segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aviso aos navegantes da Barca de São Pedro

Uma noite insone diante dos canais de TV abertos revela, ou explicita, aspectos aparentemente inacreditáveis de nosso país no que tange ao devocionário popular e aos pastores a guiarem um imenso rebanho, saltitante e sempre em expansão, rumo a cada vez mais diferentes apriscos.
Sintoniza-se um canal e assiste-se ao bispo Xis da Igreja Universal Disto. Ou o apóstolo Ypsilon da Igreja Mundial Disso. Ou o pastor Zê da Igreja Internacional Daquilo. Sem falar em todos os demais, tão variados quanto as outras letras do alfabeto, porta vozes de um número equivalente, se não superior de (auto)denominações religiosas.
Compreendo tal necessidade de espaço privilegiado para a divulgação de suas mensagens. Devem ser tantas as diferenças entre estas agremiações devocionais, que, acredito, torna-se imprescindível um canal de televisão para cada uma delas. Fico imaginando as sutilíssimas questões teológicas que as separam uma das outras. As complicadíssimas querelas quanto à exegese bíblica e a concordância entre Antigo e Novo Testamento. As polêmicas quanto à Patrística e a História do Cristianismo. As nuanças gradativas quanto ao afastamento ou aproximação entre o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo, o Anglicanismo, etc. Suas visões, decerto conflitantes, quanto à Angeologia ou à Demonologia. Ou ainda o equilíbrio entre a Tradição e a Revelação. Ou entre a Predestinação e seus óbvios critérios de exclusão, e o Batismo no Espírito Santo, como forma de ampla inclusão de todos. Ou ainda se a Glossolalia é epifânica, acidental ou inexistente, se comum, rara ou impossível – para não dizer imaginária e inócua. Estas, e muitas outras particularidades de profunda matéria teologal e doxológica, que, presumo, separam tantas igrejas cristãs umas das outras, faz-me acreditar que, de fato, cada uma delas necessite de seus próprios canais para a difusão de suas mensagens, únicas e verdadeiras.
A situação muda um bocado de figura, entretanto, quando vemos dois canais televisivos transmitindo conteúdo essencialmente católico; e, mais ainda, quando se sabe que ambos são diretamente relacionados à Igreja. Fosse um ligado a ela, e outro, por exemplo, a uma irmandade, confraria ou associação de leigos, creio que contribuiria bastante para o diálogo intrarreligioso. Mas os dois, estreita, umbilicalmente relacionados à ortodoxia e à hierarquia clerical, parece, no mínimo, uma redundância. Ou um desperdício de dinheiro. Ou um claro sinal de que as divisões internas da “monolítica” Santa Madre Igreja são muito maiores do que avalia o vulgo.
Ora, se aquela magnífica instituição cuja sede localiza-se em Roma é una e indivisível, por que vários canais de comunicação, ao invés de um único? Se a Barca de São Pedro é uma só, como um só é seu Capitão, por que dois Pilotos? Acaso pensa-se em acrescentar mais um leme à nave? Não se pensa no risco de rachar a embarcação ao meio? Ou ela já está rachada, a tripulação dividida entre si e os passageiros em conflito uns com os outros?
O que, entretanto, causou-me um enorme espanto foi a oferta de um certo “Carnê da Esperança”, por meio do qual a caridade – um dever, mas que só tem sentido se realizado de forma espontânea – se converteria numa obrigação, com data de vencimento e tudo. O que nos leva a duas perguntas: o não pagamento da parcela implicaria o quê? Protesto em cartório? Ou busca e apreensão (judicial?) da mercadoria entregue ao inadimplente? A outra pergunta se dá quanto à quitação do mesmo carnê: pois se a Esperança é a última que morre, a contribuição passaria a ser compulsória, se não hereditária, e presumivelmente deveria ser honrada até o Dia do Juízo Final! Algo em que nem Júlio II, com suas escandalosas indulgências, teria pensado em instituir...
E, para cúmulo dos cúmulos, valeu-se a propaganda televisiva do referido carnê de um expediente inacreditável para vendê-lo, lançando-nos a seguinte, e tronitroante, mensagem: “Jesus Cristo precisa de sua ajuda!”. Insisto em repetir o bordão do “Carnê da Esperança”, agora em letras garrafais: “JESUS CRISTO PRECISA DE SUA AJUDA”! Era só o que faltava...
Reconheço que não tenho frequentado a missa há certo tempo. Não sou um leitor assíduo do L’Osservatorio Romano, nem prestei muita atenção às últimas declarações do Sumo Pontífice. Mas até onde sei – ou acredito que sei – Jesus Cristo ainda é, para os católicos, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, e junto com o Deus Pai e o Espírito Santo, Ele também Deus único: três em Um e Um só. Que Jesus – enquanto Homem, antes de morto, ressuscitado e ascendido aos Céus – necessitasse da ajuda dos homens em sua dolorosa via ao Calvário, é compreensível e os Evangelhos, os apócrifos e um bocado de lendas dão conta disto. Mas depois de morto por nossos pecados, ressuscitado, triunfante, unido indissoluvelmente ao Pai, Criador de tudo e de todos, onipotente, portanto, que ele ainda precise de nossa ajuda, soa-me como uma tremenda ofensa aos fiéis. Quando não uma blasfêmia das grossas, se não uma completa heresia. E,o que é pior, proclamadas por um canal católico.
Ora, pois, se o Pantocrator necessita de ajuda, e nós? Se Deus anda tão debilitado, o que estes reles, ínfimos pecadores poderíamos fazer por Ele? Que nos digam que Ele “nos exorta” a contribuir para a Sua obra; ou que “nos convida”; ou ainda que “nos ordena”. Mas que o ajudemos? Francamente, quem imagina uma campanha desta merece ser sabatinado pelo bispo. E o bispo que a autorizou, pelo arcebispo. E este pelo Papa. São inacreditáveis as bobagens que a Igreja, ou certos setores dela, tem cometido nos últimos tempos.
Portanto, aviso aos navegantes da Barca de São Pedro: cuidado com a viagem, pois os pilotos parecem não entrar num acordo e vão guiando a nau para águas ignotas...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de julho de 2011].

