sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte II: A Ignorância do Mundo em quinze dias à beira-mar

Na antiga Grécia, e provavelmente em muitas outras culturas, até mesmo naquelas chamadas “primitivas”, inumeráveis são os rios e riachos, lagoas, montes, colinas, montanhas e pântanos aos quais são relacionados os mais diversos mitos. Ou, no mínimo, são merecedores de um nome que os distingua, o que é algo muito mais importante do que se pensa. Pois nada existe sem um nome. Ainda que, na natureza encontrem-se, de fato, um número incalculável de animais, plantas e minerais ainda desconhecidos, é a partir do momento em que são nomeados que se tornam relevantes. Dar nome às coisas, é sabedoria e poder. Conhecimento e domínio.
Antes de sermos um país, quando ainda éramos uma colônia portuguesa – melhor dizendo, um arquipélago de vilas, cidades e fazendas, isoladas pela mata – boa parte da topografia brasílica já havia sido nomeada pelos ameríndios, ainda que em pequena escala, geralmente regional (relativa aos deslocamentos das tribos num âmbito relativamente estreito). E, o que era pior, conhecidos por pequenos grupamentos: as informações, então, não circulavam muito entre gentes sempre em pé de guerra umas com as outras. Havia, entretanto, formidáveis exceções, como as lagoas do Vapabuçu e do Paraupava, cujos nomes eram familiares a diversas etnias, mas cujo lugar real permanece incerto (especula-se que a lagoa da Paraupava, que apareceu em diversos mapas europeus dos séculos XVI a XVIII, ora ao Norte, ora ao Nordeste ou mesmo no Centro Oeste, trate-se, na verdade, do Pantanal Matogrossense). Sem falar na utópica “Terra sem mal” (Yvi Mara Ey ). Mas devem-se aos navegadores (como no caso do Monte Pascoal cabralino), aos jesuítas (Pedro Lozano, no século dezoito, foi o primeiro a chamar de Caminho do Peabiru a rota indígena que ligava o litoral Sul-Sudeste brasileiro ao Paraguai e ao Peru) e aos bandeirantes (que não só incorporaram muitos hábitos dos silvícolas, como também a sua própria língua), devem-se a estes, portanto, o real batismo de muitos acidentes geográficos de nosso território.
A ocorrência de muitos nomes idênticos, quer de origem indígena ou já portuguesa, designando este ou aquele rio, morro, lagoa, nos mais variados cantos desta terra, explica-se justamente pelo relativo isolamento das comunidades do passado. Daí termos tantos rios chamados de Grande, Feio, Turvo, Pardo, Paraibuna e Piracicaba, por exemplo: ou os dois de nome Paraíba, um emprestando seu nome ao Estado nordestino, outro recebendo o acréscimo de “do Sul”, muito posteriormente à sua descoberta, no vale paulista e fluminense). O mesmo não vale para as incontáveis cachoeiras ou cascatas que receberam o nome de “véu-de-noiva” ou “véu-da-noiva”: neste caso é, pura e simplesmente pobreza de imaginação.
Já no que se refere aos morros e montes, a ânsia de nomeá-los parece ter sido sempre meio preguiçosa por aqui. O grande historiador mineiro Diogo de Vasconcelos (1843-1927) quando trata das expedições dos bandeirantes pela terra mineira, diz que aqueles bravos avançaram por ela “servindo-lhes de norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos matos..”. Assim, aos picos couberam alguns nomes, aos demais morros, quase nada, salvo se em locais relativamente planos. Estes são nomeados por sua condição estranha à paisagem. Mas no meio de uma serra, a maior parte deles permanece anônima e pagã. O que em grande parte parece até justificável, em nosso território de dimensões continentais. Haja nome para tanta coisa! Mas inquieta-me por que tantos habitantes locais, ao longo dos séculos, sequer se interessaram por chamar seus morros e montes disto ou daquilo.
Não conheço os Alpes e sua toponímia em pormenores. Nem preciso. Posso abrir um mapa confiável e ler como são chamados seus inúmeros picos, montes, vales, platôs, passagens, geleiras, etc. Os rios, cascatas, passagens, o que for. Ali estão nomeados com precisão. Se recorro a uma carta topográfica, além dos nomes, tenho acesso às altitudes máximas, médias, mínimas e intermediárias daqueles terrenos. Mas tente-se fazer o mesmo em nosso país! Encontramos altitudes, está certo. Nomes? Nem em sonhos.
A mesma coisa vale para as ilhas, cabos, rochedos, promontórios e o que mais se deita pelo mar da nossa pátria. Os mapas, em geral, silenciam quase completamente quanto a eles. Se buscarmos alguma informação mais profunda neste assunto, temos de recorrer às cartas náuticas, dificílimas de serem encontradas, quando não caríssimas, em muitos casos. Então, diante de tais obstáculos, pensamos: vamos recorrer ao conhecimento local. Mas que desilusão! Ninguém sabe dizer nada de nada.
Passei, recentemente, quase quinze dias percorrendo o extenso litoral de Ubatuba e Paraty. Conversei com gente que ali vivia, das mais diversas origens; mas, no caso em questão, com vistas ao que pesquisava, preferencialmente ouvindo a conversa de caiçaras, ou seus urbanizados descendentes: em suma, tratei com os nativos. Pois bem, não encontrei vivalma que me dissesse o nome – não falo nem dos montes e pontais – das ilhas que povoam aquelas praias e que, dia após dia podem vê-las plantadas diante deles. Senti tal comportamento não só como fruto da simples ignorância, mas, antes, de uma presunçosa ignorância. Só encontrei similar atestado de preguiça mental nalgumas vezes em que, visitando tal ou qual cidade, perguntei a alguns moradores dali, vizinhos de uma igreja, qual era o santo ali reverenciado, qual era o seu orago. E, para minha surpresa, ouvi a resposta: “Não sei. Sou evangélico!”. Ouvi isto de gente moça e velha. É de pasmar que certa incivilidade atinja tais níveis que acabe por voluntariamente ignorar a simples paisagem que se revela, quotidianamente, diante dos olhos locais.
Pois bem, na praia é a mesma coisa. O indivíduo passa, dia após dia, por mais de vinte anos, diante de uma ilha que se apresenta à sua frente. Trabalha, por outros tantos anos, defronte à mesma. E se perguntamos o nome dela, ignora-o completamente. Tenta-se outro informante, mais velho: o mesmo resultado. Com muita sorte, depara-se com algum pescador que ainda se lembre de alguma coisa. No mais, reina a mais profunda ignorância. Mas que não se invoque, como causa disto tudo, o eterno e retornável mito da suposta indolência do caiçara. O problema é de outro natureza, e grave: ninguém quer aprender mais nada, esta é a verdade. Contentam-se com o trivial, com as banalidades, com o que se pode adquirir e consumir, e tão só. Este é o novo mundo em que estamos mergulhando de cabeça e que não poupa sequer os românticos moradores do litoral, imersos em sua inocência e simplicidade, como julgam muitos, muito erroneamente, ainda hoje. Pois o “bom selvagem” morreu de tédio lendo Iracema no Ensino Médio. Índio não quer mais apito, espelho e miçangas: quer celular, tênis de marca e roupa de grife – o quê, no fundo, no fundo, é a mesma coisa...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte I: A História do Mundo em três horas à beira-mar

