O Festival de Inverno de Ouro Preto foi, por décadas, um dos eventos culturais de maior importância no país. Para ele vinham artistas e público das mais diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas apresentações, peças e oficinas tornaram-se lendárias, e o número de inscritos para muitas atividades superava em muito o de vagas. Este quadro durou, seguramente, até alguns poucos anos atrás, quando a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que cuidava do festival, desentendeu-se sabe lá com quem e montou um outro evento em Diamantina. De lá para cá, a decadência mostrou-se visível, ainda que não acentuada. E, neste ano, a situação revelou-se traumática. Poucos espetáculos, muitos artistas desconhecidos, oficinas entre passáveis e sofríveis e um sensível esvaziamento de espectadores e participantes.
O motivo, alegado, para a edição deste ano ter sido muito abaixo de passável, foi, segundo os organizadores, a crise mundial. Poucas empresas teriam encampado o patrocínio e dado menos dinheiro que o esperado. Vá lá que isto seja verdade. Todavia nada justifica o fato de que a programação completa somente foi divulgada no exato primeiro dia do festival. Assim, nem quem quisesse vir poderia estar por aqui. Faltou-se apenas culpar a gripe H1N1, a outra vilã da vez, pelo pouco comparecimento de público e artistas...
Está bem, não sejamos tão duros. Se faltou dinheiro, poderiam caprichar nos cuidados gerais, certo? Na valorização dos artistas regionais, etc. Pois é, isto também não ocorreu.
O som era péssimo, a ponto dos próprios técnicos queixarem, bem como da acústica do local e do palco. Em suma, ou tinha-se barulho, ou uma chiadeira miserável. Num espetáculo de dança, por sinal, o som foi interrompido durante toda uma cena!
Os sanitários químicos eram insuficientes, mesmo com a reduzida audiência – e neste ponto, até que foi bom: não quero nem imaginar o resultado de uma multidão tendo a seu dispor apenas doze cabines.
Quanto aos artistas locais e regionais, que são muitos, não tiveram o destaque que mereciam. Nem mesmo quando eram as estrelas da noite. Ou apresentavam-se longe do palco principal, em horários inexequíveis, ou tinham ordem de deixar o palco logo depois do espetáculo, sem bisar uma vez sequer. E, à meia-noite, pouco mais ou pouco menos, encerrava-se completamente o espetáculo, quando, pela tradição, o evento estendia-se madrugada a fora.
Os únicos pontos positivos a serem destacados foram três. Em primeiro lugar, a mudança do palco principal, da combalida Praça Tiradentes para a nova Praça da UFOP, junto ao centro de convenções, no Pilar. Uma boa medida para preservar os monumentos do centro da invasão de uma massa saltitante, gritante e dançante. O segundo ponto foi a ótima apresentação daquele estupendo grupo teatral que é o Galpão, adaptando de maneira circense a história de Till Eulenspiegel, uma mistura de Pedro Malasartes e Macunaíma alemão. Ótimos, como sempre, e brindando a cidade com uma encenação que recém estreou em Belo Horizonte. E, por fim, a apresentação daquele jovem mestre do violão que é Yamandú Costa. Perfeito, simpático, brilhante.
No mais, foi tudo muito fraco e triste. O ácido bom humor ouropretano sequer poupou, em represália, o nome do festival. Era comum ouvir as pessoas perguntarem umas às outras o que estavam achando do “Funeral de Inverno”.
Esperemos que fique só na blague, pois o Festival, quando bem feito, é ótimo. Mas o clima geral era de melancolia. Fim de festa. Quase velório. O que é uma pena...
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de julho de 2009]
domingo, 26 de julho de 2009
Gringos
Há alguns dias, um antigo professor meu, que se tornou um grande amigo, convidou-me a acompanhá-lo numa visita a algumas igrejas de Ouro Preto. Ele estava recebendo um grupo de universitários norte-americanos em visita ao Brasil, estudantes de português que quiseram testar seus conhecimentos da nossa língua in loco. E, ao mesmo tempo, conhecer um pouco do país. O grupo era capitaneado pelo professor deles, que organizara a viagem segundo um método bastante incomum para nós. Geralmente, nestes casos, os alunos são hospedados num único lugar, pousada, hotel ou albergue, e sua interação com os habitantes locais acaba bastante reduzida. Talvez prevendo tal possibilidade, o que ele propôs era algo diferente: dividiu-os em duplas e cada uma delas deveria se hospedar numa república estudantil diferente. E, mais do que isto, deveria atuar de alguma maneira na cidade. Como, nestes dias, está ocorrendo o Festival de Inverno, não foi difícil arrumarem algo para fazer, e se inscreveram como monitores nalgumas das atividades propostas pela organização do festival. Resumindo: a redoma que geralmente é posta sobre os estudantes em viagem, isolando-os do resto do mundo, foi estilhaçada. Vê-se, portanto, o quão arrojada foi a aposta.
