O eleitor de bom senso geralmente torce o nariz quando sente o cheiro de um candidato tresandando a curral eleitoral. É por este motivo, de um modo geral, que poucos coronéis são eleitos por um estado como São Paulo, por exemplo. O que não quer dizer que estejamos livres deles.
Alguns analistas políticos e historiadores, entretanto, vêm analisando a reformulação do coronelismo eleitoreiro nos últimos anos e têm chegado a interessantes constatações. A velha figura do senhor de terras, de terno branco e botas, já desapareceu da agenda política. Mas muitos de seus herdeiros – alguns de sangue, outros de ideário político – ainda estão aí, tratando a política na base de favores pessoais: o seu voto por uma “quebrada de galho” minha, parecem dizer. Neste rol entrariam os candidatos médicos – esta proliferação de Doutores Fulanos e Doutores Beltranos que vemos por aí, com direito ao Dr. antes do nome até no santinho e na, verbi gratia, cédula eleitoral: no nome de guerra, que aparece na urna eletrônica. Outros seriam os donos de rádios, que, por um dia terem cobrado das autoridades a pavimentação da rua dos Lírios na Vila Oncinha, ou mais iluminação na avenida dos Cravos, no Jardim Jabuti, até hoje contam com os votos daquelas comunidades. Mas é claro que há os grandalhões da turma, os proprietários de retransmissoras de televisão, que coíbem toda a crítica, sufocam a oposição, e repetem, em escala maior a defesa da Vila Oncinha e do Jabuti, a meia dúzia de municípios ou microrregiões. Um exemplo perfeito que abarca todos estes níveis de coronelismo moderno é o do defunto Antônio Carlos Magalhães (ex-Demo, porque morto: se vivo fosse, continuaria naquela agremiação). Outro que mistura o assistencialismo à política paroquial, e é herdeiro de sangue de uma das mais antigas oligarquias do país, é o deputado Bonifácio de Andrada, de Minas Gerais, do PSDB. Outro ainda, segundo o historiador cearense André Heráclio do Rego (Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº. 60, setembro de 2010), seria o seu conterrâneo, o senador Tasso Jereissati, também do PSDB. Coronelzinho agrário, do tipo dos velhos tempos, seriam poucos hoje em dia, e o mais evidente – que também é médico – é Ronaldo Caiado, outro Demo.
Porém as análises mais modernas consideram um coronel de uma forma mais ampla. De modo que os eternos detentores de cargos eletivos, gente que está no seu quarto ou quinto mandato, no mesmo posto, entraria para a lista dos mandões da política, dos mantenedores de currais. São eles os eternos defensores da microrregião tal, da cidade qual, desta ou daquela categoria de profissionais, empresários, funcionários públicos, militares, etc. Coroneizinhos de fancaria. Porque uma andorinha não faz verão. Que o digam todos os eleitores iludidos que votam nos “defensores” dos aposentados, do funcionalismo civil e militar, e por aí vai, mantendo eternamente certos nomes em trocas de migalhas, quando não em troca de coisa alguma, porque suas situações só deterioraram ao longo do tempo. Ex-delegados da Polícia Civil e ex-oficiais da Polícia Militar são verdadeiros modelos da inoperância frente às suas representações: que o digam os seus “representados”. É verdade que a turma do agro negócio (leia-se: “latifúndio monopolista”) consegue emplacar seus defensores, e estes são muito ativos em agradar seus amos. Mas fazem alguma coisa pelo grosso dos eleitores? Nada!
Aprendi com meu pai – homem honradíssimo, filho de um deputado federal mineiro e constituinte de 1934, e este também um homem de olímpica honradez – que acima dos interesses do curral e da paróquia está o bem publico universal. De modo que não se vota no Dr. Manuel dos Anzóis porque ele trará um quartel para Esperantópolis, em detrimento da Dra. Maria das Couves, que levaria o dito quartel para a vizinha Bonitolândia. Antes, é de se perguntar: necessitam, quaisquer uma delas, do tal quartel? E se, de fato, precisam, não está de bom tamanho que o mesmo venha para a microrregião onde elas se encontram?
Esta história de querer eleger um candidato desta ou daquela região, deste ou daquele segmento, é coisa ultrapassada e atenta contra a amplitude dos direitos de cada cidadão. E é de estarrecer verificar que o curralismo eleitoral parece que só aumenta. Vejam-se os candidatos de torcidas organizadas de times de futebol. O que era para ser uma pura diversão, ou entretenimento, se converteu numa espécie de ideologia, de razão ética, de modo de vida, para além da sociedade como um todo. Deplorável. Ou a proliferação de pastores candidatos, alguns ameaçando com o fogo do Inferno quem neles não votar, outros proclamando que o voto neles seria a própria manifestação do Espírito Santo! Ora, o Estado é laico e plural: não pode, nem deve, ser aparelhado por esta ou aquela religião ou doutrina. Pois tal não passaria de um golpe branco contra a impessoalidade do Estado e contra os direitos dos católicos, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, evangélicos tradicionais, umbandistas, maçons, rosacruzes, e o que mais se quiser – inclusive ateus – que têm todo o direito de se proclamarem enquanto tal e contam com a salvaguarda da lei para tanto: graças a Deus! Ou será que pretendem, no fundo, uma guerra religiosa: não mais as Cruzadas, mas a antecipação do Armagedom?
