sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os Livros da juventude

Tenho um conhecido de quem compro muitos livros, na maioria usados, por meio de sua loja virtual. Vez ou outra estendemos nossos contatos pela Internet para além da mera compra e venda de um determinado livro, e conversamos sobre outros assuntos, principalmente... livros, é claro. Assim ele me conta das dificuldades do mercado, da quase impossibilidade de se encontrar alguma raridade à venda por um preço baixo — coisa que já foi possível, há não muito tempo atrás — e outros temas afins. E eis que, dia desses, convidou-me para participar de um grupo virtual voltado para a busca de livros e trocas de informações. De pronto, aceitei, porque morando longe dos grandes centros e de seus sebos e alfarrábios, quase não há alternativa que não procurar o que me interessa pela rede. E são tantos os endereços e lojas eletrônicas que surgem e desaparecem, que buscar um a um acaba por ser tarefa demoradíssima. Fazendo parte de um grupo que está sempre em contato e sempre pesquisando, acreditei, reduziria tempo e cansaço. Assim, cadastrei-me, e como as comunicações de uns para outros acabam sendo de conhecimento de todos, acabei por conhecer os interesses dos demais participantes.
Já fazia idéia, é claro, que não encontraria gente procurando eruditíssimos tratados do século XVII, nas edições originais. Ou primeiras edições, ou autografadas, de Machado, Alencar, Guimarães Rosa, etc. Nem, muito menos, ardentes admiradores de qualquer autor de best-sellers, atuais ou não, que tal tipo de livros podem ser comprados praticamente aos quilos em qualquer sebo, mesmo nos menores. O que eu não contava era com os gostos predominantes daqueles novos “confrades”, por assim dizer. Pois a imensa maioria das comunicações era de gente procurando livros sobre alquimia, feitiçaria e coisas do gênero, quando não pedindo aos demais indicações de leituras “imprescindíveis” sobre aqueles temas. É de se pensar o que se passa na cabeça destes jovens — pela maneira como se apresentavam ao grupo e mesmo pelo que diziam de si próprios, eram, indiscutivelmente muito jovens.
É uma matéria digna de ser pensada também porque desmente, sob alguns aspectos, uma certa idéia fixa de que o jovem brasileiro não lê. Ao que tudo indica ele está lendo sim, talvez não o que o grosso do público costuma ler; nem, também, necessariamente, compre muitos livros novos. Mas tem se dedicado à leitura. E que leitura!
Não condenarei, aqui, qualquer tipo de conhecimento, por mais que tenha reservas quanto a alguns deles. As pessoas são livres para lerem o que lhes der na veneta, e isto é ótimo. Nem serei ingênuo o bastante para dizer que tal ou qual leitura possa alterar radicalmente o comportamento de uma pessoa, para o bem ou para o mal. Acontece, é verdade, mas bem menos que se imagina. Do contrário, os jornais estampariam inúmeros casos de leitores de romances policiais cometendo os mais variados crimes. Ou hordas de revolucionários marchando por nossas ruas só porque leram um fragmento aqui, outro ali, de Marx, Bakhunin, etc. A Bíblia continua sendo um dos livros mais lidos de todos os tempos e, nem por isso, vemos hoje as pessoas largando tudo pela Fé ou querendo impor algumas daquelas práticas bizarras que vemos no Antigo Testamento, como escravizar ou matar quem pensasse e agisse diferentemente dos “escolhidos”. Mas um pouco de critério não mataria ninguém.
Há quem veja nestas leituras reflexos de fatos mais pontuais, ou seja, um puro modismo iniciado pelo livro “O Código da Vinci” e suas réplicas, tréplicas, continuações e cópias. Todavia esse gosto pelo obscuro, pelo macabro, por grupelhos iniciáticos, pela necromancia e demais práticas mágicas não é tão recente, quanto parece à maioria das pessoas. É raro encontrar algum adolescente, hoje em dia, que não desfie várias histórias de vampiros, feiticeiras e ordens místicas, e as mais disparatadas, como se tratassem de grandes e graves verdades. Uma busca na Internet por temas como “bruxaria” — e sua variante moderna de nem um século, a chamada “wicca” — ou sobre “satanismo”, “paganismo”, e que tais, surpreenderia a qualquer incauto, pelo imenso número de ocorrências. É um fenômeno que, pelo menos no Brasil, já data de uma década.
E o que se pode fazer? Queimar os livros? Os leitores? Impedir a leitura? Claro que não. Ainda que boa parte desses jovens sonhem com uma Idade Média muito mais mítica do que real, jamais aplicaríamos a eles um “remédio” daqueles tempos. Ainda que se deixem levar por informações sem qualquer rigor quanto aos verdadeiros fatos, quanto às origens históricas de tal ou qual prática, ainda que na sua pretensa fuga aos dogmas acabem por aceitar novos e exóticos dogmas, a coisa há de mudar. Novos e bons livros vêm surgindo, pondo os pingos nos is, revelando o que são lendas insensatas, o que é má-fé, e afirmando o que é verdade histórica, crítica. No final, veremos que tudo não passou de uma febre momentânea, mas que talvez deixe um estranho legado para a posteridade: é bem possível que, no futuro, julguem a juventude de nossos dias como a mais crédula, simplória e supersticiosa do milênio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2005].

