segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aviso aos navegantes da Barca de São Pedro

Uma noite insone diante dos canais de TV abertos revela, ou explicita, aspectos aparentemente inacreditáveis de nosso país no que tange ao devocionário popular e aos pastores a guiarem um imenso rebanho, saltitante e sempre em expansão, rumo a cada vez mais diferentes apriscos.
Sintoniza-se um canal e assiste-se ao bispo Xis da Igreja Universal Disto. Ou o apóstolo Ypsilon da Igreja Mundial Disso. Ou o pastor Zê da Igreja Internacional Daquilo. Sem falar em todos os demais, tão variados quanto as outras letras do alfabeto, porta vozes de um número equivalente, se não superior de (auto)denominações religiosas.
Compreendo tal necessidade de espaço privilegiado para a divulgação de suas mensagens. Devem ser tantas as diferenças entre estas agremiações devocionais, que, acredito, torna-se imprescindível um canal de televisão para cada uma delas. Fico imaginando as sutilíssimas questões teológicas que as separam uma das outras. As complicadíssimas querelas quanto à exegese bíblica e a concordância entre Antigo e Novo Testamento. As polêmicas quanto à Patrística e a História do Cristianismo. As nuanças gradativas quanto ao afastamento ou aproximação entre o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo, o Anglicanismo, etc. Suas visões, decerto conflitantes, quanto à Angeologia ou à Demonologia. Ou ainda o equilíbrio entre a Tradição e a Revelação. Ou entre a Predestinação e seus óbvios critérios de exclusão, e o Batismo no Espírito Santo, como forma de ampla inclusão de todos. Ou ainda se a Glossolalia é epifânica, acidental ou inexistente, se comum, rara ou impossível – para não dizer imaginária e inócua. Estas, e muitas outras particularidades de profunda matéria teologal e doxológica, que, presumo, separam tantas igrejas cristãs umas das outras, faz-me acreditar que, de fato, cada uma delas necessite de seus próprios canais para a difusão de suas mensagens, únicas e verdadeiras.
A situação muda um bocado de figura, entretanto, quando vemos dois canais televisivos transmitindo conteúdo essencialmente católico; e, mais ainda, quando se sabe que ambos são diretamente relacionados à Igreja. Fosse um ligado a ela, e outro, por exemplo, a uma irmandade, confraria ou associação de leigos, creio que contribuiria bastante para o diálogo intrarreligioso. Mas os dois, estreita, umbilicalmente relacionados à ortodoxia e à hierarquia clerical, parece, no mínimo, uma redundância. Ou um desperdício de dinheiro. Ou um claro sinal de que as divisões internas da “monolítica” Santa Madre Igreja são muito maiores do que avalia o vulgo.
Ora, se aquela magnífica instituição cuja sede localiza-se em Roma é una e indivisível, por que vários canais de comunicação, ao invés de um único? Se a Barca de São Pedro é uma só, como um só é seu Capitão, por que dois Pilotos? Acaso pensa-se em acrescentar mais um leme à nave? Não se pensa no risco de rachar a embarcação ao meio? Ou ela já está rachada, a tripulação dividida entre si e os passageiros em conflito uns com os outros?
O que, entretanto, causou-me um enorme espanto foi a oferta de um certo “Carnê da Esperança”, por meio do qual a caridade – um dever, mas que só tem sentido se realizado de forma espontânea – se converteria numa obrigação, com data de vencimento e tudo. O que nos leva a duas perguntas: o não pagamento da parcela implicaria o quê? Protesto em cartório? Ou busca e apreensão (judicial?) da mercadoria entregue ao inadimplente? A outra pergunta se dá quanto à quitação do mesmo carnê: pois se a Esperança é a última que morre, a contribuição passaria a ser compulsória, se não hereditária, e presumivelmente deveria ser honrada até o Dia do Juízo Final! Algo em que nem Júlio II, com suas escandalosas indulgências, teria pensado em instituir...
E, para cúmulo dos cúmulos, valeu-se a propaganda televisiva do referido carnê de um expediente inacreditável para vendê-lo, lançando-nos a seguinte, e tronitroante, mensagem: “Jesus Cristo precisa de sua ajuda!”. Insisto em repetir o bordão do “Carnê da Esperança”, agora em letras garrafais: “JESUS CRISTO PRECISA DE SUA AJUDA”! Era só o que faltava...
Reconheço que não tenho frequentado a missa há certo tempo. Não sou um leitor assíduo do L’Osservatorio Romano, nem prestei muita atenção às últimas declarações do Sumo Pontífice. Mas até onde sei – ou acredito que sei – Jesus Cristo ainda é, para os católicos, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, e junto com o Deus Pai e o Espírito Santo, Ele também Deus único: três em Um e Um só. Que Jesus – enquanto Homem, antes de morto, ressuscitado e ascendido aos Céus – necessitasse da ajuda dos homens em sua dolorosa via ao Calvário, é compreensível e os Evangelhos, os apócrifos e um bocado de lendas dão conta disto. Mas depois de morto por nossos pecados, ressuscitado, triunfante, unido indissoluvelmente ao Pai, Criador de tudo e de todos, onipotente, portanto, que ele ainda precise de nossa ajuda, soa-me como uma tremenda ofensa aos fiéis. Quando não uma blasfêmia das grossas, se não uma completa heresia. E,o que é pior, proclamadas por um canal católico.
Ora, pois, se o Pantocrator necessita de ajuda, e nós? Se Deus anda tão debilitado, o que estes reles, ínfimos pecadores poderíamos fazer por Ele? Que nos digam que Ele “nos exorta” a contribuir para a Sua obra; ou que “nos convida”; ou ainda que “nos ordena”. Mas que o ajudemos? Francamente, quem imagina uma campanha desta merece ser sabatinado pelo bispo. E o bispo que a autorizou, pelo arcebispo. E este pelo Papa. São inacreditáveis as bobagens que a Igreja, ou certos setores dela, tem cometido nos últimos tempos.
Portanto, aviso aos navegantes da Barca de São Pedro: cuidado com a viagem, pois os pilotos parecem não entrar num acordo e vão guiando a nau para águas ignotas...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de julho de 2011].

Barbas de molho!

