segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

Sensibilidade, carência, Porsches, maiôs e Ferraris

Na quinta-feira passada, desci para comprar cigarros e dei uma espiada nas revistas à venda na loja de conveniência. Com exceção de uma ou outra, eram, em sua maioria, daquele tipo de publicações que se prestam mais a serem vistas do que lidas, o que é um tanto paradoxal já que, para imagens, temos a televisão. Todos conhecem tal gênero de jornalismo, sempre disponível em abundância nas salas de espera de consultórios e que não aliviam nem um pouco a expectativa, não ajudam a passar o tempo, porque seus textos são ralos, rasos e banais, dedicados às platitudes de sempre, dessa ou daquela celebridade. Numa destas revistas, aliás, a que vi na quinta-feira, constava na capa uma jovem e bela atriz (o rosto é meio irregular, a boca muito grande, mas o conjunto e os olhos consertam o todo), que ora surpreende num folhetim global. E a chamada do semanário trazia as seguintes palavras, de autoria da moça: “Sou sensível e carente”. Notável...
Até onde me lembro, todos os seres vivos, das amebas ao Homem, dos corais aos periquitos, dos elefantes às araucárias, são sensíveis – isto é têm a capacidade de sentir, de reagir aos estímulos externos ou internos nos campos do tato, olfato, visão, audição, paladar, calor ou frio, luz ou ausência dela, em maior ou menor grau, e mesmo que alguns deles não disponham de uma destas sensibilidades, alguma das outras certamente não lhes é desconhecida. E, sobretudo no caso dos humanos, se compreendermos a sensibilidade como uma natural disposição a ser influenciado por impressões, sentimentos e emoções.
Mas deixemos a mocinha de lado: é jovem e é bonita, e a beleza e a juventude desculpam quase tudo. O problema está em publicar uma matéria na qual nada se diz e a ninguém importa.
Volto para casa, abro o computador, entro na rede e vejo as seguintes chamadas: “Fulana – aquela tão onipresente em cartazes e outros meios quanto um ditador comunista – posa de maiô para revista”; “Beltrano compra Porsche”; e sob o título Uma Ferrari como meta de vida, somos informados de que “Cicrano tem praticamente tudo da escuderia italiana, menos um carro de verdade”. E abrindo-se qualquer uma daquelas notícias, somos remetidos a informações preciosíssimas, indispensáveis, quanto à vida íntima de modelos, jogadores de futebol e das ditas mulheres-frutas. Mulheres-frutas! Constranjo-me, já de antemão, pelo nosso tempo e país, frente aos historiadores do futuro, quando se depararem com este fenômeno nacional e olharem para nós certamente nos julgando como um bando de cabeças ocas.
Quanto ao Beltrano que comprou um automóvel da marca Porsche, um cantor dublê de ator que viveu como sem teto (há não muito tempo era o mesmo que mendigo) por três anos, não há como deixar de notar um certo tom preconceituoso na matéria. Como se dissessem: “Olhem só o negão, que diz ser alternativo: na primeira chance, compra um carrão”, e por aí vai.
Já no que se refere ao Cicrano que tem tudo da Ferrari, menos um carro, lembra-me um tipo que adorava aviões, colecionava quepes de pilotos e restos de aeronaves e, evidentemente, não tinha um avião. Sua apreciação por este tipo de coisas, desligadas do objeto concreto, era chamada de parafilia, e seu comportamento, como beirando o esquizofrênico. Em suma, tudo que acima foi reproduzido é nada. O mais completo vazio. É uma vergonha que revistas de circulação nacional dediquem-se a este tipo de divulgação de inutilidadees. E que exista um público ávido por isto. Em que mundo estamos, afinal? Na Terra Prometida dos boçais? Se for o caos, acertamos em cheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2011].

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

Que bons tempos eram aqueles em que o trem era sinônimo de progresso!

Curiosa a história da estação de metrô em Higienópolis...
Morei, dos meus três aos vinte e dois anos, exatamente na mesma rua onde se planejava abrir a referida estação, hoje, ao que parece, baldada. Mais ainda, na mesmíssima quadra, da rua Sergipe, entre a Itacolomi e a avenida Angélica, o local escolhido para a obra embargada, e por onde passei quase todos os dias de minha vida durante dezenove anos. E, naquele tempo, se houvesse planos de uma estação de metrô justamente naquela esquina, a ideia seria entusiasticamente saudada pela maioria dos habitantes do bairro, e por quem nele trabalha. Bons tempos aqueles...
Higienópolis, durante décadas, foi um bairro bastante cosmopolita, um pedacinho de Europa, quase. Nele viveram, outrora, muitos barões do café, riquíssimos; seus filhos, cuja afetação e seu pressuposto aplomb aumentavam na razão inversa de seus capitais minguantes; e seus netos, muito educados, cultos e viajados, mas já quase sem recursos. Já por volta dos anos 1930-1940, aumenta a proporção de habitantes ligados às profissões liberais, ao serviço público, e também executivos das grandes empresas que então se constituíam. Porém o aspecto mais relevante daqueles anos foi a chegada de muitos judeus e outros perseguidos pelo nazismo que ali se estabeleceram. E não eram fazendeiros do sul da Rússia e Ucrânia, ou pequenos comerciantes dos inúmeros guetos europeus. Eram médicos, políticos – naquela época, tal palavra denotava ainda certo respeito –, advogados, artistas dos mais variados meios, professores universitários: em suma, todo um rol de gente muito intelectualizada e urbana, acostumada aos transportes públicos, a valorizar o espaço coletivo, ao viver em sociedade. Entre os anos 1950-1960, e mesmo 1970, um expressivo número de intelectuais de centro, centro-esquerda e esquerda, com bons empregos nas universidades públicas, somou-se aos locais. Ali vivia, então, por exemplo, um sujeito à época muito afável, que andava nas ruas como qualquer mortal e que, longe de pedir que esquecessem o que ele havia escrito, queria, pelo contrário, que se lembrassem de suas ideias. Seu nome então era Fernando Henrique (hoje, mais que um homem, é uma sigla: que tempos vivemos...). E este perfil social do bairro se estabeleceu por muitos anos, como pude ainda verificar naqueles dezenove de vivência por lá.
É claro que havia gente de direita em Higienópolis. Aliás, de ultra-direita. No bairro localizava-se a sede da hoje moribunda TFP (Sociedade Brasileira de defesa da Tradição, da Família e Propriedade), cujo líder e fundador, Plínio Correia de Oliveira, figura simpaticíssima no trato, aliás (mas esquisito na aparência), caminhava pelas ruas como qualquer cidadão, até que a idade o impediu e, só então, valeu-se de automóvel: um Opala que, àquela altura, já era velho. E utilizava todos os serviços do bairro como os demais moradores: cortávamos o cabelo, inclusive, no mesmo barbeiro, sempre em cadeiras contíguas. Havia também alguns banqueiros – que tinham amigos na esquerda da época, mas de que lado do espectro político estavam poucos sabiam, ou queriam saber, ainda, que certamente, soubéssemos, mas parecia-nos melhor não pensar nisto. Um deles, inclusive, foi Olavo Setúbal, que morava num sobrado extremamente discreto (para não dizer feio) em frente ao meu prédio. É verdade que ele não era ainda, então, o “teramilionário” dos seus últimos dias de vida. Na época, talvez só fosse “megamilionário”, ainda que não aparentasse nem um pouco (a gente bem-nascida daqueles tempos tinha horror à ostentação). E, nomeado prefeito, lembro-me dele apanhando o ônibus Circular Avenida, da CMTC, para verificar, in loco, “ao vivo”, as condições do trânsito, a qualidade e pontualidade do transporte público. Quando lembramos que o Chirico (que nunca foi morador do bairro em questão, frise-se), eleito prefeito só circulava pela cidade de helicóptero, notamos o quanto decaiu a qualidade dos homens públicos nacionais. Mas isto é outra história.
Pois bem, como mostrei, Higienópolis foi um lugar onde muita gente culta e bem-educada, urbanizada e cosmopolita viveu, respeitando os interesses e bens públicos dos quais todos eram contribuintes, usufruidores e defensores. Parece, no entanto, que isto acabou. Não creio que tal repúdio a uma estação de metrô no bairro (e lembremos que, em Londres e Paris, os imóveis mais valorizados são os que têm por perto uma estação de trem subterrâneo, e que as mesmas não estão ausentes dos pontos mais elegantes de Manhattam) deva-se somente à gente nova que para ali tem mudado nos últimos anos. Tremo ante a ideia de que amigos que há tempos não vejo e antigos vizinhos ou colegas de escola, pessoas muito decentes, agora pensem assim.
É triste pensar que um bairro que outrora se pautou pelos valores do que noutras épocas se chamou de uma sociedade humanística, agora se paute pelo que há alguns tempos é conhecido como sociedade automobilística, formada por essa gente que trafega em mini-blindados altamente consumidores de combustível fóssil, que trata o pedestre como um lixo, o ônibus como um estorvo, e o metrô, como uma mera abstração, preconceituosa, visto que não o conhece. É triste, muito triste, ver o cidadão de bem ser substituído pelo parvenu prepotente. Mas explica muita coisa a respeito da cidade. E do Estado onde ela se encontra.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de maio de 2011].

