terça-feira, 30 de março de 2010

Educação doméstica: esta moda pega?

Os mineiros, de uma maneira geral, são bastante ponderados. Mas quando cometem alguma bobagem, às vezes ela é monumental. Dizem que a maior delas foi Brasília...
Brincadeiras à parte, é curioso este episódio do casal da cidade de Timóteo, MG, condenado pela Justiça por “abandono intelectual” dos filhos, visto que há quatro anos os retiraram da escola para que fossem educados em casa. Um pormenor interessante é que os rapazes, submetidos a uma prova de conhecimentos gerais elaborada pela Secretaria Estadual de Educação, não só foram aprovados como também conseguiram uma nota acima da média. E, ao que parece, os pais não possuem método educacional nenhum, deixando os estudos ao critério dos filhos.
O sucesso dos rapazes, neste caso, diante do exposto, deve ter se dado mais pela boa natureza e discernimento de ambos do que pela eficácia da educação doméstica. Pois, francamente, pensemos na maioria dos adolescentes que conhecemos se expostos a tais direitos de escolha, senhores de sua própria educação: ao cabo de um ano, ao invés de aprovados em sabatinas, seriam especialistas em Twitter, profundos conhecedores de frivolidades que circulam na internet ou coisas que tais. Em suma, se no caso dos mineiros deu certo, foi porque o material humano dos jovens era bom, de fato. Circunstância que não deve ser generalizada, evidentemente.
Esta história de educação caseira, entretanto, não é uma exclusividade daquela família mineira. Em todo país, sobretudo no Sul, tem aumentado o número de famílias que preferem que seus pimpolhos estudem só e exclusivamente em casa. Parece que é um modismo importado dos EUA, o nascedouro de nove entre dez excentricidades. Mas por lá existe toda uma série de aspectos por trás da questão. Muitos norte-americanos, por exemplo, tem uma tal aversão ao Estado, e a tudo que ele representa, a ponto de pretenderem passar ao largo de qualquer relação com “os burocratas de Washington”. E alegam razões tanto políticas quanto – na maioria dos casos – religiosas para tal comportamento. Por isso, metem seus rebentos em casa para lerem a Bíblia e aprenderem com o Arcebispo (anglicano) Ussher, que a Terra foi criada exatamente às 9 horas da manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C....
No fundo o que verdadeiramente tem ocorrido, no caso do Brasil, para criarem-se tais manias, nada mais é do que a insatisfação de uma certa classe média que se indigna com tudo, menos com o que deveria. Critica o Estado mas não se opõe a ele, somente às suas representações. Acostumada que está a viver em cápsulas (o trabalho monótono, o clube, o condomínio, o shopping center), pretende que seus filhos também vivam encapsulados, convivendo somente entre os “eleitos”, livres da convivência democrática (que para tal segmento social cheira à baderna – bom mesmo era no tempo da ditadura e do “sabe com quem está falando?”) que os filhos usufruiriam nas escolas.
Convenhamos que o ensino – público ou privado – tem se revelado muito insatisfatório em nosso país. No Estado de São Paulo, então, a situação é calamitosa desde, os leitores sabem muito bem, que um certo partido agarrou-se ao poleiro do poder por aqui. Se o raciocínio do casal de Timóteo vingasse nestas terras, a rede pública de ensino fecharia por falta de público – iriam todos para a privada. E não se culpe o professor por isto, é toda a estrutura que está errada, do maternal ao vestibular (e, em grande parte, nas próprias universidades também).
Ora, educação não é só transmissão de informações. É convívio com o outro, é troca entre colegas, multidisciplinaridade, convívio, e outras coisas mais que uma casa, por melhor abastecida de livros que possa ser, é incapaz de dar. Ou mesmo os pais seriam capazes, por mais bem intencionados que sejam.
Em suma, educação em casa é indispensável. Mas para que reafirme ou até conteste o que se aprende fora dela. O que ela não pode ser é exclusiva.
Não acredito que este modismo vingue. Entretanto no Brasil, em se tratando de modismos ruins, tudo é possível.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].