Por volta de meados do século XVII, um partidário do rei da Inglaterra, e dos católicos, era identificado, naquele país, pelos seus longos cabelos, barba e bigodes. Já os anglicanos mais extremados, opositores daqueles, por seus cabelos raspados e faces peladas (o que lhes valeu o apelido de “cabeças redondas” roundeads).
O Czar Pedro, o Grande, Imperador de todas as Rússias, decidiu, em 1698, que, para modernizar o seu país, era necessário mudar a imagem de sua corte, da aristocracia e dos funcionários públicos. Sua intenção era aproximar-se o mais possível dos reinos ocidentais europeus, tidos como mais avançados. E, assim, ordenou que todos os membros daquelas classes ou funções raspassem suas barbas, sob pena de multa. E os bigodes somente seriam permitidos aos oficiais de cavalaria ou dos corpos de dragões.
No século XVIII, aliás, as caras raspadas eram comuns, mas se envergava copiosas perucas e, não raro, longos cabelos, penteados à maneira daquelas: o General George Washington, pai fundador dos Estados Unidos da América, inscrevia-se neste último caso. E se na França do final daquela centúria, e início do XIX, os revolucionários e patriotas cortaram seus cabelos à Brutus (uma evocação ao assassino de Júlio César) – pensemos na imagem clássica de Napoleão Bonaparte –, permitia-se aos hussardos (um corpo de cavalaria leve), não só o uso de barbas e bigodes como até mesmo de finas tranças de cabelo pendendo sobre a farda.
No Brasil, até os primeiros anos da República, não havia objeção ao uso da barba entre os membros do Exército ou da Marinha (Deodoro, Tamandaré, Benjamim Constant, etc., etc., eram barbados). E até hoje os ornamentos capilares faciais são permitidos, ainda que com algumas ressalvas, de acordo com o Decreto nº 95.480, de 13 de dezembro de 1987: “É vedado aos militares o uso de barba, cavanhaque, costeletas e do corte e cabelo que não sejam os definidos pelas normas em vigor.// § 1º - O uso de bigode é permitido aos Oficiais, Suboficiais e Sargentos.//§ 2º - O militar que necessitar encobrir lesão fisionômica poderá usar barba, bigode, cavanhaque ou cabelo fora das normas em vigor, desde que esteja autorizado pelo seu respectivo Comandante”. E graças a esta brecha, e outras anteriores, pôde o falecido (em 2008) General Manoel Theophilo Gaspar de Oliveira Neto, ex-chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Nordeste, envergar, honradamente, sua barba: uma tradição de sua família, toda ela composta de militares, que geração a geração (foram cinco), transmitia ao filho o mesmíssimo nome do pai e a obrigação de manter o mesmo adereço piloso.
Pois bem, se até os exércitos, que se pautam pela uniformização, seja pelo uso das fardas, seja pela estética do rosto, permitem algumas liberdades neste campo – o Exército Brasileiro, inclusive, que nos últimos anos tem se pautado por uma mera observação passiva e um pouco alheia (para o bem e para o mal) do que se entende por liberdade – é de pasmar, portanto, que a Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região (Bahia) tenha acatado recurso do Bradesco que inocenta o banco da acusação de discriminação de funcionários por uso de barba. E nem era uma barba à Marechal Deodoro ou General Theophilo: o empregado demitido tinha a pele sensível à lâmina de barbear, o que impossibilitava o uso diário do aparelho. Segundo a sua defesa, aquela sua barba por fazer era motivo de constrangimento, causado por seus superiores. E, de acordo com o banco, seu repúdio ao pelos do queixo do funcionário fundamentava-se numa pesquisa que teria revelado que o uso da barba “piora a aparência dos trabalhadores”, e como a aparência é associada à competência, com base no truísmo de que a primeira é uma lei para o sucesso profissional, acharam por bem (mal) demitir o empregado.
O juiz de primeira instância, favorável ao bancário, alegou que a conduta do banco “viola inequivocamente o direito fundamental à liberdade de dispor e de construir a sua própria imagem em sua vida privada”. Mas a desembargadora que cassou sua sentença proclamou que “não se pode negar ao empregador, em razão do seu poder diretivo, o direito de impor determinados padrões, de exigir dos seus empregados certa forma de se apresentar para o público externo do banco, inclusive no que diz respeito ao asseio e à aparência geral”. Para ela, este mesmo princípio poderia ser aplicado às roupas dos funcionários e ao uso ou não de “barba, bigode, cavanhaque e costeletas”.
O melhor desta história toda veio por conta dos comentários do ex-ministro do STF, Eros Grau, barbudo desde 1968 – por conta de uma cicatriz no queixo causada por um acidente de automóvel – e que vê claros indícios de preconceito na medida. “Se for só por essa razão, fico muito preocupado. Se fosse assim, eu poderia ter sido impedido de ser ministro do Supremo. [...] Fico pensando... Então, por causa do acidente e da barba, eu ficaria impedido de trabalhar? Parece estranho”, alegou, com propriedade.
De modo que nos preparemos, leitores, para um mundo novo exarado a partir de decisões semelhantes àquela do TRT da Bahia. Talvez retornemos aos uniformes de corte militar nas escolas públicas, ao uso da sobrecasaca e gravata nos bancos e de aventais entre os comerciários. Ou, ainda, radicalizar as expectativas ainda mais, como o fez a Polícia Militar paulista, que agora reprova candidatos “queixudos” baseada na visão de que “problemas bucais podem causar dor e agravar outras doenças, como cardíacas e gastrointestinais, aumentando a possibilidade de afastamento do policial”.
Para que belo mundo nós caminhamos! Em breve, no andar desta carruagem destrambelhada, serão exigidos exames de DNA dos funcionários públicos e empregados privados para se saber se não têm doenças congênitas a serem manifestadas posteriormente. E, daí, para onde seguirão as exigências? Pela eugenia? Pela eutanásia? E depois dizem que o nazifascismo higienista é algo morto.
Último comentário. Amador Aguiar, fundador e dono do Bradesco, um dos homens mais ricos do país, enquanto vivo foi, criou em Osasco a sua Cidade de Deus, um misto de empresa e moradia de funcionários que, pelas liberdades ali admitidas, foi considerada por vários observadores como sujeita a regras muito mais duras do que as que se goza num quartel. E, detalhe: talvez, baseado no critério de “asseio e aparência geral”, Amador Aguiar nunca passaria pelo critério da desembargadora que defendeu seu banco: pois o banqueiro nunca usou meias, aqueles higiênicos dispositivos do vestuário entre o pé e o sapato que impedem a propagação do chulé...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2011].

Anotações de viagem

Primeira nota. Há coisa de alguns dias, embarquei num vôo Campinas-BH, tarifa promocional: o que não é vergonha para ninguém, pelo contrário, mas que muitas vezes nos põe em contato com vários de nossos concidadãos que os leitores de Veja consideram exóticos, quando não subumanos. Tal não foi o caso do grosso dos passageiros, mas uma dupla, formada aleatoriamente, e que viajou justo nas poltronas anteriores à minha, chamou a atenção por ser, de uma certa maneira, composta de “marinheiros de primeira viagem”. Um deles, tomando da palavra, perguntou ao vizinho se era aquele o seu primeiro vôo. O outro, respondeu que não, já era o quarto ou quinto, não se lembrava bem. E o seu interpelante, com algo de superioridade, confessou ser aquela a sua oitava viagem aérea. Em seguida, passaram a trocar impressões sobre a melhor maneira de adquirir passagens promocionais, o serviço de bordo das diferentes companhias aéreas que oferecem tais tarifas mais baixas, a oferta limitada e, bastante específica, de uma para outra, no que se refere a sucos, refrigerantes e salgadinhos, o espaço entre as poltronas, e a vantagem, neste ponto, que se obtém pela escolha dos primeiros assentos nesta ou naquela operadora. Um deles se queixou que, nas aeronaves de uma delas, o sinal do celular era muito fraco. O outro, mais experiente, garantiu que, noutra, pelo contrário, não havia interferência nas ligações. Ao fim desta breve conversa, a princípio entreouvida, e que depois captou a minha maior atenção, comuniquei-me, silenciosamente, por olhares e gestos, com meu vizinho de poltrona, aleatoriamente colocado ao meu lado, um senhor septuagenário que, percebi, observava, também, o diálogo que se desenrolou à nossa frente. Pois ambos compartilhamos da mesma surpresa, ou pasmo: os dois passageiros nas poltronas anteriores às, nossas, que debatiam tais assuntos, não passavam de meninos de dez anos de idade! Que foram embarcados, trazidos pela mão, por aeromoças, que logo em seguida começaram a tratar de assuntos de seus interesses mais próprios ao seu tempo – ou aquilo que esperamos que sejam assuntos da idade deles, como jogos eletrônicos e desenhos animados – mas que, a princípio, conversavam como experientes, quase profissionais, viajantes.
Segunda nota. A pousada onde me hospedei. Tal conceito, ou classificação de hospedagem tem variado muito nos últimos tempos. Aquela onde me instalei tinha mobiliário moderno, decoração esmerada – e temática – banheiros irrepreensíveis nas suítes, aparelhos de tv de tela de plasma, conexão wireless, etc. Não tinha ainda tv por assinatura – prometeram que na próxima semana terão – e talvez só mereça a qualificação de pousada pelo pequeno número de apartamentos e pela ausência de um elevador entre os pisos. Ou, talvez, porque às vezes é mais “charmoso” batizar de “pousada” (um termo cálido, acolhedor) frente a “hotel (com laivos de impessoalidade, frieza, etc.).
Pois bem, estava eu já ali instalado, defronte dos aborrecidíssimos canais abertos – a tv por assinatura não é o Paraíso, longe disto, mas, convenhamos, está a léguas, escatológicas, do Purgatório do Faustão, e dos círculos infernais das Hebes e Datenas – quando decidi baixar algumas músicas no meu notebook. Comecei a escutá-las. E, logo, notei estranhos ruídos do apartamento ao lado. Não demorou muito para que notasse ser aquela uma reação ao “barulho” (Monteverdi! Pachelbel! Mozart!) que minha máquina fazia ressoar. Penso daqui, penso de lá, e ocorreu-me uma ideia. Liguei a televisão, sintonizei-a num programa “consagrado”, pus o volume num tom “médio”, virei meu computador noutra direção, e tudo se resolveu. A cantilena, reconhecível, que saía da televisão, apaziguou os vizinhos. A algaravia criada por aquela transmissão impondo-se sobre o que, de fato, eu ouvia, passou despercebida. Realmente, o ruído da televisão, para muita gente, deve causar o mesmo efeito que, num bebê, provoca o escutar do coração da mãe. Ou no caso dos filhotes de cão, o despertador que se põe debaixo de suas caixinhas.
Terceira e última nota. Na viagem de volta, uma prova de que a “mentalidade de empresa de ônibus” está invadindo as companhias aéreas, muito mais do que o público daquela, como se diz. Comprei tanto a passagem de ida, quanto de volta, quase dez dias antes desta última. E selecionei meu assento. Na hora do check in, foi me designada outra poltrona. Entro no avião e, surpresa das surpresas, o número do assento não existia! O comissário de bordo alegou que tal se devia a uma troca de aeronaves, e que eu deveria esperar. E esperei, até que a porta fosse fechada e não entrasse mais ninguém, sobrando, por isso, poltronas. E se tal não ocorresse? Seria eu posto para fora? Não, francamente, assim não é possível. Ataca-se o povo, mas quem lida com ele ainda pensa estar tangendo gado. Há muito que melhorar, é não é só no Estado. A sacrossanta iniciativa privada anda precisando de uns puxões de orelha.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de julho de 2011].

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

Sensibilidade, carência, Porsches, maiôs e Ferraris

Na quinta-feira passada, desci para comprar cigarros e dei uma espiada nas revistas à venda na loja de conveniência. Com exceção de uma ou outra, eram, em sua maioria, daquele tipo de publicações que se prestam mais a serem vistas do que lidas, o que é um tanto paradoxal já que, para imagens, temos a televisão. Todos conhecem tal gênero de jornalismo, sempre disponível em abundância nas salas de espera de consultórios e que não aliviam nem um pouco a expectativa, não ajudam a passar o tempo, porque seus textos são ralos, rasos e banais, dedicados às platitudes de sempre, dessa ou daquela celebridade. Numa destas revistas, aliás, a que vi na quinta-feira, constava na capa uma jovem e bela atriz (o rosto é meio irregular, a boca muito grande, mas o conjunto e os olhos consertam o todo), que ora surpreende num folhetim global. E a chamada do semanário trazia as seguintes palavras, de autoria da moça: “Sou sensível e carente”. Notável...
Até onde me lembro, todos os seres vivos, das amebas ao Homem, dos corais aos periquitos, dos elefantes às araucárias, são sensíveis – isto é têm a capacidade de sentir, de reagir aos estímulos externos ou internos nos campos do tato, olfato, visão, audição, paladar, calor ou frio, luz ou ausência dela, em maior ou menor grau, e mesmo que alguns deles não disponham de uma destas sensibilidades, alguma das outras certamente não lhes é desconhecida. E, sobretudo no caso dos humanos, se compreendermos a sensibilidade como uma natural disposição a ser influenciado por impressões, sentimentos e emoções.
Mas deixemos a mocinha de lado: é jovem e é bonita, e a beleza e a juventude desculpam quase tudo. O problema está em publicar uma matéria na qual nada se diz e a ninguém importa.
Volto para casa, abro o computador, entro na rede e vejo as seguintes chamadas: “Fulana – aquela tão onipresente em cartazes e outros meios quanto um ditador comunista – posa de maiô para revista”; “Beltrano compra Porsche”; e sob o título Uma Ferrari como meta de vida, somos informados de que “Cicrano tem praticamente tudo da escuderia italiana, menos um carro de verdade”. E abrindo-se qualquer uma daquelas notícias, somos remetidos a informações preciosíssimas, indispensáveis, quanto à vida íntima de modelos, jogadores de futebol e das ditas mulheres-frutas. Mulheres-frutas! Constranjo-me, já de antemão, pelo nosso tempo e país, frente aos historiadores do futuro, quando se depararem com este fenômeno nacional e olharem para nós certamente nos julgando como um bando de cabeças ocas.
Quanto ao Beltrano que comprou um automóvel da marca Porsche, um cantor dublê de ator que viveu como sem teto (há não muito tempo era o mesmo que mendigo) por três anos, não há como deixar de notar um certo tom preconceituoso na matéria. Como se dissessem: “Olhem só o negão, que diz ser alternativo: na primeira chance, compra um carrão”, e por aí vai.
Já no que se refere ao Cicrano que tem tudo da Ferrari, menos um carro, lembra-me um tipo que adorava aviões, colecionava quepes de pilotos e restos de aeronaves e, evidentemente, não tinha um avião. Sua apreciação por este tipo de coisas, desligadas do objeto concreto, era chamada de parafilia, e seu comportamento, como beirando o esquizofrênico. Em suma, tudo que acima foi reproduzido é nada. O mais completo vazio. É uma vergonha que revistas de circulação nacional dediquem-se a este tipo de divulgação de inutilidadees. E que exista um público ávido por isto. Em que mundo estamos, afinal? Na Terra Prometida dos boçais? Se for o caos, acertamos em cheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2011].

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

Que bons tempos eram aqueles em que o trem era sinônimo de progresso!

Curiosa a história da estação de metrô em Higienópolis...
Morei, dos meus três aos vinte e dois anos, exatamente na mesma rua onde se planejava abrir a referida estação, hoje, ao que parece, baldada. Mais ainda, na mesmíssima quadra, da rua Sergipe, entre a Itacolomi e a avenida Angélica, o local escolhido para a obra embargada, e por onde passei quase todos os dias de minha vida durante dezenove anos. E, naquele tempo, se houvesse planos de uma estação de metrô justamente naquela esquina, a ideia seria entusiasticamente saudada pela maioria dos habitantes do bairro, e por quem nele trabalha. Bons tempos aqueles...
Higienópolis, durante décadas, foi um bairro bastante cosmopolita, um pedacinho de Europa, quase. Nele viveram, outrora, muitos barões do café, riquíssimos; seus filhos, cuja afetação e seu pressuposto aplomb aumentavam na razão inversa de seus capitais minguantes; e seus netos, muito educados, cultos e viajados, mas já quase sem recursos. Já por volta dos anos 1930-1940, aumenta a proporção de habitantes ligados às profissões liberais, ao serviço público, e também executivos das grandes empresas que então se constituíam. Porém o aspecto mais relevante daqueles anos foi a chegada de muitos judeus e outros perseguidos pelo nazismo que ali se estabeleceram. E não eram fazendeiros do sul da Rússia e Ucrânia, ou pequenos comerciantes dos inúmeros guetos europeus. Eram médicos, políticos – naquela época, tal palavra denotava ainda certo respeito –, advogados, artistas dos mais variados meios, professores universitários: em suma, todo um rol de gente muito intelectualizada e urbana, acostumada aos transportes públicos, a valorizar o espaço coletivo, ao viver em sociedade. Entre os anos 1950-1960, e mesmo 1970, um expressivo número de intelectuais de centro, centro-esquerda e esquerda, com bons empregos nas universidades públicas, somou-se aos locais. Ali vivia, então, por exemplo, um sujeito à época muito afável, que andava nas ruas como qualquer mortal e que, longe de pedir que esquecessem o que ele havia escrito, queria, pelo contrário, que se lembrassem de suas ideias. Seu nome então era Fernando Henrique (hoje, mais que um homem, é uma sigla: que tempos vivemos...). E este perfil social do bairro se estabeleceu por muitos anos, como pude ainda verificar naqueles dezenove de vivência por lá.
É claro que havia gente de direita em Higienópolis. Aliás, de ultra-direita. No bairro localizava-se a sede da hoje moribunda TFP (Sociedade Brasileira de defesa da Tradição, da Família e Propriedade), cujo líder e fundador, Plínio Correia de Oliveira, figura simpaticíssima no trato, aliás (mas esquisito na aparência), caminhava pelas ruas como qualquer cidadão, até que a idade o impediu e, só então, valeu-se de automóvel: um Opala que, àquela altura, já era velho. E utilizava todos os serviços do bairro como os demais moradores: cortávamos o cabelo, inclusive, no mesmo barbeiro, sempre em cadeiras contíguas. Havia também alguns banqueiros – que tinham amigos na esquerda da época, mas de que lado do espectro político estavam poucos sabiam, ou queriam saber, ainda, que certamente, soubéssemos, mas parecia-nos melhor não pensar nisto. Um deles, inclusive, foi Olavo Setúbal, que morava num sobrado extremamente discreto (para não dizer feio) em frente ao meu prédio. É verdade que ele não era ainda, então, o “teramilionário” dos seus últimos dias de vida. Na época, talvez só fosse “megamilionário”, ainda que não aparentasse nem um pouco (a gente bem-nascida daqueles tempos tinha horror à ostentação). E, nomeado prefeito, lembro-me dele apanhando o ônibus Circular Avenida, da CMTC, para verificar, in loco, “ao vivo”, as condições do trânsito, a qualidade e pontualidade do transporte público. Quando lembramos que o Chirico (que nunca foi morador do bairro em questão, frise-se), eleito prefeito só circulava pela cidade de helicóptero, notamos o quanto decaiu a qualidade dos homens públicos nacionais. Mas isto é outra história.
Pois bem, como mostrei, Higienópolis foi um lugar onde muita gente culta e bem-educada, urbanizada e cosmopolita viveu, respeitando os interesses e bens públicos dos quais todos eram contribuintes, usufruidores e defensores. Parece, no entanto, que isto acabou. Não creio que tal repúdio a uma estação de metrô no bairro (e lembremos que, em Londres e Paris, os imóveis mais valorizados são os que têm por perto uma estação de trem subterrâneo, e que as mesmas não estão ausentes dos pontos mais elegantes de Manhattam) deva-se somente à gente nova que para ali tem mudado nos últimos anos. Tremo ante a ideia de que amigos que há tempos não vejo e antigos vizinhos ou colegas de escola, pessoas muito decentes, agora pensem assim.
É triste pensar que um bairro que outrora se pautou pelos valores do que noutras épocas se chamou de uma sociedade humanística, agora se paute pelo que há alguns tempos é conhecido como sociedade automobilística, formada por essa gente que trafega em mini-blindados altamente consumidores de combustível fóssil, que trata o pedestre como um lixo, o ônibus como um estorvo, e o metrô, como uma mera abstração, preconceituosa, visto que não o conhece. É triste, muito triste, ver o cidadão de bem ser substituído pelo parvenu prepotente. Mas explica muita coisa a respeito da cidade. E do Estado onde ela se encontra.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de maio de 2011].

