Dando prosseguimento ao inventário de capetinhas de babador e calças curtas que enxameiam pelo mundo, afirmo que observo, quase diariamente, uns casos interessantíssimos de mal comportamento infantil que beiram às raias da mais completa incivilidade, para não dizer quase bestialidade.
Vejam-se os casos de uns vizinhos meus, abaixo dos onze anos. Há alguns excelentes, simpáticos, e bem educados. Uns que, na espera do elevador, abrem a porta para mim, tratando-me por Senhor – fazer o quê? É a vida! Um dia esta hora chega... – ou perguntam qual o andar em que moro e, céleres, apertam o botão referente ao mesmo. Outros ainda que até ajudam quando trago muitas compras. Temos uma menininha no prédio, com não mais de quatro anos, que é a alegria dos moradores e dos porteiros, chegando a trazer, para estes, balas e confeitos que sobraram de sua merenda. Mas, por outro lado, temos dois irmãos, na casa dos sete e onze anos, que são simplesmente assustadores.
Confesso que, a princípio, o que mais me incomodava neles era o fato de que, embora passassem os anos, eles simplesmente pareciam não crescer. Quem assistiu ao filme Uma mente brilhante, talvez entenda do que estou falando. Ali, um matemático genial, conquanto esquizofrênico, é acometido de alucinações, dentre as quais uma menina, sobrinha de um amigo imaginário. E a chave para a sua compreensão de que vivia num mundo paralelo se dá justamente quando ele percebe que, passados os anos, a menina não crescia. Bingo! Era uma alucinação! No meu caso, a coisa parecia muito semelhante em relação àqueles petizes do prédio. Mas minha mulher também os via, o mal comportamento deles era notório na vizinhança, gerando toda sorte de comentários até entre os de suas idades e, portanto, respirei aliviado: apesar das atitudes dos meninos parecerem um pesadelo, eles, de fato existiam. Ou melhor, existem.
Pode parecer que exagero, mas observem seus hábitos. Quando entram no elevador, ignoram os demais passageiros. Voltam as costas para todos, encaram a parede, e passam a chutá-la, enquanto assobiam durante o tempo que durar a viagem. Aliás, é uma coisa engraçada, esta, a da ausência de civilidade relacionada ao uso constante dos pés para além da função natural de andar. Gente grosseira está sempre batendo os pés, chacoalhando-os quando as pernas estão cruzadas, ou chutando coisas. Na única vez em que encontrei os pequenos malignos fora do prédio, tomando um sorvete, seus pés agitavam-se como que quase num surto. E como chutam coisas: o peitoril da varanda de seu apartamento foi convertido numa rede de gol, e o ribombo das boladas de faz ouvir vários andares abaixo daquele onde moram.
Outra coisa interessante no comportamento deles é uma quase inversão dos hábitos mais comuns entre as crianças. Primeiro, acordam anormalmente cedo, enquanto dormem assustadoramente tarde. Em segundo lugar, é sabido que os infantes, em geral, gostam de repetir músicas, frases, brincadeiras até quase a exaustão. No caso deles, entretanto, observa-se o contrário. As boladas contra a grade, ainda que diárias, não ultrapassam cinco minutos. Andar de skate pela sala, o mesmo tempo. E até quando ganharam um videogame, destes que, ao invés de um console, têm uma guitarra, brindaram-nos a todos, por um dia inteiro, cantando e tocando a mesma música. Porém o mesmo brinquedo nunca mais foi utilizado.
Uma vizinha, professora do ensino fundamental, comentou, certa vez, que sentia-se impressionada com a latente falta de qualquer manifestação emotiva por parte de nossos vizinhos. Segundo ela, que, por curiosidade e hábito de ofício, acompanha a eles com atenção, nunca foi, diz, capaz de flagrar qualquer extravasamento normal ou de raiva, ou de alegria, ou de tristeza. Parecia ver sempre um eterno nada, um vazio absoluto impresso em suas caras. Mais tarde, porém, ela mudou de ideia. Uma vez assistiu a uma pequena cena entre o menor deles e a avó. Esta, fez uma brincadeira que não agradou o neto, e ele – palavras de minha vizinha – “fuzilou-a com os olhos, com um ódio cruel para além de tudo o que já vi”.
Estes problemáticos objetos de reflexão não, são, é claro, uma regra. Todavia abundam em toda parte, sobretudo em São Paulo, capital e interior. Não os vejo no Paraná, Rio, Minas ou Bahia. Temo, portanto, pelo futuro de nosso estado, sob cujo sol nasceram e foram mal educados tais monstrengos. Sim, porque são pequenos monstros no comportamento, e também na sua função, segundo o grande (Santo) Isidoro de Sevilha (560-630 d.C., evidentemente) que em suas Etimologias (Etymologiarum Libri XX), mais especificamente no livro XI), estabelece que o monstro é revelador, (sua raiz é a mesma do verbo “demonstrar” e de “montra”, ou “vitrine”) sendo, portanto, uma manifestação de algo. No caso presente, poderíamos deduzir, uma manifestação do descuido dos pais na educação dos filhos, ou ainda o surgimento de uma nova e pior índole, materialista e imediatista dos rebentos, possível espelho ampliado dos progenitores. Será que é isto que nós queremos no futuro? Será que conseguiremos conviver, mais velhos, com tais criaturas? Tenho minhas dúvidas. Que, aqueles que são pais, pensem nisto. Qual será nosso futuro? Conviveremos com tais criaturas mal formadas e estragadas ou procuraremos uma derradeira alternativa? Há momentos em que o elogio do suicídio feito pelo grande poeta John Donne (1572-1631), em seu Biathanatos (escrito em 1609), fundamentado teologicamente nas mortes voluntárias de Sansão e do Rei Saul, parece se tornar uma alternativa viável, aconchegante, à longo prazo...
P.S. Às Rosemarys que têm bebês e que aqui, porventura, julgaram-se insultadas: a referência, inicial, é feita ao filme O Bebê de Rosemary (EUA, 1968). Nada tenho conta às senhoras e sua prole, desde que estes não sejam, justamente, monstrengos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de outubro de 2011.].
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Os Bebês de Rosemary – Parte I
Vez por outra, assistindo à televisão, via um pouco do programa Supernanny (“super babá”), primeiro em sua versão inglesa, depois norte-americana. Soube agora que há uma adaptação brasileira que, até onde vi, copia mais uma certa excentricidade no trajar da apresentadora da versão original do que os problemas que aquela enfrentava. E que problemas! O renque de pestinhas com carinhas de anjos, verdadeiros ditadores de fraldas, parecia sempre crescente. E cada vez pior. Algumas delas pareciam mais um caso de serem submetidas ao Encantador de Cães, outra série de sucesso, do que àquela inglesa baixota, bonachona. A versão brasileira, evidentemente, é mais branda. Não mostra nenhum petiz intratável como os que são apresentados no original. Não que não os tenhamos, pelo contrário. Mas no Brasil pode-se tudo, menos interferir na educação dos filhos alheios. Nem sequer por meio de suaves conselhos. Pode-se tentar seduzir o pai ou a mãe, dependendo do interesse, pode-se até incentivar as más práticas dos filhos: porém tentar corrigi-los, nunca. Frente a isto, pais notoriamente omissos arvoram-se quais bonus pater familiae. Mães relaxadas e fracas saltam na defesa de suas crias quais leoas ou matronas judaicas. E que demoninhos vemos por aí! Creio que, em muitos casos, uma perfeita adaptação de séries de tv, para o Brasil, tratando do tema, deveria ser um cruzamento de Supernanny com Supernatural. Sim, porque basta andar por um shopping center, dividir um elevador, ou mesmo olhar para os lados, e parecemos ver a todo momento uma reencarnação do Damien Thorn, d’A Profecia, da Regan MacNeil, a personagem de Linda Blair n’O Exorcista, ou d'O Bebê de Rosemary. São verdadeiros casos para uma Supernatural nanny.
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Mulher brasileira em primeiro lugar!
A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...
[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...
[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].
Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final
Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Caçando lobisomens – Parte I
Agosto tem o dia do Folclore, data que prezo, e que me escapou neste ano. Mas como nunca é tarde demais para certas coisas, seguem aqui uns causos, não de ouvir falar, mas de ler em boa letra impressa. Causos de lobisomem, esta figura do folclore, como aprendemos, ainda que exista quem jure de pés juntos que já viu um. Lembro-me de um velho conhecido meu, hoje Doutor pela USP, que me garantia por a + b que seu pai não só caçara lobisomens, lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, como teria várias fotografias dos mesmos. Não duvido, apesar da ausência de provas documentais. Pois o irmão daquele meu antigo confrade, doutorando pela Unicamp, não é de hoje que tem publicado artigos sobre os monstros na Literatura em influentes revistas universitárias: em suma, aquela família tem lá os seus segredos. Mas antes de tratarmos dos referidos causos, que os leitores me permitam um intróito.
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Dez anos do “11 de setembro”: e nós com isto?
Por conta da celebração de uma década dos atentados que abalaram os EUA, estamos vendo, a todo momento, na televisão, nas revistas, nos jornais, e na internet, pequenos flashes sob o título “onde você estava no 11 de setembro?” ou que tais.
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].
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São João del Rei à vol d’oiseau
São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].
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