A Biblioteca Mário de Andrade, no próximo dia 26 de fevereiro, celebrará seus 85 anos de existência.
Ela não nasceu, evidentemente com este nome, nem no local onde atualmente se encontra. Na sua certidão de nascimento, de 25 de fevereiro de 1925, constava o nome Bibliotheca Municipal de São Paulo. Mas o seu batismo só se daria no ano seguinte, num casarão da Rua Sete de Abril, que abrigou os 15 mil volumes de seu acervo inicial. Na sua crisma, com meros dezessete aninhos, ela muda de endereço, o que até hoje ocupa, na Rua da Consolação, 94, no coração da Praça Dom José Gaspar. E no ano seguinte, atingida sua maioridade, alterou o seu nome: passou-se a chamar, deste então, Biblioteca Mário de Andrade, numa justa homenagem àquele grande escritor e intelectual paulista.
Quanto à sua importância cultural, basta que nos remetamos a dois únicos aspectos, dentre os muitos que poderíamos mencionar. Em primeiro lugar, ela, durante a gestão de Sérgio Milliet – cujas credenciais artísticas, literárias e intelectuais, muito resumidas aos seus dados essenciais, não caberiam nesta lauda e meia – abrigou a primeira coleção de arte moderna do país, muito antes da fundação do MASP, do MAM e do MAC. E era tão estupenda que quase tudo o que compõe a seção moderna da Pinacoteca Municipal saiu de lá. Dali veio o embrião daquela que é conhecida como uma das melhores recolhas do gênero em nosso país.
Em segundo lugar, há que se destacar a monumentalidade de seu acervo. Ele conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos, e uma significativa parte dele formado por livros raríssimos, além de manuscritos, gravuras, mapas, obras que remontam ao século XV. No Brasil, só é menor do que a Biblioteca Nacional, mas, convenhamos, não devemos nos envergonhar nem um pouco da nossa, como veremos. Pois se a Nacional é de 1810 (ou seja, 115 anos mais velha que a de São Paulo, tempo de sobra para ser maior), e tem 8 milhões de peças em seu acervo (nem três vezes o que possuímos), se foi, e ainda é, bancada com recursos da União (antes Império e antes ainda Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), e, beneficia-se de uma lei que manda que de todo livro impresso nestas plagas sejam enviados alguns exemplares para ela, louve-se o fato de que a de São Paulo foi construída e abastecida com dinheiro paulista e não contou com uma igual norma jurídica tão camarada. E, verdade seja dita, dentre as oito milhões de peças da Nacional, muitas são obras jamais publicadas: manuscritos inéditos e contemporâneos, ali registrados para salvaguarda de direitos autorais. Dizem que até as cadeiras e mesas entram nesta milionária relação de objetos...
Acima mencionamos o fato de que a coleção da Biblioteca Mário de Andrade “conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos”. Não se interprete disto que minha intenção era dizer “conta atualmente com 3 milhões e tantos títulos”. Poderia dar a impressão que este acervo tem recebido constantes acréscimos, o que não ocorre. Pois a instituição, mal administrada há seguramente duas décadas, sequer conta, atualmente, com uma política de aquisição. Sem falar na deterioração de suas instalações, nas máquinas de xerox quebradas, e até na precariedade da vigilância: em 2006, durante a gestão municipal do bem-afortunado Chirico, então responsável por ela, ocorreu um furto quase imensurável de obras raras, tal o descaso com sua segurança. E seu herdeiro polítco, nada mais fez por aquele monumento ao saber: a Biblioteca Mário de Andrade, há meses, está com suas portas fechadas, pelos riscos que podem vitimar a própria saúde dos visitantes e funcionários.
Por tudo o que foi exposto, é de espantar, de pasmar, que ao invés de se garantir um espaço de excelência e tradição como aquele, gaste-se dinheiro público na construção desta nova excentricidade, deste novo shopping cultural (esses tucanos são chegados num shopping, o que revela muita, muita coisa...), que é a tal Biblioteca de São Paulo, no tal Parque da Juventude, sobre as ruínas (mal-assombradas, diziam) do Presídio do Carandiru.
O nome, à primeira vista, é bonito, ainda que eu não dê dois anos até que mude para Biblioteca de São Paulo “Ruth Cardoso”, ou outro nome da intelligentsia tucana. E o local até que é interessante. Aquelas plagas são bem merecedoras de cultura. Mas de metrô, em meia-hora, chega-se à Biblioteca Mário de Andrade, de qualquer estação da cidade (o entroncamento da Sé está ali, bem pertinho, unindo Leste a Oeste, Norte a Sul). Logo, do ponto de vista logístico, geográfico, parece mais um engano: ou talvez um afago ao moradores da Zona Norte, ao invés de um comodidade à população como um todo. E quanto ao acervo, que mesquinhez! Trinta mil livros? Só o dobro do que a Bibliotheca Municipal contava em 1925! Que vergonha! E o modelo de aquisição, então? Orgulham-se de que tudo que for publicado nos gêneros mais diversos (leia-se: bestsellers) estará em poucos semanas na prateleira. Pois a orientação da biblioteca não se deve aos intelectuais, jactanciam-se, mas ao interesse do público. Porém, é claro, por traz de tudo isto está o Poder Executivo Estadual, indisfarçavelmente, a definir o interesse do público.Somando-se a estas vergonhas, há mais uma que é deixar que os fundos para a construção de algo novo, que ainda não sabemos se é necessário, tenham deixado de ir para algo velho, que no entanto é indispensável. De modo que o bem-aventurado Chirico, eterno candidato a alguma coisa, na sua ênfase em destacar seu zêlo e vontade, fez-me recordar uma antiga história por conta deste episódio todo.
Quando Alexandria, sede da famosa Biblioteca, foi conquistada pelo general Amr ibn-al As (c.583-664), este determinou que os livros daquela riquíssima coleção fossem utilizados como combustível nas caldeiras que aqueciam os banhos públicos (o correspondente moderno, em épocas de eleição, a não gastar dinheiro com obras de outros governos e, no lugar disso, satisfazer pontualmente algum anseio). Os defensores de tão inestimável acervo tentaram convencer o conquistador a não fazer aquilo, a não destruir o legado de séculos de tantas civilizações. O general, mero vassalo do Califa Omar (634-644), submeteu a este, então, aqueles argumentos. E a resposta daquele potentado oriental foi mais ou menos a seguinte: “os livros contrários ao Corão, devem ser destruídos, porque são heréticos. Já os que concordam com o Corão, não servem para nada, porque são repetitivos. Queime todos, então”.
Numa tradução paulista contemporânea, leia-se: “que pereça tudo o que veio antes de mim, e a casa que o conserva. Que se leia aquilo que eu acho bom, no palácio que edifiquei”. Ah, diga-se de passagem, uma coisa de que me esqueci: Omar também criou uma madrassa, uma casa de estudos voltada exclusivamente à leitura do Corão.
Que voltas que o mundo dá... Por esta, a boa gente de Piratininga não contava!
[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de fevereiro de 2010].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana