terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mais um das "boas" intenções que continuam a encher o inferno

A Biblioteca Mário de Andrade, no próximo dia 26 de fevereiro, celebrará seus 85 anos de existência.
Ela não nasceu, evidentemente com este nome, nem no local onde atualmente se encontra. Na sua certidão de nascimento, de 25 de fevereiro de 1925, constava o nome Bibliotheca Municipal de São Paulo. Mas o seu batismo só se daria no ano seguinte, num casarão da Rua Sete de Abril, que abrigou os 15 mil volumes de seu acervo inicial. Na sua crisma, com meros dezessete aninhos, ela muda de endereço, o que até hoje ocupa, na Rua da Consolação, 94, no coração da Praça Dom José Gaspar. E no ano seguinte, atingida sua maioridade, alterou o seu nome: passou-se a chamar, deste então, Biblioteca Mário de Andrade, numa justa homenagem àquele grande escritor e intelectual paulista.
Quanto à sua importância cultural, basta que nos remetamos a dois únicos aspectos, dentre os muitos que poderíamos mencionar. Em primeiro lugar, ela, durante a gestão de Sérgio Milliet – cujas credenciais artísticas, literárias e intelectuais, muito resumidas aos seus dados essenciais, não caberiam nesta lauda e meia – abrigou a primeira coleção de arte moderna do país, muito antes da fundação do MASP, do MAM e do MAC. E era tão estupenda que quase tudo o que compõe a seção moderna da Pinacoteca Municipal saiu de lá. Dali veio o embrião daquela que é conhecida como uma das melhores recolhas do gênero em nosso país.
Em segundo lugar, há que se destacar a monumentalidade de seu acervo. Ele conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos, e uma significativa parte dele formado por livros raríssimos, além de manuscritos, gravuras, mapas, obras que remontam ao século XV. No Brasil, só é menor do que a Biblioteca Nacional, mas, convenhamos, não devemos nos envergonhar nem um pouco da nossa, como veremos. Pois se a Nacional é de 1810 (ou seja, 115 anos mais velha que a de São Paulo, tempo de sobra para ser maior), e tem 8 milhões de peças em seu acervo (nem três vezes o que possuímos), se foi, e ainda é, bancada com recursos da União (antes Império e antes ainda Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), e, beneficia-se de uma lei que manda que de todo livro impresso nestas plagas sejam enviados alguns exemplares para ela, louve-se o fato de que a de São Paulo foi construída e abastecida com dinheiro paulista e não contou com uma igual norma jurídica tão camarada. E, verdade seja dita, dentre as oito milhões de peças da Nacional, muitas são obras jamais publicadas: manuscritos inéditos e contemporâneos, ali registrados para salvaguarda de direitos autorais. Dizem que até as cadeiras e mesas entram nesta milionária relação de objetos...
Acima mencionamos o fato de que a coleção da Biblioteca Mário de Andrade “conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos”. Não se interprete disto que minha intenção era dizer “conta atualmente com 3 milhões e tantos títulos”. Poderia dar a impressão que este acervo tem recebido constantes acréscimos, o que não ocorre. Pois a instituição, mal administrada há seguramente duas décadas, sequer conta, atualmente, com uma política de aquisição. Sem falar na deterioração de suas instalações, nas máquinas de xerox quebradas, e até na precariedade da vigilância: em 2006, durante a gestão municipal do bem-afortunado Chirico, então responsável por ela, ocorreu um furto quase imensurável de obras raras, tal o descaso com sua segurança. E seu herdeiro polítco, nada mais fez por aquele monumento ao saber: a Biblioteca Mário de Andrade, há meses, está com suas portas fechadas, pelos riscos que podem vitimar a própria saúde dos visitantes e funcionários.
