quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte II – Seguindo alguns rastros literários, na falta de outros

Um dos maiores desserviços prestados pelos professores de Literatura manifesta-se quando tratam daquela meia dúzia de páginas, pouco mais ou pouco menos, da Carta de Pero Vaz de Caminha, classificada, segundo vários deles, como “certidão de batismo da terra brasileira”, ou, ainda pior, como a primeira obra literária de nosso povo. A Carta, mero relato burocrático que o foi, em seu tempo, mofou durante séculos em arquivos, por razão de sigilo de Estado, e sem que ninguém o lesse, até 1817, pelo menos. Sua relevância, digamos, literária, é menos que nada. Ninguém pensou o Brasil, durante trezentos e tantos anos, a partir daquela carta. Um único verso ou página sequer de nossa história, neste período, foi baseado em sua leitura. Todavia, pensando nela, e no registro dos primeiros habitantes deste país, é chocante verificar que em Salvador não se observa qualquer indício da presença indígena. É como se eles não existissem, no passado ou no presente. Tudo parece ser vinculado apenas e tão somente à ocupação lusitana ou à mescla afrobrasileira, com predominância da africana sobre a brasileira. Para que se tenha uma ideia, segue aqui um exemplo. Uma amiga, percussionista, encomendou-me um maracá, autêntico instrumento indígena, posteriormente incorporado a certas religiões afrodescendentes que sofreram influências, aqui, daquelas culturas autóctones. Encontrei-o, é claro, sem muita dificuldade. Dificultoso foi, no entanto, ter que ouvir do vendedor o quanto aquele objeto era de origem africana, relacionado a não sei mais qual orixá, etc, etc, etc.
Também de Castro Alves, que nomeia uma praça e um teatro e, quiçá, uma rua ou avenida, não permanecem quaisquer indícios, seja de sua pessoa ou de sua obra. E isto é, de certa maneira, até justo em relação à sua memória, ainda que tal prodígio se dê por ínvios caminhos. Pois choraria de dor o mulato poeta d’O Navio Negreiro e Vozes d’África ao ver que os negros ainda se encontram na base da pirâmide social e, quanto mais escuros, mais próximos daquela base, mais escorchados, mais infelizes e mais miseráveis.
Não se veem mais em Salvador, também, os personagens de Jorge Amado. Nem com muito esforço de imaginação enxerga-se nos raquíticos meninos viciados em crack, que nos abordam, uma pálida sombra dos “capitães da areia”. O Elevador Lacerda parece uma Galeria Prestes Maia melhorada. Não há mais coronéis, doutores e rábulas de terno branco. As baianas de turbante restringem-se às agentes de restaurantes, caçando fregueses na rua, e a uma ou outra vendedora de Acarajé, no circuito turístico. Os padres não trazem mais batinas, nem os monges, hábitos. E não avistei um único bêbado boquirroto vagando pelas ruas. Tudo é passado na obra daquele escritor, cuja casa, segundo me informaram, está à beira do desmoronamento: seus ricos herdeiros esperam verbas públicas para a restauração da mesma...
Por outro lado, Vieira e Gregório de Matos parecem nos acompanhar em cada passo, do Pelourinho à Barra, da Cidade Baixa ao Bonfim, e pelo Comércio, e para qualquer lado que se vá. De Vieira, há até resquícios, podemos dizer, físicos. Lá está ainda, ou assim é apontada, a cela onde viveu, num anexo da Catedral Metropolitana. Ou melhor, em parte do que era o antigo Colégio dos Jesuítas, por que o grosso dele se transformou na Faculdade de Medicina – que, hoje em dia, frise-se, não funciona mais ali. E a própria Catedral, que era a igreja dos Jesuítas, a esta posição só foi elevada depois que a primeira foi demolida, em 1933 (como disse anteriormente, pensa-se todo o tempo em algo ao mesmo tempo mais e menos do que uma árvore...). Mas, como dizia, indica-se, lá, a cela onde teria vivido o Padre Vieira em seus últimos anos em Salvador. Lá está um púlpito do qual, supostamente, ele teria pregado (não nos é informado de que local ele foi retirado) e a sua cadeira (de cujo uso, se particular ou público, também não há registro). Mas a força de seus sermões parece repercutir em nossa memória, seus libelos quanto à ganância, contra a opulência criminosa, contra a frieza do coração dos poderosos frente aos negros explorados, parecem nos acompanhar a cada passo.
Ao se contemplar os suntuosos prédios do Corredor da Vitória, ou do Campo Grande, frente às tétricas e miseráveis moradas da não tão distante Ladeira da Preguiça (cujo nome deveria ser Ladeira do Desconsolo), não há como não lembrar dos versos do Boca do Inferno: “Estupendas usuras nos mercados,/todos, os que não furtam, muito pobres,/ e eis aqui a cidade da Bahia”. Da mesma maneira, se alguém se quiser alijar da forçada alegria que se cobra em toda praça, e se pretender uma visão séria e crítica do todo, lá vem os versos: “Quem cá se quer meter a ser sisudo/ Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,/E é mais aperreado que um cornudo”. E por aí vai. Mas a presença física, por assim dizer, do poeta, não há. Existe uma rua Gregório de Matos, mas que ele tenha morado ali, ou que o prédio ainda se conserve, é quase impossível saber.
E por falar num Gil, lembrei de um outro mais recente, e de sua trupe, e de seus contemporâneos ou precursores. Pois é, anda-se pelas ruas de Salvador e não se escutam ecos, nem entramos no clima, das músicas de Gil, Gal, Bethânia, da família Caymmi, de João Gilberto ou dos Novos Baianos. Aquela Bahia brejeira, da meiguice e da malemolência, é coisa definitivamente do passado. Por toda a parte, é só axé e suas musas – de uma delas, aliás, aquela tão onipresente na mídia quanto um ditador comunista de outrora (vejam a crônica de 11 de junho de 2011), não há motorista de táxi que se não lhe aponte o prédio onde ela mora, como, presumo, só se faça o mesmo com a casa dos chefes de Estado. No mais, escuta-se a batucada do Olodum, ou de suas franquias, ou legiões ou coortes, que embora muito bem executada, nada tem de alegre. Pois, convenhamos, é muito mais marcial do que dobrado de banda de música e ressoa a marcha militar. A única exceção audível em tal cenário é Caetano, pelo menos aquela canção que fala que “o Haiti é aqui”. Como tema de fundo, ela é quase onipresente, sobretudo no Pelourinho e nas partes menos afortunadas...
Voltando aos assuntos sérios, no que diz respeito às belas artes, que o visitante percorra suas igrejas e museus em busca do nome do artista por trás de uma pintura, de uma escultura, do arquiteto responsável por uma grande obra do passado. Quando encontrar uma sucinta ficha catalográfica, comemore, exulte, solte rojões. Mas que não ouse sair em busca de livros a respeito, pois os que existem há muito estão fora de catálogo, remontando aos anos 1960. Não há novos estudos. Não há nada.
Os historiadores dos anos 1940 e 1950 diziam que, no tocante aos acervos documentais do período colonial lusitano, a África era um verdadeiro “cemitério de papéis”. Pois bem, neste ponto, certamente, Salvador revela-se, sem sombra de dúvida, uma fidelíssima seguidora das tradições africanas que tanto apregoa, um lugar de rica memória oral e quase nenhuma escrita, a ponto de seus antigos monumentos chegarem, pouco a pouco, a desaparecerem ante nossos olhos sem que deles se conserve, sequer, o nome.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2011].