Loas ao STF!

Por obra, graça e misericórdia do Supremo Tribunal Federal (STF), milhões de brasileiros terão acesso a direitos fundamentais que sempre lhes foram negados. Sim, trato de milhões de cidadãos, mais de dez por cento da população brasileira, que se declaram homossexuais – sem contar todos aqueles que assim não se afirmaram no último Censo – e que finalmente poderão ter, agora, alguns poucos e merecidos direitos que lhes foram negados, paradoxalmente, por um Estado laico, infestado, no entanto, dos mais rancorosos travos dogmáticos, reacionários e impiedosos.
A primeira garantia, que agora lhes (lhas) será permitida, é o direito à herança, ou sucessão, além de outros correlatos, por meio do qual um companheiro(a) pode receber de seu(sua) finado(a) companheiro (a), além dos bens amealhados em conjunto, pensões e aposentadorias, e também sua vinculação aos convênios de saúde – para o horror dos tradicionais “herdeiros legais”, que renegavam, amaldiçoavam seus parentes, por suas condições intrínsecas, mas que nunca deixaram de calcular o quanto, ou o quê, herdariam daquele tio ou tia sem filhos, daquele irmão marginalizado, daquele filho expulso do convívio da família, em detrimento daquele(a) que esteve sempre ao lado do excluído, que, fielmente, foi presente na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza do marginalizado – como se presume que deva ser o comportamento de um verdadeiro casal. Daí ser o máximo do mau-caratismo e da hipocrisia aqueles parentes que se lançam, quais feras sedentas de sangue, sobre o espólio do renegado, gritando palavras de ordem e implorando pela defesa das famílias...
A segunda, e que particularmente me comoveu, porque ignorava tal privação arbitrariamente imposta, foi a conquista do direito às visitas hospitalares, no caso do adoecimento de um dos membros de tal relação. Acredito que poucas coisas podem ser mais cruéis do que impedir o contato, o acesso, a simples visita, de uma pessoa que ama outra, aos momentos de infortúnio, ou aos derradeiros instantes, daquela pessoa amada. Se são justos tais desvelos entre homens e mulheres heterossexuais, também o é, obviamente, para todos os seres humanos. E fico imaginando, com dor no coração, quantas pessoas – multidões, acredito – foram privadas deste último, precioso e imprescindível direito fundamental de se despedirem, pessoalmente, daqueles a quem eram ligados por um amor não compreendido pela lei ou pelas normas chãs das administrações hospitalares!
Cumprimento o STF por sua obra, porque este tribunal teve a coragem de enfrentar tão polêmica questão – anseio de milhões de brasileiros – frente à absoluta inércia do Legislativo (cada vez mais aparelhado por fanáticos e ignorantes que fazem tabula rasa da laicidade do Estado Brasileiro, quando não por lobbistas de seitas exóticas, verdadeiros animadores de torcidas do preconceito vão).
Saúdo-o por sua graça, na medida em que aquele Supremo Tribunal, sem ter sido provocado por questões imediatistas, ou grupos de pressão, decidiu-se pela defesa de milhões de cidadãos, contribuintes, brasileiros, confirmando, de motu proprio, a laicidade do Estado Nacional, e, ao mesmo tempo instituindo incontornáveis direitos a serem, finalmente, acolhidos.
E louvo-o por sua misericórdia, visto que uma legião de pessoas até então desguarnecida, graças à omissão dos nossos eternamente letárgicos poderes constituídos, será tratada com o respeito que merece a partir da decisão daquele Tribunal: não serão mais párias, um rabisco numa sociedade que não enxerga seus reais contornos: senhores e senhoras de plena atuação na vida pública, em suas mais variadas esferas, finalmente assumirão, sem falso pudor, e com o legítimo direito que a eles assiste, seu integral papel na sociedade.
Concluo afirmando algo que já disse anteriormente: o quê duas pessoas adultas fazem, entre quatro paredes, desde que de mútuo consentimento, diz respeito somente a elas próprias – pois há muitos ditos heterossexuais que praticam coisas, sem concordância da outra parte, capazes de escandalizar até o mais debochado dos demônios, segundo a vasta literatura a respeito.
E viva o Estado Brasileiro laico! Que é um fato e uma conquista. Que não está sujeito a um Deus, supostamente absoluto, que, segundo muitos, espreita as pessoas através de buracos de fechaduras, frestas nas paredes, vãos junto aos forros, interessado em saber o que as pessoas fazem e como o fazem. Isto não é onisciência, é voyeurismo... E compatível com um Deus?! Duvido.
Voltaremos a este assunto, se houver interesse por parte dos leitores. Para até questionar um termo, que julgo impróprio: o tal homossexualismo; para debater o quão tênue elas são, historicamente, as ideias de família, e mais ainda, de família tradicional; e até para demonstrar como o referido comportamento que escandaliza tanta gente, é muito mais antigo, e comum, do que se pensa: palavra de um historiador, que não ganha coisa alguma por tal defesa (absolutamente nada no campo pessoal), que não a discreta esperança de ter contribuído para a queda dos preconceitos, da ideias tacanhas e da ignorância manifesta, geralmente postas em palavras mal escritas ou ainda pior ditas, graças ao ódio, à burrice, à insensatez que as instilam.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de maio de 2011].

