quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quem é o selvagem, afinal?

Na última quinta-feira fui encontrar uns amigos mineiros em São Paulo. Estavam ali num trabalho de reconhecimento de alguns museus paulistanos: uma turma de Museologia e os professores, um deles de História, que é um grande amigo. Fomos à Pinacoteca – sempre irrepreensível – e ao Museu da Língua Portuguesa – do qual cada vez mais gosto menos.
No começo da noite, foi sugerida uma visita ao Instituto Itaú Cultural – isto mesmo, o nome segue esta ordem. Aliás, o Instituto vai por minha conta: na placa na rua, no site e nas publicações consta apenas Itaú Cultural, com este jeitão de instituição gringa. Fomos até lá: era a inauguração de uma mostra fotográfica, com obras pertencentes à Maison Européenne de La Photographie: mais um destes eventos homenageando o Ano da França no Brasil.
Confesso que só estive uma vez no tal Itaú Cultural, e logo bati em retirada. O espaço é grande, quatro andares, ligados por escadas não propriamente suaves, e somente um banheiro, do tamanho de um desses de bar. Lembrei-me a todo momento do ex-prefeito Jânio Quadros que dizia que São Paulo, no entendimento de muitos, era uma cidade habitada por anjos: nela não se construíam sanitários públicos (a mesma crítica, aliás, vale para o Museu da Língua Portuguesa, mas isto é outra história).
Voltando ao tema, a exposição em tela chamava-se A Invenção de um Mundo e, segundo o texto de divulgação, suas obras “questionam o conceito de realidade e ficção no registro fotográfico e abrem um painel de discussão do estágio atual da fotografia. São trabalhos assinados por artistas que, à revelia do registro do que existe, escolheram a construção de cenas, de personagens para inaugurar outros mundos. A fotografia como documento cede lugar a narrativas subjetivas. Ela não mais é um registro do real. Ela cria realidades e, ao fazê-lo, resvala em teatro, cinema, pintura”. E prossegue afirmando que essa nova fotografia, “por vezes denominada pós-moderna, que transgride os códigos tradicionais da imagem, se apodera das novas tecnologias e reinventa tudo aquilo que são lembranças, sonhos e desejos”.
Mas, resumindo a história, tudo não passa de uma série de colagens, fotografias de maquetes e brinquedos, montagens, brincadeiras de Photoshop, e coisas do gênero, que também poderia ser chamada de O Ontem, Hoje, O Hoje, Ontem, Zero mais Infinito, Sombra e Luz, Eros Enjaulado, Antigos olhares: Novas abordagens – em suma, qualquer nome que se quisesse dar, porque nada é muito claro na coisa toda, que se propõe como nova.
Muitas, aliás, nem tão novas assim: contei várias obras de 1978, 1979, ou por aí. Outras tantas, aproveitando-se de antigas imagens pornográficas francesas, cartões postais de mulheres nuas que se vendiam aos marinheiros e aos turistas libertinos no século XIX e início do XX. O que é também problemático: se a vanguarda do século XXI bebe tão sofregamente das fontes da retaguarda do século anterior, alguma coisa vai mal...