Toda ponte paira sobre o vazio

Em crônica intitulada “Um novo cartão-postal paulistano”, de 15 de dezembro de 2007, tratei, neste espaço, de uma certa ponte estaiada que se ergueu sobre o rio Pinheiros – aquele que separa o Palácio dos Bandeirantes da verdadeira São Paulo.
À época comentei a falta de necessidade de um tal projeto e método construtivo, e mencionei outras pontes muito maiores às quais tentaram comparar aquela pretensiosa pinguela pênsil sobre o rio. Dentre elas, citei a Ponte do Brooklyn, de Nova Iorque, e a Golden Gate, de São Francisco, Califórnia. E meio que conclui dizendo:

É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!”.

Pois é, a macaquice campeia. Agora se quer construir um arremedo nanico de uma Golden Gate ligando Santos ao Guarujá. E, por conta disto, até o nosso Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o sempre solícito e disponível Chirico, desceu a serra para inaugurar...uma maquete!
Os defensores do projeto alegam que aquele monstrengo – a ponte, não o Excelentíssimo Senhor Governador – é uma demanda das duas cidades, visto que as ligaria mais rapidamente. Ora, quem as conhece sabe que já existe serviços de balsas e barcas cumprindo tal fim, e para quem quer ir de automóvel, uma ponte que as une mais para o interior, aliviando o fluxo dos centros daquelas cidades. Com o novo projeto, pretende-se justamente intensificar o tráfego nos centros dos dois municípios, uma idéia condenada por dez entre dez urbanistas de qualquer parte do mundo. E por quem pensa um pouco que seja e conhece Santos e Guarujá. Pois imaginemos os fins-de-semana prolongados e as temporadas, quando milhares de automóveis despencam serra abaixo rumo ao local. Pensemos como ficariam aquelas cidades frente a uma nova e intensa circulação de automóveis, acima dos números absurdos ao quais já se sujeitam. Um caos, um verdadeiro caos. Ou melhor, dois: um para cada uma.
E não falamos ainda do impacto paisagístico. Pois, convenhamos, Santos está longe de ter um dos melhores cenários em seu entorno. Salvam-lhe da completa feiúra o mar – este ninguém consegue impedir de ser o que é – e o estuário com a Serra do Mar ao fundo. Pois é justamente neste último que querem meter o raio da ponte, arruinando de vez aquela bela vista.
E tudo isto para quê? Para brincarmos que somos norte-americanos, copiando-lhes os prédios, as pontes, imitando-lhes o número de automóveis e o consumo desenfreado, fingindo que somos o que não somos, ou o que meia dúzia de brocoiós gostaríamos que fôssemos.
Em suma, tudo que disse da outra ponte, reitero e acrescento para a nova, que sequer saiu do papel e será completada e paga não pelo Chirico, o Breve, mas por quem quer que lhe herde a cadeira. E tomara que ela não vingue, que não passe da reles maquete que é. Basta de macaquices caras e de construir pontes sobre um vazio de idéias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de março de 2010].