Por tudo o que foi exposto, é de espantar, de pasmar, que ao invés de se garantir um espaço de excelência e tradição como aquele, gaste-se dinheiro público na construção desta nova excentricidade, deste novo shopping cultural (esses tucanos são chegados num shopping, o que revela muita, muita coisa...), que é a tal Biblioteca de São Paulo, no tal Parque da Juventude, sobre as ruínas (mal-assombradas, diziam) do Presídio do Carandiru.
O nome, à primeira vista, é bonito, ainda que eu não dê dois anos até que mude para Biblioteca de São Paulo “Ruth Cardoso”, ou outro nome da intelligentsia tucana. E o local até que é interessante. Aquelas plagas são bem merecedoras de cultura. Mas de metrô, em meia-hora, chega-se à Biblioteca Mário de Andrade, de qualquer estação da cidade (o entroncamento da Sé está ali, bem pertinho, unindo Leste a Oeste, Norte a Sul). Logo, do ponto de vista logístico, geográfico, parece mais um engano: ou talvez um afago ao moradores da Zona Norte, ao invés de um comodidade à população como um todo. E quanto ao acervo, que mesquinhez! Trinta mil livros? Só o dobro do que a Bibliotheca Municipal contava em 1925! Que vergonha! E o modelo de aquisição, então? Orgulham-se de que tudo que for publicado nos gêneros mais diversos (leia-se: bestsellers) estará em poucos semanas na prateleira. Pois a orientação da biblioteca não se deve aos intelectuais, jactanciam-se, mas ao interesse do público. Porém, é claro, por traz de tudo isto está o Poder Executivo Estadual, indisfarçavelmente, a definir o interesse do público.Somando-se a estas vergonhas, há mais uma que é deixar que os fundos para a construção de algo novo, que ainda não sabemos se é necessário, tenham deixado de ir para algo velho, que no entanto é indispensável. De modo que o bem-aventurado Chirico, eterno candidato a alguma coisa, na sua ênfase em destacar seu zêlo e vontade, fez-me recordar uma antiga história por conta deste episódio todo.
Quando Alexandria, sede da famosa Biblioteca, foi conquistada pelo general Amr ibn-al As (c.583-664), este determinou que os livros daquela riquíssima coleção fossem utilizados como combustível nas caldeiras que aqueciam os banhos públicos (o correspondente moderno, em épocas de eleição, a não gastar dinheiro com obras de outros governos e, no lugar disso, satisfazer pontualmente algum anseio). Os defensores de tão inestimável acervo tentaram convencer o conquistador a não fazer aquilo, a não destruir o legado de séculos de tantas civilizações. O general, mero vassalo do Califa Omar (634-644), submeteu a este, então, aqueles argumentos. E a resposta daquele potentado oriental foi mais ou menos a seguinte: “os livros contrários ao Corão, devem ser destruídos, porque são heréticos. Já os que concordam com o Corão, não servem para nada, porque são repetitivos. Queime todos, então”.
Numa tradução paulista contemporânea, leia-se: “que pereça tudo o que veio antes de mim, e a casa que o conserva. Que se leia aquilo que eu acho bom, no palácio que edifiquei”. Ah, diga-se de passagem, uma coisa de que me esqueci: Omar também criou uma madrassa, uma casa de estudos voltada exclusivamente à leitura do Corão.
Que voltas que o mundo dá... Por esta, a boa gente de Piratininga não contava!