A praia do pontal, em Paraty, não é a menina dos olhos dos fanáticos por mar, sol e areia. A água não parece muito limpa, e o mesmo, diria, das areias, freqüentadas por um número de cães muito maior do que o desejável. Os quiosques também não são lá grande coisa, à primeira vista – mas garanto que a segunda melhor caipirinha da cidade é servida ali. A paisagem também não é empolgante para os obsedados por praias oceânicas. Ela não passa de umas poucas centenas de metros, contida por um molhe de pedras, ao Sul, e por um morro, ao Norte, onde se encontra, oculto pela vegetação, o Forte Defensor Perpétuo. Mas nas fraldas deste morro, imersas no mar, encontram-se grandes e belas pedras, cobertas de cipós que parecem aparados com precisão por um hábil jardineiro e, no entanto, todo este efeito se dá pela água salgada, que àqueles dá tal feição e que não erode os rochedos locais, mas, antes, parece acariciá-los com brandura. Para o Oeste, há umas casas meio feias, pousadas não muito elegantes, e até mesmo um camping. Porém, olhando mais para o interior, um espesso arvoredo se eleva, ocupa o espaço, sobe por um desses morretes praianos meio raros em São Paulo ou no Rio de Janeiro – mais à feição dos Guararapes, em Recife, ou do outeiro do Carmo, em Olinda – em cujo topo assentam-se, imaculados sob a luz do sol, a capela e o cruzeiro do cemitério local, como numa paisagem de Guignard: um tanto brejeira, muito agradável e pitoresca, mas um tanto quanto insólita. Já para o Leste, lá estão as ilhas, os barcos e o mar absoluto.
Pois bem, este é o cenário. Vejamos alguns de seus personagens.
Numa tarde de quarta-feira, assim como noutras, anteriores e posteriores, minha mulher e eu estávamos ali, movidos pela necessidade de uma saudável mudança de ares. A poucos metros de nós, havia um jovem casal de canadenses: ele muito esguio; dela, se dissesse que era obesa, tal seria uma gentileza, pois sua enormidade era verdadeiramente colossal. Pouco adiante, um sujeito com ares de velho lobo do mar relegado à terra e a contragosto, tendo por companhia seu bem cuidado cão, um english springer spaniel, adestrado não para a caça de tiro, mas para arrancar mariscos dos fundo das areias, as quais escavava até quase nelas desaparecer: dele avistava-se apenas a cauda castanha, oscilante, tão logo intuía sua presa. Noutra direção, um casal da modernidade, ou da pós-modernidade, composto por dois rapazes: um chinês, ao sol, acompanhando-se sabe-se lá o que em seu tablet; e um belga, refugiando-se na sombra, entretido com um bom, velho, prosaico e insubstituível livro.
Minha mulher e eu, ao contrário de muitos compatriotas, temos verdadeiro horror à bajulação de estrangeiros em solo pátrio, esta perversão do conceito de hospitalidade em que se comprazem muitos, tratando por meio de verdadeiras micagens, quando não rebaixamento de conduta, qualquer estrangeiro que por aqui aporte. De modo que não demos muita atenção àqueles personagens. Preferimos nos voltar à divertida tarefa de recolher conchas da areia, para a futura montagem de um arranjo decorativo. Para matar o tempo antes que ele nos mate. Nesta divertida faina, em que nos revezávamos, uma menina, moreninha, e seu irmão, com ares de maranhenses ou caiçaras, se aproximam de minha mulher e lhe dizem algumas palavras incompreensíveis, mas nem tanto, a ponto de percebermos se tratarem de pequenos hindus. E num inglês meio estranho – do pensar em português para a versão inglesa, da parte de dois adultos, e do hindi, ou sabe-se lá que língua, para o inglês, por duas crianças – acabamos por nos entender e juntos colhemos conchas à beira do mar.
As horas se passaram, voltamo-nos a outros interesses, como as crianças, às suas brincadeiras. Quando delas nos despedimos, estavam, o menino e a menina, cobrindo de areia, tapando mesmo o buraco que aquele cachorro de linhas atrás cavara horas antes.
Diante do que vimos não houve como deixar de pensar se a História, esta mesma, a História, com “H” maiúsculo, não o seu registro, mas a sucessão dos fatos, também não se daria como nesta série de inocentes eventos praianos: numa terra distante, ocupada por um povo, outros vêm, das mais variadas origens, e tomam seu lugar; ainda outros passam apenas por ali; e as obras e trabalhos de uns sucumbem, sob uma simples diversão alheia, e de tudo, nada restando, sequer o testemunho. Refreio meu impulso de afirmar que a História poderia ser traduzida como “um buraco na areia feito por um cão inglês numa praia brasileira, e depois fechado por duas crianças hindus, algo feito à vista de todos e por todos esquecido”. Não divirjo completamente desta teoria, mas não a afirmo na íntegra. Acho que, sempre, existe algo mais a ser visto, em toda parte. Quer nos anais históricos, quer numa simples tarde de praia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de dezembro de 2011].