sexta-feira, 12 de março de 2010

Os Explorados falam

Conversas ouvidas em ônibus, vez ou outra, rendem uma história interessante. A última que presenciei envolvia dois senhores do Norte do Paraná, um, seguramente, na casa dos setenta anos, e outro, lá pelos seus sessenta e tantos, pouco mais ou pouco menos.
Quem tomou da palavra foi o mais velho. Contou, em traços gerais, sua história de vida, dos primórdios até sua exata presença no ônibus. Então, foi a vez do outro contar seu périplo, do batismo até aquela viagem. Os passageiros, gostássemos ou não, que se lixassem... Para além das muitas banalidades trocadas – quantos filhos tiveram, quantas vezes foram casados, separados, etc. – quando um fingia ser sincero ao relatá-las, e o outro afetava ouvir com interesse, para que o interlocutor o revezasse naquele exercício de falsa e pouca curiosidade e muita e intensa vontade de falar, eis que num ponto pareceram entrar em concordância real: no quanto tinham desbravado aquela porção do país.
Durante algumas horas, tive notícia de desmatamentos florestais os mais variados, contados pela voz orgulhosa daqueles companheiros de viagem. Ora era um, todo prosa, contando como reduzira à terra nua, caminhos que hoje são estradas de rodagem, matas que se transformaram em cidades, bosques convertidos em bairros. Noutra, seu parceiro ecoava àquelas afirmações contando a sua parte na depredação arbórea paranaense e na sua eficácia em por abaixo araucárias, palmiteiros, e por aí afora. Graças a eles soube que muitos dos lugarejos paranaenses fronteiriços a São Paulo não passavam de mato cerrado há cerca de quarenta anos.
Entre relatos de quem derrubou mais, ou menos, deram espaço, também, para a narrativa de suas aventuras posteriores àquele período de “descobrimentos”. Ambos trabalharam em cafezais, enquanto “o café ainda dava”. Depois, foram para a cana, uma atividade a qual, segundo o mais velho, teria ótimos patrões — os quais nunca vira — mas péssimos capatazes. E o mais novo concordou com ele, em número, gênero e grau: os patrões eram ótimos — também nunca os conhecera, porque, ricos demais, não podem acompanhar o trabalho do dia-a-dia — o problema, mais uma vez, o excesso de rigor e o desrespeito do trabalhador devia-se aos gerentes, capatazes, gatos, etc.
Na conclusão de seu debate, queixaram-se das mudanças climáticas – às quais não sabiam atribuir um motivo (talvez, disseram, fosse culpa dos terremotos), e quanto às suas intenções de voto no próximo pleito nacional, foram unânimes na declaração: consoante a dois derrubadores de árvores, a escolha só poderia ser SERRA! Pois é, o Chirico.
Conversas como estas são muito relevantes quanto ao modo de pensar dos brasileiros de uma certa classe social tida como baixa, do ponto de vista econômico, gente que tem filhos e netos e que, de uma certa maneira, expressam, transmitem e fazem repercutir suas ideias de uma forma relativamente eficiente em determinados meios. Alicerçados pelo “peso da experiência”, não raro acabam se tornando referenciais de juízo em suas comunidades. Mesmo que tenham, somente, muitos anos e pouco juízo. Cidadãos — no sentido lato da palavra, mas, ainda sim, eleitores — que têm do mundo somente a visão possível de ser vislumbrada, de esguelha, por cima da canga que lhes pesa sobre os ombros. Os algozes são as moscas que lhes picam o couro, ou o condutor do carro de boi ao qual estão atrelados. O dono das terras, que os remete à errância e ao desassossego, este é sempre bom. Ainda que nunca, jamais, os tenham visto, mais gordos ou mais magros, bonitos ou feios.
Este é um daqueles casos através dos quais se demonstra a necessidade do estudo formal e da consciência de classe. Um pouco mais de instrução que tivessem, permitiria que vissem não só os males ambientais que causaram como, também, o mísero papel que tiveram nesta embrulhada toda e noutras a partir daí. Pobres, sobretudo de espírito, para sempre eles continuarão. Como, também, os seus ricos patrões, ausentes, incertos, indistinguíveis, nos modos, de seus empregados, mas que os oprimem igualmente, com ares de bom cidadão.
Tem horas que o conhecimento sobre o velho Marx, e de sua teoria da alienação dos trabalhadores, faz muita falta....

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de março de 2010].

Quanto vale o Cristo Redentor?