Barbas de molho!

Por volta de meados do século XVII, um partidário do rei da Inglaterra, e dos católicos, era identificado, naquele país, pelos seus longos cabelos, barba e bigodes. Já os anglicanos mais extremados, opositores daqueles, por seus cabelos raspados e faces peladas (o que lhes valeu o apelido de “cabeças redondas” roundeads).
O Czar Pedro, o Grande, Imperador de todas as Rússias, decidiu, em 1698, que, para modernizar o seu país, era necessário mudar a imagem de sua corte, da aristocracia e dos funcionários públicos. Sua intenção era aproximar-se o mais possível dos reinos ocidentais europeus, tidos como mais avançados. E, assim, ordenou que todos os membros daquelas classes ou funções raspassem suas barbas, sob pena de multa. E os bigodes somente seriam permitidos aos oficiais de cavalaria ou dos corpos de dragões.
No século XVIII, aliás, as caras raspadas eram comuns, mas se envergava copiosas perucas e, não raro, longos cabelos, penteados à maneira daquelas: o General George Washington, pai fundador dos Estados Unidos da América, inscrevia-se neste último caso. E se na França do final daquela centúria, e início do XIX, os revolucionários e patriotas cortaram seus cabelos à Brutus (uma evocação ao assassino de Júlio César) – pensemos na imagem clássica de Napoleão Bonaparte –, permitia-se aos hussardos (um corpo de cavalaria leve), não só o uso de barbas e bigodes como até mesmo de finas tranças de cabelo pendendo sobre a farda.
No Brasil, até os primeiros anos da República, não havia objeção ao uso da barba entre os membros do Exército ou da Marinha (Deodoro, Tamandaré, Benjamim Constant, etc., etc., eram barbados). E até hoje os ornamentos capilares faciais são permitidos, ainda que com algumas ressalvas, de acordo com o Decreto nº 95.480, de 13 de dezembro de 1987: “É vedado aos militares o uso de barba, cavanhaque, costeletas e do corte e cabelo que não sejam os definidos pelas normas em vigor.// § 1º - O uso de bigode é permitido aos Oficiais, Suboficiais e Sargentos.//§ 2º - O militar que necessitar encobrir lesão fisionômica poderá usar barba, bigode, cavanhaque ou cabelo fora das normas em vigor, desde que esteja autorizado pelo seu respectivo Comandante”. E graças a esta brecha, e outras anteriores, pôde o falecido (em 2008) General Manoel Theophilo Gaspar de Oliveira Neto, ex-chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Nordeste, envergar, honradamente, sua barba: uma tradição de sua família, toda ela composta de militares, que geração a geração (foram cinco), transmitia ao filho o mesmíssimo nome do pai e a obrigação de manter o mesmo adereço piloso.
Pois bem, se até os exércitos, que se pautam pela uniformização, seja pelo uso das fardas, seja pela estética do rosto, permitem algumas liberdades neste campo – o Exército Brasileiro, inclusive, que nos últimos anos tem se pautado por uma mera observação passiva e um pouco alheia (para o bem e para o mal) do que se entende por liberdade – é de pasmar, portanto, que a Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região (Bahia) tenha acatado recurso do Bradesco que inocenta o banco da acusação de discriminação de funcionários por uso de barba. E nem era uma barba à Marechal Deodoro ou General Theophilo: o empregado demitido tinha a pele sensível à lâmina de barbear, o que impossibilitava o uso diário do aparelho. Segundo a sua defesa, aquela sua barba por fazer era motivo de constrangimento, causado por seus superiores. E, de acordo com o banco, seu repúdio ao pelos do queixo do funcionário fundamentava-se numa pesquisa que teria revelado que o uso da barba “piora a aparência dos trabalhadores”, e como a aparência é associada à competência, com base no truísmo de que a primeira é uma lei para o sucesso profissional, acharam por bem (mal) demitir o empregado.
