniciados por In Proditionem Bombardicam. Guy, ou Guido, Fawkes, ainda é tão execrado na Inglaterra que, no dia 5 de dezembro de todos os anos, desde a sua execução em 1606, um boneco parecido com ele é malhado e queimado, qual um Judas em sábado de Aleluia. E, por fim, poderíamos, tratar ainda da eliminação física de líderes políticos mencionando os casos de Marat (1743-1793), Robespierre (1758-1794), os atentados, infrutíferos, contra Napoleão Bonaparte (1769-1821), etc.
Mas voltando ao modelo de terrorismo moderno, tal como o conhecemos no século XX, sempre pudemos dizer, até recentemente, que ele era perpetrado ou por fanatismo, ou por pragmatismo/oportunismo, ou ainda por uma espécie de idealismo torto. Isto, sem falar nos atos de um ou outro tresloucado, que por sua natureza errática escapam de qualquer classificação possível. Um exemplo de fanatismo temos no caso, fortemente simbólico, do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. De pragmatismo/oportunismo, no incêndio do Reichstag, de Berlim, em 1933: os nazistas pondo fogo no Parlamanto burguês e transferindo a culpa do atentado aos comunistas, para consolidarem seu poder e terem mais um espantalho (vermelho) para assombrar o povo e as classes dirigentes. E no que se refere ao idealismo torto, servem de lição as mortes do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), estopim da Primeira Guerra Mundial, e do Mahatma Gandhi (1869-1948), início de uma corrupção sem par na Índia até pouco tempo atrás. Triunfaram as causas por trás de tais atos? Não. Daí falarmos, justamente, em idealismo torto. E, acrescente-se, mal sucedido, dos pontos de vista teóricos e práticos.
Já no que se refere ao massacre e ao atentado à bomba na Noruega, estes surpreendem por sua absoluta falta de paixão (fanatismo, idealismo torto) e de razão (pragmatismo/oportunismo). Pois não há uma religião ou ideologia consistente por trás de tais atos. Nem, por outro lado, um grupo político, minimamente coeso, ao qual se vincule o agressor. Na aparência, tudo o que parecemos ter à nossa frente é um sujeito tresloucado que se fundamenta em supostos valores rasos e reacionários – esoterismo e xenofobia de internet – mas que, ainda assim, foi capaz de um êxito surpreendente em sua ação infame. Fica a pergunta: um doidivanas seria capaz de tudo aquilo? Um maluco seria suficientemente hábil para lograr tais resultados? É sábido que todo lunático é metódico e que, frequentemente, há método na loucura. Seria este o caso do norueguês? Não acredito.
Uma das coisas que mais me espantaram frente ao episódio foi a face serena do agressor depois de capturado. Não havia ódio em seu semblante, nem laivos de heroísmo, ou ares de mártir de uma causa. Sua expressão era a mesma de quem acaba de realizar a faxina da casa, ou arrumação de um armário. Fria, seca e, ao mesmo tempo, plácida. Quase indiferente.
Será este o novo perfil dos terroristas? Ou uma nova modalidade de terrorismo, banal, aleatório, pueril, e, portanto, indecifrável, até que se manifeste em sua violência? Devemos começar a identificar, rastrear, traçar perfis de cada maluquinho da rede que se proclama seguidor, ou continuador, dos Templários, ou de qualquer outro grupo conspiratório, real ou imaginário, como o fez o terrorista da Noruega? Confesso que não sei. O que sei, ou antes, creio, é que gente de bem evita grupelhos: é pluralista, ampla, não sectária e, portanto, longe de um discurso político ou religioso que exclua e hostilize todos aqueles que não comunguem, ou supostamente não possam comungar da mesma fé ou princípios.
Se há alguma coisa útil que possa ser dita, em todos os tempos, é que o respeito (platônico) ou o amor (cristão, e decorrente daquele conceito platônico) ao próximo, apesar das diferenças entre uns e outros, deva ser, acredito, a suprema ordem a governar o mundo. E não falsas teorias de superioridade raciais, patrióticas, religiosas, etc. Tudo isto se dissolve no nada, ou no todo. Mas se dissolve, mesmo assim, ao fim das coisas. O problema é o meio disto, no qual pode vicejar toda sorte de criminosos da humanidade pretensamente fundamentados em supostos valores que valem menos do que nada.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2011].