Outro aspecto curioso da mostra foi a extrema hostilidade – verdadeira misoginia – no tratamento das imagens das mulheres. Sobre um pretenso registro sensual, havia toda uma coleção de beldades (ao lado de verdadeiras monstruosidades) nuas ou seminuas em posições degradantes, simulando como se estivessem mortas ou feridas de morte, deformadas, ou ridicularizadas. Já a representação masculina, primava por jovens esbeltos, ou musculosos, em cenários floridos, bem iluminados... Não tenha nada contra os gostos pessoais de quem quer que seja. Se o artista prefere uns a outras, isto é lá problema dele. Mas quando ele transfere suas preferências para a arte, e aparentemente, apenas suas preferência, eu não só posso como devo discordar. Arte não é um mero catálogo das inclinações particulares.
O registro mais curioso, no entanto, se deu por um acontecimento fortuito. Entre o público que compareceu à exposição, encontravam-se dois índios, acompanhados por seus anfitriões brancos. E quando digo índios, quero dizer isto mesmo. Estavam vestidos, evidentemente. Mas seus adornos faciais e corporais, seus cortes de cabelo, davam-lhes o ar de terem recém-chegado da aldeia onde vivem.
No que diz respeito à reação deles às obras expostas, não pude perceber muito. Os rostos indígenas são, muitas vezes, imperscrutáveis, enigmáticos: seus códigos para a manifestação de gosto ou desgosto não raro são opostos aos nossos. Mas num deles notei um inequívoco olhar de reprovação a certas obras, sobretudo àquelas de temática violenta e degradante. Via-se claramente que ele não gostava do que fora feito às mulheres das fotografias.
A conclusão a que cheguei, e as ilações que fiz, é certo, já pairavam no ar. A associação entre França, índios e costumes, faz pensar imediatamente no célebre ensaio Dos Canibais, de Michel de Montaigne (1533-1592), no qual este pensador, comparando certas práticas dos tupinambás (se a memória não me trai), mostra-as como até superiores às de seus compatriotas, chegando mesmo a dizer que na guerra eles se portavam de maneira mais digna do que a soldadesca que infernizava a vida dos franceses durante as guerras de religião (entre católicos e protestantes).
E quase quinhentos anos depois, eis que suas palavras se confirmavam no simples olhar desgostoso daquele índio em São Paulo, diante da fotografia pós-moderna francesa. Preso ainda aos seus elegantes grafismos geométricos, aos requintados arranjos plumários, aos seus inocentes e belos animais entalhados na madeira das matas, nosso índio certamente só poderia deplorar aquela violência e gratuidade: civilizados resultados dos gostos corrompidos, como diria Montaigne.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de outubro de 2009].