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]
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A Biblioteca de Alphonsus
Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.
[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.
[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]
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O Fantasma pálido
É quase impossível acrescentar alguma coisa a mais ao muito que foi dito sobre a vida e a morte de Michael Jackson. Nos últimos dias, em qualquer meio de comunicação, discutiu-se sua música, seus escândalos, sua difícil infância, as alterações em sua aparência, sua situação financeira, etc. Tudo, absolutamente tudo, foi vasculhado, exposto, comentado. Se o seu corpo passou por duas necropsias distintas, sua história pessoal foi retalhada em mil peças, exibidas com a rudeza das carnes nos ganchos dos açougues.
Mesmo assim, não posso me furtar a tecer alguns breves comentários quanto à vida do astro. Em primeiro lugar, que cabecinha fraca ele tinha, para não dizer pior. Aquilo de morar num parque de diversões, francamente. Até a arquitetura lembrava a da Rua Principal dos parques da Disney, réplica de tempos dourados, como os enxergam os norte-americanos mais conservadores. Não é contraditório para um símbolo da rebeldia, como foi dito, querer viver em supostos dias melhores, nos quais, todavia, se vivesse neles, tudo o que ele foi, fez ou teve lhe seria negado? Quem quiser saber como era a vida de um negro nos EUA do início do século XX – a época dos sonhos dos reacionários – leia o romance Ragtime, de E.L. Doctorow. Em segundo lugar, fico pensando como alguém pode ser chamado de inteligente, gênio, o que quiserem, sendo que deu aos filhos os nomes de Prince Michael e Prince Michael II.
O que eu gostaria de comentar com mais cuidado acerca deste assunto é que, em minha opinião, Michael Jackson envelheceu mal. Não digo só física e mentalmente – há quem afirme, por outro lado, que neste último campo ele sequer cresceu: pensava e comportava-se como uma criança. Quando digo que ele envelheceu mal é porque sua figura acabou por demais caricata. Reconheço que muitas de suas coreografias e músicas foram inovadoras em seu tempo. Mas revendo e tornando a ouvir algumas delas, pareceram-me por demais datadas: tiveram seu sentido em sua época, mas hoje, na minha opinião, têm um ar muito afetado, amaneirado, pouco natural, quase mecânico. Vendo algumas cenas de espetáculos, clipes, etc., tive a impressão de assistir a uma grande marionete acionada por cordas invisíveis. Que se move e se agita com presteza e eficiência tão demasiadas que seus movimentos sequer parecem humanos. Noutros momentos, lembravam algo completamente falso e exagerado. Não como as imagens agitadas de uma comédia do cinema mudo dos anos 1910 ou 1920, mas uma paródia moderna daquelas imagens, muito mais frenética que a versão original e, portanto, falsa. Da mesma maneira, seus trejeitos, poses e gesticulação, de evidente conotação sexual, vão perdendo o seu sentido na medida em que ele envelhecia e sua figura, cada vez mais anódina, sugeria justamente a supressão de toda sexualidade. Algumas vezes, tive a impressão de assistir a uma dança lasciva, sim, mas praticada por um eunuco: ou seja, um imenso paradoxo entre a intenção e a natureza.
Em suma, acho que ele retirou-se de cena no momento certo. E que isto sirva de consolo aos fãs. Caso realizasse a longa temporada de espetáculos prevista, e fracassasse, sua imagem ficaria arranhada para sempre. Caso triunfasse, talvez não fosse tanto pelos seus méritos, mas sim pela boa vontade de seus admiradores, saudosismo, curiosidade de assistir a uma relíquia dos anos 1980 ainda em atividade. Mas, em todo caso, a ilusão de um eventual sucesso é sempre melhor do que a dureza da realidade e os riscos que ela nos apresenta.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de julho de 2009]
Mesmo assim, não posso me furtar a tecer alguns breves comentários quanto à vida do astro. Em primeiro lugar, que cabecinha fraca ele tinha, para não dizer pior. Aquilo de morar num parque de diversões, francamente. Até a arquitetura lembrava a da Rua Principal dos parques da Disney, réplica de tempos dourados, como os enxergam os norte-americanos mais conservadores. Não é contraditório para um símbolo da rebeldia, como foi dito, querer viver em supostos dias melhores, nos quais, todavia, se vivesse neles, tudo o que ele foi, fez ou teve lhe seria negado? Quem quiser saber como era a vida de um negro nos EUA do início do século XX – a época dos sonhos dos reacionários – leia o romance Ragtime, de E.L. Doctorow. Em segundo lugar, fico pensando como alguém pode ser chamado de inteligente, gênio, o que quiserem, sendo que deu aos filhos os nomes de Prince Michael e Prince Michael II.