Juntos pelo Coronel Augusto César

Sei que o assunto da vez é a misteriosa morte de Osama Bin-Laden, que deve ter sido trucidado por balas, a ponto de ser necessário um exame de DNA (provavelmente de seus restos, tornados irreconhecíveis), e dos norte-americanos vedarem a publicação de fotos do falecido, ou do que restou dele. Mas como a nuvem de poeira sobre o assunto está muito densa, é melhor esperar que ela abaixe, para uma melhor reflexão. Deixemos, por enquanto, os estadunidenses com seus mortos, vinganças, libelos de sangue e coisas do gênero. Estão á milhares de quilômetros uns e outros assuntos, dos quais não possuímos qualquer controle ou influência. Voltemos os olhos a temas mais próximos, por ora.
Assim, afirmo que foi com absoluta surpresa e consternação que li, n’A Notícia da semana passada, a manchete e a matéria que tratavam das precaríssimas condições em que se encontram a Escola Coronel Augusto César – um fato ainda mais estarrecedor quando pensamos que seu estado calamitoso coincide, justamente, com seu centésimo décimo aniversário. Que terrível circunstância assinala esta data! Digna de entrar para a história do descaso público (“público” no sentido de “político-administrativo”, pois no sentido de “cidadão”, será certamente um marco a ser reverenciado a participação de professores, alunos e ex-alunos no abraço simbólico ao prédio, declarando seu amor por aquela instituição e seu repúdio a quem deixou que suas instalações imergissem em semelhante caos: parabéns, povo decente de Leme!).
São realmente incompreensíveis certas formas de gestão do patrimônio coletivo. Em muitos lugares parecem ainda campear a velha mentalidade do “deixa cair, que reforma não rende voto; depois a gente constrói outra coisa no lugar, que chama mais atenção e tem repasse de verbas”. E assim vão sendo dilapidados, sem dó, os prédios, as receitas, a memória, o passado, convertendo estações ferroviárias em teatros, deixando que teatros se tornem casas de jogos, casas de jogos em museus, e museus em mercados, que vendem “conceitos” e “idéias” de seus “patrocinadores”...
Casos como o do Coronel, por exemplo, são altamente preocupantes, se considerarmos os mesmos frente a uma administração mais avara, ou matreira (em público, este tipo de gente se considera “moderna”, “antenada”, além de outras falácias do gênero). Estivéssemos nestas circunstâncias – e creio que não estamos – o descaso com o prédio da velha escola seria facilmente justificável pela seguinte equação: “de um lado temos um prédio caindo aos pedaços e com poucos alunos, porque a demanda local diminuiu, e situado na região mais central da cidade; do outro a possibilidade de desocupar o terreno, cedendo a um particular, com a promessa de geração de empregos, ou construirmos algo que glorifique o nosso governo. Então, o que faremos: deixar que ele se arrebente de podre, ocuparmos o terreno com algo previsto nas variantes anteriores, e construirmos uma outra escola – que também assinalará o dinamismo de nosso governo – numa região de maior demanda! Ou manter a velharia em pleno centro?”. E, como acreditamos que um dia possa vir a ocorrer, clamou-se: “Deixa cair! Deixa cair! Bravos, parabéns! O Sr., meu secretário de obras, há de pavimentar meu caminho rumo à Assembleia Legilativa”... parece que possamos até ouvir tal diálogo...
Tive a honra de estudar no Coronel em duas ocasiões, no tempo em que era ainda a E.E.P.G “Coronel Augusto César”. Ali conheci excelentes professores, ótimos colegas e brilhantes diretores – em especial um, professor de Matemática (a disciplina mais horripilante da minha infância e que, graças às suas aulas, se tornou mais clara) o qual possuía o invulgar dom de apaziguar nossas badernas não com o terror e a rigidez, mas com um conversa serena, paciente, lógica e compreensiva. De todas as escolas ou colégios onde estudei foi o Coronel o único que não me deu vontade de fugir, pulando o muro: o que, aliás, era bem fácil, bastava que nos içássemos, combinando os pés, num quartinho de ferramentas, e as costas, no muro do vizinho Liceu, que dali cairíamos em território livre, pois naqueles dias, ninguém do Gloriam Dei podia nos recambiar de volta para a escola: vivíamos uma espécie de cordial rivalidade, inflamada, mas respeitosa. Algo impossível até de se imaginar atualmente.
E tínhamos, também, nossos problemas, então. Vazamentos vários nos banheiros da ala nova, poeira de cupim e caca de morcego que caía em nossas cabeças, uma biblioteca minúscula e mal aparelhada e uma sala-laboratório bem aparelhada, mas que raramente víamos em operação. E uma APM (Associação de Pais e Mestres – existem, ainda?) que tinha ótimas intenções, reunia-se bastante, e que nunca, aparentemente, conseguia resolver a falta de papel para a rodagem das cópias mimeografadas nem diminuir o custo dos jalecos dos alunos de baixa renda. Como já possuía uma certa atenção estética, incomodava-me ver, a todo momento, a substituição das antigas janelas – que não presenciei – pelos maçantes vitrôs que até hoje lá estão. Mas esta é uma questão menor. Porque tínhamos, para coroar os desmazelos de então (pálida sombra dos atuais), um velho piano de meia-cauda, decompondo-se aos nossos olhos num tablado do pátio, onde às vezes encenavam-se algumas pequenas adaptações teatrais (meu début, ali, tenebroso, foi numa adaptação e tradução de minha autoria do Henrique V, de Shakespeare, baseado num livrinho da Longman para crianças, de vinte e poucas páginas, para a qual, na falta do vestuário característico para representar o monarca inglês, vali-me de um robe chinês que pertencera ao meu pai, e que era a coisa mais parecida às roupas de princípios dos século XIV–XV que consegui encontrar. Não me arrependo nem me envergonho do que fiz, lá pelos meus treze, quatorze anos. Mas garanto que não o repetiria). E voltando ao piano, ruína de uma outra época, era ele, então, altamente respeitado por nós, pois se tratava do grande mistério da escola, afinal, diziam ser ele assombrado. Corria a lenda que, em certas noites, apesar de seu estado ruinoso, ouviam alguém tocar melodias inteiras em seus carcomidos teclados; e até alegavam ter visto duas mãos fantasmagóricas, separadas do corpo, dedilhando as teclas: uns diziam ser o velho Coronel Augusto César; outros, uma sua filha, que teria sido professora ali. O fato é que a lenda é, muitas vezes, melhor do que o fato.
Possui também o Coronel um aspecto histórico muito curioso em defesa dos valores paulistas. Meu avô, Zezito Queiroz (estudante da mesma escola) contava que, quando da invasão de Leme pelas tropas federais, na Revolução de 1932, os professores dali defenderam com unhas e dentes os livros didáticos que elogiavam a tradição piratininga, a ponto de, somente por meio da violência dos invasores, separarem-se dos mesmos, cujo destino era a fogueira.
Quero concluir dizendo que passei algumas das épocas mais felizes de minha vida no Coronel. Mas isto é o de menos, porque só diz respeito a mim. De maior relevo é meu desejo por defendê-lo, em que instâncias sejam necessárias. Pois a importância desta escola no cenário intelectual, memorialístico e afetivo de Leme é insubstituível, e, portanto, sua estrutura física, e moral, não pode desaparecer do cenário da cidade, o que seria muito mais do que lastimável, seria verdadeiramente um crime, para não dizer um motivo de se rogar uma tremenda, profunda, e sinistra praga contra às autoridades que se omitirem a esta questão. E, de preferência, numa única voz.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de maio de 2011].

Breve comentário acerca do casamento de Sua Alteza Real, Guilherme de Gales

Todas as nações do mundo têm um hábito, fortemente construído pela tradição, que é o de traduzir os nomes dos reis e príncipes de outras terras, para o correspondente na língua pátria de cada uma delas. O Brasil já integrou estas fileiras, por séculos, mas sabe-se lá por que motivo, deu para, desde umas décadas atrás, inverter o tratamento. Nestas nossas plagas, nunca se falou em Rainha Victoria, ou Kayser Willelm II, ou ainda Czar, ou Tzar Nikolai II, ou Nicholas II, por exemplo. Aqui sempre valeu a regra Rainha Vitória, Kaiser Guilherme II e Czar, ou Tzar, Nicolau II. Regra que perdurou, sobretudo no caso inglês – a última grande monarquia preservada na Europa – com os reis Eduardo VII (1841 – 1901 -1910), Jorge V (1865 - 1911 - 1936), Eduardo VIII (1894 – 1936-1936 – 1972) e Jorge VI (1895- 1936 -1952) – os itálicos se referem ao ano da coroação e, no caso de Eduardo VIII, ao tempo de seu reinado, do qual abdicou, como é vastamente conhecido o porquê e o como.
Porém, quando Isabel II (1926 -1952 -...) foi coroada, ela passou a ser chamada pela imprensa brasileira de Elizabeth II, rompendo, portanto, a tradição. E, a partir daí, seus filhos foram tratados, nas páginas dos jornais e revistas nacionais, pelos seus nomes originais, não mais traduzidos. Um amigo meu, que pesquisa este tipo de coisas, diz que foi uma tentativa de revistas como Manchete e Cruzeiro de fazer uma média com seus leitores. Algo parecido com o que as Caras, etc., etc., fazem hoje em dia, mencionando celebridades em suas manchetes apenas pelo primeiro nome, como se tal expediente fosse capaz de produzir um imediato e próximo contato entre o leitor e seu modelo. Daí lermos até hoje, Príncipe Charles, Princesa Anne, Princesa Diana (vulgo, em alto e bom som Daiana), e, agora, Príncipe William (Guilherme, e se assumir o trono, futuro rei Guilherme V) e sua consorte Kate (Catarina) Middleton (“Medianeira”? “Mediana”? “Medíocre”? “Meridiana é um melhor termo para uma futura rainha). É, aliás, plenamente compreensível o emprego da forma inglesa dos nomes em detrimento de sua tradução: basbaques que são, em geral, os brasileiros, não se sentem à vontade, ou não se consideram dignos de verter, com toda autonomia, os nomes estrangeiros ao vernáculo quotidiano. “Príncipe William é o correto, não pode ser rebaixado a um simples Guilherme”, creio que muitas pessoas pensam. O que é uma pena.
Mas a pior coisa desta marmota que é o casamento deste príncipe britânico, que, em princípio, só diz respeito à corte inglesa, é o fato da transformação do evento num fenômeno mundial de mídia. Vá lá, o espetáculo há de ser bonito – lembrando que escrevo esta crônica e submeto-a à publicação na quinta-feira, antes, portanto, do evento em si – mas, há que se perguntar, o que muda na vida de qualquer brasileiro o fato de Guilherme casar-se com Catarina? Tal episódio inflará os sentimentos monarquistas nacionais a ponto de rompermos com a República, reinstalarmos a Monarquia, para podermos celebrar algo do gênero? Certamente não.
É assustador observar como a grande imprensa – que neste episódio revela como seu papel é muito mais o de entreter o público e jogar pipocas aos macacos do que realmente informá-lo – tem tratado a coisa como uma espécie de folhetim que, por outro lado, nunca se cumpriu da maneira de costume, sujeito a embaraços vários e complicações mútuas. Pois o enlace principesco, ora em tela, deu-se pelo consentimento mútuo de seus envolvidos. Não houve razão de Estado, interesses nacionais, ou qualquer outro aspecto grave relacionado à questão: Guilherminho gostou de Catarininha, e como diria Totò Mattoli, "punto e basta"!
E, portanto, basta de especulações quanto a quem deveria ser convidado ou não para o enlace. Isto é fofoca, não é fato para jornalistas que pretendem fazer jus à sua profissão.
Que coisa mais patética este desfile de especialistas para analisarem o casamento! Que prova mais cabal de nossa exclusão de tal evento, qual o das crianças pobres da Itália do pós-guerra, que por desconhecerem o sabor de um sorvete, eram levadas pelos pais para verem as crianças ricas apreciá-los, mas por detrás das vidraças das sorveterias, e sem fazer muito alarde. Resumindo, que papelão: transformar um casamento numa façanha e um circo numa epopeia!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2011].

