quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro

Em crônica de 19 de março passado, intitulada Pausa para reflexão, pouco depois do tsunami que atingiu o Japão e no início da chamada Primavera Árabe (que vai a cada dia mais se tornando uma espécie de Outono Persa), tratei um pouco do ditador líbio Muammar Kadafi. A grande imprensa, então, acreditava, num frenesi de oba-oba, que ele seria o próximo tirano a cair, depois de Mubarak. Mas aquele permanecia no posto, ainda que de joelhos, e que estava lá, estava. E, portanto, disse, então, que era melhor esperar para ver ou comentar alguma coisa. Vejo, sem falsa modéstia, quão acertada foi minha opinião, uma quase futurologia às avessas. Pois o homem só caiu, morto, sete meses e um dia depois da publicação de minha crônica – mas não graças a ela, evidentemente. Sábios conselhos de Roger Chartier! Que bom que os ouvi, e justamente aquele de que “o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro”!
Naquela mesma ocasião, tratei da querela quanto à grafia de seu nome, ora Gaddafi, ora Khadafi e outros tantos. Bem como seu pendor para a extravagância no vestir e no pentear. Permitam-me citar-me:

“Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano, passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo”.

Mas, vendo por outro lado, é curiosa a comparação entre ditadores, se pensarmos em seus momentos finais, ou logo depois deles. Pinochet, Mao, Stálin, Idi Amim, Bokassa, vários dos ditadores argentinos, e todos os nossos, morreram velhos, serenamente em casa, ou num luxuoso exílio. Hitler se matou e, por suas ordens expressas, queimaram seu corpo. Getúlio idem, mas seus restos foram venerados. Podem até dizer que, então, ele havia sido eleito democraticamente, o que é um fato, mas quem o pranteou, na verdade, era por saudades de sua ditadura. Saddam Hussein, capturado num aspecto que lembrava um mendigo ou um lobisomem, foi enforcado qual um cão na coleira, e dele não tivemos mais imagens. Um fim muito diferente do sofrido por Mussolini, fuzilado e depois exposto à execração pública durante vários dias, pendurado pelos pés, na Piazza Loreto em Milão.
A morte de Kadafi, e o que fizeram com seu corpo, tem algo do que se fez com Mussolini. Mas olhando bem as imagens, o que de fato me vinha a lembrança era o fim de Lampião, o rei dos cangaceiros. Os closes sobre o rosto do líbio remeteram-me diretamente aquela tétrica fotografia das cabeças de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando expostas na escadaria da igeja de Piranhas, AL, uma imagem que se encontra em todos os livros escolares e que chocam por seu horror. Pensei em expor as duas fotografias lado a lado, mas não quero chocar o leitor. Depois, mesmo facínoras merecem um pouco de respeito depois de mortos.
Que coisa, ao fim. Kadafi viveu como um ditador, poderoso lá em sua terra, que não é lá essas coisas, mas, ali, ele era o Supremo. E no entanto, no final das contas, morreu emboscado como um cangaceiro e, como tal, também vilipendiaram seu corpo. Curiosa é a roda da fortuna...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de outubro de 2011].