O que eu gostaria de comentar com mais cuidado acerca deste assunto é que, em minha opinião, Michael Jackson envelheceu mal. Não digo só física e mentalmente – há quem afirme, por outro lado, que neste último campo ele sequer cresceu: pensava e comportava-se como uma criança. Quando digo que ele envelheceu mal é porque sua figura acabou por demais caricata. Reconheço que muitas de suas coreografias e músicas foram inovadoras em seu tempo. Mas revendo e tornando a ouvir algumas delas, pareceram-me por demais datadas: tiveram seu sentido em sua época, mas hoje, na minha opinião, têm um ar muito afetado, amaneirado, pouco natural, quase mecânico. Vendo algumas cenas de espetáculos, clipes, etc., tive a impressão de assistir a uma grande marionete acionada por cordas invisíveis. Que se move e se agita com presteza e eficiência tão demasiadas que seus movimentos sequer parecem humanos. Noutros momentos, lembravam algo completamente falso e exagerado. Não como as imagens agitadas de uma comédia do cinema mudo dos anos 1910 ou 1920, mas uma paródia moderna daquelas imagens, muito mais frenética que a versão original e, portanto, falsa. Da mesma maneira, seus trejeitos, poses e gesticulação, de evidente conotação sexual, vão perdendo o seu sentido na medida em que ele envelhecia e sua figura, cada vez mais anódina, sugeria justamente a supressão de toda sexualidade. Algumas vezes, tive a impressão de assistir a uma dança lasciva, sim, mas praticada por um eunuco: ou seja, um imenso paradoxo entre a intenção e a natureza.
Em suma, acho que ele retirou-se de cena no momento certo. E que isto sirva de consolo aos fãs. Caso realizasse a longa temporada de espetáculos prevista, e fracassasse, sua imagem ficaria arranhada para sempre. Caso triunfasse, talvez não fosse tanto pelos seus méritos, mas sim pela boa vontade de seus admiradores, saudosismo, curiosidade de assistir a uma relíquia dos anos 1980 ainda em atividade. Mas, em todo caso, a ilusão de um eventual sucesso é sempre melhor do que a dureza da realidade e os riscos que ela nos apresenta.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de julho de 2009]
Sebos e histórias – Parte III: o reencontro com um amigo
Esta história aconteceu há quinze dias, pouco mais ou pouco menos.
Minha mulher procurava, havia muitos anos, um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Ela tivera um exemplar, que emprestara certa vez a um amigo, o qual jamais lhe devolveu o livro. Quem gosta de ler já passou por isso. Temos um livro de que gostamos, o emprestamos a alguém em quem confiamos, e eis que um dia perde-se tanto um quanto outro. Mas, no caso dela, o exemplar era sobremodo precioso por ter sido um presente de uma pessoa muito querida e que lhe incentivara no hábito da leitura na adolescência. Em suma, não era só o conteúdo que lhe era caro, havia todo um aspecto afetivo envolvido.
Desde que me contou a história de como o perdera, passei a procurá-lo em todo sebo, saldão de livros ou livraria que visitava. Encontrei várias edições, mas nunca aquela de que me falava. E que fiz questão de que descrevesse. Era, segundo ela, um livro de capa vermelha, com letras brancas e pretas e nenhum outro enfeite, fotografia do autor, ilustração, nada. Na capa, somente o nome do escritor e o título: Bertolt Brecht. Antologia Poética. E, para piorar as coisas, lembrava-se de que fora publicado por uma editora pequena e pouco conhecida. Como disse, procurei por anos o livro, e encontrei as mais variadas edições e versões da obra. Uma de capa amarela, outra amarela e vermelha, outra branca, outra ainda com o retrato do autor, outra com ilustrações. Mas nada daquela que ela queria.
Eis que, finalmente, encontrei um livro, no sebo recém aberto de Leme, na rua Newton Prado. Mal acreditei quando o vi. Sim, só podia ser aquela edição a que tanto buscava. Comprei-a imediatamente.
Voltando para casa, tirei-o da pasta, escondi-o atrás das costas e pedi à minha mulher que estendesse as mãos e fechasse os olhos. E entreguei-lhe o livro. Quando ela reabriu os olhos e viu-o em suas mãos, emudeceu, engoliu em seco e lágrimas correram por seu rosto. Estava comovida, exultante de felicidade. Fiquei até um pouco aborrecido, afinal, já tinha lhe dado outros presentes muito mais caros e raros e a reação, em tais ocasiões, não chegara aos pés da que manifestou diante daquele livro.
Mas, claro, lembrei-me, aquele não era só um livro. Era um verdadeiro amigo com quem se reencontrava. Tanto isto era verdade que bastou folheá-lo e o volume, quase naturalmente, abriu-se na página onde estava a poesia preferida por ela, Perguntas de um operário que lê, que, como soube, foi lida por ela, inclusive, em seu discurso de formatura no colegial.