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de fevereiro de 2010].

Feixes amarrados por panos

Há pouco mais de vinte anos, estava com uns amigos num bar quando entrou um rapaz, conhecido de um deles. Trocaram algumas palavras e o sujeito se foi. O que ficou conosco disse mais tarde que o jovem em questão era modelo. Perguntei: modelo de quê? De coragem, de honestidade, de princípios? Não, modelo fotográfico, respondeu nosso amigo. Para nós, aquilo era algo ainda um tanto raro, um homem, naqueles dias, viver exclusivamente de tal profissão.
Os tempos passaram, e o que enriquecia apenas uma meia dúzia de rostos conhecidos, sendo um mero ganha-pão para algumas centenas de anônimos, tornou-se um mercado milionário, midiático, transnacional.
Dizia-se, há não muito tempo, que um rapaz que beirasse o limiar da inteligência meramente normal, que fosse totalmente ignorante, além de miserável de dar dó, ainda assim poderia ter sonhos quanto ao futuro: bastaria que fosse hábil nalgum esporte. E a história nos demonstra esta assertiva. Mas, reconhecíamos, por mais ínfimas que fossem suas qualidades e condições, algo dependia inteiramente de sua própria habilidade, ou talento, fossem nos pés ou nas mãos. Algo que ele aprendera a desenvolver, ou seja, adquirido. Fruto do seu esforço e prática.
O mesmo, entretanto, não pode ser dito quanto ao que se espera de um modelo fotográfico, independente do sexo a que pertença. Pois, convenhamos, noventa por cento do que é um desses seres, ele o deve à natureza, que lhe dotou de um aspecto agradável, de uma altura apropriada, de uma estrutura física conveniente. Os outros cinco por cento, entram na conta graças ao trabalho de maquiadores que corrigem imperfeições comuns, cabeleireiros que lhes domam as madeixas, estilistas que lhes cobrem a magreza, fotógrafos que lhes descobrem os melhores ângulos, agentes que conseguem fazer com que sejam vistos. E o que se espera dos modelos? Os cinco por cento finais: que andem eretos, que balbuciem alguma coisa na língua pátria e numa outra estrangeira, e que mantenham a forma física.
Ora, exigir que um mamífero bípede ande ereto não é nada tão dificultoso. O australopiteco, um nosso remoto ancestral, já o fazia, há quase quatro milhões de anos (ou entre oito mil e quatro mil anos atrás, segundo os criacionistas e, no lugar do australopiteco, leia-se Adão). Que se manifeste, ainda que de forma não muito brilhante, na sua própria língua e numa outra, já era possível muito antes dos caçadores do Paleolítico (ou os descendentes de Caim e Sete, segundo aquela teoria). E o mesmo pode ser dito quanto à manutenção de uma forma física que fosse conveniente: ágil e forte para os já mencionados caçadores, graciosas e aptas para a fecundação e geração, para as suas consortes trogloditas. Mas nesta última questão, um determinante se impunha, para além dos valores, por assim dizer, estéticos: a saúde do homem e da mulher, para caçar, lutar, conceber e criar a prole.
Estes conceitos iniciais estão presentes durante todo o curso das civilizações, quer ocidentais, quer orientais. Vejam-se os modelos de fertilidade feminina das eras mais recuadas (as imensas Vênus monolíticas, sendo a de Willendorf talvez a mais conhecida), passando por umas tantas figuras homéricas, pelas matronas romanas, pela idéia de saúde que vai da Idade Média até inícios do século XX. Uma certa opulência de carnes, foi sempre o modelo, a constante. Não a magreza, salvo em raríssimos episódios (no ascetismo-idealismo medieval, no Neoclassicismo e no Romantismo), e mesmo quando as mulheres estabeleceram como padrão as finíssimas cinturas estranguladas por espartilhos, as ancas e os seios eram realçados, valorizados em suas pujanças naturais ou até fabricados, por meio de decotes apropriados para tal, enchimentos de roupas, anquinhas. E o mesmo vale para os homens. Devem ser fortes, viris, sanguíneos quais um touro e, como este, podendo até mesmo ser até corpulentos, um pouco gordos (vejam-se as milhares de imagens de Hércules produzidas ao logo dos séculos).
Felizmente não vivemos mais naqueles tempos. Pode-se ser magro e saudável hoje em dia, sem que uma característica exclua a outra. E, sob muitos aspectos, é até desejável tal silhueta. O que não é mais possível é este culto à magreza quase doentia que se exige das modelos fotográficas. Como é que podem considerar belo um feixe de ossos sacolejantes no alto de uma passarela?
E não adiante dizer que as moças que se entregam a estas exigências tem uma clara percepção do que fazem com seus corpos. Pois não têm. A Lei, aliás, sabe disso. Daí serem considerados incapazes os adolescentes e pré-adolescentes: pois eles costumam ir no vai-da-valsa, umas copiando as outras, ou sob a obediência de pais ávidos por fama, beleza e dinheiro que eles próprios nunca tiveram ou fizeram por merecer.
Que um bando de rufiões travestidos de pais e um magote de jovens cuja inteligência ainda não foi completamente formada sucumbam a tais premissas, ainda que seja detestável é, por outro lado, compreensível. O que surpreende é que a tal indústria da moda não só tolere, mas incentive isto.
Pois uma coisa que ninguém ainda explicou é como algumas moças magríssimas podem ser modelo de alguma coisa, qualquer coisa, quando se sabe que a população mundial vem engordando, constantemente. Indústria pressupõe produção em série, para o maior número de pessoas possíveis, não para uma minoria esquelética. E quem se reconhece naqueles feixes de ossos amarrados por panos? E quem, efetivamente, acha aquilo bonito?
Modelos se sucedem à cada temporada. Sua vida útil é curtíssima. E logo são esquecidas. Mas sempre nos lembramos de belas atrizes, por exemplo. Anos e anos depois de suas passagens. E elas nunca têm as mesmas medidas das modelos profissionais. Por quê? Porque beleza é, também, proporção, que se mede em dimensões e volumes. Características que faltam nos tais modelos, compostas de uma sobreposição de retas e planos, sem densidade. Sem massa. Como pode haver beleza nisto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de fevereiro de 2010].