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro

Em crônica de 19 de março passado, intitulada Pausa para reflexão, pouco depois do tsunami que atingiu o Japão e no início da chamada Primavera Árabe (que vai a cada dia mais se tornando uma espécie de Outono Persa), tratei um pouco do ditador líbio Muammar Kadafi. A grande imprensa, então, acreditava, num frenesi de oba-oba, que ele seria o próximo tirano a cair, depois de Mubarak. Mas aquele permanecia no posto, ainda que de joelhos, e que estava lá, estava. E, portanto, disse, então, que era melhor esperar para ver ou comentar alguma coisa. Vejo, sem falsa modéstia, quão acertada foi minha opinião, uma quase futurologia às avessas. Pois o homem só caiu, morto, sete meses e um dia depois da publicação de minha crônica – mas não graças a ela, evidentemente. Sábios conselhos de Roger Chartier! Que bom que os ouvi, e justamente aquele de que “o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro”!
Naquela mesma ocasião, tratei da querela quanto à grafia de seu nome, ora Gaddafi, ora Khadafi e outros tantos. Bem como seu pendor para a extravagância no vestir e no pentear. Permitam-me citar-me:

“Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano, passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo”.

Mas, vendo por outro lado, é curiosa a comparação entre ditadores, se pensarmos em seus momentos finais, ou logo depois deles. Pinochet, Mao, Stálin, Idi Amim, Bokassa, vários dos ditadores argentinos, e todos os nossos, morreram velhos, serenamente em casa, ou num luxuoso exílio. Hitler se matou e, por suas ordens expressas, queimaram seu corpo. Getúlio idem, mas seus restos foram venerados. Podem até dizer que, então, ele havia sido eleito democraticamente, o que é um fato, mas quem o pranteou, na verdade, era por saudades de sua ditadura. Saddam Hussein, capturado num aspecto que lembrava um mendigo ou um lobisomem, foi enforcado qual um cão na coleira, e dele não tivemos mais imagens. Um fim muito diferente do sofrido por Mussolini, fuzilado e depois exposto à execração pública durante vários dias, pendurado pelos pés, na Piazza Loreto em Milão.
A morte de Kadafi, e o que fizeram com seu corpo, tem algo do que se fez com Mussolini. Mas olhando bem as imagens, o que de fato me vinha a lembrança era o fim de Lampião, o rei dos cangaceiros. Os closes sobre o rosto do líbio remeteram-me diretamente aquela tétrica fotografia das cabeças de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando expostas na escadaria da igeja de Piranhas, AL, uma imagem que se encontra em todos os livros escolares e que chocam por seu horror. Pensei em expor as duas fotografias lado a lado, mas não quero chocar o leitor. Depois, mesmo facínoras merecem um pouco de respeito depois de mortos.
Que coisa, ao fim. Kadafi viveu como um ditador, poderoso lá em sua terra, que não é lá essas coisas, mas, ali, ele era o Supremo. E no entanto, no final das contas, morreu emboscado como um cangaceiro e, como tal, também vilipendiaram seu corpo. Curiosa é a roda da fortuna...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de outubro de 2011].

Os Bebês de Rosemary – Parte II

Dando prosseguimento ao inventário de capetinhas de babador e calças curtas que enxameiam pelo mundo, afirmo que observo, quase diariamente, uns casos interessantíssimos de mal comportamento infantil que beiram às raias da mais completa incivilidade, para não dizer quase bestialidade.
Vejam-se os casos de uns vizinhos meus, abaixo dos onze anos. Há alguns excelentes, simpáticos, e bem educados. Uns que, na espera do elevador, abrem a porta para mim, tratando-me por Senhor – fazer o quê? É a vida! Um dia esta hora chega... – ou perguntam qual o andar em que moro e, céleres, apertam o botão referente ao mesmo. Outros ainda que até ajudam quando trago muitas compras. Temos uma menininha no prédio, com não mais de quatro anos, que é a alegria dos moradores e dos porteiros, chegando a trazer, para estes, balas e confeitos que sobraram de sua merenda. Mas, por outro lado, temos dois irmãos, na casa dos sete e onze anos, que são simplesmente assustadores.