Quinta-Feira Santa ou Quarta-Feira Santa?

Nesta semana, tão venerável aos católicos, uma notícia publicada pela agência internacional de notícias Reuters – e pavorosamente mal-traduzida por sites confiáveis em nosso país – causou um certo alarde em diversos meios. Trata-se daquela referente à hipótese de que a derradeira Ceia de Cristo, na qual Ele instituiu a Eucaristia, teria ocorrido numa quarta-feira, ao invés da tradicional Quinta-Feira Santa.
Tal é o que sustenta o professor Colin Humphreys, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um declarado cristão e físico aclamado (além de Cavaleiro do Império Britânico – um Sir, portanto – ) que estuda o assunto desde 1983. Segundo ele, que se dedica a resolver algumas das várias contradições da Bíblia, a discrepância em relação à data do acontecimento seria resultante do emprego de diferentes referências por parte dos Evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas dataram a última Ceia com base no calendário mosaico, lunar, e João, situou o acontecimento a partir do calendário oficial então em curso na Palestina (o texto não fala, mas, indagamos: por acaso não seria o Calendário Juliano?), o que permitiria tal variação para o estabelecimento do dia correto. E, de acordo com o mesmo Sir Colin, para reconstruir o calendário referente ao ano de 33 d.C, e para chegar às conclusões que chegou, teria o mesmo se valido da ajuda de um astrônomo e de seus cálculos precisos. Finalmente, comenta o referido professor:

“[...] Eu estava intrigado com as histórias bíblicas sobre a última semana de Jesus, nas quais ninguém consegue encontrar nenhuma menção de quarta-feira. É chamado de um dia perdido [...] Mas isso parecia ser tão improvável: afinal de contas Jesus era um homem muito ocupado.”

De fato, sempre me pareceu que a conta não fechava muito bem naqueles movimentadíssimos dias que vão do Domingo de Ramos até a Ressurreição. E, sobretudo, no que dizia respeito ao desenlace final. Situar a Ceia, o sono dos apóstolos, a traição de Judas, a prisão de Cristo, o processo movido contra Ele, os suplícios que Lhe foram impostos, Seu julgamento, a Via Crucis, a Crucificação, a Agonia no Calvário e a Sua Morte, além de todos aqueles outros eventos intermediários dos quais tanto se falou ao longo dos séculos, e tudo isto em menos de vinte e quatro horas, é um tanto inconcebível. A justiça romana tinha lá a sua práxis. E por mais que fosse aquele um caso de exceção, urgente, a burocracia, com seus eternos entraves, retardaria todo o episódio. Sem falar que tal vertiginosa, variada e terrível sucessão de acontecimentos não poderia ter se iniciado na madrugada de uma sexta-feira e ser concluída às seis horas da tarde do mesmo dia. E é de se espantar como os jesuítas, por exemplo, que meditaram tão profundamente, emotiva e vivamente, sobre o assunto, nunca pareceram ter pensado nisto... Pois, convenhamos, nunca tanto poderia ter acontecido em tão pouco tempo. Nem mesmo para um Deus, sobretudo, como no caso, um Deus sujeito às vagarosas e imperfeitas ações humanas.
A teoria de Sir Collins, portanto, em minha opinião, é bastante válida em muitos pontos. Só me intriga porque acolheu, para sua base de cálculo, o ano de 33 – tradicional, evidentemente, mas do ponto de vista histórico, cada vez mais questionado, da mesma maneira que o ano 1, como os limites da vida de Jesus. Não, não pretendo supor que Ele sobreviveu à cruz e foi pregar no Tibete, como querem alguns. Pelo contrário. Mas não é de hoje que se levantam convincentes dúvidas quanto ao ano de Seu Nascimento e de Sua Morte, um intervalo que poderia ser situado entre os anos de 7 e 2 a.C, e 30 e 36 d.C., pela cronologia romana, pela do cronista judeu Flávio Josefo (37-100 d.C), e em relação à vida de Herodes, o Grande (sic). De modo que, neste campo, parece que o sábio inglês parece ter seguido mais a tradição, oriunda da escolástica, e a convenção, relacionada à sua crença manifesta, do que o método científico, ou a investigação, o que é uma pena, e uma surpresa, de algum da Física...
Pois bem, como historiador, e pesando bem a situação, gostaria de dizer que a precisão quanto às datas são extremamente importantes, nalguns casos, e absolutamente irrelevantes, noutros. Desde que não se confunda uma década com outra, que não se situe uma conseqüência como anterior ao fato que a produziu, não se erra muito em história. Datas são, na maioria dos casos, balizas, para que não se perca a visão de conjunto. Ninguém pode dizer, por exemplo, que Cabral avistou o Monte Pascoal em 1499 ou 1501. Sabemos que tal se deu em 1500. Mas qual foi o dia exato? Segundo o Calendário Juliano, vigente à época do avistamento, era o dia 22 de abril. Mas quando passou a vigorar o Calendário Juliano, em 1582, pelo qual foram descontados 10 dias, a celebração de tal episódio deveria passar a ser comemorada em 2 de maio.
Em suma, o que eu queria dizer é que pouco deve importar, a todos que creem Nele, se Jesus, o Cristo, nasceu antes ou depois da data convencional do ano 1, ou se morreu antes ou depois do ano 33. Por mais que Sua presença histórica tenha de ser continuamente declarada – vide o Credo, com aquele Pilatos muito fragilmente citado na historiografia romana, mas largamente mencionado em diversos Apócrifos que, certamente, ajudaram a constituir o cânone, ainda que fossem mais tarde rejeitados – qualquer pessoa de bom senso há de concordar que a importância de Jesus, o Cristo, se dá por Sua Pessoa, ensinamentos, palavras, e não por uma suposta exatidão cronológica a ser encontrada nos Evangelhos, esta obra coletiva, coligida sabe-se lá por quantas mãos, traduzida sabemos muito bem como, e que tantas edições conheceu, ampliadas e reduzidas, não só quanto ao tamanho, mas quanto à essência, também.
Concluindo, reitero minha simpatia à nova cronologia da Semana-Santa proposta por Sir Colin Humphreys. Tal justifica e santifica a quarta-feira e permite compreender o desenrolar dos fatos posteriores numa sequência possível: permite mais tempo a todos aqueles terríveis acontecimentos que envolveram Jesus e seu martírio. Penso até em retornar a este assunto noutra ocasião. Mas, para que não digam que sou um desmancha-prazeres, um impenitente ou demasiado ácido, o que não sou, quero desejar, do fundo de meu coração, isento de maus humores eventuais, uma Feliz Páscoa a todos os colaboradores, funcionários e leitores d’A Notícia e seus familiares, e mesmo para aqueles que não têm a oportunidade de ler este bravo jornal (o quê é uma pena). Uma Feliz Páscoa, com menos ovos de chocolate e mais espírito ecumênico, fraterno, humano.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2011].