Gira a roda da fortuna: cai o Sultão

Já tratei neste espaço da chamada “Primavera árabe” (19 de março, Pausa para reflexão) e da queda e do linchamento do tirano líbio (22 de outubro passado, Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro).Mas eis que agora, com felicidade, tratarei da derrocada de um amiguinho de todos aqueles déspotas da mourama, o sultão Berlusconi.
Quando este magnata da televisão e imprensa italiana ascendeu ao poder, foi tratado como uma espécie de Sílvio Santos taciturno, porém mais bem sucedido financeira e politicamente do que nosso prestamista televisivo. Tão histriônico quanto seu xará brasileiro, Berlusconi era famoso por suas caras e bocas, muitas das quais lembravam as do execrado ditador Mussolini, seu conterrâneo. Mas boa parte da grande imprensa daqui parecia se recusar a ver isto. A mesma grande imprensa pátria que, diante de sua queda, parecia não se dar por achada, publicando trivialidades nas capas de suas principais revistas. Uma estampava: PEREIRÃO, ESSE [sic] MULHERÃO; outra Coma POUCO Viva MUITO (assim mesmo, sem vírgula); e ainda outra ETERNAMENTE JOVEM. E nem uma menção sobre Berlusconi na capa. Somente Carta Capital, a cada dia melhor, estampou o priápico régulo italiano, logo abaixo de seu título. Daí ser justa, justíssima, a consideração de seu editor-chefe, Mino Carta: “Veja, Época e IstoÉ parecem editadas, nem digo em outro planeta, em outra galáxia” (Carta Capital, 23 de novembro, p. 22).
A alcunha de Sultão cabe muito bem ao defuncto premiê italiano, segundo as várias denúncias quanto à sua pessoa e seu governo. Qual um déspota do Oriente, ele parecia não fazer distinção entre o público e o privado, gerindo o que era de todos como se seu o fosse. Fazia-se rodear por uma corte de acólitos, escolhidos a dedo, que referendavam e cumpriam suas ordens. Minou as instituições públicas, impondo sua vontade pessoal sobre elas. Reivindicou para si leis e privilégios especiais. Criou monopólios exclusivos seus, abocanhando mesmo o patrimônio do Estado. E chegou ao cúmulo de manter uma espécie de harém itinerante, com beldades escolhidas, algumas menores de idade, provindas de toda parte, brasileiras inclusive (dizem que até um brasileiro transexual, ou quase, talvez a versão moderna de um eunuco, fez parte de algum seu efêmero serralho). Ora, e tudo isto não evoca um sultão?
Fica-se imaginando qual será o seu destino. Acredito que, em breve, uma enxurrada de processos o cobrirá até o pescoço, senão mais além. E não serão brandos como os de cá. Estes, quando pegam um político, acusam-no de uma simples formação de quadrilha, o mesmo delito dos trios responsáveis pelo conto do vigário, atualizado no golpe do bilhete premiado. Na Itália, que lida com a máfia e congêneres, as leis contra o crime organizado são severas. E justas perante aos olhos da sociedade. Daí ser bem possível que Berlusconi e seus bilhões passem a levar uma vida nômade, como também em grande parte o fizeram os ex-presidentes Idi Amin Dada, Bokassa, Baby Doc, Carlos Salinas de Gortari e Alberto Fujimori. E que em boa companhia ele estaria! Mas mesmo que se livre das acusações, corre o risco de ter um fim semelhante ao de Pinochet: ser preso em terra estrangeira, por crimes cujo âmbito extrapolam as fronteiras nacionais. Mas, como disse anteriormente, evito os exercícios de futurologia. Só arrisco dizer que, acredito, pelo menos uma parte do que ele merece, ainda há de receber. E não é em dinheiro não, que este ele já acumulou de sobra, das maneiras mais descaradas quanto obscuras possíveis, segundo se afirma.
Porém uma correção tem de ser feita diante do muito que se assaca contra ele. Berlusconi foi acusado de ser altamente maquiavélico. De fato ele o foi, mas somente na caricatura do termo, a partir de uma leitura apressada que interpreta o maquiavelismo se como fundamentado quase que tão somente no princípio de que “os fins justificam os meios” e de que uma outra ética regeria os homens públicos, diferentes dos cidadãos comuns – já ouvimos este refrão, não faz muito tempo, em solo pátrio, como se tal se tratasse de uma absoluta novidade...
Pois o milanês Berlusconi nunca foi um bom seguidor do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), nem de seu O Príncipe (1532, edição póstuma), porque destes só observou um conceito enviesado da virtù (a grosso modo, “virtude’), interpretando-a não como uma capacidade de adaptação aos fatos políticos que permitiria a permanência no poder, mas sim a existência de uma possibilidade de manipulação política dos fatos, para a conservação do poder. E, acostumado a tal conduta, nela perseverou, a ponto de não observar a mudança das coisas, quando elas se deram, e que provocaram sua queda.
Assim, também, ele ignorou outro ponto crucial da doutrina de Maquiavel, análogo à virtù: a fortuna (aqui é fortuna, mesmo, no sentido de “sorte” ou “fados”) e sua roda, sempre a girar, elevando uns e rebaixando outros: toda aquela soma de aspectos cambiantes, e absolutamente inevitáveis, que podem abater qualquer um, do rei ao pobre, da rês ao nobre. Talvez a tenha interpretado como a sua fortuna pessoal (aqui, monetária e financeira), achando que a mesma o livrasse dos caprichos da verdadeira Fortuna, esta implacável. Em suma, para o bem ou para o mal, Berlusconi foi canhestramente maquiavélico: não foi nem um príncipe perfeito, aos moldes do que preconizava aquele, nem sequer um bom leitor d’O Príncipe. E pagou por isto, e torçamos para que pague muito mais, por tudo o que fez e deixou de fazer.
Maquiavel era um florentino, agregado à poderosa família Médici que governou por muito tempo aquele ducado. Viviam eles às turras com a família Sforza, duques de Milão. Lá no Inferno, onde, segundo dizem, o autor d’O Príncipe se encontra desde sua morte, ou seja lá onde estiver, acredito que ele está dando gargalhadas pela queda do milanês Berlusconi.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônicas Baianas – Parte IV: O Oxalá eucarístico, ou o Cristo demonizado