O juiz de primeira instância, favorável ao bancário, alegou que a conduta do banco “viola inequivocamente o direito fundamental à liberdade de dispor e de construir a sua própria imagem em sua vida privada”. Mas a desembargadora que cassou sua sentença proclamou que “não se pode negar ao empregador, em razão do seu poder diretivo, o direito de impor determinados padrões, de exigir dos seus empregados certa forma de se apresentar para o público externo do banco, inclusive no que diz respeito ao asseio e à aparência geral”. Para ela, este mesmo princípio poderia ser aplicado às roupas dos funcionários e ao uso ou não de “barba, bigode, cavanhaque e costeletas”.
O melhor desta história toda veio por conta dos comentários do ex-ministro do STF, Eros Grau, barbudo desde 1968 – por conta de uma cicatriz no queixo causada por um acidente de automóvel – e que vê claros indícios de preconceito na medida. “Se for só por essa razão, fico muito preocupado. Se fosse assim, eu poderia ter sido impedido de ser ministro do Supremo. [...] Fico pensando... Então, por causa do acidente e da barba, eu ficaria impedido de trabalhar? Parece estranho”, alegou, com propriedade.
De modo que nos preparemos, leitores, para um mundo novo exarado a partir de decisões semelhantes àquela do TRT da Bahia. Talvez retornemos aos uniformes de corte militar nas escolas públicas, ao uso da sobrecasaca e gravata nos bancos e de aventais entre os comerciários. Ou, ainda, radicalizar as expectativas ainda mais, como o fez a Polícia Militar paulista, que agora reprova candidatos “queixudos” baseada na visão de que “problemas bucais podem causar dor e agravar outras doenças, como cardíacas e gastrointestinais, aumentando a possibilidade de afastamento do policial”.
Para que belo mundo nós caminhamos! Em breve, no andar desta carruagem destrambelhada, serão exigidos exames de DNA dos funcionários públicos e empregados privados para se saber se não têm doenças congênitas a serem manifestadas posteriormente. E, daí, para onde seguirão as exigências? Pela eugenia? Pela eutanásia? E depois dizem que o nazifascismo higienista é algo morto.
Último comentário. Amador Aguiar, fundador e dono do Bradesco, um dos homens mais ricos do país, enquanto vivo foi, criou em Osasco a sua Cidade de Deus, um misto de empresa e moradia de funcionários que, pelas liberdades ali admitidas, foi considerada por vários observadores como sujeita a regras muito mais duras do que as que se goza num quartel. E, detalhe: talvez, baseado no critério de “asseio e aparência geral”, Amador Aguiar nunca passaria pelo critério da desembargadora que defendeu seu banco: pois o banqueiro nunca usou meias, aqueles higiênicos dispositivos do vestuário entre o pé e o sapato que impedem a propagação do chulé...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2011].