Aliás, é realmente preocupante quando vemos certas pessoas que pertencem a seitas apocalípticas ou flagrantemente fanáticas – “a Verdade está comigo e com meus irmãos, e que o resto arda no fogo do Inferno” – tentando formar blocos no Legislativo. A sociedade laica e ordeira não precisa de talebãs neopentecostais. A visão do Paraíso alheio não tem que ser, necessariamente, a minha. Nem, muito menos, o mundo tem de ser moldado – este mundo com o qual convivemos dia a dia – pelo filtro estreito de caçadores de danados. Devemos aceitar o direito dos outros dizerem o que bem entendem. Se é que entendem: mas desde que os mesmos não queiram cassar nossa palavra.
Trato deste assunto enquanto cidadão de uma República laica, e também membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), por meio da qual conheço e me relaciono com inúmeras pessoas das mais variadas vocações religiosas – neopentecostais, inclusive, ainda que poucos – que temem, de forma absoluta, a tomada do Estado pelo fanatismo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de setembro de 2010].
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
A Volta dos mortos-vivos, mais uma vez
Nos anos 1980, foi exibido um filme de terror com o mesmo título desta crônica. Ou, melhor seria dizer: esta crônica que o leitor tem em mãos leva o idêntico título de um filme dos anos 1980. Não o assisti, e me parece que foi uma bobagem. Sua trama tomava como referência uma produção dos anos 1960, A Noite dos mortos-vivos (Night of the living deads, EUA, 1968), de George A. Romero, independente e que foi bastante cultuada pela crítica. Era uma trama envolvendo zumbis, e que foi aclamada à época como uma velada crítica à falta de bom-senso e ao comodismo dos norte-americanos de então, que não pareciam mais pensar por suas próprias cabeças e que seriam contrários a quem assim procedesse. Para quem não lembra o que são zumbis, tratam-se estes de criaturas amaldiçoadas, num estado entre a vida e a morte, pertencentes ao folclore caribenho – especialmente haitiano. No cinema, tornaram-se criaturas em estado de decomposição que se alimentam de carne humana viva, infectando suas vítimas com o mal que sofrem: vagar, sem força de vontade, boçalizados, em busca de comida. A temática dos zumbis nunca fez muito sucesso entre o público brasileiro: veja-se, por exemplo, a pouca acolhida que um filme tratando do mesmo tema – Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) obteve junto ao nosso público. Uma infeliz adaptação do clássico romance inglês Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, Inglaterra, 1813), de Jane Austen (1775-1817), que mescla esta trama original àquelas criaturas imbecis – Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA, 2009) parece ter granjeado alguns leitores. Mas seus efeitos, à primeira vista, parecem irrelevantes.
Mas o título desta crônica refere-se menos a filmes e livros e mais a uma expressão cunhada lá por fins dos anos 1980, meados dos 1990 e de vez em quando resgatada desde então. E que se referia ao ressurgimento de alguns políticos, cujas carreiras pareciam já encerradas por esgotamento e cansaço, nas disputas eleitorais daquelas ocasiões. Quem ficou, por muito tempo, particularmente marcado enquanto um morto-vivo, foi um ora candidato a senador por São Paulo, da coligação governista paulista. Um outro postulante ao mesmo cargo, nas atuais eleições, que se encontra misteriosamente desaparecido nas suas próprias campanhas televisivas, também compartilhou da alcunha. Ressalve-se, entretanto, que são homens bastante idosos e, de alguma maneira, tiveram uma trajetória política de peso. E desse modo, portanto, a volta dos mortos-vivos a que nos referimos, que parece ser a nova e mais forte tônica das presentes eleições, sobretudo em São Paulo, relaciona-se diretamente aos esquecidos da mídia, a uma quase que confraria dos ex-alguma coisa, que procuram um espaço na política.
Nunca vi uma leva tão grande de ex-atletas, ex-apresentadores de televisão, ex-locutores de rádio, ex-cantores, ex-celebridades instantâneas se candidatando ao Senado, à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados quanto agora. Até um costureiro de vestidos de noivas, famoso por ter sido pego roubando um vaso de mármore de um túmulo, que já participou de um programa televiso, investe-se como tribuno do povo, defensor dos humildes, ou nova e desbocada voz no plenário do Congresso. Isto sem falar nos famosos de um passado não tanto remoto, mas igualmente esquecido, que procuram nos empurrar seus filhos, maridos, mulheres, etc., como salvadores da Pátria.
Então as nossas casas legislativas estão a virar asilos dos deserdados da mídia, dos rejeitados pelos holofotes, dos extenuados talentos de um parvo e isolado mérito – por vezes questionável – de um passado pouco notável? E os partidos políticos, um misto de museu de cera, cemitério de navios e agência de empregos para desajustados? A representação política está se tornando um abrigo da obsolescência?