Pouca gente atenta para a etimologia das palavras, ainda menos se latinas, e ainda em menor número aos nomes científicos que, para muitos, parecem existentes desde sempre, quando não ditados por um Deus absoluto, ou pelo tagarela Adão, louco para nomear o tudo e o nada. Assim como o Primeiro teria dito Fiat lux (“faça-se a luz”) et facta est lux (“e a luz se fez”), o segundo, no julgar de muitos, provavelmente também exclamara, num momento desprezado pelos cronistas bíblicos, fiat camelus dromedarius, e o dromedário se fez, pronto e acabado, com nome científico e tudo, e à mesma feição de hoje em dia. Ou, como pensam outros, atendo-se às fontes, Javé fez o o bicho tal como ainda o vemos: coube ao ignaro Adão dar um nome à besta. Quanto ao idioma escolhido para nomeá-lo, séculos de estudos sobre o tema jamais chegaram a um ponto pacífico. Mas os fundamentalistas norte-americanos têm convicção de que a língua era a inglesa...
Assim, portanto, não é uma surpresa para muitos o significado da palavra passiflora, que denomina um gênero botânico de cerca de 500 espécies que tem no maracujá a mais conhecida delas. Um etimólogo tresloucado, falsamente estribando-se na lógica, explicaria a origem da seguinte maneira: “ora, o suco de maracujá acalma, torna a pessoa pacífica, passiva, ou apaziguada, portanto passiflora deve significar a flor (daí flora) e seu fruto, que traz a paz... ou algo assim”. Uma explicação tão bonita quanto errada, ainda que muita gente acredite piamente nisto. Pois passiflora significa, literalmente, “flor da paixão”. É por este motivo, aliás que, em francês, o fruto do maracujá se chama fruit de la passion (“fruto da paixão”). O mesmo etimólogo amalucado juntaria os termos “francês” e “paixão” (quem sabe se lembrando de que a expressão dá nome a uma marca de roupas íntimas femininas), e pensaria em arrebatadoras cenas românticas, quando não fortemente carnais, envolvendo sedas, champanhe, cama, etc., e até convertendo o maracujá em afrodisíaco, quem sabe.
O que pouquíssimas pessoas sabem – e que o nosso amigo meio passado das ideias jamais descobrirá – é que a paixão a que se refere o nome da flor vem a ser a Paixão de Cristo. E tal se deve ao fato das pretensas semelhanças encontradas, por missionários jesuítas da América do Sul, entre a flor do maracujá e elementos do martírio de Jesus: pois, segundo eles, o pistilo, os desenhos da corola e várias peças florais assemelhavam-se à coroa de espinhos, ao martelo e aos pregos da Crucificação – e a cor roxa do interior delas, à do luto litúrgico católico. Nascia, assim, a passifora, cujo primeiro registro encontra-se na Historia medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias Occidentales (1565-1574), do botânico espanhol Nicolás Monardes (1493-1588).
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
O leitor deve estar se perguntando o que quero dizer com tudo isto. Pois bem, minha intenção é revelar um mundo não muito distante em que tudo era encantado, o mesmo que permitiu ao poeta Cláudio Manuel da Costa vislumbrar na banana o fruto da Árvore do Conhecimento: pois, afinal, ao se cortar uma banana em rodelas, vemos, em seu interior, uma cruz. Em suma, mesmo na queda do Homem, já estava prevista a sua Salvação, como pregam as tradições religiosa e literária.
Na Bahia, esse encantamento do mundo ainda é, em boa parte, presente. Daí que o Cristo, ou o Senhor do Bonfim , é representado no candomblé pelo coco. Trata-se de uma adaptação realmente engenhosa e altamente lírica. Pois sem conhecerem a ideia do Livro de Deus (a Bíblia) e do Livro da Vida (o mundo), e suas correspondência (uma noção que justifica o tratamento dado outrora aos já citados maracujá, abacaxi e banana), sem conhecerem a escolástica, nem Alain de Lille (c. 1128-1202) e seu Rhythmus de incarnatione Christi, nem São Boaventura de Bagnoreggio (1221-1274) e seu Breviloquium, nem mesmo nada de Roger Bacon (1214-1294), procuraram a confirmação das Escrituras nas coisas do mundo, de seu mundo próximo e tangível. E, assim, a carne e o sangue da Eucaristia (Lc 22:19-20, Mt 26;26-29, Mc 14:22-25 e I Co 11:23-26), converteram-se na polpa e na água do coco! Desnecessário é dizer que o coco confunde-se com o crânio humano e, pronto, temos a referência ao Calvário e ao crânio de Adão sepultado em seu sopé. E depois chamam isto de sincretismo... Qual o quê! É pura interpretação alegórica, aplicada aos elementos que estavam à mão. Além de sumamente inspirado. Não tenho dúvidas, apesar da falta de registros, de que os jesuítas, excelentes pedagogos no passado – que celebraram missas em que as hóstias eram feitas de farinha de mandioca, no Brasil, e de arroz, na China, pelo profundo significado cultural que possuiam tais alimentos em tais ambientes –, se não referendassem a apropriação do coco como símbolo eucarístico, ao menos o tolerassem com benevolência.
Hoje em dia há seitas, proclamadas igrejas que, numa espécie de teologia reversa, na falta de uma própria, subvertem as de outrem, empregando termos alheios com sentido trocado, por sua incapacidade intelectual de formular os seus, para não dizer que tal se dá graças ao mutismo do Espírito Santo, que não lhes assopra ao ouvido nada de novo (mas este não é o meu campo). Estas congregações religiosas afirmam que os rituais afrobrasileiros são ditados pelo demônio. Segundo elas, todos os orixás seriam diabos. Assim, Oxalá, a interpretação africana do Senhor do Bonfim, seria, na verdade, uma criatura infernal! Ora, já vi, ou li, diversos tratamentos dados a Jesus – diábolos, foi um deles, na medida em que Ele acusava os erros anteriores e lançava uma nova Ordem; e Lúcifer também, por trazer a verdadeira luz aos seus fiéis – mas vê-lo passível de ser tratado, segundo a capenga teologia de algumas seitas, como uma espécie de demonhão africano, esta é de pasmar! E é de se perguntar: como uma visão tão natural e bela da Eucaristia, no coco, poderia ser inspirada por algum ser infernal?! Só na cabeça de gente sem ideias, sem compaixão nem reflexão: algumas das quais, por sinal, reunem-se num suntuoso templo que, em Salvador, é apelidado de “Casa da Moeda”...
Das ruínas de Salvador, uma fênix pode se levantar, já que nem tudo está perdido por lá. Certa tolerância, para não dizer um quase ecumenismo, ainda prevalece ali. Que as reflexões do grande Volney (citado em crônica anterior) finquem raízes. Que os povos as leiam. Que os fanáticos retratem-se. Que as ruínas, todas elas, recuem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de novembro de 2011].

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas: Parte II – Seguindo alguns rastros literários, na falta de outros

Um dos maiores desserviços prestados pelos professores de Literatura manifesta-se quando tratam daquela meia dúzia de páginas, pouco mais ou pouco menos, da Carta de Pero Vaz de Caminha, classificada, segundo vários deles, como “certidão de batismo da terra brasileira”, ou, ainda pior, como a primeira obra literária de nosso povo. A Carta, mero relato burocrático que o foi, em seu tempo, mofou durante séculos em arquivos, por razão de sigilo de Estado, e sem que ninguém o lesse, até 1817, pelo menos. Sua relevância, digamos, literária, é menos que nada. Ninguém pensou o Brasil, durante trezentos e tantos anos, a partir daquela carta. Um único verso ou página sequer de nossa história, neste período, foi baseado em sua leitura. Todavia, pensando nela, e no registro dos primeiros habitantes deste país, é chocante verificar que em Salvador não se observa qualquer indício da presença indígena. É como se eles não existissem, no passado ou no presente. Tudo parece ser vinculado apenas e tão somente à ocupação lusitana ou à mescla afrobrasileira, com predominância da africana sobre a brasileira. Para que se tenha uma ideia, segue aqui um exemplo. Uma amiga, percussionista, encomendou-me um maracá, autêntico instrumento indígena, posteriormente incorporado a certas religiões afrodescendentes que sofreram influências, aqui, daquelas culturas autóctones. Encontrei-o, é claro, sem muita dificuldade. Dificultoso foi, no entanto, ter que ouvir do vendedor o quanto aquele objeto era de origem africana, relacionado a não sei mais qual orixá, etc, etc, etc.
Também de Castro Alves, que nomeia uma praça e um teatro e, quiçá, uma rua ou avenida, não permanecem quaisquer indícios, seja de sua pessoa ou de sua obra. E isto é, de certa maneira, até justo em relação à sua memória, ainda que tal prodígio se dê por ínvios caminhos. Pois choraria de dor o mulato poeta d’O Navio Negreiro e Vozes d’África ao ver que os negros ainda se encontram na base da pirâmide social e, quanto mais escuros, mais próximos daquela base, mais escorchados, mais infelizes e mais miseráveis.
Não se veem mais em Salvador, também, os personagens de Jorge Amado. Nem com muito esforço de imaginação enxerga-se nos raquíticos meninos viciados em crack, que nos abordam, uma pálida sombra dos “capitães da areia”. O Elevador Lacerda parece uma Galeria Prestes Maia melhorada. Não há mais coronéis, doutores e rábulas de terno branco. As baianas de turbante restringem-se às agentes de restaurantes, caçando fregueses na rua, e a uma ou outra vendedora de Acarajé, no circuito turístico. Os padres não trazem mais batinas, nem os monges, hábitos. E não avistei um único bêbado boquirroto vagando pelas ruas. Tudo é passado na obra daquele escritor, cuja casa, segundo me informaram, está à beira do desmoronamento: seus ricos herdeiros esperam verbas públicas para a restauração da mesma...
Por outro lado, Vieira e Gregório de Matos parecem nos acompanhar em cada passo, do Pelourinho à Barra, da Cidade Baixa ao Bonfim, e pelo Comércio, e para qualquer lado que se vá. De Vieira, há até resquícios, podemos dizer, físicos. Lá está ainda, ou assim é apontada, a cela onde viveu, num anexo da Catedral Metropolitana. Ou melhor, em parte do que era o antigo Colégio dos Jesuítas, por que o grosso dele se transformou na Faculdade de Medicina – que, hoje em dia, frise-se, não funciona mais ali. E a própria Catedral, que era a igreja dos Jesuítas, a esta posição só foi elevada depois que a primeira foi demolida, em 1933 (como disse anteriormente, pensa-se todo o tempo em algo ao mesmo tempo mais e menos do que uma árvore...). Mas, como dizia, indica-se, lá, a cela onde teria vivido o Padre Vieira em seus últimos anos em Salvador. Lá está um púlpito do qual, supostamente, ele teria pregado (não nos é informado de que local ele foi retirado) e a sua cadeira (de cujo uso, se particular ou público, também não há registro). Mas a força de seus sermões parece repercutir em nossa memória, seus libelos quanto à ganância, contra a opulência criminosa, contra a frieza do coração dos poderosos frente aos negros explorados, parecem nos acompanhar a cada passo.
Ao se contemplar os suntuosos prédios do Corredor da Vitória, ou do Campo Grande, frente às tétricas e miseráveis moradas da não tão distante Ladeira da Preguiça (cujo nome deveria ser Ladeira do Desconsolo), não há como não lembrar dos versos do Boca do Inferno: “Estupendas usuras nos mercados,/todos, os que não furtam, muito pobres,/ e eis aqui a cidade da Bahia”. Da mesma maneira, se alguém se quiser alijar da forçada alegria que se cobra em toda praça, e se pretender uma visão séria e crítica do todo, lá vem os versos: “Quem cá se quer meter a ser sisudo/ Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,/E é mais aperreado que um cornudo”. E por aí vai. Mas a presença física, por assim dizer, do poeta, não há. Existe uma rua Gregório de Matos, mas que ele tenha morado ali, ou que o prédio ainda se conserve, é quase impossível saber.
E por falar num Gil, lembrei de um outro mais recente, e de sua trupe, e de seus contemporâneos ou precursores. Pois é, anda-se pelas ruas de Salvador e não se escutam ecos, nem entramos no clima, das músicas de Gil, Gal, Bethânia, da família Caymmi, de João Gilberto ou dos Novos Baianos. Aquela Bahia brejeira, da meiguice e da malemolência, é coisa definitivamente do passado. Por toda a parte, é só axé e suas musas – de uma delas, aliás, aquela tão onipresente na mídia quanto um ditador comunista de outrora (vejam a crônica de 11 de junho de 2011), não há motorista de táxi que se não lhe aponte o prédio onde ela mora, como, presumo, só se faça o mesmo com a casa dos chefes de Estado. No mais, escuta-se a batucada do Olodum, ou de suas franquias, ou legiões ou coortes, que embora muito bem executada, nada tem de alegre. Pois, convenhamos, é muito mais marcial do que dobrado de banda de música e ressoa a marcha militar. A única exceção audível em tal cenário é Caetano, pelo menos aquela canção que fala que “o Haiti é aqui”. Como tema de fundo, ela é quase onipresente, sobretudo no Pelourinho e nas partes menos afortunadas...
Voltando aos assuntos sérios, no que diz respeito às belas artes, que o visitante percorra suas igrejas e museus em busca do nome do artista por trás de uma pintura, de uma escultura, do arquiteto responsável por uma grande obra do passado. Quando encontrar uma sucinta ficha catalográfica, comemore, exulte, solte rojões. Mas que não ouse sair em busca de livros a respeito, pois os que existem há muito estão fora de catálogo, remontando aos anos 1960. Não há novos estudos. Não há nada.
Os historiadores dos anos 1940 e 1950 diziam que, no tocante aos acervos documentais do período colonial lusitano, a África era um verdadeiro “cemitério de papéis”. Pois bem, neste ponto, certamente, Salvador revela-se, sem sombra de dúvida, uma fidelíssima seguidora das tradições africanas que tanto apregoa, um lugar de rica memória oral e quase nenhuma escrita, a ponto de seus antigos monumentos chegarem, pouco a pouco, a desaparecerem ante nossos olhos sem que deles se conserve, sequer, o nome.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2011].