Anotações de viagem

Primeira nota. Há coisa de alguns dias, embarquei num vôo Campinas-BH, tarifa promocional: o que não é vergonha para ninguém, pelo contrário, mas que muitas vezes nos põe em contato com vários de nossos concidadãos que os leitores de Veja consideram exóticos, quando não subumanos. Tal não foi o caso do grosso dos passageiros, mas uma dupla, formada aleatoriamente, e que viajou justo nas poltronas anteriores à minha, chamou a atenção por ser, de uma certa maneira, composta de “marinheiros de primeira viagem”. Um deles, tomando da palavra, perguntou ao vizinho se era aquele o seu primeiro vôo. O outro, respondeu que não, já era o quarto ou quinto, não se lembrava bem. E o seu interpelante, com algo de superioridade, confessou ser aquela a sua oitava viagem aérea. Em seguida, passaram a trocar impressões sobre a melhor maneira de adquirir passagens promocionais, o serviço de bordo das diferentes companhias aéreas que oferecem tais tarifas mais baixas, a oferta limitada e, bastante específica, de uma para outra, no que se refere a sucos, refrigerantes e salgadinhos, o espaço entre as poltronas, e a vantagem, neste ponto, que se obtém pela escolha dos primeiros assentos nesta ou naquela operadora. Um deles se queixou que, nas aeronaves de uma delas, o sinal do celular era muito fraco. O outro, mais experiente, garantiu que, noutra, pelo contrário, não havia interferência nas ligações. Ao fim desta breve conversa, a princípio entreouvida, e que depois captou a minha maior atenção, comuniquei-me, silenciosamente, por olhares e gestos, com meu vizinho de poltrona, aleatoriamente colocado ao meu lado, um senhor septuagenário que, percebi, observava, também, o diálogo que se desenrolou à nossa frente. Pois ambos compartilhamos da mesma surpresa, ou pasmo: os dois passageiros nas poltronas anteriores às, nossas, que debatiam tais assuntos, não passavam de meninos de dez anos de idade! Que foram embarcados, trazidos pela mão, por aeromoças, que logo em seguida começaram a tratar de assuntos de seus interesses mais próprios ao seu tempo – ou aquilo que esperamos que sejam assuntos da idade deles, como jogos eletrônicos e desenhos animados – mas que, a princípio, conversavam como experientes, quase profissionais, viajantes.
Segunda nota. A pousada onde me hospedei. Tal conceito, ou classificação de hospedagem tem variado muito nos últimos tempos. Aquela onde me instalei tinha mobiliário moderno, decoração esmerada – e temática – banheiros irrepreensíveis nas suítes, aparelhos de tv de tela de plasma, conexão wireless, etc. Não tinha ainda tv por assinatura – prometeram que na próxima semana terão – e talvez só mereça a qualificação de pousada pelo pequeno número de apartamentos e pela ausência de um elevador entre os pisos. Ou, talvez, porque às vezes é mais “charmoso” batizar de “pousada” (um termo cálido, acolhedor) frente a “hotel (com laivos de impessoalidade, frieza, etc.).
Pois bem, estava eu já ali instalado, defronte dos aborrecidíssimos canais abertos – a tv por assinatura não é o Paraíso, longe disto, mas, convenhamos, está a léguas, escatológicas, do Purgatório do Faustão, e dos círculos infernais das Hebes e Datenas – quando decidi baixar algumas músicas no meu notebook. Comecei a escutá-las. E, logo, notei estranhos ruídos do apartamento ao lado. Não demorou muito para que notasse ser aquela uma reação ao “barulho” (Monteverdi! Pachelbel! Mozart!) que minha máquina fazia ressoar. Penso daqui, penso de lá, e ocorreu-me uma ideia. Liguei a televisão, sintonizei-a num programa “consagrado”, pus o volume num tom “médio”, virei meu computador noutra direção, e tudo se resolveu. A cantilena, reconhecível, que saía da televisão, apaziguou os vizinhos. A algaravia criada por aquela transmissão impondo-se sobre o que, de fato, eu ouvia, passou despercebida. Realmente, o ruído da televisão, para muita gente, deve causar o mesmo efeito que, num bebê, provoca o escutar do coração da mãe. Ou no caso dos filhotes de cão, o despertador que se põe debaixo de suas caixinhas.
Terceira e última nota. Na viagem de volta, uma prova de que a “mentalidade de empresa de ônibus” está invadindo as companhias aéreas, muito mais do que o público daquela, como se diz. Comprei tanto a passagem de ida, quanto de volta, quase dez dias antes desta última. E selecionei meu assento. Na hora do check in, foi me designada outra poltrona. Entro no avião e, surpresa das surpresas, o número do assento não existia! O comissário de bordo alegou que tal se devia a uma troca de aeronaves, e que eu deveria esperar. E esperei, até que a porta fosse fechada e não entrasse mais ninguém, sobrando, por isso, poltronas. E se tal não ocorresse? Seria eu posto para fora? Não, francamente, assim não é possível. Ataca-se o povo, mas quem lida com ele ainda pensa estar tangendo gado. Há muito que melhorar, é não é só no Estado. A sacrossanta iniciativa privada anda precisando de uns puxões de orelha.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de julho de 2011].