O Louco menino do Rio

Dizem que a origem do nome do bairro carioca do Realengo deve-se ao fato dele ter se formado ao longo da linha de bondes, ainda puxados por burros, que levava ao Real Engenho, abreviado na tabuleta do alto dos carros como Real Engº. E, até quinze dias atrás, parecia ser esse o único aspecto de interesse no que se referia àquela localidade. Mas, desde então, como é público e notório, o bairro entrará para a história – não sei por quanto tempo – por nele ter se desenrolado aquele tristíssimo episódio no qual doze crianças perderam a vida pelas mãos de um desatinado.
O fato, verdadeiro motivo de desespero para os familiares e amigos das vítimas, e de profunda consternação para todo o país, foi, por outro lado, uma típica festa para a grande imprensa e para meia dúzia de especialistas ávidos pelos holofotes da mídia. Poucas vezes tornou-se mais evidente um certo desserviço prestado pelos meios de comunicação quanto neste caso. O crime tornou-se um espetáculo, a investigação jornalística foi substituída por um impressionismo sensacionalista, quando não abertamente fantasioso, e sempre hidrófobo, espumando pelo canto da boca e clamando por sangue.
Fosse Lula ainda presidente, alguns jornalões e revistas de grande tiragem diriam até, na falta de se poder culpar alguém, que a responsabilidade seria do Governo Federal. Mas não foi, é claro. E nem se pode falar, num caso destes, de completa responsabilidade de quem quer que seja. Pois tudo indica que o moço que matou aquelas crianças era um completo demente e, como sabemos, loucos são inimputáveis, ou, melhor dizendo: como doidos não sabem o que fazem, a lei não pode considerá-los iguais aos sãos – vale o mesmo com os menores de idade, cuja capacidade de conhecimento da realidade, muitas vezes, corresponde à daqueles, aos olhos da legislação. Além disso, ainda há uma outra questão que em grande parte exime as autoridades de segurança quanto ao que ocorreu. Lembro-me de uma entrevista lida lá pelos anos 1980, pouco depois do atentado sofrido pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan, em que um ex-membro da CIA – a principal agência de informação daquele país – dizia, para quem quisesse ouvir, algo mais ou menos assim: “quando um louco, ou até uma pessoa qualquer, pretende matar alguém e está disposto a morrer por isto, ninguém consegue detê-lo”. Os inúmeros homens-bomba, a todo o momento confirmam tal teoria. O jovem carioca, também.
Os sabujos da grande imprensa – convertidos em animadores dos ódios mais extremados e das paixões mais vis em prol dos níveis de audiência – não deram trégua, portanto, ao assunto, explorando-o de uma maneira que, antigamente, cabia apenas à chamada imprensa marrom, ou aos antigos jornais “espreme-sai-sangue”. E, secundando-lhes as opiniões disparatadas, toda uma récua de peritos nisto e naquilo, quais vivandeiras abastecendo a malta dos espectadores do horror. Os quais alegaram que o motivo da atitude do jovem seria uma vingança por ter sofrido bullying, o assédio escolar; que, se louco, deveria ser medicado; e até de radical islâmico foi chamado, aquele infeliz!
Bem, é verdade que o bullying vem crescendo em gênero, número e grau. Em grande parte tolerado pelos ouvidos moucos dos pais dos agressores, e em maior parte ainda estimulado por filmes norte-americanos que retratam a vida escolar de uma maneira em que tal agressão é tão previsível e quotidiana quanto o horário das aulas e do lanche entre elas. Todavia, ele não é um fenômeno recente, pelo contrário. Quem leu o romance de Raul Pompéia, O Ateneu, de 1888, lembra-se de tais práticas ocorridas dentre os muros do colégio do Professor Aristarco, e os sonhos de vingança do protagonista.
Quanto à necessidade de medicação de pessoas com problemas mentais, é claro que ela é imprescindível. Mas é muito fácil falar. Pois como se convence, pela lógica, uma pessoa em parte alienada da lógica, a fazer isto ou aquilo? Se em casos mais leves, ou menos antissociais – depressão, bipolaridade, etc. – já é um custo fazer com que o paciente tome seus remédios, que dizer nos casos de esquizofrenia ou piores? Voltaremos às práticas dos grandes hospícios, verdadeiras máquinas de moer gente? O de Barbacena, por exemplo, célebre em prosa e verso, por trás de suas intenções humanitárias e sanitaristas, tinha uma média de mortalidade anual que não devia nada a certos campos de concentração nazistas – uma grande amiga, cujo pai tinha um sítio ao pé do morro daquela instituição contou-me como, depois de uma chuva e do deslizamento de terra da encosta, foram vistos incontáveis esqueletos sem identificação qualquer, descendo pela enxurrada, rolando pelos roçados. É isto que queremos?
Por fim, a questão religiosa. Argumentou-se, a princípio, que o moço do Rio era um fanático muçulmano. Todavia, nos vários depoimentos que deixou gravados, mencionava a todo momento o nome de Jesus, a necessidade de pureza, ou purificação, e coisas que tais. Então, a grande mídia silenciou. Curioso, muito curioso... Não falo que a crença em Jesus Cristo leve às pessoas, necessariamente, a atos insanos contra o próximo, apesar dos exemplos históricos dos donatistas, valdenses, bogomilos, dentre tantos outros hereges que se consideravam autênticos cristãos e não pensavam duas vezes antes de derramar o sangue dos impuros. O mesmo valeria para os cruzados, para os dominicanos, para a conquista da América pelos espanhóis, etc. Tais horrores de então se justificavam, em parte, pela própria época violenta em que se deram. Não possuíam a mesma sensibilidade de hoje. Não tinham formulado uma Declaração Universal dos Direitos Humanos como a temos desde fins dos anos 1940.
Pois bem, salto para o começo desta semana, depois que o infelicíssimo episódio do Realengo tornou-se conhecido no mundo inteiro. Conforme me contou uma amiga professora, dois alunos seus – do ensino médio, um casal de irmãos de classe média alta, ele de aspecto normal, nem feio nem bonito, ela com vastos e belos cabelos – voltam de um retiro espiritual num acampamento – que tenho quase a absoluta certeza de que não seja católico – com os cabelos completamente tosados, raspados à máquina zero. Indagados do porquê de terem feito aquilo, ela obteve a seguinte resposta: “Porque Jesus nos ordenou!”. Assustador...
Defendo o Estado Laico na exata e igual medida em que defendo o Ecumenismo e a liberdade de qualquer pessoa a abraçar a religião que for de seu desejo ou, se assim o achar, fruto de uma Revelação, quiçá. Preocupa-me, entretanto, esta nova e violenta militância religiosa, que ignora as várias experiências religiosas e, qual numa nova Cruzada, só enxerga infiéis naqueles que não rezem em seus – verbi gratia – “catecismos”. Precisamos de paz e inclusão, e não sectarismo e intransigência. Pois se o Homem foi feito à imagem de Deus, ele há de ter um pouco da misericórdia d’Aquele. E por ser criatura, e não Criador, não deve se considerar o derradeiro Juiz. Tampouco Seu mensageiro privilegiado. Nem, muito menos, os carrascos do Altíssimo. Como, assim parece, julgou-se ser o louco menino do Rio.

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2011].

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

Tudo pelo Cine Alvorada!

Quando o leitor tiver em mãos, sob seus olhos, esta página com minha crônica, e de minha cara vizinha Berenice, espero ainda que, com os mesmos olhos, possa avistar, firme e inabalável, o Cine Alvorada, em seu mesmíssimo lugar, físico e cultural, na cidade de Leme. Anseio, sinceramente, que as autoridades locais – públicas, mas não só, pois a sociedade civil é também uma autoridade, senão a primeira, de direito – tomem as medidas necessárias para que um foco irradiador de cultura, e uma interessante construção de fins dos anos 1950, seja preservado com todo o respeito de que faz jus.
Já de antemão afianço que a responsabilidade final caberá ao poder executivo ou à Câmara, em suma, às esferas municipais. Só a eles cabe o tombamento do prédio. Que não se, recorra, portanto, às avaliações do Condephaat – míope na análise de casos (os abatedouros parecem ter primazia frente aos avoengos solares) e manco na celeridade com que os encaminha à preservação – ou àquelas do IPHAN – este é cego de um olho (só enxerga valor artístico, histórico ou arquitetônico em construções com mais de cento e cinquenta anos) e perneta (seus processos de tombamento seguem o ritmo da marcha do Saci). Quanto à boa-vontade do novo proprietário – do, agora friamente chamado, imóvel – duvido de que a mesma possa ser abalada. Quem cogita em pôr abaixo um marco cultural e arquitetônico do município para, em seu lugar, erguer – que digo, e desde quando tal coisa se ergue? – um pátio de vendas de automóveis demonstra não ter sensibilidade alguma frente à cidade em que vive. Nem, tampouco, boa visão para os negócios, pois, afinal, o mesmo se localizaria no término de uma Avenida, na qual a concorrência já se encontra estabelecida e atuante. Ninguém desce ao fim de nada para tomada de preços, sobretudo neste ramo comercial. Quem compra carros – e isto é sabido do Oiapoque ao Chuí – procura os estacionamentos à entrada das cidades e próximos às rodovias: ninguém desbrava ruas das quais não sabe como retornar.
Considero também lamentável que a família proprietária do Cine Alvorada tenha querido livrar-se dele, sem pensar no destino que o mesmo poderia ter. Pois não se fecha um cinema como se fecha uma venda ou um armarinho. Graças à sua influência política, poderia ter planejado um fim mais nobre para o empreendimento, como transformá-lo, por exemplo, num Cine-Teatro Municipal, ou algo do gênero, encampado pela Prefeitura ou, ainda, pela Câmara – a casa dos edis de Itatiba, SP, por exemplo, mantém, em suas dependências, um excelente teatro. Tal proposta, se aberta à manifestação pública, frisando-se a sua necessidade para a manutenção do prédio e de suas funções, certamente granjearia a adesão de muitos munícipes. Mas, a política, sabemos todos como ela é: mãe num dia, madrasta no outro, e que se percam os anéis para se salvarem os dedos.
Saindo da esfera monetária e política, retornando à espiritual, sinto-me no dever de afirmar que tenho gratas lembranças do Cine Alvorada. Namorei muito pouco dentro dele, mas, por outro lado, diverti-me à farta, junto a amigos, com o objetivo primeiro e principal da casa, afinal de contas: assistir aos filmes. E, em especial, as reprises. Até hoje tenho amigos que não acreditam que, um dia, eu possa ter visto Ben-Hur em exibição panorâmica. Pois não só o vi, como revi, quase toda semana-santa, exibido na tela – panorâmica – do Alvorada. Quem se lembra do filme, sobretudo da corrida de bigas, sabe do que estou falando. Pois se trata de uma experiência única. Às vezes, na mesma temporada, éramos sujeitos a alguns abacaxis, como O Manto Sagrado – ao qual apelidávamos de O Manto Sangrado, porque a chatice do filme sangrava nossa paciência. Por outro lado, havia ainda um excelente filme espanhol, do qual nunca consegui lograr maiores informações além do título: O Beijo de Judas (“El Beso de Judas”), cujo artista que interpretava Jesus parecia ter mais de dois metros de altura e seu rosto nunca era mostrado. O que valia por dezenas de tratados teológicos (não só cristãos, mas até judaicos e islâmicos), quanto à representação humana de um Messias e nossa capacidade de compreendê-los. Acho que até alguns ateus endossariam a abordagem humana de toda a questão.
Enfim, reitero meus votos – mais que votos, pois subescrevi o abaixo-assinado virtual (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2011N8232 ) – de que o Cine Alvorada permaneça onde está. E apoiarei, publicamente, todos os que se manifestarem por tal. Entretanto, não sei ainda o destino do mesmo ante aos olhos do leitor (esta crônica é enviada entre às quintas e sextas-feiras). Caso o nosso velho cinema venha abaixo, digo só uma coisa: para mim, e espero que outros pensem o mesmo, a 29 de agosto passará a acabar na Newton Prado – o resto já não mais me interessa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de abril de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – VI – O Ódio emburrece