Loas ao STF!

Por obra, graça e misericórdia do Supremo Tribunal Federal (STF), milhões de brasileiros terão acesso a direitos fundamentais que sempre lhes foram negados. Sim, trato de milhões de cidadãos, mais de dez por cento da população brasileira, que se declaram homossexuais – sem contar todos aqueles que assim não se afirmaram no último Censo – e que finalmente poderão ter, agora, alguns poucos e merecidos direitos que lhes foram negados, paradoxalmente, por um Estado laico, infestado, no entanto, dos mais rancorosos travos dogmáticos, reacionários e impiedosos.
A primeira garantia, que agora lhes (lhas) será permitida, é o direito à herança, ou sucessão, além de outros correlatos, por meio do qual um companheiro(a) pode receber de seu(sua) finado(a) companheiro (a), além dos bens amealhados em conjunto, pensões e aposentadorias, e também sua vinculação aos convênios de saúde – para o horror dos tradicionais “herdeiros legais”, que renegavam, amaldiçoavam seus parentes, por suas condições intrínsecas, mas que nunca deixaram de calcular o quanto, ou o quê, herdariam daquele tio ou tia sem filhos, daquele irmão marginalizado, daquele filho expulso do convívio da família, em detrimento daquele(a) que esteve sempre ao lado do excluído, que, fielmente, foi presente na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza do marginalizado – como se presume que deva ser o comportamento de um verdadeiro casal. Daí ser o máximo do mau-caratismo e da hipocrisia aqueles parentes que se lançam, quais feras sedentas de sangue, sobre o espólio do renegado, gritando palavras de ordem e implorando pela defesa das famílias...
A segunda, e que particularmente me comoveu, porque ignorava tal privação arbitrariamente imposta, foi a conquista do direito às visitas hospitalares, no caso do adoecimento de um dos membros de tal relação. Acredito que poucas coisas podem ser mais cruéis do que impedir o contato, o acesso, a simples visita, de uma pessoa que ama outra, aos momentos de infortúnio, ou aos derradeiros instantes, daquela pessoa amada. Se são justos tais desvelos entre homens e mulheres heterossexuais, também o é, obviamente, para todos os seres humanos. E fico imaginando, com dor no coração, quantas pessoas – multidões, acredito – foram privadas deste último, precioso e imprescindível direito fundamental de se despedirem, pessoalmente, daqueles a quem eram ligados por um amor não compreendido pela lei ou pelas normas chãs das administrações hospitalares!
Cumprimento o STF por sua obra, porque este tribunal teve a coragem de enfrentar tão polêmica questão – anseio de milhões de brasileiros – frente à absoluta inércia do Legislativo (cada vez mais aparelhado por fanáticos e ignorantes que fazem tabula rasa da laicidade do Estado Brasileiro, quando não por lobbistas de seitas exóticas, verdadeiros animadores de torcidas do preconceito vão).
Saúdo-o por sua graça, na medida em que aquele Supremo Tribunal, sem ter sido provocado por questões imediatistas, ou grupos de pressão, decidiu-se pela defesa de milhões de cidadãos, contribuintes, brasileiros, confirmando, de motu proprio, a laicidade do Estado Nacional, e, ao mesmo tempo instituindo incontornáveis direitos a serem, finalmente, acolhidos.
E louvo-o por sua misericórdia, visto que uma legião de pessoas até então desguarnecida, graças à omissão dos nossos eternamente letárgicos poderes constituídos, será tratada com o respeito que merece a partir da decisão daquele Tribunal: não serão mais párias, um rabisco numa sociedade que não enxerga seus reais contornos: senhores e senhoras de plena atuação na vida pública, em suas mais variadas esferas, finalmente assumirão, sem falso pudor, e com o legítimo direito que a eles assiste, seu integral papel na sociedade.
Concluo afirmando algo que já disse anteriormente: o quê duas pessoas adultas fazem, entre quatro paredes, desde que de mútuo consentimento, diz respeito somente a elas próprias – pois há muitos ditos heterossexuais que praticam coisas, sem concordância da outra parte, capazes de escandalizar até o mais debochado dos demônios, segundo a vasta literatura a respeito.
E viva o Estado Brasileiro laico! Que é um fato e uma conquista. Que não está sujeito a um Deus, supostamente absoluto, que, segundo muitos, espreita as pessoas através de buracos de fechaduras, frestas nas paredes, vãos junto aos forros, interessado em saber o que as pessoas fazem e como o fazem. Isto não é onisciência, é voyeurismo... E compatível com um Deus?! Duvido.
Voltaremos a este assunto, se houver interesse por parte dos leitores. Para até questionar um termo, que julgo impróprio: o tal homossexualismo; para debater o quão tênue elas são, historicamente, as ideias de família, e mais ainda, de família tradicional; e até para demonstrar como o referido comportamento que escandaliza tanta gente, é muito mais antigo, e comum, do que se pensa: palavra de um historiador, que não ganha coisa alguma por tal defesa (absolutamente nada no campo pessoal), que não a discreta esperança de ter contribuído para a queda dos preconceitos, da ideias tacanhas e da ignorância manifesta, geralmente postas em palavras mal escritas ou ainda pior ditas, graças ao ódio, à burrice, à insensatez que as instilam.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de maio de 2011].