Uma questão para além das campanhas anuais

Creio que todos que viram o início da Campanha do Agasalho deste ano devem ter dado um pouco de ombros. Afinal, viveu-se um calor bastante atípico até esta semana, e a simples menção a cobertores e malhas de lã, enquanto queixou-se do ar abafado, causava verdadeiro mal-estar. Mas eis que o frio parece ter chegado e, com ele, a lembrança quanto ao dever moral de doar agasalhos. E em nome deste, lá se vai aquela jaqueta que não serve mais, aquele casaco que saiu da moda ou que foi irreversivelmente manchado.
O próximo passo é acolher as equipes atrás de doações e, assim, livrar-se daquela saia ou calça que encolheu. Ou carregar um pesado fardo até algum posto de arrecadação e lá depositar, com todo o estardalhaço possível, as camisas velhas do finado tio Fulano, guardadas desde o ano anterior, unicamente para este fim; ou o enxoval da tia Beltrana, que teve o bom-senso de falecer recentemente, legando roupas “quase novas”. Que bela imagem o doador fará, com aquele monte de roupas que ali tão desinteressadamente deixa.
Depois, é só observar pela televisão o trabalho das esquipes fazendo a triagem das doações, o esforço do Corpo de Bombeiros, do Exército, de escoteiros e voluntários nesta meritória tarefa que é distribuir alguma espécie de conforto físico aos desfavorecidos de toda parte.
E, por fim, assistir, por mio daquela grande emissora, no conforto do lar, alguma reportagem na qual se vê o destino de um suéter com o Mickey Mouse estampado: da Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, para o Jardim Ângela, na capital dos paulistas. Com sorte, ainda poderemos ver o recolhimento dos indigentes de todos os sexos e idades aos albergues, lugares tão elogiados pelos seus mantenedores, que não se compreende a relutância de tantos em ali ingressarem. E visto tudo isto, mergulhar no sono, numa cama quente e confortável, como a sensação do dever cumprido. Afinal, deitado numa cama, aquecida por cobertores, sob o teto de uma casinha quente, do que mais o homem precisa? Está bem. Que seja. Mas o que é que pode ser dito quanto ao teto e às casinhas onde boa parte do povo vive hoje em dia?
É aí que reside a outra parte da questão, referente ao frio, mas que serve para todo o resto do ano e da vida, e que, ao nosso ver, é a principal: as moradias populares no Brasil, construídas pelo poder público, de qualquer instância, são, em sua imensa maioria, inqualificáveis! Para não dizer, completamente desqualificadas. Pensadas para serem construídas aos punhados, contrariando topografia e sentido na ocupação do território, são frutos não dos cálculos que garantam um bom loteamento do terreno, uma boa estrutura das casas e demais qualidades básicas de vida, mas o custo mais baixo possível para se vencer uma licitação, ou qualquer outro nome que venha a ter. Ou alguém duvida?
Quem não conhece alguma história, por este Brasil afora, de conjuntos de casas populares construídas em baixadas, em brejos, em ribanceiras, só porque aqueles terrenos pertenciam a algum “correligionário político”, que “de boa vontade dispusera a terra ao bem comum”? Ou o inverso, histórias de terrenos sem valor e sem utilidade que se tornam, de uma hora para a outra, o local ideal para a construção de conjuntos habitacionais, sendo que depois se descobre que aquela terra era de algum discreto, ou nem tanto, amigo do poder no momento. Mas, em ambos os casos, uma coisa é sabida: o dinheiro das desapropriações é régio.