A Arquidiocese do Rio de Janeiro vire e mexe ocupa as páginas dos jornais, ao contrário de todas as demais que conheço. Enquanto as outras dão notícias de seus trabalhos, campanhas, ou simplesmente pregam a palavra de Deus, a Mitra fluminense faz-se notória pela proibição do uso de imagens que lhe pertencem. A mais comum é a interdição quanto a filmagem de cenas de novelas ou seriados nas igrejas sob sua responsabilidade. E lembremos que no Carnaval carioca de 1989, foi também proibida a apresentação de uma réplica da estátua do Cristo Redentor, que desfilaria num carro alegórico da Beija-Flor de Nilópolis. A imitação, aliás, era um tanto irrealista, na medida em que seus trajes estariam em farrapos, de acordo com o enredo da escola, que mostrava pobres e miseráveis vestidos de trapos. Por fim, entretanto, a imagem saiu, coberta por um plástico preto e por uma faixa que dizia: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Quanto a este episódio, achei na época, e acho ainda agora, que a Igreja do Rio exagerou na proibição e cometeu um grave equívoco. Uma coisa seria desfilarem com uma reprodução da imagem de Cristo em farrapos. Aí, compreendo, pode ser desrespeitoso. Bem diferente é fazer a mesma coisa com a estátua do Cristo. Ou Um e outra são a mesma coisa? Depois, poderia até ser alegado que não era uma paródia daquela do morro do Corcovado, mas de uma outra qualquer das milhares que existem no Brasil...
Mas voltando aos dias de hoje, eis que surge uma nova polêmica envolvendo a Arquidiocese do Rio de Janeiro e o Cristo Redentor. Desta vez tendo do outro lado da contenda a Columbia Pictures, produtora do filme 2012. Alega a Mitra fluminense que o estúdio norte-americano usou indevidamente a imagem da estátua que, na trama, é destruída por um terremoto. E, por isto, quer que lhe paguem uma indenização e que haja uma retratação pública por parte da companhia cinematográfica. Pois a questão não seria simplesmente monetária (o uso da imagem do Cristo Redentor não é cobrado, dizem, mas a Igreja também pode vetar que ela apareça em filmes ou programas). Quanto às negociações entre as partes, parece que estão bem avançadas e que, por ora, uma ação judicial está descartada.
Diante de um fato destes, confesso que me acho dividido. Uma parte de mim gostaria que o caldo engrossasse, que partissem aos tribunais e que a Cúria perdesse. Outra, o exato contrário: que ela ganhasse. Vejamos os motivos.
Com o processo e a derrota da Arquidiocese, a liberdade de expressão e de manifestação artística estaria mais uma vez garantida. Vá lá que 2012 não seja arte, mas acredito que monumentos, obras de arte, construções e paisagens, por sua natural visibilidade pública, possam e devam ser livremente tratados em registros artísticos e ficcionais. E assim entendem incontáveis pessoas e instituições do mundo, a começar pelo próprio Vaticano, que já viu dezenas de vezes, pelo menos, a Basílica de São Pedro ser destruída em filmes e, se não gostou, por outro lado não pediu dinheiro por isto. Nem esta tal de “retratação pública”, com cheiro (de queimado) de mea-culpa em Auto-de-Fé. E o mesmo comportamento se verificou por parte das cidades de Londres, Paris, Nova Iorque, Washington, Roma, etc., tantas vezes arrasadas no cinema.
Já com a vitória da Cúria fluminense, é possível que surgissem alguns ganhos também. Pois acabaria a exploração incondicional de imagens, coisas que vemos a toda hora, por exemplo, na publicidade.
Imaginemos uma hipótese. Uma campanha milionária de automóveis utiliza-se de cenas e locações do centro de São Paulo em virtude de sua riqueza arquitetônica – que as agências maquiam até parecer se tratar de uma outra cidade. Ora, o centrão, mal cuidado, nada ganha com isto, ao contrário da agência publicitária, da montadora, etc. Pois bem, aberto o precedente do caso do Cristo Redentor, haveria espaço para uma discussão séria quanto ao direito das imagens, que poderia levar os responsáveis pelo comercial a pagarem pelo uso delas e, assim, a municipalidade e os proprietários dos prédios filmados teriam recursos para investir na conservação daqueles cenários e para muito mais.
Outra hipótese: as campanhas políticas. Os partidos, do maior ao menor, valem-se de imagens aleatórias para dizerem que cuidarão da Saúde, Educação, Segurança, Cultura, Preservação Ambiental e do Patrimônio Histórico ou Paisagistico, além de muitos Etceteras. Pois bem, se após a utilização das mesmas nada fosse investido nos locais apresentados, poderia haver o entendimento de que uma sanção deveria ser imposta a quem delas se utilizou e, no poder, nada fez.
Em suma, se o uso da imagem alheia gera dinheiro a alguém, que parte dele seja transferido aos donos da mesma. É lógico e deveria ser natural, como é entendido em tudo o mais que diz respeito aos direitos autorais (que, no fundo, são verdadeiros “direitos de propriedade”).
Confesso que não cheguei a uma opinião definitiva quanto ao assunto. Pois, ao cabo das coisas, acaba-se, de todo jeito, por se ficar num meio caminho de um uso social da imagem. Pertenceria ele a um ou a todos? É um assunto a se indagar, e estou, como sempre, aberto a comentários.
Por ora, há que se concluir que é impossível saber quanto vale o Cristo Redentor. Se render uma boa polêmica, que não seja meramente para as partes envolvidas, deve valer alguma coisa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de fevereiro de 2010].