Juntos pelo Coronel Augusto César

Sei que o assunto da vez é a misteriosa morte de Osama Bin-Laden, que deve ter sido trucidado por balas, a ponto de ser necessário um exame de DNA (provavelmente de seus restos, tornados irreconhecíveis), e dos norte-americanos vedarem a publicação de fotos do falecido, ou do que restou dele. Mas como a nuvem de poeira sobre o assunto está muito densa, é melhor esperar que ela abaixe, para uma melhor reflexão. Deixemos, por enquanto, os estadunidenses com seus mortos, vinganças, libelos de sangue e coisas do gênero. Estão á milhares de quilômetros uns e outros assuntos, dos quais não possuímos qualquer controle ou influência. Voltemos os olhos a temas mais próximos, por ora.
Assim, afirmo que foi com absoluta surpresa e consternação que li, n’A Notícia da semana passada, a manchete e a matéria que tratavam das precaríssimas condições em que se encontram a Escola Coronel Augusto César – um fato ainda mais estarrecedor quando pensamos que seu estado calamitoso coincide, justamente, com seu centésimo décimo aniversário. Que terrível circunstância assinala esta data! Digna de entrar para a história do descaso público (“público” no sentido de “político-administrativo”, pois no sentido de “cidadão”, será certamente um marco a ser reverenciado a participação de professores, alunos e ex-alunos no abraço simbólico ao prédio, declarando seu amor por aquela instituição e seu repúdio a quem deixou que suas instalações imergissem em semelhante caos: parabéns, povo decente de Leme!).
São realmente incompreensíveis certas formas de gestão do patrimônio coletivo. Em muitos lugares parecem ainda campear a velha mentalidade do “deixa cair, que reforma não rende voto; depois a gente constrói outra coisa no lugar, que chama mais atenção e tem repasse de verbas”. E assim vão sendo dilapidados, sem dó, os prédios, as receitas, a memória, o passado, convertendo estações ferroviárias em teatros, deixando que teatros se tornem casas de jogos, casas de jogos em museus, e museus em mercados, que vendem “conceitos” e “idéias” de seus “patrocinadores”...
Casos como o do Coronel, por exemplo, são altamente preocupantes, se considerarmos os mesmos frente a uma administração mais avara, ou matreira (em público, este tipo de gente se considera “moderna”, “antenada”, além de outras falácias do gênero). Estivéssemos nestas circunstâncias – e creio que não estamos – o descaso com o prédio da velha escola seria facilmente justificável pela seguinte equação: “de um lado temos um prédio caindo aos pedaços e com poucos alunos, porque a demanda local diminuiu, e situado na região mais central da cidade; do outro a possibilidade de desocupar o terreno, cedendo a um particular, com a promessa de geração de empregos, ou construirmos algo que glorifique o nosso governo. Então, o que faremos: deixar que ele se arrebente de podre, ocuparmos o terreno com algo previsto nas variantes anteriores, e construirmos uma outra escola – que também assinalará o dinamismo de nosso governo – numa região de maior demanda! Ou manter a velharia em pleno centro?”. E, como acreditamos que um dia possa vir a ocorrer, clamou-se: “Deixa cair! Deixa cair! Bravos, parabéns! O Sr., meu secretário de obras, há de pavimentar meu caminho rumo à Assembleia Legilativa”... parece que possamos até ouvir tal diálogo...