E eis que aquele seu amigo, de papel, tinta e cartolina, retornava ao seu convívio como se estivesse separado por uma longa ausência. Pergunto-me como há pessoas que ainda dizem não gostar de ler. O quanto perdem com isto! Até a possibilidade de um reencontro afetivo, e inesperado, como o que ela experimentou. Livros são, verdadeiramente, grandes amigos. Sempre o soube. E fiquei feliz naquela tarde, quando minha mulher confirmou-me, de forma tão clara e tão bela, esta verdade.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de junho de 2009]
Minha mulher procurava, havia muitos anos, um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Ela tivera um exemplar, que emprestara certa vez a um amigo, o qual jamais lhe devolveu o livro. Quem gosta de ler já passou por isso. Temos um livro de que gostamos, o emprestamos a alguém em quem confiamos, e eis que um dia perde-se tanto um quanto outro. Mas, no caso dela, o exemplar era sobremodo precioso por ter sido um presente de uma pessoa muito querida e que lhe incentivara no hábito da leitura na adolescência. Em suma, não era só o conteúdo que lhe era caro, havia todo um aspecto afetivo envolvido.
Desde que me contou a história de como o perdera, passei a procurá-lo em todo sebo, saldão de livros ou livraria que visitava. Encontrei várias edições, mas nunca aquela de que me falava. E que fiz questão de que descrevesse. Era, segundo ela, um livro de capa vermelha, com letras brancas e pretas e nenhum outro enfeite, fotografia do autor, ilustração, nada. Na capa, somente o nome do escritor e o título: Bertolt Brecht. Antologia Poética. E, para piorar as coisas, lembrava-se de que fora publicado por uma editora pequena e pouco conhecida. Como disse, procurei por anos o livro, e encontrei as mais variadas edições e versões da obra. Uma de capa amarela, outra amarela e vermelha, outra branca, outra ainda com o retrato do autor, outra com ilustrações. Mas nada daquela que ela queria.
Eis que, finalmente, encontrei um livro, no sebo recém aberto de Leme, na rua Newton Prado. Mal acreditei quando o vi. Sim, só podia ser aquela edição a que tanto buscava. Comprei-a imediatamente.
Voltando para casa, tirei-o da pasta, escondi-o atrás das costas e pedi à minha mulher que estendesse as mãos e fechasse os olhos. E entreguei-lhe o livro. Quando ela reabriu os olhos e viu-o em suas mãos, emudeceu, engoliu em seco e lágrimas correram por seu rosto. Estava comovida, exultante de felicidade. Fiquei até um pouco aborrecido, afinal, já tinha lhe dado outros presentes muito mais caros e raros e a reação, em tais ocasiões, não chegara aos pés da que manifestou diante daquele livro.
Mas, claro, lembrei-me, aquele não era só um livro. Era um verdadeiro amigo com quem se reencontrava. Tanto isto era verdade que bastou folheá-lo e o volume, quase naturalmente, abriu-se na página onde estava a poesia preferida por ela, Perguntas de um operário que lê, que, como soube, foi lida por ela, inclusive, em seu discurso de formatura no colegial.
E eis que aquele seu amigo, de papel, tinta e cartolina, retornava ao seu convívio como se estivesse separado por uma longa ausência. Pergunto-me como há pessoas que ainda dizem não gostar de ler. O quanto perdem com isto! Até a possibilidade de um reencontro afetivo, e inesperado, como o que ela experimentou. Livros são, verdadeiramente, grandes amigos. Sempre o soube. E fiquei feliz naquela tarde, quando minha mulher confirmou-me, de forma tão clara e tão bela, esta verdade.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de junho de 2009]
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Sebos e histórias – Parte II: uma curta novela epistolar e manuscrita
Na semana passada, prometi mais algumas histórias curiosas de sebos. São muitas, mas uma, até hoje, conservo com uma espécie de carinho. Descobri-a através de alguns livros que comprei, os quais tenho até hoje, nos quais se encontra toda a crônica do final de um relacionamento amoroso.
Os antigos donos – um jovem casal universitário – tinham o curioso hábito de fazer longas anotações na folha de rosto e nas páginas em branco do final dos volumes, às vezes avançando mesmo pela parte interna da contracapa. Nunca escreviam juntos na mesma obra, e os registros dela eram mais longos e mais frequentes. Somente ela assinava: Ana Maria. E chamavam um ao outro, brejeiramente, de Patolina e Patolino, ou os Patolinos.
As notas iniciavam-se com um breve comentário acerca da leitura, se tinham gostado ou não e o porquê. Depois, seguiam-se curtos relatos sobre as condições da leitura.
Para que tenham uma idéia, seleciono alguns trechos.
Na folha de guarda de um livro (A Micro-história e outros ensaios, de Carlo Guinzburg), está escrito, de próprio punho:
“Quencão amado: 194 semanas de nossa parceria...”. Fala então da visita de uma amiga, do que fizeram nas férias, etc., etc., e termina: “E o que mais falar de nossa parceria? Já nos dissemos e escrevemos tantas coisas, mas é um sentimento, o amor, que se renova sempre, pois compartilhamos a vida um com o outro. Amo muito você.... Sempre, Feliz dia: a Patolina: Ana Maria: 09/10 fevereiro. 92. 22:35 segunda. Patolândia Encantada. Obs. Hoje foi a volta ao cativeiro. A sua foi adiada para 4ª feira. Sortudo!”.
