Uma noite insone diante dos canais de TV abertos revela, ou explicita, aspectos aparentemente inacreditáveis de nosso país no que tange ao devocionário popular e aos pastores a guiarem um imenso rebanho, saltitante e sempre em expansão, rumo a cada vez mais diferentes apriscos.
Sintoniza-se um canal e assiste-se ao bispo Xis da Igreja Universal Disto. Ou o apóstolo Ypsilon da Igreja Mundial Disso. Ou o pastor Zê da Igreja Internacional Daquilo. Sem falar em todos os demais, tão variados quanto as outras letras do alfabeto, porta vozes de um número equivalente, se não superior de (auto)denominações religiosas.
Compreendo tal necessidade de espaço privilegiado para a divulgação de suas mensagens. Devem ser tantas as diferenças entre estas agremiações devocionais, que, acredito, torna-se imprescindível um canal de televisão para cada uma delas. Fico imaginando as sutilíssimas questões teológicas que as separam uma das outras. As complicadíssimas querelas quanto à exegese bíblica e a concordância entre Antigo e Novo Testamento. As polêmicas quanto à Patrística e a História do Cristianismo. As nuanças gradativas quanto ao afastamento ou aproximação entre o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo, o Anglicanismo, etc. Suas visões, decerto conflitantes, quanto à Angeologia ou à Demonologia. Ou ainda o equilíbrio entre a Tradição e a Revelação. Ou entre a Predestinação e seus óbvios critérios de exclusão, e o Batismo no Espírito Santo, como forma de ampla inclusão de todos. Ou ainda se a Glossolalia é epifânica, acidental ou inexistente, se comum, rara ou impossível – para não dizer imaginária e inócua. Estas, e muitas outras particularidades de profunda matéria teologal e doxológica, que, presumo, separam tantas igrejas cristãs umas das outras, faz-me acreditar que, de fato, cada uma delas necessite de seus próprios canais para a difusão de suas mensagens, únicas e verdadeiras.
A situação muda um bocado de figura, entretanto, quando vemos dois canais televisivos transmitindo conteúdo essencialmente católico; e, mais ainda, quando se sabe que ambos são diretamente relacionados à Igreja. Fosse um ligado a ela, e outro, por exemplo, a uma irmandade, confraria ou associação de leigos, creio que contribuiria bastante para o diálogo intrarreligioso. Mas os dois, estreita, umbilicalmente relacionados à ortodoxia e à hierarquia clerical, parece, no mínimo, uma redundância. Ou um desperdício de dinheiro. Ou um claro sinal de que as divisões internas da “monolítica” Santa Madre Igreja são muito maiores do que avalia o vulgo.
Ora, se aquela magnífica instituição cuja sede localiza-se em Roma é una e indivisível, por que vários canais de comunicação, ao invés de um único? Se a Barca de São Pedro é uma só, como um só é seu Capitão, por que dois Pilotos? Acaso pensa-se em acrescentar mais um leme à nave? Não se pensa no risco de rachar a embarcação ao meio? Ou ela já está rachada, a tripulação dividida entre si e os passageiros em conflito uns com os outros?
O que, entretanto, causou-me um enorme espanto foi a oferta de um certo “Carnê da Esperança”, por meio do qual a caridade – um dever, mas que só tem sentido se realizado de forma espontânea – se converteria numa obrigação, com data de vencimento e tudo. O que nos leva a duas perguntas: o não pagamento da parcela implicaria o quê? Protesto em cartório? Ou busca e apreensão (judicial?) da mercadoria entregue ao inadimplente? A outra pergunta se dá quanto à quitação do mesmo carnê: pois se a Esperança é a última que morre, a contribuição passaria a ser compulsória, se não hereditária, e presumivelmente deveria ser honrada até o Dia do Juízo Final! Algo em que nem Júlio II, com suas escandalosas indulgências, teria pensado em instituir...
E, para cúmulo dos cúmulos, valeu-se a propaganda televisiva do referido carnê de um expediente inacreditável para vendê-lo, lançando-nos a seguinte, e tronitroante, mensagem: “Jesus Cristo precisa de sua ajuda!”. Insisto em repetir o bordão do “Carnê da Esperança”, agora em letras garrafais: “JESUS CRISTO PRECISA DE SUA AJUDA”! Era só o que faltava...
Reconheço que não tenho frequentado a missa há certo tempo. Não sou um leitor assíduo do L’Osservatorio Romano, nem prestei muita atenção às últimas declarações do Sumo Pontífice. Mas até onde sei – ou acredito que sei – Jesus Cristo ainda é, para os católicos, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, e junto com o Deus Pai e o Espírito Santo, Ele também Deus único: três em Um e Um só. Que Jesus – enquanto Homem, antes de morto, ressuscitado e ascendido aos Céus – necessitasse da ajuda dos homens em sua dolorosa via ao Calvário, é compreensível e os Evangelhos, os apócrifos e um bocado de lendas dão conta disto. Mas depois de morto por nossos pecados, ressuscitado, triunfante, unido indissoluvelmente ao Pai, Criador de tudo e de todos, onipotente, portanto, que ele ainda precise de nossa ajuda, soa-me como uma tremenda ofensa aos fiéis. Quando não uma blasfêmia das grossas, se não uma completa heresia. E,o que é pior, proclamadas por um canal católico.
Ora, pois, se o Pantocrator necessita de ajuda, e nós? Se Deus anda tão debilitado, o que estes reles, ínfimos pecadores poderíamos fazer por Ele? Que nos digam que Ele “nos exorta” a contribuir para a Sua obra; ou que “nos convida”; ou ainda que “nos ordena”. Mas que o ajudemos? Francamente, quem imagina uma campanha desta merece ser sabatinado pelo bispo. E o bispo que a autorizou, pelo arcebispo. E este pelo Papa. São inacreditáveis as bobagens que a Igreja, ou certos setores dela, tem cometido nos últimos tempos.
Portanto, aviso aos navegantes da Barca de São Pedro: cuidado com a viagem, pois os pilotos parecem não entrar num acordo e vão guiando a nau para águas ignotas...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de julho de 2011].
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