O Carnaval de 2010

Neste ano, confesso que não tive a menor vontade de assistir aos desfiles de Carnaval, fossem eles do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Pensei, mais uma vez, e em boa parte a realidade confirmou minhas expectativas, que veria, como sempre, uma reedição de tudo que já foi exibido nos sambódromos, uma cópia mais ou menos servil do que já fora tentado. Muda-se o ano, muda-se a escola de samba e, invariavelmente, alguma ideia velha é oferecida como nova.
Vejamos um exemplo. Do pouco que vi, lembro-me, muito por cima, de uma escola carioca apresentando carros alegóricos e fantasias versando algum tema científico, ou um enredo “futurista”, com forte predominância do branco, do prateado, ou tons oscilando entre um e outro. Pois é, em todos os carnavais, ou em quase todos, alguma agremiação, quando não várias, se arriscam neste tema. E o resultado é sempre idêntico. Uma tola versão do futuro, com todos os clichês do gênero, ou pior, ultrapassada: parecem pensar ainda o porvir como o mesmo era imaginado nos anos 1950, 1960... E o resultado visual é sempre enfadonho graças àquela mesmice branco-metálica serpenteando pela avenida, qual uma gigantesca cobra-d’água – um dos animais menos graciosos e mais estúpidos que rastejam pela terra.
Recordo-me também, por alto, de uma outra que tentou homenagear Dom Quixote de La Mancha, o imortal personagem da obra de Miguel de Cervantes (1547-1616), cujo riquíssimo enredo povoaria o desfile das mais invulgares figuras e cenas. Qual o quê! Tiveram de enfiar naquela esparrela metida à espanhola um bando de toureiros, dançarinas de flamenco e que tais que, absolutamente, não fazem parte da trama do romance! Em suma, foram mais realistas do que o rei! E nem quero me delongar sobre as bobagens ditas pela carnavalesca responsável: “Don Quixote encanta pela loucura da luta por ideais dos quais a razão desistiu”, disse aquela senhora. Muito me intriga qual o conceito de razão, vigente no século XVII, que a responsável pela frase deve ter. Se levada a sério sua afirmação, um novo capítulo da história do conhecimento poderia ser iniciado ali mesmo, na Marquês de Sapucaí. Tremei, ò acadêmicos! De joelhos, ò sábios das Universidades!
Uma surpresa, de fato, surgiu com o desfile daquela que seria a campeã carioca deste ano. Não gosto nem um pouco das tais comissões de frente que se utilizam das artes cênicas em sua apresentação. Parecem sugerir uma espécie de consciência crítica que, no entanto, morre ali mesmo, sendo abolida completamente diante do resto do que é apresentado. Acho muito mais simpático, ou achava, pois quase não se vê mais, aquela fileira da velha guarda, às vezes trôpega, apresentando sua escola. Tem a sua razão de ser e é justo com os decanos das agremiações. Mas, no caso da vencedora, que exibiu alguns truques de ilusionismo, pareceu-me uma escolha, se não de todo acertada, ao menos inédita. Inédita até agora, bem entendido: no próximo ano, pelo menos uma meia dúzia de outras escolas devem tentar repeti-la, com melhores resultados... ou não. Quanto às outras acrobacias, não gostei. Acredito que ginástica fica muito bem numa quadra de esportes ou estádio. Como no circo, evidentemente. Mas carnaval é música e dança, não é competição esportiva ou espetáculo circense. E quanto aos super-heróis apresentados, só revelaram uma coisa: suas fantasias são tão feias e ridículas, que destoam até mesmo em desfile carnavalesco!
Com tantas novidades neste ano, há que se temer o que nos reserva o próximo. Estamos acostumados com as variações sobre o mesmo, a constantes imitações, reciclagens, etc. Afinal, foi sempre assim. Agora, procurar imaginar o que pode vir a ser visto a partir de um novo que, muitas vezes, não costuma ser bem assimilado, é de arrepiar os cabelos. Ou um tédio só...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de fevereiro de 2010].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mais um das "boas" intenções que continuam a encher o inferno

A Biblioteca Mário de Andrade, no próximo dia 26 de fevereiro, celebrará seus 85 anos de existência.
Ela não nasceu, evidentemente com este nome, nem no local onde atualmente se encontra. Na sua certidão de nascimento, de 25 de fevereiro de 1925, constava o nome Bibliotheca Municipal de São Paulo. Mas o seu batismo só se daria no ano seguinte, num casarão da Rua Sete de Abril, que abrigou os 15 mil volumes de seu acervo inicial. Na sua crisma, com meros dezessete aninhos, ela muda de endereço, o que até hoje ocupa, na Rua da Consolação, 94, no coração da Praça Dom José Gaspar. E no ano seguinte, atingida sua maioridade, alterou o seu nome: passou-se a chamar, deste então, Biblioteca Mário de Andrade, numa justa homenagem àquele grande escritor e intelectual paulista.
Quanto à sua importância cultural, basta que nos remetamos a dois únicos aspectos, dentre os muitos que poderíamos mencionar. Em primeiro lugar, ela, durante a gestão de Sérgio Milliet – cujas credenciais artísticas, literárias e intelectuais, muito resumidas aos seus dados essenciais, não caberiam nesta lauda e meia – abrigou a primeira coleção de arte moderna do país, muito antes da fundação do MASP, do MAM e do MAC. E era tão estupenda que quase tudo o que compõe a seção moderna da Pinacoteca Municipal saiu de lá. Dali veio o embrião daquela que é conhecida como uma das melhores recolhas do gênero em nosso país.
Em segundo lugar, há que se destacar a monumentalidade de seu acervo. Ele conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos, e uma significativa parte dele formado por livros raríssimos, além de manuscritos, gravuras, mapas, obras que remontam ao século XV. No Brasil, só é menor do que a Biblioteca Nacional, mas, convenhamos, não devemos nos envergonhar nem um pouco da nossa, como veremos. Pois se a Nacional é de 1810 (ou seja, 115 anos mais velha que a de São Paulo, tempo de sobra para ser maior), e tem 8 milhões de peças em seu acervo (nem três vezes o que possuímos), se foi, e ainda é, bancada com recursos da União (antes Império e antes ainda Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), e, beneficia-se de uma lei que manda que de todo livro impresso nestas plagas sejam enviados alguns exemplares para ela, louve-se o fato de que a de São Paulo foi construída e abastecida com dinheiro paulista e não contou com uma igual norma jurídica tão camarada. E, verdade seja dita, dentre as oito milhões de peças da Nacional, muitas são obras jamais publicadas: manuscritos inéditos e contemporâneos, ali registrados para salvaguarda de direitos autorais. Dizem que até as cadeiras e mesas entram nesta milionária relação de objetos...
Acima mencionamos o fato de que a coleção da Biblioteca Mário de Andrade “conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos”. Não se interprete disto que minha intenção era dizer “conta atualmente com 3 milhões e tantos títulos”. Poderia dar a impressão que este acervo tem recebido constantes acréscimos, o que não ocorre. Pois a instituição, mal administrada há seguramente duas décadas, sequer conta, atualmente, com uma política de aquisição. Sem falar na deterioração de suas instalações, nas máquinas de xerox quebradas, e até na precariedade da vigilância: em 2006, durante a gestão municipal do bem-afortunado Chirico, então responsável por ela, ocorreu um furto quase imensurável de obras raras, tal o descaso com sua segurança. E seu herdeiro polítco, nada mais fez por aquele monumento ao saber: a Biblioteca Mário de Andrade, há meses, está com suas portas fechadas, pelos riscos que podem vitimar a própria saúde dos visitantes e funcionários.