No mesmo volume, na última folha em branco, vinha o seguinte.
“Este livro acabou de ser originalmente lido às 16:36 hs do dia 20 de Agosto de 1992, uma quinta-feira fria, no laboratório da Teresinha, enquanto ele vota para presidente e vice desta muvuca industrial cabocla. Espero a Teresa”. E, logo abaixo: “Quenco amado, logo sairá do ninho rumo ao cativeiro” “E, à noite, ou no começo da madrugada, será minha vez de retornar ao ninho, para o Patolino querido. A vida...”.
O tom de pieguice, concordemos, é bastante forte, chega a ser mesmo cômico. Mas até o mais endurecido dos leitores há de concordar que estas linhas, quase infantis em sua singeleza, palpitam de pura vida. Sabemos que dividem, há três anos e meio (194 semanas) o mesmo teto, o qual chamam de ninho e Patolândia Encantada, em contraponto ás aulas na faculdade, o cativeiro. Que ele tem três apelidos que de certo obedecem a graus diferentes de tratamento: ele é o Patolino, mas, para ela, também, Quenco e Quencão. Que eles se amam e estão felizes num período que vai das já referidas semanas até seis meses depois (de 9 ou 10 de fevereiro até 20 de agosto). Podemos inferir, também, que ao menos um deles, senão ambos, perdeu ao menos um semestre universitário (todos os livros onde escrevem suas cartas são de História – um curso de quatro anos, como é sabido – e constam da ementa dos dois últimos semestres), já que estão junto há quatro anos e não se formaram. Sabemos também que estudam em turnos diferentes (ele pela manhã, com alguma disciplina optativa às 17 horas, e ela à noite). E que ele é ativo politicamente – vota no Centro Acadêmico ou nalguma associação classista, que ela chama de “muvuca industrial cabocla”.
Dos demais livros que pertenceram ao casal, dois tem a letra dele, quase ilegível, da qual pode-se ler, com clareza, somente que a ama, etc., etc. Muito menos enfático do que ela. Outros quatro pertencem à Patolina. Num deles, há um registro de inícios de novembro do mesmo ano, em que ela descreve uma tarde de amor (“fizemos quém-quém a tarde toda”). Noutro, de fins do mesmo mês, descreve, com os mesmos termos, os mesmos prazeres, mas que, queixa-se, “não era mais como antes: Patolino anda distante, frio”. No terceiro, de meados de dezembro, ela começa a se questionar quanto à relação: “ele está mudado, meu Patolino já não parece pensar em mim”. O último registro é de fins de dezembro. Ela se lastima pelo andar das coisas, mas afirma que há de sobreviver. E indica já estar pensando noutra pessoa: “pode haver outros patolinos na lagoa, se ele não quiser enxergar”.
Como disse no início, não sei quem são eles e é quase impossível saber. Três dos livros comprei em São Paulo. Um deles em Santos (o único que traz a indicação de lugar, Santos, onde presumo que moraram e estudaram), dois em Campinas e o último, acreditem, em Belo Horizonte. Talvez existam outros mais, detalhando aquela relação, espalhados por outros sebos, ou com novos donos. É possível. Mas não me canso de pensar que, sem o saberem, escreveram indiretamente uma pequena novela epistolar, com momentos de alegria e de tristeza, esperança, desencontros. Uma novela que, além deles, somente eu pude conhecer. Não sei se estão juntos – acredito que não, do contrário conservariam os livros. E não sei como terminaram sua relação. Tristes? Furiosos? Com desdém? De comum acordo? Houve morte? Violência? Lágrimas, certamente. E nunca poderei saber ao certo que fim tiveram. Nem os leitores, que agora compartilham comigo esta história.
E de tudo isto tive ciência por simples obra do acaso, freqüentando sebos, comprando aleatoriamente livros que me interessavam e que, decerto, interessaram também a outras pessoas, daí sua dispersão por tantas cidades. Livros que me trouxeram, como uma espécie de brinde inesperado, uma curta novela epistolar, que não é alta literatura, certamente, mas que é tão cheia de vida, vida real, que chega a comover mais do que muitas grandes obras escritas com muito intelecto e nenhuma paixão.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de junho de 2009].
Os antigos donos – um jovem casal universitário – tinham o curioso hábito de fazer longas anotações na folha de rosto e nas páginas em branco do final dos volumes, às vezes avançando mesmo pela parte interna da contracapa. Nunca escreviam juntos na mesma obra, e os registros dela eram mais longos e mais frequentes. Somente ela assinava: Ana Maria. E chamavam um ao outro, brejeiramente, de Patolina e Patolino, ou os Patolinos.