Nenhum crime é pequeno

No Brasil, proclama-se a cada instante que todos os políticos são corruptos e ineptos. Que a iniciativa privada, esta sim, é eficientíssima, livre de vícios. E que a prática de esportes fortalece o caráter.
O recente episódio – ainda não concluído – do roubo da prova do Enem desmonta uma por uma as afirmações acima. Não que, por isso, muitos políticos sejam imediatamente inocentados, o empresariado torne-se, todo ele, incompetente, nem faz supor que a totalidade dos esportistas seja fraca de caráter. Mas toda esta embrulhada dá o que pensar.
A prova roubada não o foi de uma gráfica pública e, sim, particular. Não houve também nenhum funcionário do governo envolvido, mas três da dita empresa privada. E o mentor da história toda vem a ser, por coincidência, um esportista, praticante de capoeira, uma atividade “relaxante”, “honesta”, “altruísta”, como dizem por aí... E quanto aos políticos nesta história toda? Fizeram o que deveriam fazer e em prazo recorde. Aliás, como a Polícia Federal também o fez, com uma ligeireza notável: já indiciou os envolvidos por extorsão, peculato e violação de sigilo funcional. As penas para cada crime são: de quatro a dez anos para extorsão, de dois a doze para peculato e de dois a cinco para a quebra de sigilo. Todavia, são réus primários, tem bons antecedentes e, por isso, nenhum deles foi preso e responderão ao processo em liberdade. O Ministro da Justiça qualificou-os de meros “marginais”. E a Polícia Federal afirmou que o grupo é “amador”. Moral da história: provavelmente vão sair ilesos ou, depois de uns cascudos, com uma pena alternativa, ou coisa do gênero. Entretanto, amadores ou não, palermas ou não, acho que mereceriam um tratamento mais duro. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar, há os crimes propriamente cometidos, que falam por si. O problema é que eles não se extinguem neles mesmos, pois causaram um prejuízo milionário aos cofres públicos, graças a todas as alterações que o governo foi forçado a fazer depois do episódio. Mas não foi só o governo que perdeu com tal patifaria, nós também perdemos, porque o dinheiro, na verdade, é nosso, dos nossos impostos. O fato é que milhões de estudantes em todo o país foram prejudicados por conta disso. Financeira e emocionalmente. Estudantes têm gastos com livros, material de estudo, inscrições de vestibulares. Muitos se preparavam para provas de acesso a universidades fora de seus domicílios e entram aí gastos com transporte (a passagem aérea comprada na promoção, meses antes do embarque), depósitos adiantados para hotéis ou pensões, e mais uma infinidade de outros. E ora veem-se ameaçados de não poder prestar os exames pela mudança da data do Enem. Ou, em boa parte, os prestarão com prejuízos, já que algumas universidades não mais aceitarão as notas da avaliação nacional como elemento classificatório disponível a tais candidatos. Não se trata do caso de dizer – como alguns babaquaras disseram em entrevistas – que “todos os seus esforços foram perdidos”. O que se aprendeu se aprendeu: o intervalo para a próxima prova não produz nenhuma lavagem cerebral ou surto de amnésia. Aliás, quem pensa assim, em minha opinião, já foi reprovado. Entretanto, convenhamos, ter os sonhos e planos adiados – às vezes até por um ano – é coisa muito séria.
Em segundo lugar, há algo também muito sério no procedimento dos três patetas responsáveis pelo roubo. Eles insinuaram à reportagem, para qual tentaram vender as provas, que as mesmas teriam sido fornecidas por alguém graúdo do Ministério da Educação, o que foi completamente desmentido pelos fatos. Ora, não se envolve uma instância do governo numa tramoia destas tão levianamente que se possa passar impune. O risco de uma crise institucional foi imenso. Boatos não são tão inocentes quanto se pensam, muito menos um de tal envergadura. O Código Penal trata muito bem destes casos e, creio, o Ministério Público deveria estar atento a isto.
Uma coisa é o furto de parafusos. Outra coisa é o furto de parafusos de uma ponte pela qual passam trens. Se eles seguem incólumes, fica-se somente no furto. Mas se um deles descarrila tudo muda de figura. O Trem do Enem descarrilou, causando prejuízos a milhões e de milhões, além de ameaçar o funcionamento do Estado. Vamos só dar um croques na cabeça dos culpados?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de outubro de 2009].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trabalho sem fim