Por tudo o que foi exposto, é de espantar, de pasmar, que ao invés de se garantir um espaço de excelência e tradição como aquele, gaste-se dinheiro público na construção desta nova excentricidade, deste novo shopping cultural (esses tucanos são chegados num shopping, o que revela muita, muita coisa...), que é a tal Biblioteca de São Paulo, no tal Parque da Juventude, sobre as ruínas (mal-assombradas, diziam) do Presídio do Carandiru.
O nome, à primeira vista, é bonito, ainda que eu não dê dois anos até que mude para Biblioteca de São Paulo “Ruth Cardoso”, ou outro nome da intelligentsia tucana. E o local até que é interessante. Aquelas plagas são bem merecedoras de cultura. Mas de metrô, em meia-hora, chega-se à Biblioteca Mário de Andrade, de qualquer estação da cidade (o entroncamento da Sé está ali, bem pertinho, unindo Leste a Oeste, Norte a Sul). Logo, do ponto de vista logístico, geográfico, parece mais um engano: ou talvez um afago ao moradores da Zona Norte, ao invés de um comodidade à população como um todo. E quanto ao acervo, que mesquinhez! Trinta mil livros? Só o dobro do que a Bibliotheca Municipal contava em 1925! Que vergonha! E o modelo de aquisição, então? Orgulham-se de que tudo que for publicado nos gêneros mais diversos (leia-se: bestsellers) estará em poucos semanas na prateleira. Pois a orientação da biblioteca não se deve aos intelectuais, jactanciam-se, mas ao interesse do público. Porém, é claro, por traz de tudo isto está o Poder Executivo Estadual, indisfarçavelmente, a definir o interesse do público.Somando-se a estas vergonhas, há mais uma que é deixar que os fundos para a construção de algo novo, que ainda não sabemos se é necessário, tenham deixado de ir para algo velho, que no entanto é indispensável. De modo que o bem-aventurado Chirico, eterno candidato a alguma coisa, na sua ênfase em destacar seu zêlo e vontade, fez-me recordar uma antiga história por conta deste episódio todo.
Quando Alexandria, sede da famosa Biblioteca, foi conquistada pelo general Amr ibn-al As (c.583-664), este determinou que os livros daquela riquíssima coleção fossem utilizados como combustível nas caldeiras que aqueciam os banhos públicos (o correspondente moderno, em épocas de eleição, a não gastar dinheiro com obras de outros governos e, no lugar disso, satisfazer pontualmente algum anseio). Os defensores de tão inestimável acervo tentaram convencer o conquistador a não fazer aquilo, a não destruir o legado de séculos de tantas civilizações. O general, mero vassalo do Califa Omar (634-644), submeteu a este, então, aqueles argumentos. E a resposta daquele potentado oriental foi mais ou menos a seguinte: “os livros contrários ao Corão, devem ser destruídos, porque são heréticos. Já os que concordam com o Corão, não servem para nada, porque são repetitivos. Queime todos, então”.
Numa tradução paulista contemporânea, leia-se: “que pereça tudo o que veio antes de mim, e a casa que o conserva. Que se leia aquilo que eu acho bom, no palácio que edifiquei”. Ah, diga-se de passagem, uma coisa de que me esqueci: Omar também criou uma madrassa, uma casa de estudos voltada exclusivamente à leitura do Corão.
Que voltas que o mundo dá... Por esta, a boa gente de Piratininga não contava!