As notas iniciavam-se com um breve comentário acerca da leitura, se tinham gostado ou não e o porquê. Depois, seguiam-se curtos relatos sobre as condições da leitura.
Para que tenham uma idéia, seleciono alguns trechos.
Na folha de guarda de um livro (A Micro-história e outros ensaios, de Carlo Guinzburg), está escrito, de próprio punho:
“Quencão amado: 194 semanas de nossa parceria...”. Fala então da visita de uma amiga, do que fizeram nas férias, etc., etc., e termina: “E o que mais falar de nossa parceria? Já nos dissemos e escrevemos tantas coisas, mas é um sentimento, o amor, que se renova sempre, pois compartilhamos a vida um com o outro. Amo muito você.... Sempre, Feliz dia: a Patolina: Ana Maria: 09/10 fevereiro. 92. 22:35 segunda. Patolândia Encantada. Obs. Hoje foi a volta ao cativeiro. A sua foi adiada para 4ª feira. Sortudo!”.
No mesmo volume, na última folha em branco, vinha o seguinte.
“Este livro acabou de ser originalmente lido às 16:36 hs do dia 20 de Agosto de 1992, uma quinta-feira fria, no laboratório da Teresinha, enquanto ele vota para presidente e vice desta muvuca industrial cabocla. Espero a Teresa”. E, logo abaixo: “Quenco amado, logo sairá do ninho rumo ao cativeiro” “E, à noite, ou no começo da madrugada, será minha vez de retornar ao ninho, para o Patolino querido. A vida...”.
O tom de pieguice, concordemos, é bastante forte, chega a ser mesmo cômico. Mas até o mais endurecido dos leitores há de concordar que estas linhas, quase infantis em sua singeleza, palpitam de pura vida. Sabemos que dividem, há três anos e meio (194 semanas) o mesmo teto, o qual chamam de ninho e Patolândia Encantada, em contraponto ás aulas na faculdade, o cativeiro. Que ele tem três apelidos que de certo obedecem a graus diferentes de tratamento: ele é o Patolino, mas, para ela, também, Quenco e Quencão. Que eles se amam e estão felizes num período que vai das já referidas semanas até seis meses depois (de 9 ou 10 de fevereiro até 20 de agosto). Podemos inferir, também, que ao menos um deles, senão ambos, perdeu ao menos um semestre universitário (todos os livros onde escrevem suas cartas são de História – um curso de quatro anos, como é sabido – e constam da ementa dos dois últimos semestres), já que estão junto há quatro anos e não se formaram. Sabemos também que estudam em turnos diferentes (ele pela manhã, com alguma disciplina optativa às 17 horas, e ela à noite). E que ele é ativo politicamente – vota no Centro Acadêmico ou nalguma associação classista, que ela chama de “muvuca industrial cabocla”.
Dos demais livros que pertenceram ao casal, dois tem a letra dele, quase ilegível, da qual pode-se ler, com clareza, somente que a ama, etc., etc. Muito menos enfático do que ela. Outros quatro pertencem à Patolina. Num deles, há um registro de inícios de novembro do mesmo ano, em que ela descreve uma tarde de amor (“fizemos quém-quém a tarde toda”). Noutro, de fins do mesmo mês, descreve, com os mesmos termos, os mesmos prazeres, mas que, queixa-se, “não era mais como antes: Patolino anda distante, frio”. No terceiro, de meados de dezembro, ela começa a se questionar quanto à relação: “ele está mudado, meu Patolino já não parece pensar em mim”. O último registro é de fins de dezembro. Ela se lastima pelo andar das coisas, mas afirma que há de sobreviver. E indica já estar pensando noutra pessoa: “pode haver outros patolinos na lagoa, se ele não quiser enxergar”.
Como disse no início, não sei quem são eles e é quase impossível saber. Três dos livros comprei em São Paulo. Um deles em Santos (o único que traz a indicação de lugar, Santos, onde presumo que moraram e estudaram), dois em Campinas e o último, acreditem, em Belo Horizonte. Talvez existam outros mais, detalhando aquela relação, espalhados por outros sebos, ou com novos donos. É possível. Mas não me canso de pensar que, sem o saberem, escreveram indiretamente uma pequena novela epistolar, com momentos de alegria e de tristeza, esperança, desencontros. Uma novela que, além deles, somente eu pude conhecer. Não sei se estão juntos – acredito que não, do contrário conservariam os livros. E não sei como terminaram sua relação. Tristes? Furiosos? Com desdém? De comum acordo? Houve morte? Violência? Lágrimas, certamente. E nunca poderei saber ao certo que fim tiveram. Nem os leitores, que agora compartilham comigo esta história.