Depois da metade de um dia de pesquisa na Biblioteca dos Bispos de Mariana, num ambiente escuro, cercado por raridades, julguei que merecia uma pequena pausa. Deixei o prédio e fui esticar as pernas, num banco da praça fronteira.
Por sorte, àquela hora da tarde, a temperatura abrandara um pouco, o sol se escondera atrás das nuvens e um vento bastante ameno passara a soprar. E vi que a ideia de aproveitar aquele ambiente sombreado não fora só minha. Por toda a praça viam-se pessoas, refesteladas, nos bancos. Chamaram minha atenção três senhoras, em pontos distantes uns dos outros, com vassouras apoiadas nos encostos de madeira. Eram, evidentemente, varredoras de rua, que aproveitavam um breve descanso.
O tempo foi passando e aquela ligeira pausa se seguia, aparentemente sem fim. Até que todas, ao mesmo tempo, se levantaram, varreram algumas folhas – poucas, e nada do lixo que as circundava – e recolheram-nas com uma pá. Poucas folhas foram para uma lixeira, já transbordante e, claro, a maior parte delas voltou para o chão. As mulheres pareceram não se importar. Tanto que voltaram, logo em seguida, placidamente, aos seus bancos. Novo descanso.
Não fiquei ali para ver por quanto tempo mais repetiriam aquela rotina. Afinal, tinha meus afazeres. De volta à biblioteca, entre a consulta de um livro e outro, eu aproveitava para dar uma espiada pela janela. E a toda vez as via sentadas, mas agora mais próximas, e conversando.
Perto do fim da tarde, finalmente atingiram o canto da praça mais próximo do prédio onde me encontrava. Não precisava mais acompanhá-las com o canto dos olhos. Agora, o ruído da varrição me informaria de seu ritmo de trabalho. E os ouvidos confirmaram aquilo que tinha visto. Varriam muito pouco e, logo em seguida, paravam. E conversavam, conversavam, conversavam...
Para mim, já bastava daquilo. Atirei-me aos livros, e me esqueci delas, de seu trabalho duplamente leve, fingido e um tanto inútil.
Ao fim do dia, saí e passei por elas. A praça continuava coberta de folhas e de um pouco de lixo, em idêntica forma a que a vira horas antes. Mas, naquele instante, um vento súbito, razoavelmente forte, soprou por entre as árvores, desfolhando-as com rigor. O calçamento, então, cobriu-se quase completamente. E ouvi de uma das varredoras, que contemplava a mesma cena e seus resultados, a seguinte frase, lançada às outras:
– Que coisa! Todo um dia de trabalho perdido...
Um dia de trabalho perdido! Pensei na tarefa inútil e sem fim que é varrer folhas. Inútil e infinito porque elas sempre, e sempre, continuarão a cair. Mas dia após dia, lá estão as mulheres, que são pagas para isto, a varrer e a fingir que varrem, ignorando o lixo, enchendo transbordantes cestos que devolvem ao calçamento as folhas que deveriam conter. Pensei, mais brandamente, que talvez fosse pelas varredoras saberem da inutilidade daquele trabalho, que as levava a simular algum esforço. Pode ser. Em todo caso, ainda que finjam por conhecerem aquela faina infinita, tal fingimento não desvia um palmo de um fato inquestionável: há algo, naquela atividade constante e sem frutos, de vagamente infernal...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 03 de outubro de 2009.]