O Haiti, desta vez, não é aqui

Os leitores que me desculpem, mas é muito difícil acrescentar quaisquer informações ou análises novas a respeito do terremoto no Haiti que não tenham sido exaustivamente apresentadas por todos os meios de comunicação da face da Terra. O assunto, aliás, parece ter sido mais revirado pela grande imprensa do que o foram os escombros e ruínas pelas equipes de resgate. No Brasil chegou-se ao cúmulo de duas revistas concorrentes publicarem a mesmíssima fotografia em suas capas.
De modo que não teria muito sentido, aqui, alongar-me sobre os principais aspectos da catástrofe que abateu aquele país e seu povo, tão explorado. Nem prantear ainda mais a miséria em que vivem, a corrupção e incompetência dos políticos e da classe dominante de lá, a ignorância do povo, a péssima qualidade das construções locais, o mau-caratismo dos empreiteiros que as ergueram, em suma, todas as mazelas que afligem os haitianos e que se exacerbaram graças àquela horrível fatalidade.
Quero enfocar, portanto, dois aspectos que me chamaram a atenção no episódio todo.
Em primeiro lugar, pareceu-me que vem ocorrendo um tremendo desconcerto entre as nações que se prontificaram a ajudar o país. As relações entre elas, diante dos fatos, dão a impressão de um diálogo de surdos que também são cegos: todos falam, mas ninguém escuta e os sinais não são interpretados. Veja-se o caso da ocupação militar norte-americana do aeroporto de Porto Príncipe. Vá lá que alguém precisasse pôr ordem no lugar, mas o estilo caubói dos estadunidenses – ocupam o Forte Apache e deste ninguém entra ou sai – provocou atrasos no desembarque das equipes de resgate estrangeiras e até dos insuspeitíssimos Médicos sem Fronteira. E quando for necessário administrar o dinheiro das doações (estatais, particulares, do terceiro setor, etc.)? Quem irá cuidar dele? Os haitianos? Não sei não... É muito mais que preocupante, é verdadeiramente assustador, observar como tão poderosas nações parecem não chegar a um consenso mínimo, em tempo hábil, diante de uma calamidade destas.
Em segundo lugar, fico imaginando o trabalho de Hércules que será reconstruir o Haiti. Bom, reconstruir em termos, porque muita coisa faltava por lá, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura. Mas do pouco e mal-feito que existia, ainda assim era alguma coisa, ocupava um certo espaço. É de se imaginar, por exemplo, o que farão com as toneladas de entulho em que se transformou sua capital. Como serão transportadas, se não há estradas? E seriam levadas para onde? O país é pequeno. Como se dará a recuperação do país, pobre e corrupto? Seguindo as mesmas regras de antes? Sob intervenção estrangeira? Sim, porque o presidente haitiano não é nenhum Marquês de Pombal, pelo contrário. Nem Porto Príncipe é a Lisboa do século XVIII. Por ora, estão enterrando os mortos. Mas conseguirá ele cuidar dos vivos?
Há pouco tempo, falei da urucubaca que tem dominado São Paulo. E os leitores certamente dirão que a do Haiti nos superou. De minha parte, digo que superou em número de mortos. Pois as destruições pela chuva – leia-se, também, por culpa da ausência de projetos urbanísticos e incompetência das autoridades – continuam. E os donativos com que contavam os habitantes de São Luís do Paraitinga, por exemplo, agora são enviados para outras plagas.
Tristíssimo e miserável Haiti! Rezemos por ele. Triste e pobre São Paulo. Que Deus tenha piedade de nós! Porque se houver um terremoto por aqui, muito pouco também há de ficar de pé: talvez só as estradas privatizadas, com suas cabines de pedágio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de janeiro de 2010].

Uma exposição do passado

Há exatos 110 anos – no dia 15 de janeiro de 1900 –, A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, descrevia uma grande exposição em homenagem ao pintor paulista Almeida Júnior, morto no ano anterior. Não se tratava de uma exibição de arte qualquer e sim de uma espécie de cenotáfio provisório dedicado à memória e exaltação do artista. Mas vamos às palavras, na grafia daquele tempo, de Perpétua do Valle – um dos pseudônimos da escritora Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), diretora da revista – que assinava a matéria:

Como que um recolhimento sagrado se apossou de nossa alma ao penetrar os humbraes do edificio em que se acham reunidas quasi todas as obras do grande e laureado artista... As filas verdes de plantas que de lado a lado ensombravam os corredores, as notas dolentes de bellas peças executadas por excellente orchestra e a lembrança do tragico fim que a tão pouco tempo teve Almeida Junior, nos comoviam e nos predispunham talvez para mais do que nunca admirarmos o grande e mallogrado pintor nacional. E foi assim que mais uma vez nos quedamos de pasmo diante da Partida da Monção, esse bellissimo poema historico que nos suggere ao mesmo tempo multiplos sentimentos e commoções diversissimas...
O assoalho nas proximidades deste quadro achava-se atapetado de rosas, margaridas e avencas e defronte á Partida da Monção havia artistico bosque de palmeiras e bambusinhos encimado pelo retrato do grande artista.
No lado inferior do bosque via-se a roda do destino composta de sempre-vivas brancas do Cabo, tendo um dos raios despedaçado; via-se ainda uma columna amparando vaso de variadas flores, formosa palheta e o retrato do pintor, ainda mocinho, emmoldurado de saudades roxas. [...]
”.

O artigo prossegue mencionando e analisando alguns dos 130 quadros expostos, informa a quem os mesmos pertenciam e ainda acrescenta que seria “destinado o producto das entradas e venda dos catálogos a um monumento que perpetue a admiração nacional pelo insigne pintor que com tanto cunho de nacionalidade fazia os seus quadros”.
São informações preciosas quanto a uma exposição de arte daqueles tempos, ainda que, certamente, pouco convencional, dado o seu motivo e seus fins. Afinal, Almeida Júnior morreu no auge de seu prestígio e num momento que São Paulo procurava se impor política e culturalmente no plano nacional. Sua morte não era só a de um grande pintor, mas de um verdadeiro propagandista dos valores paulistas.
O que nos pareceu mais curiosa foi a disposição decorativa, cenográfica, da exposição, com suas “filas verdes de plantas que de lado a lado ensombravam os corredores, as notas dolentes de belas peças executadas por excelente orquestra”, “o assoalho atapetado de rosas, margaridas e avencas”, “o artístico bosque de palmeiras e bambuzinhos”, e os demais motivos florais e morais. Toda uma ambientação que, sem dúvida, dificilmente seria empregada hoje. Mas o foi, há também exatos dez anos, na Mostra do Descobrimento, realizada no prédio da Bienal de São Paulo, pelos 500 anos do Brasil.
Ali também havia uma intenção muito mais celebratória do que didática ou artística na disposição das obras e no entorno que as envolvia. E foram saudados como “inovadores”, “arrojados”, e que tais, os ambientes que simulavam matas e brejos, para a arte “indígena” e dos “viajantes”, e o “chão de flores” da seção dedicada ao barroco, embalados por uma música onipresente com o fim de despertar efeitos emotivos, contemplativos – prática comum, também, aos parques de diversão, às igrejas e às paradas militares, mas, convenhamos, desnecessária numa exposição, cujo objetivo não é entreter o público fazendo com que o acessório (o cenário) sobreponha-se ao principal (as obras de arte). Em todo caso, vê-se que a inovação, em nosso país, ou vem com atraso, ou não passa de cópia de algo do passado que o tempo fez com que a maioria esquecesse. Ou como dizia o poeta russo Maiakovski (1893-1930), num ótimo trocadilho, “não é nova esta novela”...
Voltando àquela mais que centenária exposição de Almeida Júnior, não pude descobrir ainda se o dinheiro arrecadado graças a ela foi suficiente para erigir o monumento que se pretendia. Até onde sei, o único que celebra o pintor é o seu próprio túmulo no cemitério de Piracicaba que, ao que tudo indica, foi pago pela câmara daquela cidade. Mas se os frutos não foram bastantes para tal obra, não é de se admirar. Os brasileiros, em geral, e os paulistas, principalmente, são pródigos em monumentos efêmeros e novidadeiros, e avaros quanto aos definitivos e, de fato, pertinentes, necessários. Mas isto fica para uma próxima ocasião.
Por ora fica aqui o registro de um episódio pouco lembrado, nos cento e dez anos de sua ocorrência. E mais uma lição de como o novo, por aqui, chega sempre com um certo cheiro de bolor.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de janeiro de 2010].