Assim são erguidas casas que, de tão pequenas e mal planejadas, mal permitem camas, que não uns catres duros e estreitos e que não duram cinco anos, quando não uns ralos colchões dispostos no chão. Sobre estes leitos, em geral não há forro. E assim padecem o frio do inverno ou os horrores de um verão superdimensionado, quando o calor é todo reverberado para dentro das casas, junto com as mil más influências de toda a sorte de produtos tóxicos que se empregam em certas coberturas de casas, que se empregam no sagrado teto.
Neste princípio de inverno, pensemos, sim, na doação de agasalhos. Mas não nos esqueçamos de que só eles não bastam. Moradias populares decentes são um alívio muito maior contra o frio do que cobertores remendados ou velhas roupas puídas. E tanto umas, quanto as outras, afinal, são bancadas pelo nosso bolso. Não é hora de interessarmo-nos mais pelo assunto, para além de uma simples estação do ano?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2005].

O Atentado de Londres, uma quinzena depois

Um dos males em se publicar uma crônica de quinze em quinze dias é que freqüentemente a velocidade dos fatos nos toma a dianteira e aquilo que era novo numa semana, quando transposto para o papel, acaba com ar de velharia. E isto se verifica com ainda muito maior gravidade quando um grande acontecimento ocorre, por exemplo, quando o jornal já está sendo rodado e nada mais pode ser corrigido. Aí, de fato, quando abordarmos o assunto, eis que ele terá já contra si uma velhice de quinze dias: pouco, em termos gerais, mas uma eternidade para uma crônica.
Por outro lado, tem também algumas vantagens. Poucas. Pouquíssimas, aliás. A primeira delas é que nos dá tempo suficiente para avaliar os vários aspectos de uma questão, observar seus desdobramentos e chegar a uma conclusão serena. Em suma, impede-nos de julgar o que quer que seja de forma apressada, ou preconceituosa, ou levados em demasia pelo calor do momento. A segunda vantagem é que nos livra da possibilidade de cairmos em algum erro muito grave. Pensemos, por exemplo, se o assunto fosse alguma guerra: numa semana, comemoraríamos, ou lamentaríamos, a tomada de alguma cidade, a vitória de um grupo ou a derrota de outro, e eis que na semana seguinte, a cidade fosse retomada e com ela outras mais, e o vencedor da véspera se tornasse o grande derrotado. O que faríamos, então, com os nossos comentários?
Assim, o tema aqui será o atentado terrorista em Londres, ocorrido há uma quinzena e sobre o qual — salvo muçulmanos, ingleses, norte-americanos, e as potenciais próximas vítimas, portugueses e italianos — ninguém parece ter mais interesse, ainda que o devesse. Só o fato de o resto do mundo, aparentemente, não estar dando mais a mínima atenção para o fato, torna-o, efetivamente, interessantíssimo. E faz com que pensemos numa série de possíveis motivos.
O primeiro deles nos faz pensar na sempre tão discutida questão da superexposição de informações de que somos vítimas no mundo moderno. Segundo esta teoria, o volume de notícias a que somos submetidos diariamente é tão grande que, por exemplo, aquilo que ouvimos pela manhã, à noite já teríamos nos esquecido, tal o número de fatos que se desenrolaram durante a tarde. No caso do atentado a Londres e seu interesse, hoje, este argumento é, em parte, inválido. Pois, se por um lado, nós, brasileiros, tivemos nossa atenção desviada para os inúmeros escândalos domésticos que nos atingiram, por outro lado, as notícias que se sucederam ao atentado e a ele pertinentes, além de muito poucas desde então, foram, nos primeiros dias, quase sempre confusas e muito pouco revelavam sobre o incidente. Logo, não se justifica a hipótese da superexposição de informações.
O segundo motivo para o desinteresse poderia ser uma certa perda do aspecto de ineditismo. Os primeiros e grandes ataques de Nova Iorque e Washington — quer por sua brutalidade, mas quer, principalmente, por ser algo totalmente novo e impensado —prenderam, assim, a atenção e a respiração do mundo todo durante meses. E o excesso de informações a ele relacionado não diminui nem um pouco o interesse por ele. Mas lembremo-nos, também, de que o atentado de Madri: não se tratava mais de algo inédito, antes, já era esperado, inúmeras informações circularam quanto a ele e ainda assim o mundo ficou estarrecido durante semanas.
O que consideramos o motivo principal pelo pouco interesse que o atentado de Londres ainda desperta em boa parte do mundo é o fato de que ele proporcionou poucas imagens de impacto. Contido nos túneis do metrô, onde o espaço exíguo e a escuridão não permitiam a captação pelas câmeras do cenário da destruição, não proporcionou grandes cenas de devastação, de sofrimento humano, como seus congêneres americanos e espanhol. Vá lá que se mostrou um ônibus sem seu teto, mas o que é isto perto das duas torres gêmeas e parte da fachada no Pentágono no chão? O que é isto perto dos trens retorcidos e da estação de Atocha em ruínas? Mesmo a triste imagem da moça com seu rosto oculto por uma máscara para queimaduras, a única verdadeiramente impactante, o que é perto de todos os restos de corpos humanos que as televisões e os jornais mostravam em Nova Iorque e Madri? Muito pouco.
Pois é este o motivo. Os olhos do Ocidente só se satisfazem com as piores crueldades. E o Mal deve ser espetacular se quiser prender a atenção. Só as imagens mais terríveis parecem ficar na memória hoje em dia. Assim, é de se pensar se os terroristas não falharam, em parte, em seu intuito de nos chocar. E, por outro lado, pensar também se não foi, na verdade, todo o Ocidente que falhou, por se permitir tornar tão insensível ao horror.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2005].