Tive a honra de estudar no Coronel em duas ocasiões, no tempo em que era ainda a E.E.P.G “Coronel Augusto César”. Ali conheci excelentes professores, ótimos colegas e brilhantes diretores – em especial um, professor de Matemática (a disciplina mais horripilante da minha infância e que, graças às suas aulas, se tornou mais clara) o qual possuía o invulgar dom de apaziguar nossas badernas não com o terror e a rigidez, mas com um conversa serena, paciente, lógica e compreensiva. De todas as escolas ou colégios onde estudei foi o Coronel o único que não me deu vontade de fugir, pulando o muro: o que, aliás, era bem fácil, bastava que nos içássemos, combinando os pés, num quartinho de ferramentas, e as costas, no muro do vizinho Liceu, que dali cairíamos em território livre, pois naqueles dias, ninguém do Gloriam Dei podia nos recambiar de volta para a escola: vivíamos uma espécie de cordial rivalidade, inflamada, mas respeitosa. Algo impossível até de se imaginar atualmente.
E tínhamos, também, nossos problemas, então. Vazamentos vários nos banheiros da ala nova, poeira de cupim e caca de morcego que caía em nossas cabeças, uma biblioteca minúscula e mal aparelhada e uma sala-laboratório bem aparelhada, mas que raramente víamos em operação. E uma APM (Associação de Pais e Mestres – existem, ainda?) que tinha ótimas intenções, reunia-se bastante, e que nunca, aparentemente, conseguia resolver a falta de papel para a rodagem das cópias mimeografadas nem diminuir o custo dos jalecos dos alunos de baixa renda. Como já possuía uma certa atenção estética, incomodava-me ver, a todo momento, a substituição das antigas janelas – que não presenciei – pelos maçantes vitrôs que até hoje lá estão. Mas esta é uma questão menor. Porque tínhamos, para coroar os desmazelos de então (pálida sombra dos atuais), um velho piano de meia-cauda, decompondo-se aos nossos olhos num tablado do pátio, onde às vezes encenavam-se algumas pequenas adaptações teatrais (meu début, ali, tenebroso, foi numa adaptação e tradução de minha autoria do Henrique V, de Shakespeare, baseado num livrinho da Longman para crianças, de vinte e poucas páginas, para a qual, na falta do vestuário característico para representar o monarca inglês, vali-me de um robe chinês que pertencera ao meu pai, e que era a coisa mais parecida às roupas de princípios dos século XIV–XV que consegui encontrar. Não me arrependo nem me envergonho do que fiz, lá pelos meus treze, quatorze anos. Mas garanto que não o repetiria). E voltando ao piano, ruína de uma outra época, era ele, então, altamente respeitado por nós, pois se tratava do grande mistério da escola, afinal, diziam ser ele assombrado. Corria a lenda que, em certas noites, apesar de seu estado ruinoso, ouviam alguém tocar melodias inteiras em seus carcomidos teclados; e até alegavam ter visto duas mãos fantasmagóricas, separadas do corpo, dedilhando as teclas: uns diziam ser o velho Coronel Augusto César; outros, uma sua filha, que teria sido professora ali. O fato é que a lenda é, muitas vezes, melhor do que o fato.
Possui também o Coronel um aspecto histórico muito curioso em defesa dos valores paulistas. Meu avô, Zezito Queiroz (estudante da mesma escola) contava que, quando da invasão de Leme pelas tropas federais, na Revolução de 1932, os professores dali defenderam com unhas e dentes os livros didáticos que elogiavam a tradição piratininga, a ponto de, somente por meio da violência dos invasores, separarem-se dos mesmos, cujo destino era a fogueira.
Quero concluir dizendo que passei algumas das épocas mais felizes de minha vida no Coronel. Mas isto é o de menos, porque só diz respeito a mim. De maior relevo é meu desejo por defendê-lo, em que instâncias sejam necessárias. Pois a importância desta escola no cenário intelectual, memorialístico e afetivo de Leme é insubstituível, e, portanto, sua estrutura física, e moral, não pode desaparecer do cenário da cidade, o que seria muito mais do que lastimável, seria verdadeiramente um crime, para não dizer um motivo de se rogar uma tremenda, profunda, e sinistra praga contra às autoridades que se omitirem a esta questão. E, de preferência, numa única voz.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de maio de 2011].