Mais nuvens negras sobre São Paulo

As nuvens negras que pairam sobre os céus de São Paulo, há vários anos, abandonaram o seu aspecto, por assim dizer, metafórico, para se converterem em algo muito mais palpável e cruel, por via do clima: uma série de chuvas impiedosas que têm destruído cidades, sendo o caso mais grave o de São Luís do Paraitinga, completamente varrida pela enchente do rio que passa por ela.
A destruição, ali, foi quase absoluta. Nada menos de trezentos imóveis foram afetados pelas águas, e cento e oito deles interditados. A Igreja Matriz – sob a invocação de São Luís de Tolosa, padroeiro do município, e a mais alta construção da cidade – desabou sob o impacto da enchente. E o mesmo triste destino sofreu a encantadora capela de Nossa Senhora das Mercês, seguramente um dos mais antigos prédios locais. Não bastasse isto, o cartório foi devastado, destruindo bicentenários registros, apagando a memória dos mortos e dos vivos. E a biblioteca, uma das raras existentes em localidades daquele tamanho (pouco mais de 10 mil habitantes) no Estado de São Paulo. Sem falar na interrupção do abastecimento de água e telefone, das pessoas que tiveram de abandonar suas casas. Por sinal, ali, nem os animais foram poupados: as águas invadiram até o canil da Associação Protetora dos Animais, resultando na morte de oitenta gatos e mais de setenta cães.
Louve-se o heróico papel dos grupos e empresas de canoagem locais, responsáveis pela salvação de muitas vidas. Não fossem eles, as consequências seriam muitíssimo piores: pois apesar de São Luís ser um dos pontos turísticos mais visitados do Estado, célebre pelo seu casario histórico, o corpo de bombeiros local conta com apenas três – isto mesmo, TRÊS – integrantes. Veja-se o cuidado que a administração estadual tem por aquela preciosidade arquitetônica, o respeito que nutre por seus habitantes...
Por sinal, como costumam ser as coisas neste país e, sobretudo, em nosso Estado, o desastre já vinha sendo anunciado. Há dois, anos uma cheia do rio já pusera em alerta os cidadãos. Mas o Palácio dos Bandeirantes, acomodado em sua inércia de mais de uma década de sucessão de compadres, nada fez por São Luís – em nenhuma esfera, frise-se, pois é uma queixa de cada cidadão luisense com quem se encontra.
Estive ali por duas vezes. Passei ótimas temporadas por lá. Tratava-se de uma localidade que tinha tudo para ser – senão uma Ouro Preto paulista – algo não muito distante de uma Tiradentes do Vale do Paraíba, ou uma Paraty de serra acima. Mas as autoridades estaduais pouco se lixavam por São Luís do Paraitinga. Uma prova disto é mais do que evidente. Para que seu conjunto arquitetônico fosse oficialmente tombado pelo IPHAN, seria necessário que a rede elétrica fosse embutida no calçamento, para melhor visão dos prédios e logradouros históricos. Mas a verba veio? Claro que não. O Estado de São Paulo, administrado por pessoas pouco afeitas ao passado que antecede suas próprias origens, tem frequentemente rejeitado iniciativas do gênero.
E uma das provas do que dizemos é facilmente reconhecível pelas palavras do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o nosso conhecido Chirico. Disse ele, em visita, tardia, ao município, e sem poder culpar São Pedro pela catástrofe, nem pronto para uma autocrítica, mas, sim, rápido para encontrar um bode expiatório: “O pessoal do patrimônio histórico gosta muito de discutir e debater. Desta vez, vamos ter que fazer uma ação mais rápida” e, mais adiante, acrescentou que “Se discutirmos academicamente [quanto à reconstrução] vamos levar anos”.
Quando ouvimos a pressa do Chirico em pôr tudo de pé, para além das justas preocupações patrimoniais expressamente negadas por ele, trememos nas bases. Seriam as obras de reconstrução de São Luís do Paraitinga regidas pela mesma avidez de tempo da Linha Amarela do Metrô? Ou dos viadutos do Rodoanel?
Não se reconstitui a história e a vida das pessoas por uma assinatura palaciana, ainda que do primeiro mandatário do Estado, sobretudo quando o mesmo ignora as noções mais básicas do procedimento de restauração. Pois antes de assinar um simples cheque, que daria conta da obra, há que se saber da eficiência dos trabalhos, das aspirações locais, dos procedimentos técnicos.
Será o Chirico capaz de tais feitos? Restituir São Luís do Paraitinga, dotar a cidade de um sistema contra as enchentes, e devolvê-la ao circuito turístico estadual? Conseguirá ele resgatar o passado, o orgulho, a própria noção de existência, roubada pelas águas, dos luisenses? O povo do Estado de São Paulo aguarda por esta resposta. Mas será que ela virá, num ano de campanha? E, olhem, que nem falei da urucubaca....

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de janeiro de 2010].