Nenhum idílio resiste a um escrutínio

Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte III: Castas e raças na ficção científica

Já tratei, noutra ocasião, aqui, da dita ficção científica, embora eu considere que o termo mais apropriado seria fantasia futurística, ou mesmo ucronia. E, ainda assim, é de se ficar tentado ante a possibilidade de se utilizar a expressão romance – ou novelaapocalíptico contemporâneo.
Volto ao assunto porque acredito que o gênero revele muito mais curiosidades do que um leitor apressado é capaz de notar. Não falo das engenhocas futuristas com maior ou menor grau de verossimilhança ou possibilidade, nem das excêntricas teorias científicas que justificam o funcionamento das mesmas. Nem, tampouco, dos seus mundos implausíveis, das suas viagens no tempo e no espaço, das múltiplas coincidências necessárias para a sustentação das tramas. Muito menos, por fim, do fato de que seus personagens parecerem se comunicar num único e mesmo idioma com relativa facilidade, sejam ingleses ou marcianos, norte-americanos ou nativos da galáxia de Andrômeda, franceses ou seleníticos (uma forma elegante de dizer “habitantes da lua”, já que lunático é outra coisa). Não, o que tem chamado minha atenção, com maior espanto, é a freqüente polarização entre raças ou castas irreconciliáveis dentro das tramas, numa visão não só enviesada como maniqueísta.
Lembremos o romance A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells. Lá estão as duas raças, Elois e Morlocks. A primeira, bela e apática, morando na superfície. A segunda, monstruosa e operativa, escondendo-se nos subterrâneos. Uns descendentes da alta classe ociosa. Outros, dos trabalhadores braçais. E estes, alimentando-se, literalmente, daqueles. Quando ouvimos a justificativa do autor, então, ficamos estarrecidos. Tais naturezas foram criadas pela evolução da humanidade nos termos seguidos pelo século XX. Chocante! Quanto mais se pensarmos que Wells era um profundo conhecedor do marxismo e um influente socialista (fabiano) inglês.Em suma, para ele não haveria luta de classes e, sim, uma evolução genética derivada do trabalho e dos hábitos: menos Darwin e mais Lamarck. É, realmente, de cair o queixo.
Poderíamos proceder com o mesmo autor e a outras de suas obras. Nos romances A Guerra dos Mundos (1898), e O Primeiro Homem na Lua (1901), os vilões da vez serão marcianos irredutíveis e os homens-insetos implacáveis que habitam o nosso satélite. Nenhum diálogo com eles é possível. Nossos únicos argumentos perante eles são as armas, em resposta às suas iguais proposições.
Saltando alguns anos, temos o Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, que não deixa de ser uma espécie de releitura de alguns trechos d’A Máquina do tempo, acrescida de drogas e de culto à juventude (criticado). O canibalismo está implícito, assim como uma evolução degenerativa, se podemos assim dizer. E as relações antagônicas são praticamente as mesmas.
A tradição deste diálogo irreconciliável, ou apriorística ausência de diálogo entre os diferentes não pertence somente a este gênero: utopias e ucronias, por vezes, trazem o mesmo traço. Basta pensarmos nos povos de Lillipute e Blefuscu, minúsculos e beligerantes personagens da novela Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Indo mais longe ainda, poderíamos ainda ecoar resquícios da Titanomaquia, a luta que opôs os belíssimos deuses olímpicos aos horrendos e disformes titãs numa antiguidade muito mais que remota.
A vertente inglesa – e, por extensão, norte-americana – não é difícil de compreender do quê procede. Filhos e netos dos cismas que dividiram a cristandade a partir do século XVI, e ardentes defensores de seus propósitos, para além da racionalidade que professavam seguir, muito cedo demonizaram todo o resto do mundo católico, o qual não deveria ser convertido, mas, sim, exterminado.
Já se pensarmos na escola francesa do gênero, em grande parte também moralista, o pano de fundo é outro e há bem mais tolerância entre os povos aparentemente rivais, já que seu modelo foi o contato com o Oriente e com as Américas. Basta lembrarmos, por exemplo, das novelas História cômica dos estados e impérios da Lua (1657) e História cômica dos estados e impérios do Sol (1662), de Cyrano de Bergerac (1619-1655). Sem falarmos em Micrômegas (1752) de Voltaire (1694-1778).
E da alta literatura às histórias em quadrinhos, a mesma relação frente ao outro se repete segundo aquelas mentalidades que as produziram. Basta comparar o alienígena em Buck Rogers (1928), de Anthony Rogers, ou Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, a Valérian, agente espaço-temporal (1967), de Pierre Chrsitin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé: é quase como confrontar o conquistador Hernán Cortés (1485-1547) ao nosso beato José de Anchieta (1534-1597).
Em suma, até a leitura da ficção mais desvairada é capaz de revelar muito do povo que a escreve. Fiquemos atentos ao que virá...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2009].