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro

Em crônica de 19 de março passado, intitulada Pausa para reflexão, pouco depois do tsunami que atingiu o Japão e no início da chamada Primavera Árabe (que vai a cada dia mais se tornando uma espécie de Outono Persa), tratei um pouco do ditador líbio Muammar Kadafi. A grande imprensa, então, acreditava, num frenesi de oba-oba, que ele seria o próximo tirano a cair, depois de Mubarak. Mas aquele permanecia no posto, ainda que de joelhos, e que estava lá, estava. E, portanto, disse, então, que era melhor esperar para ver ou comentar alguma coisa. Vejo, sem falsa modéstia, quão acertada foi minha opinião, uma quase futurologia às avessas. Pois o homem só caiu, morto, sete meses e um dia depois da publicação de minha crônica – mas não graças a ela, evidentemente. Sábios conselhos de Roger Chartier! Que bom que os ouvi, e justamente aquele de que “o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro”!
Naquela mesma ocasião, tratei da querela quanto à grafia de seu nome, ora Gaddafi, ora Khadafi e outros tantos. Bem como seu pendor para a extravagância no vestir e no pentear. Permitam-me citar-me:

“Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano, passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo”.

Mas, vendo por outro lado, é curiosa a comparação entre ditadores, se pensarmos em seus momentos finais, ou logo depois deles. Pinochet, Mao, Stálin, Idi Amim, Bokassa, vários dos ditadores argentinos, e todos os nossos, morreram velhos, serenamente em casa, ou num luxuoso exílio. Hitler se matou e, por suas ordens expressas, queimaram seu corpo. Getúlio idem, mas seus restos foram venerados. Podem até dizer que, então, ele havia sido eleito democraticamente, o que é um fato, mas quem o pranteou, na verdade, era por saudades de sua ditadura. Saddam Hussein, capturado num aspecto que lembrava um mendigo ou um lobisomem, foi enforcado qual um cão na coleira, e dele não tivemos mais imagens. Um fim muito diferente do sofrido por Mussolini, fuzilado e depois exposto à execração pública durante vários dias, pendurado pelos pés, na Piazza Loreto em Milão.
A morte de Kadafi, e o que fizeram com seu corpo, tem algo do que se fez com Mussolini. Mas olhando bem as imagens, o que de fato me vinha a lembrança era o fim de Lampião, o rei dos cangaceiros. Os closes sobre o rosto do líbio remeteram-me diretamente aquela tétrica fotografia das cabeças de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando expostas na escadaria da igeja de Piranhas, AL, uma imagem que se encontra em todos os livros escolares e que chocam por seu horror. Pensei em expor as duas fotografias lado a lado, mas não quero chocar o leitor. Depois, mesmo facínoras merecem um pouco de respeito depois de mortos.
Que coisa, ao fim. Kadafi viveu como um ditador, poderoso lá em sua terra, que não é lá essas coisas, mas, ali, ele era o Supremo. E no entanto, no final das contas, morreu emboscado como um cangaceiro e, como tal, também vilipendiaram seu corpo. Curiosa é a roda da fortuna...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de outubro de 2011].