Os Bebês de Rosemary – Parte II

Dando prosseguimento ao inventário de capetinhas de babador e calças curtas que enxameiam pelo mundo, afirmo que observo, quase diariamente, uns casos interessantíssimos de mal comportamento infantil que beiram às raias da mais completa incivilidade, para não dizer quase bestialidade.
Vejam-se os casos de uns vizinhos meus, abaixo dos onze anos. Há alguns excelentes, simpáticos, e bem educados. Uns que, na espera do elevador, abrem a porta para mim, tratando-me por Senhor – fazer o quê? É a vida! Um dia esta hora chega... – ou perguntam qual o andar em que moro e, céleres, apertam o botão referente ao mesmo. Outros ainda que até ajudam quando trago muitas compras. Temos uma menininha no prédio, com não mais de quatro anos, que é a alegria dos moradores e dos porteiros, chegando a trazer, para estes, balas e confeitos que sobraram de sua merenda. Mas, por outro lado, temos dois irmãos, na casa dos sete e onze anos, que são simplesmente assustadores.
Confesso que, a princípio, o que mais me incomodava neles era o fato de que, embora passassem os anos, eles simplesmente pareciam não crescer. Quem assistiu ao filme Uma mente brilhante, talvez entenda do que estou falando. Ali, um matemático genial, conquanto esquizofrênico, é acometido de alucinações, dentre as quais uma menina, sobrinha de um amigo imaginário. E a chave para a sua compreensão de que vivia num mundo paralelo se dá justamente quando ele percebe que, passados os anos, a menina não crescia. Bingo! Era uma alucinação! No meu caso, a coisa parecia muito semelhante em relação àqueles petizes do prédio. Mas minha mulher também os via, o mal comportamento deles era notório na vizinhança, gerando toda sorte de comentários até entre os de suas idades e, portanto, respirei aliviado: apesar das atitudes dos meninos parecerem um pesadelo, eles, de fato existiam. Ou melhor, existem.
Pode parecer que exagero, mas observem seus hábitos. Quando entram no elevador, ignoram os demais passageiros. Voltam as costas para todos, encaram a parede, e passam a chutá-la, enquanto assobiam durante o tempo que durar a viagem. Aliás, é uma coisa engraçada, esta, a da ausência de civilidade relacionada ao uso constante dos pés para além da função natural de andar. Gente grosseira está sempre batendo os pés, chacoalhando-os quando as pernas estão cruzadas, ou chutando coisas. Na única vez em que encontrei os pequenos malignos fora do prédio, tomando um sorvete, seus pés agitavam-se como que quase num surto. E como chutam coisas: o peitoril da varanda de seu apartamento foi convertido numa rede de gol, e o ribombo das boladas de faz ouvir vários andares abaixo daquele onde moram.
Outra coisa interessante no comportamento deles é uma quase inversão dos hábitos mais comuns entre as crianças. Primeiro, acordam anormalmente cedo, enquanto dormem assustadoramente tarde. Em segundo lugar, é sabido que os infantes, em geral, gostam de repetir músicas, frases, brincadeiras até quase a exaustão. No caso deles, entretanto, observa-se o contrário. As boladas contra a grade, ainda que diárias, não ultrapassam cinco minutos. Andar de skate pela sala, o mesmo tempo. E até quando ganharam um videogame, destes que, ao invés de um console, têm uma guitarra, brindaram-nos a todos, por um dia inteiro, cantando e tocando a mesma música. Porém o mesmo brinquedo nunca mais foi utilizado.
Uma vizinha, professora do ensino fundamental, comentou, certa vez, que sentia-se impressionada com a latente falta de qualquer manifestação emotiva por parte de nossos vizinhos. Segundo ela, que, por curiosidade e hábito de ofício, acompanha a eles com atenção, nunca foi, diz, capaz de flagrar qualquer extravasamento normal ou de raiva, ou de alegria, ou de tristeza. Parecia ver sempre um eterno nada, um vazio absoluto impresso em suas caras. Mais tarde, porém, ela mudou de ideia. Uma vez assistiu a uma pequena cena entre o menor deles e a avó. Esta, fez uma brincadeira que não agradou o neto, e ele – palavras de minha vizinha – “fuzilou-a com os olhos, com um ódio cruel para além de tudo o que já vi”.
Estes problemáticos objetos de reflexão não, são, é claro, uma regra. Todavia abundam em toda parte, sobretudo em São Paulo, capital e interior. Não os vejo no Paraná, Rio, Minas ou Bahia. Temo, portanto, pelo futuro de nosso estado, sob cujo sol nasceram e foram mal educados tais monstrengos. Sim, porque são pequenos monstros no comportamento, e também na sua função, segundo o grande (Santo) Isidoro de Sevilha (560-630 d.C., evidentemente) que em suas Etimologias (Etymologiarum Libri XX), mais especificamente no livro XI), estabelece que o monstro é revelador, (sua raiz é a mesma do verbo “demonstrar” e de “montra”, ou “vitrine”) sendo, portanto, uma manifestação de algo. No caso presente, poderíamos deduzir, uma manifestação do descuido dos pais na educação dos filhos, ou ainda o surgimento de uma nova e pior índole, materialista e imediatista dos rebentos, possível espelho ampliado dos progenitores. Será que é isto que nós queremos no futuro? Será que conseguiremos conviver, mais velhos, com tais criaturas? Tenho minhas dúvidas. Que, aqueles que são pais, pensem nisto. Qual será nosso futuro? Conviveremos com tais criaturas mal formadas e estragadas ou procuraremos uma derradeira alternativa? Há momentos em que o elogio do suicídio feito pelo grande poeta John Donne (1572-1631), em seu Biathanatos (escrito em 1609), fundamentado teologicamente nas mortes voluntárias de Sansão e do Rei Saul, parece se tornar uma alternativa viável, aconchegante, à longo prazo...

P.S. Às Rosemarys que têm bebês e que aqui, porventura, julgaram-se insultadas: a referência, inicial, é feita ao filme O Bebê de Rosemary (EUA, 1968). Nada tenho conta às senhoras e sua prole, desde que estes não sejam, justamente, monstrengos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de outubro de 2011.].

Os Bebês de Rosemary – Parte I

Vez por outra, assistindo à televisão, via um pouco do programa Supernanny (“super babá”), primeiro em sua versão inglesa, depois norte-americana. Soube agora que há uma adaptação brasileira que, até onde vi, copia mais uma certa excentricidade no trajar da apresentadora da versão original do que os problemas que aquela enfrentava. E que problemas! O renque de pestinhas com carinhas de anjos, verdadeiros ditadores de fraldas, parecia sempre crescente. E cada vez pior. Algumas delas pareciam mais um caso de serem submetidas ao Encantador de Cães, outra série de sucesso, do que àquela inglesa baixota, bonachona. A versão brasileira, evidentemente, é mais branda. Não mostra nenhum petiz intratável como os que são apresentados no original. Não que não os tenhamos, pelo contrário. Mas no Brasil pode-se tudo, menos interferir na educação dos filhos alheios. Nem sequer por meio de suaves conselhos. Pode-se tentar seduzir o pai ou a mãe, dependendo do interesse, pode-se até incentivar as más práticas dos filhos: porém tentar corrigi-los, nunca. Frente a isto, pais notoriamente omissos arvoram-se quais bonus pater familiae. Mães relaxadas e fracas saltam na defesa de suas crias quais leoas ou matronas judaicas. E que demoninhos vemos por aí! Creio que, em muitos casos, uma perfeita adaptação de séries de tv, para o Brasil, tratando do tema, deveria ser um cruzamento de Supernanny com Supernatural. Sim, porque basta andar por um shopping center, dividir um elevador, ou mesmo olhar para os lados, e parecemos ver a todo momento uma reencarnação do Damien Thorn, d’A Profecia, da Regan MacNeil, a personagem de Linda Blair n’O Exorcista, ou d'O Bebê de Rosemary. São verdadeiros casos para uma Supernatural nanny.
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mulher brasileira em primeiro lugar!

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...

[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].

Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final

Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].