Entre presépios e presepadas

Nesta crônica, que será a última de 2009, quero dedicar muita saúde, paz de espírito e felicidade a todos os leitores, neste Natal e no próximo ano.
Ao contrário de outros textos meus publicados por esta época em anos anteriores, deixarei de lado as críticas à decoração natalina que entronizam o Papai Noel e sua corte de renas, gnomos, bonecos de neve e que tais, enquanto desterram o Menino Jesus, Maria e José, os reis magos, o anjo, a estrela que brilhou em Belém e os pastores a um verdadeiro limbo. E justo eles, os protagonistas.
Também não falarei da fúria consumista que se espalha por tais dias, das angústias das pessoas frente à expectativa de receber determinados presentes, caros ou exclusivos, e somente estes, ou vários objetos semelhantes, e elas ficam esquecidas de que o gesto, a lembrança, é o que realmente importa. Nem da frustração de tantos que, por não receberem o que lhes achavam devido, quase vociferam contra seus presentes indesejados e contra quem os deu, mergulhando num abismo de depressão por terem seus desejos baldados.
Tampouco abordarei, aqui, certas esmolas que são distribuídas, mais para o apaziguamento de certas consciências culpadas, do que para o real usufruto de quem ganha. Mais frutos de uma autopromoção do que sincero espírito de caridade ou amor ao próximo, tais mimos duram pouco mais do que a satisfação pessoal de quem os concede. Pensemos em todas aquelas bolas coloridas lançadas por caminhões, e que não duram sequer uma semana, nas bonecas que se desmontam antes da passagem do ano, e coisas assim – livros, roupas e uma peça de lombo de porco, convenhamos, duram bem mais e dizem muito mais. Além do que o preço deles longe está de exorbitante: bolas e bonecas ordinárias são acessíveis a qualquer um, nas feiras e camelôs da vida, logo, o “donativo social” que os envolveria não se sustenta.
Finalmente, ainda que se trate da última crônica do ano, não iremos recapitular os desastres, fiascos e cataclismos de 2009, suas tragédias e mortes, nem seus triunfos de resultados duvidosos, como a Olimpíada e a Copa brasileiras, futuras sangrias de dinheiro público muito mais necessário em outras áreas que nesses gigantescos e efêmeros convescotes, dos quais poucos se beneficiam. Ou o brasileiro médio acha que poderá pagar os preços que serão cobrados por tais eventos? Por outro lado, cumpre destacar, nesta retrospectiva que não estamos fazendo, que o ano em geral foi bom. Sobrevivemos muito bem à crise econômica, o povo comeu mais e comprou mais. Inclusive automóveis. Estão aí os imensos congestionamentos em São Paulo e o aumento da emissão de gás carbônico a nos lembrar, a todo momento, disto.
Assim, como prova de que a intenção deste cronista é justamente renovar nosso espírito natalino, para longe das efusões consumistas e derivativas, sugerimos aos leitores uma singela reflexão. Se a decoração natalina brasileira, sobretudo do Sul e Sudeste, ressente-se de um motivo alegre, colorido, vibrante, que não encontra (esta é de pasmar!) no nascimento de Jesus, a ponto de recorrer aos trenós, guirlandas de folhas e frutos nórdicos, por que não espalhamos por nosso Brasil as procissões das pastorinhas, e outros autos de Natal, espetáculos tão belos, musicais, leves no aspecto, e ao mesmo tempo solenes na intenção? De que riqueza de temas usufruiríamos, cores, enfeites, motivos! E em nada, em nem um milímetro, eles se afastariam da data comemorada, ao contrário do falso culto prestado a São Nicolau, a este Noel, que se presta apenas como modelo da indústria do consumo, e não à celebração do nascimento do Salvador.
Basta de presepadas! Celebremos os presépios e aqueles humildes pastores e pastoras que decerto vestiram suas melhores roupas ao visitarem a manjedoura, guiados pelo anjo e pela estrela, que trouxeram seus presentes movidos pelo coração, não pela concorrência entre quem dava o melhor ou o maior presente, mas por quem, acredito, dava o mais sincero, o mais necessário: o couro lanoso, para aquecer o Menino, uma peça de carne, para alimentar Sua Família, junto ao trigo que certamente estocaram para aquele inverno. E que lhes eram os bens mais preciosos.
O anjo e seu esplendor, a estrela jamais vista, os pastores e pastoras cobertos de fitas, as ovelhas, as espigas de trigo não são muito mais belos do que Noel, a árvore natalina, os gnomos e duendes, as renas e o visgo?
Deixo aqui esta reflexão, junto com os meus mais sinceros votos de amor cristão, serenidade e esperança de salvação. Amém!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de dezembro de 2009].