Os Bebês de Rosemary – Parte II

Dando prosseguimento ao inventário de capetinhas de babador e calças curtas que enxameiam pelo mundo, afirmo que observo, quase diariamente, uns casos interessantíssimos de mal comportamento infantil que beiram às raias da mais completa incivilidade, para não dizer quase bestialidade.
Vejam-se os casos de uns vizinhos meus, abaixo dos onze anos. Há alguns excelentes, simpáticos, e bem educados. Uns que, na espera do elevador, abrem a porta para mim, tratando-me por Senhor – fazer o quê? É a vida! Um dia esta hora chega... – ou perguntam qual o andar em que moro e, céleres, apertam o botão referente ao mesmo. Outros ainda que até ajudam quando trago muitas compras. Temos uma menininha no prédio, com não mais de quatro anos, que é a alegria dos moradores e dos porteiros, chegando a trazer, para estes, balas e confeitos que sobraram de sua merenda. Mas, por outro lado, temos dois irmãos, na casa dos sete e onze anos, que são simplesmente assustadores.
Confesso que, a princípio, o que mais me incomodava neles era o fato de que, embora passassem os anos, eles simplesmente pareciam não crescer. Quem assistiu ao filme Uma mente brilhante, talvez entenda do que estou falando. Ali, um matemático genial, conquanto esquizofrênico, é acometido de alucinações, dentre as quais uma menina, sobrinha de um amigo imaginário. E a chave para a sua compreensão de que vivia num mundo paralelo se dá justamente quando ele percebe que, passados os anos, a menina não crescia. Bingo! Era uma alucinação! No meu caso, a coisa parecia muito semelhante em relação àqueles petizes do prédio. Mas minha mulher também os via, o mal comportamento deles era notório na vizinhança, gerando toda sorte de comentários até entre os de suas idades e, portanto, respirei aliviado: apesar das atitudes dos meninos parecerem um pesadelo, eles, de fato existiam. Ou melhor, existem.
Pode parecer que exagero, mas observem seus hábitos. Quando entram no elevador, ignoram os demais passageiros. Voltam as costas para todos, encaram a parede, e passam a chutá-la, enquanto assobiam durante o tempo que durar a viagem. Aliás, é uma coisa engraçada, esta, a da ausência de civilidade relacionada ao uso constante dos pés para além da função natural de andar. Gente grosseira está sempre batendo os pés, chacoalhando-os quando as pernas estão cruzadas, ou chutando coisas. Na única vez em que encontrei os pequenos malignos fora do prédio, tomando um sorvete, seus pés agitavam-se como que quase num surto. E como chutam coisas: o peitoril da varanda de seu apartamento foi convertido numa rede de gol, e o ribombo das boladas de faz ouvir vários andares abaixo daquele onde moram.
Outra coisa interessante no comportamento deles é uma quase inversão dos hábitos mais comuns entre as crianças. Primeiro, acordam anormalmente cedo, enquanto dormem assustadoramente tarde. Em segundo lugar, é sabido que os infantes, em geral, gostam de repetir músicas, frases, brincadeiras até quase a exaustão. No caso deles, entretanto, observa-se o contrário. As boladas contra a grade, ainda que diárias, não ultrapassam cinco minutos. Andar de skate pela sala, o mesmo tempo. E até quando ganharam um videogame, destes que, ao invés de um console, têm uma guitarra, brindaram-nos a todos, por um dia inteiro, cantando e tocando a mesma música. Porém o mesmo brinquedo nunca mais foi utilizado.
Uma vizinha, professora do ensino fundamental, comentou, certa vez, que sentia-se impressionada com a latente falta de qualquer manifestação emotiva por parte de nossos vizinhos. Segundo ela, que, por curiosidade e hábito de ofício, acompanha a eles com atenção, nunca foi, diz, capaz de flagrar qualquer extravasamento normal ou de raiva, ou de alegria, ou de tristeza. Parecia ver sempre um eterno nada, um vazio absoluto impresso em suas caras. Mais tarde, porém, ela mudou de ideia. Uma vez assistiu a uma pequena cena entre o menor deles e a avó. Esta, fez uma brincadeira que não agradou o neto, e ele – palavras de minha vizinha – “fuzilou-a com os olhos, com um ódio cruel para além de tudo o que já vi”.
Estes problemáticos objetos de reflexão não, são, é claro, uma regra. Todavia abundam em toda parte, sobretudo em São Paulo, capital e interior. Não os vejo no Paraná, Rio, Minas ou Bahia. Temo, portanto, pelo futuro de nosso estado, sob cujo sol nasceram e foram mal educados tais monstrengos. Sim, porque são pequenos monstros no comportamento, e também na sua função, segundo o grande (Santo) Isidoro de Sevilha (560-630 d.C., evidentemente) que em suas Etimologias (Etymologiarum Libri XX), mais especificamente no livro XI), estabelece que o monstro é revelador, (sua raiz é a mesma do verbo “demonstrar” e de “montra”, ou “vitrine”) sendo, portanto, uma manifestação de algo. No caso presente, poderíamos deduzir, uma manifestação do descuido dos pais na educação dos filhos, ou ainda o surgimento de uma nova e pior índole, materialista e imediatista dos rebentos, possível espelho ampliado dos progenitores. Será que é isto que nós queremos no futuro? Será que conseguiremos conviver, mais velhos, com tais criaturas? Tenho minhas dúvidas. Que, aqueles que são pais, pensem nisto. Qual será nosso futuro? Conviveremos com tais criaturas mal formadas e estragadas ou procuraremos uma derradeira alternativa? Há momentos em que o elogio do suicídio feito pelo grande poeta John Donne (1572-1631), em seu Biathanatos (escrito em 1609), fundamentado teologicamente nas mortes voluntárias de Sansão e do Rei Saul, parece se tornar uma alternativa viável, aconchegante, à longo prazo...

P.S. Às Rosemarys que têm bebês e que aqui, porventura, julgaram-se insultadas: a referência, inicial, é feita ao filme O Bebê de Rosemary (EUA, 1968). Nada tenho conta às senhoras e sua prole, desde que estes não sejam, justamente, monstrengos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de outubro de 2011.].