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de fevereiro de 2010].

Feixes amarrados por panos

Há pouco mais de vinte anos, estava com uns amigos num bar quando entrou um rapaz, conhecido de um deles. Trocaram algumas palavras e o sujeito se foi. O que ficou conosco disse mais tarde que o jovem em questão era modelo. Perguntei: modelo de quê? De coragem, de honestidade, de princípios? Não, modelo fotográfico, respondeu nosso amigo. Para nós, aquilo era algo ainda um tanto raro, um homem, naqueles dias, viver exclusivamente de tal profissão.
Os tempos passaram, e o que enriquecia apenas uma meia dúzia de rostos conhecidos, sendo um mero ganha-pão para algumas centenas de anônimos, tornou-se um mercado milionário, midiático, transnacional.
Dizia-se, há não muito tempo, que um rapaz que beirasse o limiar da inteligência meramente normal, que fosse totalmente ignorante, além de miserável de dar dó, ainda assim poderia ter sonhos quanto ao futuro: bastaria que fosse hábil nalgum esporte. E a história nos demonstra esta assertiva. Mas, reconhecíamos, por mais ínfimas que fossem suas qualidades e condições, algo dependia inteiramente de sua própria habilidade, ou talento, fossem nos pés ou nas mãos. Algo que ele aprendera a desenvolver, ou seja, adquirido. Fruto do seu esforço e prática.
O mesmo, entretanto, não pode ser dito quanto ao que se espera de um modelo fotográfico, independente do sexo a que pertença. Pois, convenhamos, noventa por cento do que é um desses seres, ele o deve à natureza, que lhe dotou de um aspecto agradável, de uma altura apropriada, de uma estrutura física conveniente. Os outros cinco por cento, entram na conta graças ao trabalho de maquiadores que corrigem imperfeições comuns, cabeleireiros que lhes domam as madeixas, estilistas que lhes cobrem a magreza, fotógrafos que lhes descobrem os melhores ângulos, agentes que conseguem fazer com que sejam vistos. E o que se espera dos modelos? Os cinco por cento finais: que andem eretos, que balbuciem alguma coisa na língua pátria e numa outra estrangeira, e que mantenham a forma física.
Ora, exigir que um mamífero bípede ande ereto não é nada tão dificultoso. O australopiteco, um nosso remoto ancestral, já o fazia, há quase quatro milhões de anos (ou entre oito mil e quatro mil anos atrás, segundo os criacionistas e, no lugar do australopiteco, leia-se Adão). Que se manifeste, ainda que de forma não muito brilhante, na sua própria língua e numa outra, já era possível muito antes dos caçadores do Paleolítico (ou os descendentes de Caim e Sete, segundo aquela teoria). E o mesmo pode ser dito quanto à manutenção de uma forma física que fosse conveniente: ágil e forte para os já mencionados caçadores, graciosas e aptas para a fecundação e geração, para as suas consortes trogloditas. Mas nesta última questão, um determinante se impunha, para além dos valores, por assim dizer, estéticos: a saúde do homem e da mulher, para caçar, lutar, conceber e criar a prole.
Estes conceitos iniciais estão presentes durante todo o curso das civilizações, quer ocidentais, quer orientais. Vejam-se os modelos de fertilidade feminina das eras mais recuadas (as imensas Vênus monolíticas, sendo a de Willendorf talvez a mais conhecida), passando por umas tantas figuras homéricas, pelas matronas romanas, pela idéia de saúde que vai da Idade Média até inícios do século XX. Uma certa opulência de carnes, foi sempre o modelo, a constante. Não a magreza, salvo em raríssimos episódios (no ascetismo-idealismo medieval, no Neoclassicismo e no Romantismo), e mesmo quando as mulheres estabeleceram como padrão as finíssimas cinturas estranguladas por espartilhos, as ancas e os seios eram realçados, valorizados em suas pujanças naturais ou até fabricados, por meio de decotes apropriados para tal, enchimentos de roupas, anquinhas. E o mesmo vale para os homens. Devem ser fortes, viris, sanguíneos quais um touro e, como este, podendo até mesmo ser até corpulentos, um pouco gordos (vejam-se as milhares de imagens de Hércules produzidas ao logo dos séculos).
Felizmente não vivemos mais naqueles tempos. Pode-se ser magro e saudável hoje em dia, sem que uma característica exclua a outra. E, sob muitos aspectos, é até desejável tal silhueta. O que não é mais possível é este culto à magreza quase doentia que se exige das modelos fotográficas. Como é que podem considerar belo um feixe de ossos sacolejantes no alto de uma passarela?
E não adiante dizer que as moças que se entregam a estas exigências tem uma clara percepção do que fazem com seus corpos. Pois não têm. A Lei, aliás, sabe disso. Daí serem considerados incapazes os adolescentes e pré-adolescentes: pois eles costumam ir no vai-da-valsa, umas copiando as outras, ou sob a obediência de pais ávidos por fama, beleza e dinheiro que eles próprios nunca tiveram ou fizeram por merecer.
Que um bando de rufiões travestidos de pais e um magote de jovens cuja inteligência ainda não foi completamente formada sucumbam a tais premissas, ainda que seja detestável é, por outro lado, compreensível. O que surpreende é que a tal indústria da moda não só tolere, mas incentive isto.
Pois uma coisa que ninguém ainda explicou é como algumas moças magríssimas podem ser modelo de alguma coisa, qualquer coisa, quando se sabe que a população mundial vem engordando, constantemente. Indústria pressupõe produção em série, para o maior número de pessoas possíveis, não para uma minoria esquelética. E quem se reconhece naqueles feixes de ossos amarrados por panos? E quem, efetivamente, acha aquilo bonito?
Modelos se sucedem à cada temporada. Sua vida útil é curtíssima. E logo são esquecidas. Mas sempre nos lembramos de belas atrizes, por exemplo. Anos e anos depois de suas passagens. E elas nunca têm as mesmas medidas das modelos profissionais. Por quê? Porque beleza é, também, proporção, que se mede em dimensões e volumes. Características que faltam nos tais modelos, compostas de uma sobreposição de retas e planos, sem densidade. Sem massa. Como pode haver beleza nisto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de fevereiro de 2010].