Mais uma semana difícil

Noutras ocasiões tratei, neste espaço, do desequilíbrio que rege os acontecimentos do mundo e o prazo de envio desta minha contribuição semanal aos editores responsáveis pelo texto que os leitores ora têm em mão. Ninguém tem culpa disto, só os fastos, os tempos, etc. A única vantagem desta discrepância entre o calor dos acontecimentos e o prazo necessário para a publicação de um comentário relativo aos mesmos é que, neste intervalo, temos condição de refletir quanto a tais ou quais fatos. Como agora.
No final da semana passada a economia norte-americana entrava numa crise sem precedentes na história mundial. A maior potência econômica e militar do mundo manifestava – como ainda manifesta – suficientes indícios de que poderia pedir uma moratória: uma extensão no prazo do pagamento de sua dívida, aquilo que Sarney fez no Brasil nos anos 1980 e que provocou, então, histéricas reações cá e lá. O atual presidente do Senado nós conhecemos bem. Nunca pensei que diria algo do gênero, mas parece-me, hoje, que aquele pedido de moratória foi a melhor coisa que ele fez em toda sua vida pública. Entretanto, à época, era o Brasil terceiro-mundista, quebrado, preguiçoso, viciado. Muito diferente dos Estados Unidos de hoje que, apesar de estar quebrado, preguiçoso e viciado, ainda é uma potência. O desenrolar desta história é algo que deve nos preocupar, diuturnamente, até seu desfecho.
Do outro lado do Atlântico, no mesmíssimo final de semana, um horrendo episódio desenrolou-se na Noruega, um país verdadeiramente civilizado. Ali os direitos civis e políticos de seus cidadãos, naturais ou imigrantes, são respeitados de uma maneira quase sem similar na face da Terra. Saúde, Educação, Lazer, Cultura, preservação do Ambiente, direitos trabalhistas, Previdência pública, apoio à velhice e à juventude, respeito às diversidades várias são uma tônica na política nacional dali. A Noruega (assim como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia) só não é (como as outras nações há pouco mencionadas) uma espécie de “Paraíso terreno”, porque faz frio demais ali. No resto, quanto às imensas garantias sociais (não são privilégios de poucos) de que gozam seus habitantes, aquelas fariam de tal terra, sim, uma lugar ideal para as pessoas de bem e mérito. Mas neste quase idílico local, um de seus cidadãos abateu, friamente, quase cem de seus conterrâneos, estribado na mais vulgar das ideologias, na suposta teoria das raças superiores que devem preceder as ditas inferiores. E fez isto matando seus irmãos de uma maneira quase “darwiniana”: interpretando mal as teorias do sábio inglês, o assassino pretendeu abater “os mais fracos” de seu próprio grupo, para que sobrevivessem “os mais fortes”. Uma limpeza genética e moral, parece ter pretendido. E hoje, mais uma vez, por conta de sua escolaridade e direitos gozados desde a infância, críticos do mundo todo encontram razões para atacar a social democracia escandinava, um modelo até ontem, por um desvio de quem usufruía dela.
Mas, é claro, o mundo não parou por conta destes fatos. Porque, para a mídia graúda, a reflexão não interessa. Só a paixão. É esta que vende jornal, que arrebanha a atenção do vulgo. E, por isso, só ouvimos falar, durante quase uma semana, da morte da cantorinha inglesa cujo “modelo de vida” já anunciava o seu “prazo de validade”. Em suma, os Estados Unidos estavam à beira da bancarrota, um assassino violento ceifou quase uma centena de vidas num dos melhores países do mundo, e só se ouvia falar em Amy, Amy, Amy...
Confesso que gostava de sua voz, a qual, de fato, era muito boa. Seu repertório, por outro lado, ainda que muito agradável, levava-me a crer que ela não passasse de uma boa crooner, reinterpretando quase arqueologicamente ritmos como o soul e a black music, hits do passado pouco conhecidos. Depois vim a saber que eram de sua própria lavra, o que fez com que meu respeito por ela aumentasse. Mas, convenhamos, quando uma bomba-relógio anunciada e identificada explode, ela nos choca, mas não deveria nos comover em demasia nem roubar nossa atenção de tudo o mais. O que ora ocorre nos Estados Unidos e o que se deu na Noruega são fatos muitíssimos mais terríveis do que o drama pessoal de uma jovem confusa, conquanto talentosa. Lembram bombardeios covardes, implosões misteriosas. O terror inaudito.
Em suma, pranteio a morte da cantora. Porém problemas muito maiores do que este rondaram o horizonte mundial na última semana. E não tiveram o mesmo enfoque. O que só nos leva a pensar uma coisa: diante de outras crises gravíssimas, seremos mais uma vez sutilmente alienados delas por motivos de menor importância?

P.S. Na próxima semana, salvo assunto de força maior, tratarei desta bobagem que alguns chamam de “a maldição dos 27 anos”.

P.P.S. Fiquei feliz em notar que o crítico de cinema do Estado de S. Paulo reconheceu a mesma filiação que eu próprio havia identificado entre o novo Capitão América e Bastardos Inglórios. Ainda mais por que ele assistiu ao filme, e eu não, quando escrevi minha crônica com uma semana de antecedência. Nada contra ele, o crítico. Pelo contrário. É que este gênero de filmes e os motivos pelos quais são produzidos, e suas linguagens, são muito previsíveis. Fazer o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de julho de 2011].