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte II: Ateísmo e revolução em Vila Rica

Acredito que todos os leitores aprenderam na escola a seguinte lição: no Brasil colonial, não existiam manufaturas, de espécie alguma, porque a Coroa portuguesa proibia sua instalação na Colônia. Para quem duvidasse, citavam-se uns tantos decretos que reforçavam o fato, o último deles de 1785. E muitos historiadores de um passado nem tão remoto, presos a certas correntes ideológicas bem específicas, abraçavam esta teoria, justamente se baseando nas tais leis que impediam a criação de pequenas metalúrgicas, fábricas de pólvora e de pano grosso, e por aí adiante. Hoje, a interpretação é completamente outra e, à primeira vista, até óbvia: ora, se sucessivas leis eram promulgadas proibindo uma dada coisa, é porque, na realidade, as leis não eram cumpridas, sendo necessárias outras que as reafirmassem. Pois bem, parece tudo muito natural, não é? Mas levaram-se décadas para que a sua naturalidade fosse enxergada.
Outro mito corrente é de que no período chamado de Renascimento, os homens de letras e estudos voltaram suas costas para a Igreja, renegaram suas práticas como atos supersticiosos e por bem pouco não mergulharam num feroz ateísmo, ainda que disfarçado hipocritamente. As provas seriam a valorização do homem nas artes, uns tantos ou quantos livros escandalosos (uns, cheirando à heresia, outros tresandando ao que hoje chamaríamos de pornografia). Pois tal legenda também foi desmontada há muito tempo graças ao estudo da obra de um genial e desbocado escritor francês: François Rabelais (1483-1553). E por duas autoridades em suas áreas: o linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), no seu “Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais” (na sexta edição em 2008, e mais uma vez esgotado), e pelo historiador também francês Lucien Febvre (1878-1956), em “O Problema da incredulidade no século XVI: A Religião de Rabelais” (um clássico publicado em 1942 e só traduzido – inexplicavelmente – em nosso idioma neste ano). Ambos os autores demonstram muito bem como era impossível ser ateu naquele período, visto que o catolicismo se entranhara não só em todos os aspectos da sociedade como também em cada nervura dos indivíduos.
E for falar em ateísmo, há também aqueles que interpretam que se não se deu no Renascimento o seu berço, teria sido no século dezoito a sua crisma. E citam o iluminista Voltaire (1694-1778) a torto e a direito, quando nada há de concreto que ateste que o mesmo era ateu: um grande questionador de absolutamente todas as religiões, mas nunca um total incrédulo. Não importa: vendem-no como tal, e dão de brinde os seus leitores da época, que seriam, evidentemente, também ateuzinhos. Para não dizer revolucionários. Por conta disto, muita gente embarca na canoa furada que é propor que os inconfidentes de Minas Gerais, eram todos uns acerbos críticos da política e da sociedade de seu tempo, bafejados de incredulidade e, acima de tudo, anticlericais. E, desta vez, segundo estes marinheiros desavisados, a prova encontrar-se-ia nas bibliotecas dos envolvidos na conjura, apreendidas pelas autoridades. Porque lá estavam livros de Voltaire, as obras completas de Montesquieu (1689-1755), o proibido abade Raynal (1711-1796), mais uns, poucos, heréticos e, outros, vários, polêmicos, entende-se que aqueles mineiros eram todos ateus e, repitamos, revolucionários. O que se esquecem de dizer os partidários de tal teoria – que leram apressadamente O Diabo na livraria do Cônego, o pioneiro, e insuperável, estudo de Eduardo Frieiro (1889-1982) sobre as bibliotecas dos inconfidentes – é que Voltaire era também muito lido por suas qualidades poéticas (era reputado, então, como o maior poeta do século XVIII, o que era um evidente exagero). Como também não mencionam que, para cada polemista, havia mais de três ortodoxos, consagrados, conservadores. Os livros de temática sacra (Teologia é só uma das suas subdivisões) eram os que mais se contavam nos acervos dos inconfidentes. É esta, sim, uma prova do quanto a religião fazia parte de suas vidas e pensamentos.
Em suma, tal como o livro, que não se compra pela capa, que não se tome o homem apenas por um ou outro livro que tenha lido como tudo que leu e que o formou. Eles são indícios, muito bons, por meio dos quais podemos conhecer seus leitores enquanto homens de letras, mas daí a vislumbrar radicais de gabinete, ou de barricadas não passa de especulação. Forçada, aliás.

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de agosto de 2009).