O que é de pasmar é que tais zumbis estejam despertando justamente em São Paulo, um estado que, tradicionalmente, apresentava uma certa lucidez política. Serão indícios de um novo – e horrível tempo – ou a consolidação de um conduta, de uma visão de mundo, que nos últimos anos passou meio despercebida, e que irrompe, para nosso horror, justamente nesses dias de campanha eleitoral? Os pleitos se transformarem num misto de Big Brother e Show de Calouros, ou Recordar é Viver e Vale a pena ver de novo, fazem bem para a democracia? Tenho absoluta certeza que não.
[Crônica originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, em 4 de setembro de 2010].
Mas o título desta crônica refere-se menos a filmes e livros e mais a uma expressão cunhada lá por fins dos anos 1980, meados dos 1990 e de vez em quando resgatada desde então. E que se referia ao ressurgimento de alguns políticos, cujas carreiras pareciam já encerradas por esgotamento e cansaço, nas disputas eleitorais daquelas ocasiões. Quem ficou, por muito tempo, particularmente marcado enquanto um morto-vivo, foi um ora candidato a senador por São Paulo, da coligação governista paulista. Um outro postulante ao mesmo cargo, nas atuais eleições, que se encontra misteriosamente desaparecido nas suas próprias campanhas televisivas, também compartilhou da alcunha. Ressalve-se, entretanto, que são homens bastante idosos e, de alguma maneira, tiveram uma trajetória política de peso. E desse modo, portanto, a volta dos mortos-vivos a que nos referimos, que parece ser a nova e mais forte tônica das presentes eleições, sobretudo em São Paulo, relaciona-se diretamente aos esquecidos da mídia, a uma quase que confraria dos ex-alguma coisa, que procuram um espaço na política.
Nunca vi uma leva tão grande de ex-atletas, ex-apresentadores de televisão, ex-locutores de rádio, ex-cantores, ex-celebridades instantâneas se candidatando ao Senado, à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados quanto agora. Até um costureiro de vestidos de noivas, famoso por ter sido pego roubando um vaso de mármore de um túmulo, que já participou de um programa televiso, investe-se como tribuno do povo, defensor dos humildes, ou nova e desbocada voz no plenário do Congresso. Isto sem falar nos famosos de um passado não tanto remoto, mas igualmente esquecido, que procuram nos empurrar seus filhos, maridos, mulheres, etc., como salvadores da Pátria.
Então as nossas casas legislativas estão a virar asilos dos deserdados da mídia, dos rejeitados pelos holofotes, dos extenuados talentos de um parvo e isolado mérito – por vezes questionável – de um passado pouco notável? E os partidos políticos, um misto de museu de cera, cemitério de navios e agência de empregos para desajustados? A representação política está se tornando um abrigo da obsolescência?
O que é de pasmar é que tais zumbis estejam despertando justamente em São Paulo, um estado que, tradicionalmente, apresentava uma certa lucidez política. Serão indícios de um novo – e horrível tempo – ou a consolidação de um conduta, de uma visão de mundo, que nos últimos anos passou meio despercebida, e que irrompe, para nosso horror, justamente nesses dias de campanha eleitoral? Os pleitos se transformarem num misto de Big Brother e Show de Calouros, ou Recordar é Viver e Vale a pena ver de novo, fazem bem para a democracia? Tenho absoluta certeza que não.
[Crônica originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, em 4 de setembro de 2010].
domingo, 29 de agosto de 2010
Vinhos raros salvados de adegas velhas
Durante uma campanha eleitoral, com a magnitude desta que ocorre, é muito difícil tratar de outro tema que não este: quem pode ganhar, quem pode perder, e seus satélites erráticos gravitando ao redor dos astros, são temas que não nos saem da cabeça.
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:
“Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.
Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:
“Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.
E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:
“Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.
Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:
“Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.
E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].
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Zé Chirico, o argentinito e popular, e sua trupe
O defuncto governador de São Paulo, José Serra Chirico, deu agora, em sua campanha, de anunciar suas origens humildes, um aspecto nada desabonador na vida de qualquer um, pelo contrário, mas que o mesmo parece ter omitido o quanto pôde e quis, e que só agora vem à tona, e a público. Tudo isto porque está interessado em pegar uma carona – deve ser no bagageiro – de Lula: se este tem sua biografia de homem humilde como um fator relevante em seu prestígio, o Chirico resolveu dizer que também é de extração baixa, trabalhador, filho de um vendedor de frutas no Mercado da Cantareira: o Zé, em suma, em mais um lance demagógico.
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].
Violência policial francesa?
Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].
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Permissão para rir
Li recentemente, e com bastante assombro, que os programas humorísticos da televisão em breve irão censurar piadas e não mais fazer paródias de candidatos às próximas eleições. Tudo isto por causa da interpretação feita pelas emissoras da resolução 23.191./2009 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].
Citazione
Há décadas, para dizermos pouco, muitos alegam que nenhuma história, enquanto trama, narrativa, é essencialmente original.
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...
P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...
P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].
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