Um impostor dos quadrinhos: o Capitão América... do Norte

A história dos quadrinhos, ou ainda a história das histórias em quadrinhos, traz curiosidades maiores do que se pensa à primeira vista.
Este gênero de produção (cultural? De entretenimento? Alguém arrisca um classificação convincente?), que é sem dúvida de massa e para elas destinada, teve um início bastante pueril na virada do século XIX para o XX. E com esse cariz permaneceu pelos anos 1910 a, mais ou menos, 1940, comportando temáticas bem variadas. Tinha-se histórias declaradamente voltadas para o público infantil (Buster Brown, rebatizado como Chiquinho, na revista brasileira O Tico-tico, lançada em 1905; ou ainda Os Sobrinhos do Capitão, e as primeiras histórias de Mickey Mouse e sua turma), infanto-juvenil (pensemos em todos os super-heróis), e mesmo adulto, porém, inicialmente, satírico (Pafúncio e Marocas, Mutt e Jeff, etc.).
A partir dos anos 1930, 1940, vão surgindo histórias mais calcadas na aventura, lançando mão de certa violência e erotismo, muitas vezes combinados com o terror sobrenatural. Neste mesmo período, também, alguns personagens saltam das páginas de jornais e revistas e ganham as telas do cinema, em produções baratas que faziam a alegria dos jovens de então e eram solenemente desconsiderados pelos adultos e pela crítica, incapaz de perceber qualquer valor no Super-Homem, Buck Rogers, Flash Gordon e outros confrades. Mas aquele era o período da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas precisavam esvaziar suas cabeças dos temores de então.
Nos anos 1950 e 1970, especialistas de toda natureza e do mundo inteiro se levantarão contra as histórias em quadrinhos, considerando-as perniciosas à juventude (um dano para a educação e péssima influência sobre a psicologia dos seus leitores), relacionando-as as delinqüência juvenil, estupros, gravidez adolescente, e coisas do gênero. Mas em fins dos anos 1970 e 1980, com o conceito norte-americano das graphic novels, a crítica se interessou pelos quadrinhos, julgando-a quase uma arte. Nos anos 1990 sobreveio uma crise no meio – o público leitor migrou para outras mídias – e desde então se os quadrinhos já não vendem tão bem, produzem lucrativas franquias cinematográficas, de brinquedos, games e toda sorte de mercadorias para crianças e adultos. É o que explica, por exemplo, o lançamento de mais uma adaptação do Capitão América para os cinemas.
Desconheço o grau de sucesso de tal personagem nas versões para o cinema e televisão em décadas anteriores. Lembro de uma adaptação de 1990 que foi um retumbante fracasso. E não sei o que esperar da nova, a ser lançada por estes dias. Mas se há algo a dizer sobre o Capitão América é que ele me parece um dos mais antipáticos e chauvinistas personagens de quadrinhos que já vi. É verdade que é ótimo torcer por ele. Afinal, ele enfrenta os terríveis nazistas, pelos quais não se pode ter nenhuma simpatia e contra os quais se pode devotar todo o ódio e desejo de vingança possíveis (como o fez aquele Tarantino em seu Bastardos Inglórios – talvez mais pai do novo filme que os quadrinhos que lhe deram origem). Depois, é meio inócuo, hoje em dia, bater em nazistas. Os originais, salvo um outro nonagenário que não mete medo em ninguém, estão todos mortos. Queria ver se os produtores teriam coragem de mandar o Capitão América enfrentar os japoneses... Aí seria bem diferente. Porque eles foram quase tão cruéis quanto os primeiros, a dinastia reinante de seu país é a mesma daqueles dias, mas são um dos povos que mais consumem a tralha produzida nos Estados Unidos. Teriam os produtores peito para afrontar tal mercado consumidor? Duvido.
Outra coisa que me faz desgostar do Capitão América é seu aspecto ultrapatrioteiro. Ele é sempre norte-americano demais, certinho demais, caipira demais, “Cinturão da Bíblia” demais. Só pelos americanos ele se bate, e por mais ninguém? Lutou na França? Ah, mas era porque seus compatriotas estavam lá. É de se presumir que sequer conseguisse apontar num mapa onde fica a França.
E, por fim, o que acho o pior no que diz respeito a esse herói: metê-lo em situações reais, num contexto histórico. Porque nenhum super-herói lutou na Segunda Guerra e, sim, homens comuns, heróicos sem dúvida, gente de carne e osso que se arriscou e morreu por lá sem contar com a ajuda de qualquer impostor vestido em uniforme de cores berrantes. E transportar para aquele tempo e lugar a ação providencial de alguém que nunca existiu, é, em minha opinião, uma grave ofensa à memória de todos aqueles que de fato lá estiveram, dando o seu sangue contra o inimigo.
Stendhal e Tolstoi criaram homens comuns que, em seus livros, participaram de batalhas nas guerras napoleônicas. Sem qualquer impacto real sobre elas. Algo amplamente válido num gênero maior que é o romance. Que gêneros menores, como os quadrinhos, ou o cinema de entretenimento, queiram reescrever a história, colocando marmanjos mascarados, que vestem a cueca por cima das calças, batendo-se contra o nazismo, aí já não se trata de uma licença artística: é uma pouca vergonha mesmo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2011].