Super acqua flumens...

É bem conhecido o fato de que as grandes civilizações do passado cantavam seus principais rios com sua melhor poesia, quando não os adoravam quais divindades. Basta lembrarmos do que os egípcios escreveram sobre o Nilo. Dos babilônios, sumérios, acádios e tantos outros que habitaram a Mesopotâmia (“a terra situada entre rios”) e o que deixaram sobre o Tigre e o Eufrates. Nas Sagradas Escrituras, cantam-se todos estes rios, e o Jordão, e mais uns tantos córregos, mesquinhos aos olhos dos brasileiros, acostumados que somos a hiperabundância de água que os trópicos nos propiciam. E a distante Índia e a remota China louvaram seus caudalosos Ganges e seu rio Amarelo, mas por serem tão afastados do Ocidente, tais encômios só nos chegaram muito mais tarde e com sabor de exotismo.
Diminuindo a escala, é rara a poesia de uma povo que não trate de um rio, em particular, que não precisa ser, necessariamente, o “grande rio nacional”, digamos, assim, como nos exemplos anteriores. Neste caso, a matéria poética será feita daquilo rio que passa por uma cidade, ou aldeia, muitas vezes nem nomeado. A poesia grega e romana tem mil exemplos, a medieval também os seus tantos, e a renascentista também. Deve-se a um poeta francês do período o primeiro poema ao rio Sena, um provocativo libelo no qual, em pleno século quatorze, já se trata dos perigos da poluição e da morte dos rios, sob o belo título de Complaint de la Seine, algo como “Lamento pelo Sena”. E o que dizer dos “sôbolos rios” camonianos? Com o barroco, o tema é um pouco eclipsado, ainda que o poeta inglês John Donne escreva um magnício soneto tendo o Tâmisa como tema. E no arcadismo, eis que o assunto volta com toda força, basta lembrarmo-nos dos versos do nosso Cláudio Manuel da Costa, cantando o Mondego, o rio das Velhas e o seu “pátrio rio”, o Tripuí, que nasce em Ouro Preto, então Vila Rica.
E os tempos se sucedem, e com eles as escolas literárias e também a percepção da natureza. O Mississippi vira tema, em prosa, de um Mark Twain, de um Hart Crane. Canta-o o poeta americano, naturalizado inglês, T.S. Elliot, não muito depois que Fernando Pessoa cantou o Tejo, que não era mais belo que o rio que passava por sua aldeia, o mesmo Tejo — ou Tajo, como o chamam os espanhóis — que foi também cantado por Garcia Lorca.
No Brasil, o Amazonas é um gigante mudo para a poesia, mal e mal lembrado pela prosa, e mais como obstáculo da civilização do que continuação do que quer que seja que não a selva. O São Francisco até que foi tema de alguma poesia regional, em sua maior parte oral, e quase nada a respeito foi impresso. Alguns rios da fronteira paraguaia, quando da guerra em que devastamos aquele país, também serviram de motivos a uma ou outra poesia, tacanhamente patriótica, chauvinista ao extremo, em que as águas servem de mero cenário para as batalhas.
É fato que Cecília Meireles dedica ao rio das Mortes, da triste guerra dos Embobas, o seu grande talento de sempre. E João Cabral de Melo Neto converteu, num exemplo de grande felicidade poética, o belo Capiberibe num “cão sem plumas”. Como também não podemos desprezar certa poesia popular, regionalista, vez ou outra transcrita em música, esta, por sua vez chamada de caipira, tradicional ou “sertaneja de raiz”, e capaz de belos achados. Basta lembrarmo-nos daquela, célebre, relativa ao rio Piracicaba.
Mas a verdade é que tratamos tão mal nossos rios, que só os vemos com bondade, com prazer, como motivo estético, retrospectivamente. Lançamos em suas águas todo o tipo de impurezas, seja o reles esgoto doméstico, sejam os infames resíduos industriais. Exaurimos seus leitos em busca de areia, ou do que quer que seja, que nos satisfaça o mais rápido possível, instantaneamente. Roubamos suas margens para todo tipo de loteamentos clandestinos, ou estrangulamos seus cursos para a construção de vias expressas que nunca são feitas a contento e que freqüentemente nos levam de parte alguma a lugar nenhum. Quando não matamos seus peixes pelo lixo que nas águas lançamos, eis que nos dedicamos à pesca predatória ou, pior, abominável mesmo, lançamos espécies de peixes estranhas ao habitat, que devastam toda a fauna local, mas que nos permitem “uma pescaria divertida, uma boa briga”, como já ouvi dizerem. E, ainda por cima, depois de todo o desserviço a eles prestado, temos a coragem de queixar do mau cheiro de suas águas, em certos dias quentes.
Mas tudo que teve seu começo tem seu fim. Esperemos. Não de braços cruzados, porque a situação é séria e os desmandos nesse assunto se avolumam.
Voltaremos a este assunto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2005].