As pessoas, em geral, têm o hábito de considerarem as palavras equívoco, engano e erro como mais do que sinônimos, as consideram, praticamente, como termos de idêntico significado, o que, é claro, não são. Há toda uma gradação entre elas, para dizer o mínimo. Por exemplo, podemos dizer que uma mulher se equivoca ao escolher um mau sujeito como marido. Que ela se engana ao pensar que ele pode melhorar, e que ela erra ao continuar vivendo com ele. Ou melhor, pensemos em Cristóvão Colombo. Quando chegou ao Novo Mundo, ele equivocou-se ao julgá-lo ser a Índia. Mais tarde ele enganou-se ao considerá-lo pouco distante da Ásia, e errou, renitentemente, ao não considerá-lo um novo continente. Último corolário: metade do mundo se equivocou com a ascensão do nazifascismo nos anos 1920-1930, julgando-o uma alternativa aceitável à inepta democracia liberal (francesa, alemã e norte-americana), ao odioso imperialismo (britânico) e ao temível comunismo (russo). Metade daquela metade se enganou ao não perceber os horrendos ataques movidos por aqueles regimes contra a liberdade e contra os direitos humanos em geral. E uns tantos ainda erram ao julgarem tais formas de poder como viáveis e justas – sim, é de pasmar, mas há ainda quem pense assim.
Fazendo-nos valer do último exemplo, ele traz à memória o Integralismo, a nossa versão tapuia do Fascismo, encarnado na figura de Plínio Salgado (1895-1975), um bom escritor que se tornou um mau político. Todo mundo associa, prontamente, os galinhas verdes (como eram chacoteados, pelo uso das camisas daquela cor, e por seu comportamento de bando, cacarejando as verdades ditas pelo galo,) ao seu líder máximo, mas muita gente tida como boa foi integralista ou flertou com aquele movimento. Tais foram os casos, dentre outros, dos escritores Augusto Frederico Schmidt, Gerardo Mello Mourão, Ribeiro Couto, José Lins do Rego, Adonias Filho e Madeira de Freitas (o Mendes Fradique, autor da História do Brasil pelo método confuso), dos historiadores Hélio Viana e Américo Jacobina Lacombe, do jurista Miguel Reale (ideólogo máximo do Integralismo, além de conterrâneo de Plínio Salgado) e de quatro insuspeitáveis senhores: o político San Tiago Dantas, o mais tarde cardeal Dom Hélder Câmara e o poeta Vinícius de Morais. Desta claque fazem ainda parte o folclorista Câmara Cascudo e o escritor e historiador Gustavo Barroso.
Câmara Cascudo, como escritor e pesquisador, assemelhava-se a um caçador que encontra um coelho minúsculo, onde ninguém avistou nada, desentoca-o e o abate com um tiro de fuzil! Foi um caso raro de alguém que se equivocou, se enganou e errou politicamente até o fim da vida, apoiando, até seu último sopro como vivente, a Ditadura Militar de 1964. Mas Gustavo Barroso foi ainda mais além. Se não viveu para assistir ao golpe, morreu como um empedernido defensor das ditaduras (a última foi a de Salazar) e um declarado antissemita. Seu caso é muito mais de um erro, permanente e reiterado, do que de equívoco ou engano. Duvidam? Pois vejam. Dizem que o Diabo é o pai do erro. Prefiro a máxima que afirma que “errar é humano, perdoar [ou corrigir-se] é [dom] divino, e persistir no erro é diabólico”. Porque o ódio por uma etnia, cultura, religião é tão certamente um erro quanto igualmente diabólico. E, o que é quase tão grave quanto, o ódio emburrece. E o antissemitismo, ou antijudaísmo de Gustavo Barroso, certamente o emburreceu.
Li, recentemente, o primeiro volume de sua obra História Secreta do Brasil, no qual ele atribui todas as mazelas sofridas por nosso país, do descobrimento às vésperas da Independência, a uma conspiração judaica para a dominação do mundo e exploração dos povos. Os mesmos argumentos defendidos pela imbecil e criminosa falsificação literária (já largamente demonstrada enquanto tal) que são Os Protocolos dos Sábios do Sião (nem um pouco coincidentemente editados e publicados por Gustavo Barroso, em 1936, um pouco antes de livros de sua autoria com escancarados títulos tais como A Sinagoga Paulista (1937), A Maçonaria: Seita Judaica (1937) e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo (1937).
Pois bem, a burrice odiosa, ou o ódio burro de Gustavo Barroso, subverte o que de mais importante ele pretendia na sua História Secreta: o convencimento do leitor. Porque, de fato, ele, em grande parte, nos convence da presença judaica nas terras do Brasil muito antes mesmo que este recebesse o seu nome. Tal seria o caso, por exemplo, de João Ramalho, genro do cacique Tibiriçá (demonstrado, anteriormente, por Teodoro Sampaio, Orville Derby e Horácio de Carvalho, dentre outros, na Revista do IHGSP, v. VII, 1902, pp. 255-368 – meu exemplar da mesma edição pertenceu ao ex-governador/presidente estadual de São Paulo Bernardino de Campos, mineiro de Pouso Alegre). Barroso também afirma (baseado quase que exclusivamente em Solidônio Leite, que ele considera um defensor entusiástico dos judeus – e, no entanto, o cita...) que o capital empregado na exploração do pau-brasil e, posteriormente, na produção da cana-de-açúcar, bem como seu comércio e distribuição pela Europa, além do utilizado no tráfico de escravos era proveniente dos cristãos-novos (judeus batizados à força e que, não necessária ou suficientemente, abraçaram a fé cristã). Aos judeus também atribui, de um lado, os planos da invasão holandesa no Nordeste, e, por outro, a facilitação para tal fim promovida pelos cristãos-novos da mesma região, que atuavam como espiões. E mais ou menos conclui o primeiro volume, alegando que os judeus, controladores do comércio de diamantes no mundo – que, se não é um fato completo, é 99% dele) – desvalorizavam os brilhantes brasileiros, pagando por eles uma mixaria aos portugueses e faturando alto nos mercados europeus.
Não há como discordar de muitos dos argumentos apresentados por Barroso. Salvo que, em primeiro lugar, onde ele vê cobiça, podemos entender como pioneirismo. Onde enxerga exploração, talento empreendedor. Conspiração? Por que não uma eficiente organização comercial? Depois, tanto o tráfico negreiro, quanto a baixa avaliação das gemas e brilhantes, que não provindas das possessões orientais inglesas – como até hoje tal se verifica, no caso das pedras – se deram por responsabilidade absoluta dos ingleses (e, note-se, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, retornando somente por volta de 1656 – o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, portanto, foi construído estritamente na base de um estereótipo, não da observação factual do autor).
Por fim, o que mata a intenção – maléfica – de Gustavo Barroso são os seus recorrentes comentários à perfídia dos judeus, à sua covardia, usura, despotismos, crueldades, canalhices várias, seus complôs demoníacos, suas degenerações morais supostamente plasmadas em seus corpos e feições. Em suma, não dá para engolir. Quando estamos quase convencidos de sua tese, ele nos afronta com as generalizações mais grosseiras e vulgares, avessas figadalmente à ética científica e moral, à lógica, à História enquanto disciplina, enquanto registro dos fatos e gênero literário, em suma, a toda e qualquer retórica plausível. Seu ódio o emburreceu.
É lamentável o esquecimento a que foram relegadas as obras de Barroso relativas à colonização portuguesa na Ásia, ricas de informações e análises. Por outro lado, se um homem pode ser medido por sua obra, ele recebeu aquilo que merecia. Um tácito esquecimento. E que assim seja!


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 26 de março de 2011].