Literatura e História — Parte I: Seguindo pistas

Há muito tempo, acredito que a melhor forma de se compreender a cultura de um povo ou país num determinado período de sua história seria bastante viável não pelo estudo das grandes obras que um e outro produziram então, mas pela análise do que subjazia e era compreendido, e consumido, pela população em geral.
Explicando melhor, quero dizer que se entende mais a sociedade romana, por exemplo, à leitura das peças muitas vezes vulgares de Plauto e Terêncio, e tendo próximo dos olhos os combates dos gladiadores entre si e contra feras, do que pela plácida contemplação dos textos de Virgílio, Sêneca e Marco Aurélio. Quer porque o povo não lia estes últimos, quer porque povo, elite e estamentos médios assistiam àquelas comédias e freqüentavam os circos e arenas.
Vá lá que os gregos norteassem suas vidas públicas e privadas por Homero. Mas não deixa de ser curioso que o número de comédias de Aristófanes (onze, remanescentes) supere o das tragédias de seu contemporâneo Sófocles (sete, conservadas).
Já foi dito, alhures, que se apreende muito mais a Inglaterra e a Itália medievais através dos Contos de Cantuária, de Chaucer, e do Decamerão, de Bocaccio, do que pelas crônicas oficiais ou oficialescas daqueles tempos. Mas os modernos fizeram vistas grossas a isto em sua época. Tudo o que viesse do povo, ou cheirasse à literatura barata, foi escorraçado do horizonte dos historiadores do século XVI ao XVIII. Os românticos até que tentaram, reabilitando os contos de fada e tentando compreender o período em que foram escritos, ou presumivelmente escritos. Todavia o fizeram mais como antiquários do que pesquisadores sérios, científicos, metódicos.
Já os norte-americanos foram bastante espertos quanto a esta percepção, muito antes mesmo da L'École des Annales e da Microstoria italiana. E o testemunho é de ninguém menos do que o de um seu ex-presidente. Abraham Lincoln, quando encontrou a escritora Harriet Beecher Stowe, no início da Guerra Civil, teria chegado a dizer: “Então esta é a pequena senhora (little lady) que causou esta grande guerra (big war)”, tal a repercussão de seu romance junto aos leitores. Em suma, naqueles tempos, o grande livro, para tal povo, foi A Cabana do Pai Tomás, e não Moby Dick, de Melville, ou A Casa das Sete Torres, de Hawthorne, ambos publicados em 1851, um ano antes daquele. E os dois últimos, que já nasceram clássicos, e modernos – pela visão de congraçamento racial do primeiro, e pelas pontuais inovações críticas às tradições fossilizadas, do segundo – parecem não ter feito qualquer eco na consciência de seus contemporâneos.
De modo que, acredito, compreende-se menos a França do século XIX por Balzac do que, por exemplo, por um Eugène Sue, ou um Alexandre Dumas, ou qualquer outro autor de folhetins. Ainda que não fossem repórteres de seu tempo, como o primeiro, e não escrevessem tão bem – é inegável este ponto – como o autor da Comédia Humana, eram eles muito mais lidos pelo público. Eram formadores de opinião, de desejos e esperanças. Nutridos por histórias cheias de reviravoltas, de tirar o fôlego, de ações providenciais de príncipes até então incógnitos, que disfarçavam sua real natureza até o grande lance em que desatavam os nós do destino, entende-se porque os franceses foram tão complacentes com a ascensão, folhetinesca, de Napoleão III.
No Reino Unido, cujo público leitor era muito mais amplo, chegando mesmo à ralé mais explorada, uma análise do apogeu do Império, creio, seria muito melhor realizada não à leitura de Dickens, ou Thackeray, mas sim à das sanguinolentas páginas dos Penny Dreadfuls (em tradução livre, mas apropriada: “horrores a um centavo”), com suas narrativas escandalosas, violentas, terríveis, muitas delas incluindo fantasmas, monstros e assassinos impiedosos. Em boa medida, as Dime Novels (valendo a regra anterior: “novelas a um centavo”), suas correspondentes norte-americanas, com crimes urbanos e facínoras do Oeste Selvagem, cumprem também o seu papel quanto a revelar aquela sociedade. Como, a seu tanto, a bibliothèque bleue, na França, e os cordéis, na Espanha, Portugal e Brasil.
Há poucos anos, foi publicado um livro bastante interessante que contém, em boa parte, uma série de fontes preciosas para o desenvolvimento desta questão. Trata-se de Páginas de Sensação, de Alessandra El Far. Nele, a autora não se detém sobre os integrantes do cânone literário, mas, sim, no que liam os populares – e nem tão populares assim, mas em segredo – entre fins do século XIX e começo do XX no Brasil. A lista de escritores e livros desconhecidos é grande e instigante. Muito mais porque, somos informados, contaram eles com um grande público então (lembrando-se, todavia, que, então, o analfabetismo grassava em grande número e por toda parte em nosso país).
Através dele podemos vislumbrar os gostos da população urbana brasileira de então, dos mais humildes aos mais proeminentes – ainda que secretamente lidos por estes. Uma pesquisa realizada em certos acervos pessoais de alguns notáveis talvez nos enchesse de espanto. Fica, aqui, portanto, uma proposta, neste sentido : vasculhar a baixa literatura nas bibliotecas dos homens de subida fama. É um bom projeto, e uma forma de melhor conhecê-los e ao seu tempo. Imaginem só : pornografia na bilioteca de Rui Barbosa ; romances policiais na de Joaquim Nabuco. Daria o que pensar. E muito...

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de agosto de 2009).