Confesso que, a princípio, o que mais me incomodava neles era o fato de que, embora passassem os anos, eles simplesmente pareciam não crescer. Quem assistiu ao filme Uma mente brilhante, talvez entenda do que estou falando. Ali, um matemático genial, conquanto esquizofrênico, é acometido de alucinações, dentre as quais uma menina, sobrinha de um amigo imaginário. E a chave para a sua compreensão de que vivia num mundo paralelo se dá justamente quando ele percebe que, passados os anos, a menina não crescia. Bingo! Era uma alucinação! No meu caso, a coisa parecia muito semelhante em relação àqueles petizes do prédio. Mas minha mulher também os via, o mal comportamento deles era notório na vizinhança, gerando toda sorte de comentários até entre os de suas idades e, portanto, respirei aliviado: apesar das atitudes dos meninos parecerem um pesadelo, eles, de fato existiam. Ou melhor, existem.
Pode parecer que exagero, mas observem seus hábitos. Quando entram no elevador, ignoram os demais passageiros. Voltam as costas para todos, encaram a parede, e passam a chutá-la, enquanto assobiam durante o tempo que durar a viagem. Aliás, é uma coisa engraçada, esta, a da ausência de civilidade relacionada ao uso constante dos pés para além da função natural de andar. Gente grosseira está sempre batendo os pés, chacoalhando-os quando as pernas estão cruzadas, ou chutando coisas. Na única vez em que encontrei os pequenos malignos fora do prédio, tomando um sorvete, seus pés agitavam-se como que quase num surto. E como chutam coisas: o peitoril da varanda de seu apartamento foi convertido numa rede de gol, e o ribombo das boladas de faz ouvir vários andares abaixo daquele onde moram.
Outra coisa interessante no comportamento deles é uma quase inversão dos hábitos mais comuns entre as crianças. Primeiro, acordam anormalmente cedo, enquanto dormem assustadoramente tarde. Em segundo lugar, é sabido que os infantes, em geral, gostam de repetir músicas, frases, brincadeiras até quase a exaustão. No caso deles, entretanto, observa-se o contrário. As boladas contra a grade, ainda que diárias, não ultrapassam cinco minutos. Andar de skate pela sala, o mesmo tempo. E até quando ganharam um videogame, destes que, ao invés de um console, têm uma guitarra, brindaram-nos a todos, por um dia inteiro, cantando e tocando a mesma música. Porém o mesmo brinquedo nunca mais foi utilizado.
Uma vizinha, professora do ensino fundamental, comentou, certa vez, que sentia-se impressionada com a latente falta de qualquer manifestação emotiva por parte de nossos vizinhos. Segundo ela, que, por curiosidade e hábito de ofício, acompanha a eles com atenção, nunca foi, diz, capaz de flagrar qualquer extravasamento normal ou de raiva, ou de alegria, ou de tristeza. Parecia ver sempre um eterno nada, um vazio absoluto impresso em suas caras. Mais tarde, porém, ela mudou de ideia. Uma vez assistiu a uma pequena cena entre o menor deles e a avó. Esta, fez uma brincadeira que não agradou o neto, e ele – palavras de minha vizinha – “fuzilou-a com os olhos, com um ódio cruel para além de tudo o que já vi”.
Estes problemáticos objetos de reflexão não, são, é claro, uma regra. Todavia abundam em toda parte, sobretudo em São Paulo, capital e interior. Não os vejo no Paraná, Rio, Minas ou Bahia. Temo, portanto, pelo futuro de nosso estado, sob cujo sol nasceram e foram mal educados tais monstrengos. Sim, porque são pequenos monstros no comportamento, e também na sua função, segundo o grande (Santo) Isidoro de Sevilha (560-630 d.C., evidentemente) que em suas Etimologias (Etymologiarum Libri XX), mais especificamente no livro XI), estabelece que o monstro é revelador, (sua raiz é a mesma do verbo “demonstrar” e de “montra”, ou “vitrine”) sendo, portanto, uma manifestação de algo. No caso presente, poderíamos deduzir, uma manifestação do descuido dos pais na educação dos filhos, ou ainda o surgimento de uma nova e pior índole, materialista e imediatista dos rebentos, possível espelho ampliado dos progenitores. Será que é isto que nós queremos no futuro? Será que conseguiremos conviver, mais velhos, com tais criaturas? Tenho minhas dúvidas. Que, aqueles que são pais, pensem nisto. Qual será nosso futuro? Conviveremos com tais criaturas mal formadas e estragadas ou procuraremos uma derradeira alternativa? Há momentos em que o elogio do suicídio feito pelo grande poeta John Donne (1572-1631), em seu Biathanatos (escrito em 1609), fundamentado teologicamente nas mortes voluntárias de Sansão e do Rei Saul, parece se tornar uma alternativa viável, aconchegante, à longo prazo...