Os Bebês de Rosemary – Parte I

Vez por outra, assistindo à televisão, via um pouco do programa Supernanny (“super babá”), primeiro em sua versão inglesa, depois norte-americana. Soube agora que há uma adaptação brasileira que, até onde vi, copia mais uma certa excentricidade no trajar da apresentadora da versão original do que os problemas que aquela enfrentava. E que problemas! O renque de pestinhas com carinhas de anjos, verdadeiros ditadores de fraldas, parecia sempre crescente. E cada vez pior. Algumas delas pareciam mais um caso de serem submetidas ao Encantador de Cães, outra série de sucesso, do que àquela inglesa baixota, bonachona. A versão brasileira, evidentemente, é mais branda. Não mostra nenhum petiz intratável como os que são apresentados no original. Não que não os tenhamos, pelo contrário. Mas no Brasil pode-se tudo, menos interferir na educação dos filhos alheios. Nem sequer por meio de suaves conselhos. Pode-se tentar seduzir o pai ou a mãe, dependendo do interesse, pode-se até incentivar as más práticas dos filhos: porém tentar corrigi-los, nunca. Frente a isto, pais notoriamente omissos arvoram-se quais bonus pater familiae. Mães relaxadas e fracas saltam na defesa de suas crias quais leoas ou matronas judaicas. E que demoninhos vemos por aí! Creio que, em muitos casos, uma perfeita adaptação de séries de tv, para o Brasil, tratando do tema, deveria ser um cruzamento de Supernanny com Supernatural. Sim, porque basta andar por um shopping center, dividir um elevador, ou mesmo olhar para os lados, e parecemos ver a todo momento uma reencarnação do Damien Thorn, d’A Profecia, da Regan MacNeil, a personagem de Linda Blair n’O Exorcista, ou d'O Bebê de Rosemary. São verdadeiros casos para uma Supernatural nanny.
Se alguém duvida do que digo, lembre-se de quantas e quantas vezes numa loja, na fila do caixa do supermercado, ou até nos bancos de uma igreja, não ouviu crianças berrando quase qual endemoniadas. Quem não ouviu gritos escruciantes, tenebrosos, quais se sofressem torturas atrozes e que não passavam de pura birra? Outro dia, almoçando fora, ouvi o seguinte depoimento de uma avó ao gerente do restaurante onde estávamos, ela acompanhada da filha e de seu bebê: “Pois é, o Marcinho é assim. Chora o tempo todo enquanto os pais comem. Só quando eles desistem da comida é que ele para”. Sim, isto mesmo. Ouvi da própria avó. Tenho testemunhas. E, a partir daí, pude veririficar o mesmo fenônemo noutros lugares e condições É ou não é uma coisa infernal?
Sei que, para todo pai, seu filho é um príncipe. No caso de alguns, os miúdos parecem até mais que isso: pequenos deuses de fraldas sujas ou uma nova versão de D. Sebastião, o Desejado, escorrendo muco. Parecem se esquecer que os tempos de se falar em “milagre da vida” já passaram. Com os avanços da ciência e a melhoria das condições básicas de vida, como saneamento, alimentação, exames pré-natais, etc., só não se tem filhos, ou eles só partem muito cedo, graças a um tremendo azar ou por más condições de infraestrutura hospitalar, fome, e outras mazelas sociais. De modo que o suposto milagre da vida, hoje, não é assim tão miraculoso, já não é mais uma exceção, e sim a velha reação química produzida pelo meio que sabemos como, produzindo tantas crias do animal humano como as vemos por aí, até mesmo sob as condições mais adversas: veja-se o imenso número de crianças nascidas de outras crianças carentes. Em suma, o mistério se desfez, e quem acha que ele ainda existe é porque ainda se embebeda no sentimentalismo do primeiro filho. A partir do segundo, a mística desaparece, como atestam outras várias testemunhas.
Não me oponho às crianças como um todo, evidentemente. Acho algumas bem engraçadinhas, ainda que não veja a hora de que cresçam e fiquem mais preparadas para um bom diálogo, frente ao qual não são necessárias meias palavras, abrandamento do discurso, elisões de termos e assuntos. Sei também da necessidade delas do ponto de vista econômico: suprimento da demanda de certos produtos e serviços, reposição de mão de obra e futura contribuição para a previdência social. E não desprezo o fato de que muitos casais sentem-se menos homens e menos mulheres por não terem filhos, quer por uma questão de virilidade ou exercício da maternidade, quer por uma questão de status: filhos, para muitos, são o coroamento de uma carreira que inclui um bom emprego ou negócio, casa própria, automóvel, casa de praia, ascensão social, enfim: “eu quero, eu tenho que poder, e aí está a prova, vejam meu rebento: agora posso me dar ao luxo de arrumar um hobby, um amante ou uma amante”, parecem pensar. Contribuindo para esta visão de mundo, há o fato de que crianças, aos olhos dos pais, são sempre encantadoras, mesmo as feias e problemáticas. São brinquedinhos, que podem ser vestidos ao gosto de seus proprietários e, o que é pior (tremo de horror sempre que escuto), que podem ser moldados de acordo com o gosto de seus genitores.
Toda vez que escuto um pai ou mãe tratando seus filhos como um papel em branco sobre o qual possam gravar ou imprimir o discurso que eles bem entendem, ou como uma massa inerte de barro, a ser manuseada segundo seus interesses, dez alarmes contra roubo, incêndio ou ameaça grave – “dobres de Aragão”, como se dizia outrora na Lusitânia, como alerta à chegada do inimigo espanhol – parecem soar em meus ouvidos. O primeiro me avisa que estão brincando de deuses. O segundo, de que se comportam feito deuses terríveis, querendo moldar os corpos de suas criaturas segundo lhes convém. O terceiro, porque tais deuseus terríveis querem que as mentalidades de seus petizes seja uma reprodução das suas. O quarto, porque acreditam que suas verdades sãos as melhores do mundo e que jamais deveriam ser corrigidas, daí impingí-las, sem críticas, aos filhos. O quinto, decorrente daqueles, porque abstrai qualquer possibilidade de um pensamento ou vontade própria que possa existir em suas crias. O sexto, porque projeta, arbitrariamente, esperanças sobre a geração seguinte, sendo que esta não é obrigada a cumprí-las. O sétimo porque, não realizados os votos e desejos, transmitem à prole suas próprias frustrações como se fossem as daquela. O oitavo, porque, se exacerbados em seu plano geral, ignoram as vontades e naturezas de seus herdeiros. O nono, consequência do anterior, porque podem renegar o seu sangue pelo não cumprimento de seus magnânimos desígnios. O décimo, porque hão de morrer soberbos e impenitentes: se os filhos se deram bem, foi por mérito deles, pais; se mal, necessariamente porque não os ouviram ou seguiram. É ou não brincar de Deus? E um Deus bem perverso, por sinal...
Que as pessoas, casadas ou não, queiram ter filhos, é um direito natural, indiscutível e inalienável. Que outros, ou os mesmos, queiram adotá-los, é algo que deveria ser facilitado – muitas vezes, numa família, o sangue ruim, parental, é refescado pelo novo. Mas que não se pensem em bebês como filhotes de cão, que podem tudo, porque são engraçadinhos. Eles precisam ser educados, e de acordo com suas naturezas e índoles. Filhos são pessoas de outra classe, não simples extensões carnais e naturais de seus progenitores. E falo tudo isto com a maior isenção possível frente ao assunto, porque nenhum sentimentalismo turvou meu olhar. Só digo que não aguento mais estes monstrinhos circulando por aí, tratados por seus pais como brinquedos que vieram com defeito de fábrica e perante aos quais ninguém pode reclamar, visto que já ultrapassaram o prazo de devolução: como parecemos entrever em em certos olhares, e como se tal restituição existisse...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de outubro de 2011.].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mulher brasileira em primeiro lugar!

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...

[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].

Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final

Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caçando lobisomens – Parte I

Agosto tem o dia do Folclore, data que prezo, e que me escapou neste ano. Mas como nunca é tarde demais para certas coisas, seguem aqui uns causos, não de ouvir falar, mas de ler em boa letra impressa. Causos de lobisomem, esta figura do folclore, como aprendemos, ainda que exista quem jure de pés juntos que já viu um. Lembro-me de um velho conhecido meu, hoje Doutor pela USP, que me garantia por a + b que seu pai não só caçara lobisomens, lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, como teria várias fotografias dos mesmos. Não duvido, apesar da ausência de provas documentais. Pois o irmão daquele meu antigo confrade, doutorando pela Unicamp, não é de hoje que tem publicado artigos sobre os monstros na Literatura em influentes revistas universitárias: em suma, aquela família tem lá os seus segredos. Mas antes de tratarmos dos referidos causos, que os leitores me permitam um intróito.
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dez anos do “11 de setembro”: e nós com isto?

Por conta da celebração de uma década dos atentados que abalaram os EUA, estamos vendo, a todo momento, na televisão, nas revistas, nos jornais, e na internet, pequenos flashes sob o título “onde você estava no 11 de setembro?” ou que tais.
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].

São João del Rei à vol d’oiseau

São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].