E de tudo isto tive ciência por simples obra do acaso, freqüentando sebos, comprando aleatoriamente livros que me interessavam e que, decerto, interessaram também a outras pessoas, daí sua dispersão por tantas cidades. Livros que me trouxeram, como uma espécie de brinde inesperado, uma curta novela epistolar, que não é alta literatura, certamente, mas que é tão cheia de vida, vida real, que chega a comover mais do que muitas grandes obras escritas com muito intelecto e nenhuma paixão.
[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de junho de 2009].
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Sebos e histórias – Parte I: Tesouros submersos
Muitos jovens de hoje não sabem que a palavra sebo nomeia as lojas de livros, revistas, discos, cds e vídeos, todos eles usados, não só de segunda mão, mas de terceira, quarta e, às vezes, incontáveis mãos. Tanta manipulação, aliás, está na origem de tal nome: os livros, passados por tantos leitores, acabariam ensebados — o que, hoje em dia, não é inteiramente verdade: sim, existem ainda algumas lojas que, em higiene e organização, mais lembram uma borracharia que um lugar para a venda de livros, mas há outras, a maioria hoje, que de tão organizadas e asseadas, parecem uma livraria comum. A palavra tinha mais sentido no século XIX, quando surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando ainda se lia à luz de velas e os estudantes eram criativos o suficiente para inventarem gírias que atravessavam gerações, cruzavam o país, entravam nos dicionários e neles permaneciam.
Disse que algumas parecem até uma livraria comum. Mas isto não é exato. Muitas são muitíssimo mais agradáveis do que a maioria dos pontos de vendas de livros que vemos por aí, ainda que nelas, por vezes, impere um certo caos. Pois os sebos lembram um pouco as antigas livrarias de um dono só, onde tudo é pensado e planejado por ele, da escolha dos livros à sua disposição nas vitrines, sobre as mesas, nas prateleiras, o que é de fundamental importância, e fazia do proprietário mais do que um simples comerciante, mas um livreiro, um autêntico divulgador cultural, que oferecia algo totalmente diferente da mecânica organização que impera hoje em dia, ditada por grandes e impessoais redes de lojas. Um livreiro, claro, expunha nas vitrines os best-sellers, mas, também, livros de que ele próprio gostava, ou apostava como promissores, ou garantia como valiosos, imprescindíveis: como havia espaço, evidentemente, para o novo romance de Chico Buarque, havia-o, também, para uma nova tradução de um Sófocles, de um Ésquilo ou o livro de estreia de alguém que ele julgasse bom. E ele não só vendia o seu produto, como formava leitores. Os sebos, evidentemente, não têm tanto poder de escolha quanto aos títulos: compra o que lhe oferecem. Mas fazem toda a diferença quando privilegiam certos gostos em detrimento de outros, montam seções mais especializadas e bem abastecidas e, sobretudo, exibem com clareza os melhores e mais interessantes títulos ou autores, sejam fácil saída ou não – geralmente não.
Em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, há sebos cujo forte é a Literatura. Outros, ótimos para quem busca livros de História. Outros ainda para a História da Arte, para a Crítica e Análise Literária, para raridades, para a Filosofia, para o Direito. Conheci um, no Rio de Janeiro, especialista em teatro. São lugares que transcendem o mero comércio, e se tornam pontos de irradiação de cultura. E com preços, na maioria das vezes, possíveis à maioria dos bolsos.
Sou frequentador de sebos desde os meus quatorze anos. A um deles eu ia tanto, que me ofereceram um emprego ali, graças, também, ao fato de ter trabalhado noutras livrarias – pequenas, de livreiros. Já no primeiro mês tinha me tornado gerente. E que festa eu fazia! Mas do meu salário, seguramente, eu retirava em mercadorias, para o meu próprio consumo, graças aos ótimos descontos que tinha por ser funcionário. Quantos clássicos e raridades só assim pude comprar, então! E havia também uma espécie de bônus. Pois sempre que um novo lote de livros chegava, qualquer coisa que viesse entre as páginas, esquecida pelo antigo dono, passava a pertencer a quem o achasse (no caso nós, que ali trabalhávamos). E como se encontravam curiosidades!
Fotografias e postais antigos eram comuns. Encontrei, em duas ocasiões diferentes, um retrato autografado da cantora argentina Libertad Lamarque (1908-2000), e outro do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), feito em Paris, nos anos 1950, por um conhecido fotógrafo daquele tempo. Anotações de leitura. Cartas dos mais variados tipos. E até dinheiro. Ficaram célebres, à época, no meio, o caso de dois funcionários de sebo que encontraram, um, quinhentos dólares americanos, cinco notas de cem, esquecidas num livro, e, o outro, uma carta autografada de Monteiro Lobato a um leitor. Cartões de visitas eram também comuns, convites de posse na Academia Brasileira de Letras, e coisas assim. Como cédulas já saídas de circulação. Eu mesmo encontrei uma nota de quinhentos cruzeiros – aquela com os rostos e o mapa do Brasil – que me encheu de pena. Estava novinha em folha, ou seja, nunca mais fora utilizada e, à época de sua emissão, 1972, valera bastante. Fiquei pensando se o seu esquecimento não pusera o antigo dono em dificuldades reais, palpáveis, terríveis, visto que o valor correspondia a dois salários mínimos de então.