Sobre loucos, mansos ou bravos

O premiê italiano, Silvio Berlusconi, é uma figura e tanto. Parece até tirado das páginas políticas brasileiras. Como muitos de nossos impávidos homens públicos, ele escamoteia a idade, pintando seu cabelo numa cor improvável, que foge à palheta da natureza. Como tantos de nosos compatriotas, procura aprovar leis que lhes sejam direta, e pessoalmente, intere$$antes, e que ao mesmo tempo o isentem de responsabilidades penais. Como outros tantos, detém o controle dos mais variados meios de comunicação: jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, um fênomeno por nós conhecido como neocoronelismo ou coronelismo eletrônico. Não sei como chamam o mesmo procedimento na Itália: condottierismo elettronico? Pode ser. Fica, aqui, a sugestão. Também como uns tantos políticos pátrios, mas em número menor, pelo menos por aqui, ele se envolve em rumorosos casos extra-conjugais, com moças que, no passado, eram chamadas de “profissionais”, “trabalhadoras horizontais”, e termos correlatos. Concordo até que isto seja lá um assunto de foro íntimo, como dizem. Mas não é bonito para um “Pai da Pátria” ser publicamente associado às “operárias do amor”. Faltava-lhe só agora descobrirem-lhe um filho fora do casamento, rejeitado por ele, publicamente, ou envolto em expessas trevas pelos meios de comunicação que lhe são subservientes: ainda que tão concreto quanto os momentos de amor que o produziram. Se tal se confirmar, ele seria a perfeita caricatura do político sul-americano. E brasileiro.
Na semana passada, entretanto, um fator o distinguiu, em certos aspectos, dos homens públicos daqui, do nosso rincão. Pois Berlusconi foi golpeado, em público e em pleno rosto, por um homem do povo. Imaginei que se tratasse de uma solene bofetada, do tipo que se dava no passado a uma pessoa falha do juízo a qual se pretendia que retornasse à razão. Mas não foi o caso. Ao que tudo indica, a agressão não foi causada por um patriota querendo alertar seu dirigente quanto aos descaminhos pelos quais aquele dirigente conduzia sua terra. Não, o tema era mais baixo. Parece que um tresloucado agrediu o premiê italiano com uma réplica, em miniatura, da catedral de Milão. Fiquei aqui imaginando um grupo de louquinhos correndo atrás do Governador Arruda – aquele que seria vice do Chirico – com maquetes da Catedral de Brasília nas mãos... Não, impossível...
Foi então que me lembrei de um dos poucos atentados políticos que o Brasil já conheceu. Um ato efetivamente documentado e cumprido até o fim, diferentemente daqueles movidos contra Prudente de Morais ou Carlos Lacerda, ou, como também circulam por aí, os que hipoteticamente teriam matado o Marechal Castelo Branco, Jucelino Kubitschek e Jango Goulart. Trata-se do assassinato do senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915), graças a uma punhalada de Francisco Manso de Paiva, de quem se disse ser louco, mas não manso, conforme se verificou. Como Pinheiro Machado era considerado a eminência parda do governo do presidente Hermes da Fonseca, e uma nefasta influência na condução da República, o pobre Manso de Paiva, um padeiro desempregado – não, ele não fazia panetones – decidiu dar cabo do caudilho. Alegou-se, à época, que o agressor fora insuflado pela imprensa e pelos opositores do regime, que literalmente pediam a cabeça do caudilho gaúcho. Mas ao fim das investigações – sumárias e pouco conclusivas – anunciou-se que o assassino agira por moto próprio. E Manso de Paiva entrou para a história como o louquinho que matou um figurão. Poucos são aqueles que veem naquele ato tresloucado o princípio do fim do já necrosado Partido Republicano Conservador que, acéfalo com a morte de Pinheiro Machado, mergulhou no ocaso, como era de se esperar: partidos personalistas sempre sucumbem à falta de seus líderes.
É claro que não defendemos, aqui, a agressão a homens públicos, por piores e mais irretratáveis que os sejam. Ainda que o repúdio dos homens de bem àquelas horrendas condutas públicas mereça ser sobejamente anunciado, não defendemos a violência contra os autores daquelas obscenidades. Pelo contrário. Sabemos que a sempre prestimosa Justiça se encarregará deles. E que, um dia, ainda que às véspera do Juízo Final, a opinião pública se manifestará nas urnas, cassando os desejos de tais criaturas, aqui, na Itália e no resto do mundo. Basta, apenas, que esperemos. E esperemos e esperemos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de dezembro de 2009].