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

Sensibilidade, carência, Porsches, maiôs e Ferraris

Na quinta-feira passada, desci para comprar cigarros e dei uma espiada nas revistas à venda na loja de conveniência. Com exceção de uma ou outra, eram, em sua maioria, daquele tipo de publicações que se prestam mais a serem vistas do que lidas, o que é um tanto paradoxal já que, para imagens, temos a televisão. Todos conhecem tal gênero de jornalismo, sempre disponível em abundância nas salas de espera de consultórios e que não aliviam nem um pouco a expectativa, não ajudam a passar o tempo, porque seus textos são ralos, rasos e banais, dedicados às platitudes de sempre, dessa ou daquela celebridade. Numa destas revistas, aliás, a que vi na quinta-feira, constava na capa uma jovem e bela atriz (o rosto é meio irregular, a boca muito grande, mas o conjunto e os olhos consertam o todo), que ora surpreende num folhetim global. E a chamada do semanário trazia as seguintes palavras, de autoria da moça: “Sou sensível e carente”. Notável...
Até onde me lembro, todos os seres vivos, das amebas ao Homem, dos corais aos periquitos, dos elefantes às araucárias, são sensíveis – isto é têm a capacidade de sentir, de reagir aos estímulos externos ou internos nos campos do tato, olfato, visão, audição, paladar, calor ou frio, luz ou ausência dela, em maior ou menor grau, e mesmo que alguns deles não disponham de uma destas sensibilidades, alguma das outras certamente não lhes é desconhecida. E, sobretudo no caso dos humanos, se compreendermos a sensibilidade como uma natural disposição a ser influenciado por impressões, sentimentos e emoções.
Mas deixemos a mocinha de lado: é jovem e é bonita, e a beleza e a juventude desculpam quase tudo. O problema está em publicar uma matéria na qual nada se diz e a ninguém importa.
Volto para casa, abro o computador, entro na rede e vejo as seguintes chamadas: “Fulana – aquela tão onipresente em cartazes e outros meios quanto um ditador comunista – posa de maiô para revista”; “Beltrano compra Porsche”; e sob o título Uma Ferrari como meta de vida, somos informados de que “Cicrano tem praticamente tudo da escuderia italiana, menos um carro de verdade”. E abrindo-se qualquer uma daquelas notícias, somos remetidos a informações preciosíssimas, indispensáveis, quanto à vida íntima de modelos, jogadores de futebol e das ditas mulheres-frutas. Mulheres-frutas! Constranjo-me, já de antemão, pelo nosso tempo e país, frente aos historiadores do futuro, quando se depararem com este fenômeno nacional e olharem para nós certamente nos julgando como um bando de cabeças ocas.
Quanto ao Beltrano que comprou um automóvel da marca Porsche, um cantor dublê de ator que viveu como sem teto (há não muito tempo era o mesmo que mendigo) por três anos, não há como deixar de notar um certo tom preconceituoso na matéria. Como se dissessem: “Olhem só o negão, que diz ser alternativo: na primeira chance, compra um carrão”, e por aí vai.
Já no que se refere ao Cicrano que tem tudo da Ferrari, menos um carro, lembra-me um tipo que adorava aviões, colecionava quepes de pilotos e restos de aeronaves e, evidentemente, não tinha um avião. Sua apreciação por este tipo de coisas, desligadas do objeto concreto, era chamada de parafilia, e seu comportamento, como beirando o esquizofrênico. Em suma, tudo que acima foi reproduzido é nada. O mais completo vazio. É uma vergonha que revistas de circulação nacional dediquem-se a este tipo de divulgação de inutilidadees. E que exista um público ávido por isto. Em que mundo estamos, afinal? Na Terra Prometida dos boçais? Se for o caos, acertamos em cheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2011].

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].