P.S. Às Rosemarys que têm bebês e que aqui, porventura, julgaram-se insultadas: a referência, inicial, é feita ao filme O Bebê de Rosemary (EUA, 1968). Nada tenho conta às senhoras e sua prole, desde que estes não sejam, justamente, monstrengos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de outubro de 2011.].

Os Bebês de Rosemary – Parte I

Vez por outra, assistindo à televisão, via um pouco do programa Supernanny (“super babá”), primeiro em sua versão inglesa, depois norte-americana. Soube agora que há uma adaptação brasileira que, até onde vi, copia mais uma certa excentricidade no trajar da apresentadora da versão original do que os problemas que aquela enfrentava. E que problemas! O renque de pestinhas com carinhas de anjos, verdadeiros ditadores de fraldas, parecia sempre crescente. E cada vez pior. Algumas delas pareciam mais um caso de serem submetidas ao Encantador de Cães, outra série de sucesso, do que àquela inglesa baixota, bonachona. A versão brasileira, evidentemente, é mais branda. Não mostra nenhum petiz intratável como os que são apresentados no original. Não que não os tenhamos, pelo contrário. Mas no Brasil pode-se tudo, menos interferir na educação dos filhos alheios. Nem sequer por meio de suaves conselhos. Pode-se tentar seduzir o pai ou a mãe, dependendo do interesse, pode-se até incentivar as más práticas dos filhos: porém tentar corrigi-los, nunca. Frente a isto, pais notoriamente omissos arvoram-se quais bonus pater familiae. Mães relaxadas e fracas saltam na defesa de suas crias quais leoas ou matronas judaicas. E que demoninhos vemos por aí! Creio que, em muitos casos, uma perfeita adaptação de séries de tv, para o Brasil, tratando do tema, deveria ser um cruzamento de Supernanny com Supernatural. Sim, porque basta andar por um shopping center, dividir um elevador, ou mesmo olhar para os lados, e parecemos ver a todo momento uma reencarnação do Damien Thorn, d’A Profecia, da Regan MacNeil, a personagem de Linda Blair n’O Exorcista, ou d'O Bebê de Rosemary. São verdadeiros casos para uma Supernatural nanny.
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mulher brasileira em primeiro lugar!

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...

[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].