sábado, 15 de janeiro de 2011
Reflexão num dia de chuva
[Texto publicado em 15 de janeiro de 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento.
Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers. EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da Jihad contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, saca seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Papai Noel subiu no telhado...
Por iniciativa de uma entidade assistencial ligada à Confederação dos Bispos da Alemanha, foi criada uma campanha intitulada “Zona livre de Papai Noel”. Seu objetivo é o de resgatar São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), no século IV, que, por ajudar as pessoas pobres e ser um amigo das crianças, serviu de inspiração para o símbolo do Natal. E a causa do resgate de seu culto relacionado a tal data é bem simples: porque este santo sempre foi o símbolo da celebração natalina naquele país (ao lado do Presépio, é claro, o primeiro e mais importante) e porque se pretende combater o “consumismo” nas festas de fim de ano, identificado com o “Bom Velhinho”. A pequena cidade alemã de Fluorn-Winzeln aderiu ao apelo da campanha e declarou seu território, portanto, uma “Zona livre de Papai Noel”: as escolas e os comerciantes retiraram as decorações relativas ao recém-banido Noel, e colaram, nas vitrines e muros da região, adesivos com um sinal de “proibido”. E cartazes com o rosto do personagem atravessado por uma faixa vermelha, semelhante às placas de trânsito de “proibido estacionar” podem ser vistos no interior de lojas, repartições públicas e junto à sinalização que marca as entradas do município. Especula-se que outras municipalidades irão aderir ao movimento.
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:
“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.
É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:
“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.
É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].
A Mais delicada pessoa que conheci
“Voialtri pochi che drizzaste il collo
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.
Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.
Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].
Luz e sombra no Rio de Janeiro
Os últimos episódios ocorridos no Rio de Janeiro, ainda que saudados com entusiasmo pela imprensa, e necessários, frisemos, acabam por expor uma série de mitos à luz da verdade e, quais figuras de cera, não resistiram ao calor dos acontecimentos.
A primeira certeza que se dissipou do manto de escuridão que a envolvia foi a da pretensa organização do crime organizado. Não ponho em questão o quanto aquele se mostra bem preparado na corrupção de autoridades civis e militares em prol de seus negócios. Nem da ampla capacidade de suprir o seu mercado, graças a um preciso gerenciamento baseado na fidelidade de seus quadros à empresa, na eficiência da logística, no aparato de segurança que protege suas transações (da chegada do produto até sua entrega) e na maneira como sabem agradar a um público sempre em expansão. Alem disso, sabem lidar muito bem com seus ativos (capitalizam seus lucros através do investimento em mercadoria e maquinário de controle, boa parte dele importado – Browning.50., Desert Eagle e AK-47), têm um persuasivo modelo de cobrança que desestimula a insolvência, quase eliminando o passivo proveniente da inadimplência e, no que diz respeito às retiradas, são bastante modestos: um barraco com banheira de hidromassagem e cama de motel longe está de um iate, de um castelo, de uma ilha particular, de uma luxuosa casa de praia ou de um apartamento de cobertura. Refiro-me à falta de organização do crime organizado na medida em que seus membros se comportaram quais baratas surpreendidas num cômodo escuro tão logo se acende a luz: correm, tresloucadas, para todos os lados, fugindo em pânico, sem esboçar qualquer comportamento de defesa ou contra-ataque.
A segunda, que emergiu da cortina de sombras que impedia sua perfeita visão, foi a de que o crime organizado não declarou guerra ao Estado do Rio de Janeiro. Comparar a ação das quadrilhas de traficantes cariocas com as da FARC (que é criminosa, mas ideologizada e com organização militar) e outras guerrilhas que tais é absurdo e mentiroso. A prova encontra-se, do ponto de vista estratégico, no fato de não terem um plano conjunto de defesa e reação, de contra-inteligência capaz de se antecipar ao ataque nem, tampouco, terem conservado uma certa parcela de apoio popular suficiente para endossar suas atitudes – o que, todavia, tiveram no passado. E do ponto de vista tático, verificou-se uma completa fragilidade em suas cadeias de comando – foi um salve-se quem puder – além da inexistência de planos de fuga ou retirada, controle do território, etc. Os traficantes do Rio não são talebãs ou terroristas iraquianos, e uma prova é que, felizmente, não se registraram baixas nas forças governamentais em razão dos tiroteios. Como, também, não há sentido algum em chamar o conjunto de operações de Guerra ao Tráfico, nem como licença poética – visto que não há poesia nenhuma em toda a coisa. Pois não se trata de uma guerra civil, a menos que interpretemos o episódio como uma guerra do Estado contra uma parcela de cidadãos – criminosos, é verdade, mas cidadãos – o que causa uma confusão infernal com cheiros de Vendéia, Contestado e Canudos.
A terceira, subtraída às trevas que a obliteravam, diz respeito à confiança que podemos ter nos órgãos públicos de segurança, estaduais e federais. Pois já se fala em descaminhos de drogas de armas por parte de policiais e militares, e de possível cooptação de membros das tropas do Exército pelo tráfico. A isto chamam “contaminação”, que querem evitar através do rodízio de oficiais e soldados nas operações. Vá lá que os mal-pagos e humilhados praças do Exército, muitos deles moradores de favelas, capitulem diante de promessas de dinheiro e de proteção (ou não agressão) às suas famílias. Mas oficiais também? Que tipo de quadros o Exército está formando hoje em dia? Aí está uma coisa para realmente ficarmos preocupados.
A quarta e última, acossada do tugúrio onde vivia, fundamenta-se num, e apenas num fato: a ocupação dos morros pelo governo do Rio de Janeiro – uma medida esperada, desejada, implorada pelo grosso da população, não digo carioca, mas nacional – só se deu em razão da proximidade de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Percebeu-se que era preciso “mostrar serviço”, passar a imagem de que o Rio é uma cidade tranquila para os turistas, e atrair capital. Só e somente só isto.
De minha parte, sempre fui favorável à recuperação, pelo Estado, de áreas carentes que se encontravam à mercê dos criminosos. Minha objeção à certa glamourização das favelas, bem como a certas intervenções urbanísticas cosméticas, criticadas por certos grupos, baseava-se num ponto bem concreto: urbanizá-las não seria sinônimo de abrir ruas para a passagem de camburões e caveirões, mas de ambulâncias, entregadores de serviços, vans e ônibus escolares, e, também, veículos de patrulha comunitária, como se tem nos bairros melhores. Endosso ainda que manifesto o meu mais profundo respeito e solidariedade aos policiais e tropas militares envolvidas nestas operações. Estes, sim, são verdadeiros heróis. E é meu desejo que se desincumbam de tal tarefa da melhor maneira possível para eles e para a sociedade. Mas é lastimável que um clamor popular e nacional de décadas – a presença do Estado nos morros cariocas – só seja possível quando se quer fazer alguma coisa para turista ver. E vir.
A luz que banha a Baía da Guanabara é muito intensa. E parece brilhar um pouco mais nestes dias. Parece. Pois é a luz que projeta a sombra. Veremos o que delas, e graças a elas, surgirão.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de dezembro de 2010].
A primeira certeza que se dissipou do manto de escuridão que a envolvia foi a da pretensa organização do crime organizado. Não ponho em questão o quanto aquele se mostra bem preparado na corrupção de autoridades civis e militares em prol de seus negócios. Nem da ampla capacidade de suprir o seu mercado, graças a um preciso gerenciamento baseado na fidelidade de seus quadros à empresa, na eficiência da logística, no aparato de segurança que protege suas transações (da chegada do produto até sua entrega) e na maneira como sabem agradar a um público sempre em expansão. Alem disso, sabem lidar muito bem com seus ativos (capitalizam seus lucros através do investimento em mercadoria e maquinário de controle, boa parte dele importado – Browning.50., Desert Eagle e AK-47), têm um persuasivo modelo de cobrança que desestimula a insolvência, quase eliminando o passivo proveniente da inadimplência e, no que diz respeito às retiradas, são bastante modestos: um barraco com banheira de hidromassagem e cama de motel longe está de um iate, de um castelo, de uma ilha particular, de uma luxuosa casa de praia ou de um apartamento de cobertura. Refiro-me à falta de organização do crime organizado na medida em que seus membros se comportaram quais baratas surpreendidas num cômodo escuro tão logo se acende a luz: correm, tresloucadas, para todos os lados, fugindo em pânico, sem esboçar qualquer comportamento de defesa ou contra-ataque.
A segunda, que emergiu da cortina de sombras que impedia sua perfeita visão, foi a de que o crime organizado não declarou guerra ao Estado do Rio de Janeiro. Comparar a ação das quadrilhas de traficantes cariocas com as da FARC (que é criminosa, mas ideologizada e com organização militar) e outras guerrilhas que tais é absurdo e mentiroso. A prova encontra-se, do ponto de vista estratégico, no fato de não terem um plano conjunto de defesa e reação, de contra-inteligência capaz de se antecipar ao ataque nem, tampouco, terem conservado uma certa parcela de apoio popular suficiente para endossar suas atitudes – o que, todavia, tiveram no passado. E do ponto de vista tático, verificou-se uma completa fragilidade em suas cadeias de comando – foi um salve-se quem puder – além da inexistência de planos de fuga ou retirada, controle do território, etc. Os traficantes do Rio não são talebãs ou terroristas iraquianos, e uma prova é que, felizmente, não se registraram baixas nas forças governamentais em razão dos tiroteios. Como, também, não há sentido algum em chamar o conjunto de operações de Guerra ao Tráfico, nem como licença poética – visto que não há poesia nenhuma em toda a coisa. Pois não se trata de uma guerra civil, a menos que interpretemos o episódio como uma guerra do Estado contra uma parcela de cidadãos – criminosos, é verdade, mas cidadãos – o que causa uma confusão infernal com cheiros de Vendéia, Contestado e Canudos.
A terceira, subtraída às trevas que a obliteravam, diz respeito à confiança que podemos ter nos órgãos públicos de segurança, estaduais e federais. Pois já se fala em descaminhos de drogas de armas por parte de policiais e militares, e de possível cooptação de membros das tropas do Exército pelo tráfico. A isto chamam “contaminação”, que querem evitar através do rodízio de oficiais e soldados nas operações. Vá lá que os mal-pagos e humilhados praças do Exército, muitos deles moradores de favelas, capitulem diante de promessas de dinheiro e de proteção (ou não agressão) às suas famílias. Mas oficiais também? Que tipo de quadros o Exército está formando hoje em dia? Aí está uma coisa para realmente ficarmos preocupados.
A quarta e última, acossada do tugúrio onde vivia, fundamenta-se num, e apenas num fato: a ocupação dos morros pelo governo do Rio de Janeiro – uma medida esperada, desejada, implorada pelo grosso da população, não digo carioca, mas nacional – só se deu em razão da proximidade de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Percebeu-se que era preciso “mostrar serviço”, passar a imagem de que o Rio é uma cidade tranquila para os turistas, e atrair capital. Só e somente só isto.
De minha parte, sempre fui favorável à recuperação, pelo Estado, de áreas carentes que se encontravam à mercê dos criminosos. Minha objeção à certa glamourização das favelas, bem como a certas intervenções urbanísticas cosméticas, criticadas por certos grupos, baseava-se num ponto bem concreto: urbanizá-las não seria sinônimo de abrir ruas para a passagem de camburões e caveirões, mas de ambulâncias, entregadores de serviços, vans e ônibus escolares, e, também, veículos de patrulha comunitária, como se tem nos bairros melhores. Endosso ainda que manifesto o meu mais profundo respeito e solidariedade aos policiais e tropas militares envolvidas nestas operações. Estes, sim, são verdadeiros heróis. E é meu desejo que se desincumbam de tal tarefa da melhor maneira possível para eles e para a sociedade. Mas é lastimável que um clamor popular e nacional de décadas – a presença do Estado nos morros cariocas – só seja possível quando se quer fazer alguma coisa para turista ver. E vir.
A luz que banha a Baía da Guanabara é muito intensa. E parece brilhar um pouco mais nestes dias. Parece. Pois é a luz que projeta a sombra. Veremos o que delas, e graças a elas, surgirão.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de dezembro de 2010].
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O Capitão de Köpenick, o Capitão de Tatuí e o micropoder
Friedrich Wilhelm Voigt (1849-1922) foi um sapateiro alemão que se tornou uma celebridade mundial não graças à sua profissão, mas por uma grande trapaça que perpetrou na cidade de Köpenick, Prússia, Alemanha, no dia 16 de outubro de 1906.
Voigt era um ladrão e um falsário que passou cerca de 42 anos de sua vida na prisão – entre 1864 e 1891, e, após alguns meses livres, voltou ao cárcere e lá ficou até 1906. Ou seja, esteve preso dos quinze aos cinquenta e sete anos de idade, tempo demais para um simples punguista. É de se imaginar os horrores que passou por lá: um adolescente na entrada, um velho na saída. Finalmente, posto em liberdade, teve uma brilhante ideia, inspirada pela sociedade de seu tempo. Voigt percebeu que a Prússia onde vivia era extremamente disciplinada e obediente, sobretudo às autoridades fardadas. E o que fez ele então? Comprou, em diversas lojas, peças usadas de um uniforme de capitão, vestiu-se com elas, e fingiu ser um oficial do exército. Tornado capitão por sua própria vontade, dirigiu-se a um quartel de Hamburgo, onde vivia, e convocou quatro soldados e um sargento para segui-lo, o que fizeram, acostumados que eram a obedecer a seus superiores sem questionamentos. Depois, arrumou mais outros seis praças, embarcou com o grupo num trem para a cidade de Köpenick, e lá ocuparam a prefeitura local. Voigt deu ordem para que sua tropa vigiasse todas as saídas do prédio, e, à polícia da cidade – que também o obedeceu – de que cuidasse da lei e da ordem e que não permitisse que fosse enviado, da agência de correios dali, nenhum telegrama para a capital, Berlim. Então, deu voz de prisão ao prefeito e ao tesoureiro municipal, supostamente por fraude na arrecadação, e confiscou a soma de 4.002 marcos e 37 pfennigs (centavos de marco). Por fim, ordenou a alguns soldados que levassem as autoridades presas para serem interrogadas em Berlim, e aos outros que mantivessem a guarda do prédio por meia hora, ao fim da qual deveriam regressar a Hamburgo. Por sua vez, Voigt, ou melhor, o Capitão de Köpenick, livrou-se da farda e fugiu.
Descoberto o episódio pelas autoridades e pela imprensa, tudo se converteu num escândalo. Caçaram o homem e o prenderam, mas a opinião pública já estava do seu lado. E até mesmo o monarca alemão, o Kaiser Guilherme II, que o perdoou e o libertou dois anos depois. Para o próprio imperador, tudo não passara de uma divertida aventura. E assim Voigt se transformou numa celebridade mundial, a ponto de vender fotografias suas autografadas, apresentar-se em espetáculos e dar palestras, até mesmo na Canadá, nas quais contava sua pilhéria pregada contra o excesso de obediência às autoridades que permeava o seu país. E chegou a publicar um livro a este respeito. Morreu pobre, por conta da inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e distante de seu lar, se é que teve algum: seus olhos se fecharam, definitivamente, no Grão-Ducado de Luxemburgo. Mas sua fama perduraria. Tornou-se o tema de uma peça teatral em 1931, e de vários filmes. Não é preciso dizer que a imprensa britânica da época – Grã-Bretanha e Alemanha viviam uma espécie de Guerra Fria à época da peripécia de Voigt – exultou com todo o episódio. Ele nada mais era do que um exemplo cabal do que o excesso de obediência, combinado ao militarismo, poderia causar. Uma situação que, em termos mais recentes, poderíamos chamar de o efeito de um micropoder (termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault) numa sociedade reverente e muda frente ao poder real: o mesmo fenômeno que faz com que um guarda de trânsito se comporte como um general de brigada frente a um cidadão que, digamos, estacionou seu carro na faixa amarela da calçada.
Mas deixemos a Prússia e voltemos às nossas terras. Mais especificamente a Tatuí, SP, onde o comandante do Corpo de Bombeiros local, Capitão José Natalino de Camargo, mandou retirar todos os crucifixos e imagens de santos católicos das unidades sob seu comando, visto que para ele imagens e crucifixos fazem “apologia” da religião católica e contribuem para a “manutenção da falsa crença de que aquela religião seria a única detentora da benesse estatal [sic]”. E, para tal, invocou ainda a Constituição Federal que, de fato, dispõe que Estado brasileiro é laico, mas, segundo seu entendimento, a exibição dos símbolos religiosos seria, portanto, ilegal e inconstitucional. E a comunicação foi repassada às unidades e postos dos bombeiros sob o comando do Grupamento de Tatuí, com ordem para cumprimento imediato.
Frise-se que a Câmara Municipal tatuiense, em moção aprovada por unanimidade, considerou que o militar usou termos desrespeitosos ao se referir aos símbolos católicos. “O ato é arbitrário, com expressões equivocadas, desrespeitosas e imprudentes sobre a religião católica, refletindo total falta de sensibilidade” e que a ordem de serviço fere o livre direito de professar a fé, também defendido pela Constituição”, diz a nota oficial daquela casa legislativa, que repudia a ação do Capitão de Köpenick, perdão, do Capitão de Tatuí. Este, ao que parece, é menos um defensor de um Estado laico, na forma da lei, e mais, é de se supor, um aguerrido militante de alguma igreja ou seita daquelas que combatem os crucifixos e imagens que os quinhentos anos de costume católico no país permitiram que fossem aceitos e reverenciados pela população e pela cultura pátria.
Em suma, trata-se de um puro exercício de seu micropoder que, para o Capitão de Köpenick, perdão, de Tatuí (que, acreditamos, está a léguas de distância, do ponto de vista moral, de Friedrich Voigt: pois este, é um tratante divertido; aquele, um militante empedernido, mas, acreditamos, honestíssimo servidor público) – é maior do que o do Executivo, Legislativo e Judiciário juntos, e comparável somente aos dos chefes de Estado que baniram símbolos religiosos de prédios públicos ao longo do mundo. Maior que Sarkozy é o Capitão de Tatuí!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de novembro de 2010].
Voigt era um ladrão e um falsário que passou cerca de 42 anos de sua vida na prisão – entre 1864 e 1891, e, após alguns meses livres, voltou ao cárcere e lá ficou até 1906. Ou seja, esteve preso dos quinze aos cinquenta e sete anos de idade, tempo demais para um simples punguista. É de se imaginar os horrores que passou por lá: um adolescente na entrada, um velho na saída. Finalmente, posto em liberdade, teve uma brilhante ideia, inspirada pela sociedade de seu tempo. Voigt percebeu que a Prússia onde vivia era extremamente disciplinada e obediente, sobretudo às autoridades fardadas. E o que fez ele então? Comprou, em diversas lojas, peças usadas de um uniforme de capitão, vestiu-se com elas, e fingiu ser um oficial do exército. Tornado capitão por sua própria vontade, dirigiu-se a um quartel de Hamburgo, onde vivia, e convocou quatro soldados e um sargento para segui-lo, o que fizeram, acostumados que eram a obedecer a seus superiores sem questionamentos. Depois, arrumou mais outros seis praças, embarcou com o grupo num trem para a cidade de Köpenick, e lá ocuparam a prefeitura local. Voigt deu ordem para que sua tropa vigiasse todas as saídas do prédio, e, à polícia da cidade – que também o obedeceu – de que cuidasse da lei e da ordem e que não permitisse que fosse enviado, da agência de correios dali, nenhum telegrama para a capital, Berlim. Então, deu voz de prisão ao prefeito e ao tesoureiro municipal, supostamente por fraude na arrecadação, e confiscou a soma de 4.002 marcos e 37 pfennigs (centavos de marco). Por fim, ordenou a alguns soldados que levassem as autoridades presas para serem interrogadas em Berlim, e aos outros que mantivessem a guarda do prédio por meia hora, ao fim da qual deveriam regressar a Hamburgo. Por sua vez, Voigt, ou melhor, o Capitão de Köpenick, livrou-se da farda e fugiu.
Descoberto o episódio pelas autoridades e pela imprensa, tudo se converteu num escândalo. Caçaram o homem e o prenderam, mas a opinião pública já estava do seu lado. E até mesmo o monarca alemão, o Kaiser Guilherme II, que o perdoou e o libertou dois anos depois. Para o próprio imperador, tudo não passara de uma divertida aventura. E assim Voigt se transformou numa celebridade mundial, a ponto de vender fotografias suas autografadas, apresentar-se em espetáculos e dar palestras, até mesmo na Canadá, nas quais contava sua pilhéria pregada contra o excesso de obediência às autoridades que permeava o seu país. E chegou a publicar um livro a este respeito. Morreu pobre, por conta da inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e distante de seu lar, se é que teve algum: seus olhos se fecharam, definitivamente, no Grão-Ducado de Luxemburgo. Mas sua fama perduraria. Tornou-se o tema de uma peça teatral em 1931, e de vários filmes. Não é preciso dizer que a imprensa britânica da época – Grã-Bretanha e Alemanha viviam uma espécie de Guerra Fria à época da peripécia de Voigt – exultou com todo o episódio. Ele nada mais era do que um exemplo cabal do que o excesso de obediência, combinado ao militarismo, poderia causar. Uma situação que, em termos mais recentes, poderíamos chamar de o efeito de um micropoder (termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault) numa sociedade reverente e muda frente ao poder real: o mesmo fenômeno que faz com que um guarda de trânsito se comporte como um general de brigada frente a um cidadão que, digamos, estacionou seu carro na faixa amarela da calçada.
Mas deixemos a Prússia e voltemos às nossas terras. Mais especificamente a Tatuí, SP, onde o comandante do Corpo de Bombeiros local, Capitão José Natalino de Camargo, mandou retirar todos os crucifixos e imagens de santos católicos das unidades sob seu comando, visto que para ele imagens e crucifixos fazem “apologia” da religião católica e contribuem para a “manutenção da falsa crença de que aquela religião seria a única detentora da benesse estatal [sic]”. E, para tal, invocou ainda a Constituição Federal que, de fato, dispõe que Estado brasileiro é laico, mas, segundo seu entendimento, a exibição dos símbolos religiosos seria, portanto, ilegal e inconstitucional. E a comunicação foi repassada às unidades e postos dos bombeiros sob o comando do Grupamento de Tatuí, com ordem para cumprimento imediato.
Frise-se que a Câmara Municipal tatuiense, em moção aprovada por unanimidade, considerou que o militar usou termos desrespeitosos ao se referir aos símbolos católicos. “O ato é arbitrário, com expressões equivocadas, desrespeitosas e imprudentes sobre a religião católica, refletindo total falta de sensibilidade” e que a ordem de serviço fere o livre direito de professar a fé, também defendido pela Constituição”, diz a nota oficial daquela casa legislativa, que repudia a ação do Capitão de Köpenick, perdão, do Capitão de Tatuí. Este, ao que parece, é menos um defensor de um Estado laico, na forma da lei, e mais, é de se supor, um aguerrido militante de alguma igreja ou seita daquelas que combatem os crucifixos e imagens que os quinhentos anos de costume católico no país permitiram que fossem aceitos e reverenciados pela população e pela cultura pátria.
Em suma, trata-se de um puro exercício de seu micropoder que, para o Capitão de Köpenick, perdão, de Tatuí (que, acreditamos, está a léguas de distância, do ponto de vista moral, de Friedrich Voigt: pois este, é um tratante divertido; aquele, um militante empedernido, mas, acreditamos, honestíssimo servidor público) – é maior do que o do Executivo, Legislativo e Judiciário juntos, e comparável somente aos dos chefes de Estado que baniram símbolos religiosos de prédios públicos ao longo do mundo. Maior que Sarkozy é o Capitão de Tatuí!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de novembro de 2010].
Cerveja, publicidade e atraso
Considero, em geral, os publicitários pátrios de uma falta de sensibilidade, de gentileza e de cultura atrozes. Esses vendedores de cerveja – porque a grande comenda que gostam de exibir no peito é a de terem feito a campanha de tal ou qual marca de cerveja –, por mais que se digam ligados ao mundo, parecem que, com ele, nada aprendem. Vejamos alguns exemplos, no campo, justamente, das cervejas.
Uma cervejaria holandesa, cujo produto vem numa garrafa verde – sabem muito bem da qual se trata – fez um anúncio divertidíssimo. Nele, um grupo de mulheres, recebido na casa de uma amiga, é acolhido pela anfitriã em seu closet. Dado o espaço do mesmo, perfeito para se acomodarem roupas, sapatos, e tudo o mais, as visitas irrompem em gritos de felicidade, pasmo, êxtase, se não quase histeria, quer por inveja, quer por reconhecimento à amiga que fez por merecer tais dependências, e a qual, é de se supor, emprestaria às outras o que se conservava ali. Mas no meio de seus gritos, são interrompidas por outros, os de seus maridos ou namorados, que ecoam de um outro canto da casa – que, em sua natureza e diapasão, são idênticos aos primeiros – pelo fato do anfitrião mostrar uma câmara frigorífica, do mesmo tamanho do closet de sua senhora, mas abarrotado de garrafas da dita cerveja. Uma peça publicitária concisa, sutil, que prescinde de qualquer palavra e se torna praticamente universal. E justa: homens e mulheres são tratados da mesma maneira.
Já uma outra cervejaria belga põe a cena num vagão-bar de um trem onde um garçom esforça-se por tirar um chope perfeito, mas é impedido graças aos solavancos da composição. Tomando-se de brios, deixa o vagão e volta um pouco depois, conseguindo, finalmente, servir a bebida como deveria. E no fim vemos como ele se livrou do movimento do trem: soltando o vagão. Qual a mensagem? A cerveja é tão boa que deve ser apreciada da maneira correta: ela vale mais do que todo o resto.
E nós, somos brindados com o quê, por aqui? É curioso notar que nenhuma, absolutamente nenhuma, grande cervejaria nacional faz propaganda de seus produtos enaltecendo o sabor dos mesmos. Ou a qualidade. A ênfase recai sobre o fato da cerveja estar gelada, mas o gelo, convenhamos, não vem de fábrica. E estupidamente gelada, bebe-se, de fato, qualquer uma. No máximo fala-se que uma “desce redondo”, o que não quer dizer que é boa, só, talvez, mais bebível do que as da concorrência. Outra alega a sua tradição, feita desde fins do século XIX. Mas quem se lembra do gosto da mesma antes de ser comprada pela atual proprietária, há de concordar que, da origem, só conservou o nome. E de uma outra ainda, confesso que não compreendi a verdadeira intenção dos anúncios: querem vender cerveja ou uma loura norte-americana?
Mas a campeã de mau-gosto é a dos guerreiros. Aquela que colou, qual sanguessuga, à pífia seleção patrícia de futebol do último mundial: os tais guerreiros, que se mostraram muito mais cervejeiros e cascateiros do que tudo mais. Agora veio com uma peça em que um bando de homens sem camisa e pintados como torcedores europeus trazem letras no corpo para se transformarem numa espécie de cartaz humano. Da televisão, suas noivas, mulheres ou o que forem, interpretam a palavra como “amar”, como se a mesma fosse dita simplesmente assim, como se no modo infinitivo, e solto esse verbo significasse alguma coisa. Porém, logo depois, chega o resto do bando de homens e forma o nome da cervejaria – o que é uma tremenda bobagem, convenhamos: cores do time ou mesmo o nome dele, até que vai, mas torcedor fazendo propaganda de cerveja? Só se for paga. E o anúncio conclui com a vingança das moças frente à baldada declaração de amor: beberão toda a cerveja deles. Que pobreza de concepção! Que machismo chulo e ultrapassado! Que diferença do exemplo da cervejaria holandesa!
Com publicitários destes podemos entender o estado de mendicância das idéias neste país. E por que bebemos cervejas tão ruins.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de novembro de 2010].
Uma cervejaria holandesa, cujo produto vem numa garrafa verde – sabem muito bem da qual se trata – fez um anúncio divertidíssimo. Nele, um grupo de mulheres, recebido na casa de uma amiga, é acolhido pela anfitriã em seu closet. Dado o espaço do mesmo, perfeito para se acomodarem roupas, sapatos, e tudo o mais, as visitas irrompem em gritos de felicidade, pasmo, êxtase, se não quase histeria, quer por inveja, quer por reconhecimento à amiga que fez por merecer tais dependências, e a qual, é de se supor, emprestaria às outras o que se conservava ali. Mas no meio de seus gritos, são interrompidas por outros, os de seus maridos ou namorados, que ecoam de um outro canto da casa – que, em sua natureza e diapasão, são idênticos aos primeiros – pelo fato do anfitrião mostrar uma câmara frigorífica, do mesmo tamanho do closet de sua senhora, mas abarrotado de garrafas da dita cerveja. Uma peça publicitária concisa, sutil, que prescinde de qualquer palavra e se torna praticamente universal. E justa: homens e mulheres são tratados da mesma maneira.
Já uma outra cervejaria belga põe a cena num vagão-bar de um trem onde um garçom esforça-se por tirar um chope perfeito, mas é impedido graças aos solavancos da composição. Tomando-se de brios, deixa o vagão e volta um pouco depois, conseguindo, finalmente, servir a bebida como deveria. E no fim vemos como ele se livrou do movimento do trem: soltando o vagão. Qual a mensagem? A cerveja é tão boa que deve ser apreciada da maneira correta: ela vale mais do que todo o resto.
E nós, somos brindados com o quê, por aqui? É curioso notar que nenhuma, absolutamente nenhuma, grande cervejaria nacional faz propaganda de seus produtos enaltecendo o sabor dos mesmos. Ou a qualidade. A ênfase recai sobre o fato da cerveja estar gelada, mas o gelo, convenhamos, não vem de fábrica. E estupidamente gelada, bebe-se, de fato, qualquer uma. No máximo fala-se que uma “desce redondo”, o que não quer dizer que é boa, só, talvez, mais bebível do que as da concorrência. Outra alega a sua tradição, feita desde fins do século XIX. Mas quem se lembra do gosto da mesma antes de ser comprada pela atual proprietária, há de concordar que, da origem, só conservou o nome. E de uma outra ainda, confesso que não compreendi a verdadeira intenção dos anúncios: querem vender cerveja ou uma loura norte-americana?
Mas a campeã de mau-gosto é a dos guerreiros. Aquela que colou, qual sanguessuga, à pífia seleção patrícia de futebol do último mundial: os tais guerreiros, que se mostraram muito mais cervejeiros e cascateiros do que tudo mais. Agora veio com uma peça em que um bando de homens sem camisa e pintados como torcedores europeus trazem letras no corpo para se transformarem numa espécie de cartaz humano. Da televisão, suas noivas, mulheres ou o que forem, interpretam a palavra como “amar”, como se a mesma fosse dita simplesmente assim, como se no modo infinitivo, e solto esse verbo significasse alguma coisa. Porém, logo depois, chega o resto do bando de homens e forma o nome da cervejaria – o que é uma tremenda bobagem, convenhamos: cores do time ou mesmo o nome dele, até que vai, mas torcedor fazendo propaganda de cerveja? Só se for paga. E o anúncio conclui com a vingança das moças frente à baldada declaração de amor: beberão toda a cerveja deles. Que pobreza de concepção! Que machismo chulo e ultrapassado! Que diferença do exemplo da cervejaria holandesa!
Com publicitários destes podemos entender o estado de mendicância das idéias neste país. E por que bebemos cervejas tão ruins.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de novembro de 2010].
O Fim da baixaria e o triunfo do novo
Eis que finalmente terminou uma das mais sórdidas campanhas políticas da história do Brasil. E concluiu-se da melhor maneira possível: com a vitória da candidata que foi vítima de calúnias, mentiras, boatos maliciosos, além de virulentos e torpemente fantasiosos ataques pela imprensa e pela internet.
Os neo-reacionários não pouparam seus esforços no bombardeio à candidata do governo. Gente que se orgulhava do seu livre-pensamento, correu para agarrar santinhos, beijar imagens sacras e mãos de bispos, levando-os para o seu lado, de cambulhada. Antes orgulhosamente ateus em seus salões sofisticados – ou nem tanto – regozijaram-se quando até o Papa pareceu dizer algo contra a, enfim, vencedora do pleito. Até o Papa, considerado excessivamente conservador por uma imensa parte de seu rebanho, passou a ser um modelo de opinião a ser seguido pelos auto-intitulados bem-pensantes, os mesmos que, publicamente pouco antes, consideravam-no uma fera da ortodoxia. Ou simplesmente o ignoravam, envolvendo-o nos fumos de um marxismo do qual comungaram no passado, segundo o qual, aliás, o sumo-pontífice só tem alguma coisa a dizer aos seus prosélitos, não à imensa massa das gentes. Afinal, “quantas divisões militares tem o Papa?”.
Se o novo governo que assumirá em 1º de janeiro de 2011 será bom, só o tempo dirá. Os indícios de que poderá ser, são muitos e auspiciosos. Pôs-se, de fato, um quadro técnico na Presidência, em lugar de um político que posava de técnico, seu adversário, e em sucessão a quem não era nada técnico, só político. O que já é um grande avanço. Além disso, não teremos a quebra definitiva da cadeia de comando, nem a suspensão dos programas de governo que têm dado tão certo para milhões de pessoas neste país. Ficam faltando só alguns ajustes e abre-se espaço para mais inovações. E, cá entre nós, por quantas inovações esperamos! Com uma, pelo menos, já contamos: uma mulher governando 190 milhões de habitantes de um país que é o quinto em tamanho no Mundo e cuja economia encontra-se entre as 20 maiores, é algo francamente inédito. E interessantíssimo de se observar.
Ficam aqui, portanto, meus sinceros votos pelo sucesso da Presidente eleita, desejando-lhe que melhore ainda mais um país que, finalmente, parece ter tomado um rumo certo. Além de minha ampla gratidão por ter tirado do cenário político nacional, por pelo menos quatro anos, alguém de tão triste carantonha, que tinha urucubaca, ainda que posasse de santarrão, além de mau-humor e falta de espírito esportivo. Além de muito frágil, física e psicologicamente, como se viu pelos danos causados por uma bolota de papel lançada em sua calva. Não, o lugar de um homem destes não é o Palácio da Alvorada, nem mesmo o dos Bandeirantes: é, sim, uma bolha de plástico asséptica numa clínica de saúde ou uma estufa climatizada. Ufa! Não ter que pensar nesta orquídea ou mata-pau da política brasileira pelos próximos quatro anos, já é um presente e tanto!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de novembro de 2010].
Os neo-reacionários não pouparam seus esforços no bombardeio à candidata do governo. Gente que se orgulhava do seu livre-pensamento, correu para agarrar santinhos, beijar imagens sacras e mãos de bispos, levando-os para o seu lado, de cambulhada. Antes orgulhosamente ateus em seus salões sofisticados – ou nem tanto – regozijaram-se quando até o Papa pareceu dizer algo contra a, enfim, vencedora do pleito. Até o Papa, considerado excessivamente conservador por uma imensa parte de seu rebanho, passou a ser um modelo de opinião a ser seguido pelos auto-intitulados bem-pensantes, os mesmos que, publicamente pouco antes, consideravam-no uma fera da ortodoxia. Ou simplesmente o ignoravam, envolvendo-o nos fumos de um marxismo do qual comungaram no passado, segundo o qual, aliás, o sumo-pontífice só tem alguma coisa a dizer aos seus prosélitos, não à imensa massa das gentes. Afinal, “quantas divisões militares tem o Papa?”.
Se o novo governo que assumirá em 1º de janeiro de 2011 será bom, só o tempo dirá. Os indícios de que poderá ser, são muitos e auspiciosos. Pôs-se, de fato, um quadro técnico na Presidência, em lugar de um político que posava de técnico, seu adversário, e em sucessão a quem não era nada técnico, só político. O que já é um grande avanço. Além disso, não teremos a quebra definitiva da cadeia de comando, nem a suspensão dos programas de governo que têm dado tão certo para milhões de pessoas neste país. Ficam faltando só alguns ajustes e abre-se espaço para mais inovações. E, cá entre nós, por quantas inovações esperamos! Com uma, pelo menos, já contamos: uma mulher governando 190 milhões de habitantes de um país que é o quinto em tamanho no Mundo e cuja economia encontra-se entre as 20 maiores, é algo francamente inédito. E interessantíssimo de se observar.
Ficam aqui, portanto, meus sinceros votos pelo sucesso da Presidente eleita, desejando-lhe que melhore ainda mais um país que, finalmente, parece ter tomado um rumo certo. Além de minha ampla gratidão por ter tirado do cenário político nacional, por pelo menos quatro anos, alguém de tão triste carantonha, que tinha urucubaca, ainda que posasse de santarrão, além de mau-humor e falta de espírito esportivo. Além de muito frágil, física e psicologicamente, como se viu pelos danos causados por uma bolota de papel lançada em sua calva. Não, o lugar de um homem destes não é o Palácio da Alvorada, nem mesmo o dos Bandeirantes: é, sim, uma bolha de plástico asséptica numa clínica de saúde ou uma estufa climatizada. Ufa! Não ter que pensar nesta orquídea ou mata-pau da política brasileira pelos próximos quatro anos, já é um presente e tanto!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de novembro de 2010].
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