Eram as cartas de amor, entretanto, as que mais punham a imaginação a dar voltas. Pensar se aqueles amores foram correspondidos, ou não, se terminaram bem, ou mal, se jamais terminaram. Aquilo realmente mexia com o coração de quem lia, tantos anos depois e sem mais nada conhecer da história. Mas isto fica para uma próxima vez.
Disse que algumas parecem até uma livraria comum. Mas isto não é exato. Muitas são muitíssimo mais agradáveis do que a maioria dos pontos de vendas de livros que vemos por aí, ainda que nelas, por vezes, impere um certo caos. Pois os sebos lembram um pouco as antigas livrarias de um dono só, onde tudo é pensado e planejado por ele, da escolha dos livros à sua disposição nas vitrines, sobre as mesas, nas prateleiras, o que é de fundamental importância, e fazia do proprietário mais do que um simples comerciante, mas um livreiro, um autêntico divulgador cultural, que oferecia algo totalmente diferente da mecânica organização que impera hoje em dia, ditada por grandes e impessoais redes de lojas. Um livreiro, claro, expunha nas vitrines os best-sellers, mas, também, livros de que ele próprio gostava, ou apostava como promissores, ou garantia como valiosos, imprescindíveis: como havia espaço, evidentemente, para o novo romance de Chico Buarque, havia-o, também, para uma nova tradução de um Sófocles, de um Ésquilo ou o livro de estreia de alguém que ele julgasse bom. E ele não só vendia o seu produto, como formava leitores. Os sebos, evidentemente, não têm tanto poder de escolha quanto aos títulos: compra o que lhe oferecem. Mas fazem toda a diferença quando privilegiam certos gostos em detrimento de outros, montam seções mais especializadas e bem abastecidas e, sobretudo, exibem com clareza os melhores e mais interessantes títulos ou autores, sejam fácil saída ou não – geralmente não.
Em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, há sebos cujo forte é a Literatura. Outros, ótimos para quem busca livros de História. Outros ainda para a História da Arte, para a Crítica e Análise Literária, para raridades, para a Filosofia, para o Direito. Conheci um, no Rio de Janeiro, especialista em teatro. São lugares que transcendem o mero comércio, e se tornam pontos de irradiação de cultura. E com preços, na maioria das vezes, possíveis à maioria dos bolsos.
Sou frequentador de sebos desde os meus quatorze anos. A um deles eu ia tanto, que me ofereceram um emprego ali, graças, também, ao fato de ter trabalhado noutras livrarias – pequenas, de livreiros. Já no primeiro mês tinha me tornado gerente. E que festa eu fazia! Mas do meu salário, seguramente, eu retirava em mercadorias, para o meu próprio consumo, graças aos ótimos descontos que tinha por ser funcionário. Quantos clássicos e raridades só assim pude comprar, então! E havia também uma espécie de bônus. Pois sempre que um novo lote de livros chegava, qualquer coisa que viesse entre as páginas, esquecida pelo antigo dono, passava a pertencer a quem o achasse (no caso nós, que ali trabalhávamos). E como se encontravam curiosidades!
Fotografias e postais antigos eram comuns. Encontrei, em duas ocasiões diferentes, um retrato autografado da cantora argentina Libertad Lamarque (1908-2000), e outro do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), feito em Paris, nos anos 1950, por um conhecido fotógrafo daquele tempo. Anotações de leitura. Cartas dos mais variados tipos. E até dinheiro. Ficaram célebres, à época, no meio, o caso de dois funcionários de sebo que encontraram, um, quinhentos dólares americanos, cinco notas de cem, esquecidas num livro, e, o outro, uma carta autografada de Monteiro Lobato a um leitor. Cartões de visitas eram também comuns, convites de posse na Academia Brasileira de Letras, e coisas assim. Como cédulas já saídas de circulação. Eu mesmo encontrei uma nota de quinhentos cruzeiros – aquela com os rostos e o mapa do Brasil – que me encheu de pena. Estava novinha em folha, ou seja, nunca mais fora utilizada e, à época de sua emissão, 1972, valera bastante. Fiquei pensando se o seu esquecimento não pusera o antigo dono em dificuldades reais, palpáveis, terríveis, visto que o valor correspondia a dois salários mínimos de então.
Eram as cartas de amor, entretanto, as que mais punham a imaginação a dar voltas. Pensar se aqueles amores foram correspondidos, ou não, se terminaram bem, ou mal, se jamais terminaram. Aquilo realmente mexia com o coração de quem lia, tantos anos depois e sem mais nada conhecer da história. Mas isto fica para uma próxima vez.
[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 13 de junho de 2009.]
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