Uma questão atual

Quando assisti pela primeira vez ao filme “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine, EUA, 2002), do cineasta Michael Moore, um documentário que trata da obsessão norte-americana pelas armas de fogo, confesso que minha atenção voltou-se somente ao tema principal, e vários outros assuntos de permeio escaparam-me. Recentemente, assistindo a uma reprise, dei-me conta de um curiosa relação que e o diretor faz entre dois aspectos da sociedade americana aparentemente desligados um do outro. Em dado momento — para ser mais preciso, na parte do desenho animado dentro do filme —, o narrador menciona que juntamente com a expansão dos direitos civis aos negros americanos (ou afro-descendentes, como preferem ser chamados por lá), houve também a mudança de inúmeras famílias de classe média branca dos bairros onde tradicionalmente viviam, nas cidades, rumo aos subúrbios e aos condomínios mais ou menos fechados.
Ou seja, enquanto os negros americanos conquistavam direitos — que, entre nós, brasileiros, sempre foram muito mais do que evidentes — como poderem viajar nos bancos da frente dos ônibus, poderem usar sanitários e bebedouros públicos que não os explicitamente dedicados à sua cor, e por ela não serem discriminados na tentativa à admissão num emprego ou numa escola, em suma, passavam a efetivamente interagir no meio urbano, a classe média branca fugia daquele mesmo meio urbano, reinventando-o em moldes conservadores na orla das grandes cidades.
Essa migração preconceituosa ocorreu nos Estados Unidos a partir da década de 1950. O Brasil — que a partir daquela época passou a copiar tudo o que a sociedade norte-americana tinha de pior, só que com atraso, e alterando completamente a lógica original das coisas, mas não para melhor — deus à luz suas primeiras experiências em matéria de condomínios fechados no início da década de 1970. Alphaville, em São Paulo, foi o primeiro exemplar e o modelo consagrado do gênero, para todos que o seguiram pelo Brasil, e data de 1974. Diz-se que seu nome, ou assim pretendiam os empreendedores do condomínio, seria uma “contraposição” ao tipo de sociedade “ideal” criada como cenário, e personagem do filme Alphaville (França, 1965), do cineasta Jean-Luc Godard.
Pusemos em aspas os termos contraposição e ideal por dois motivos. Em primeiro lugar, consideramos a citação do nome de uma infelicidade atroz, por que a cidade do filme nada tinha de ideal, o que já justificam as aspas da segunda palavra. Porque a Alphaville do cineasta franco-suíço é uma comunidade dominada por um computador, o Alpha-60, que controla todos os acontecimentos e toda liberdade de expressão de seus habitantes, vigiando a todos o tempo todo, mas não impedindo que vários horrores acontecessem.
Assim, é curioso notar que antes mesmo que se falasse em violência urbana, ou melhor, antes de que esta fizesse parte de nosso quotidiano, a classe média paulistana, certamente mais levada pelo espírito de cópia, de macaquice, do que vitimada por um medo real, pela violência também real, já procurava abandonar o ambiente urbano, trocando-o por um mundo quase de faz-de-conta.
Não temos nada contra os condomínios propriamente ditos. Compreendemos, aliás, que no contexto de crimes que envolve este país há tanto, onde a segurança individual é praticamente nula, as pessoas deixem as cidades por lugares mais seguros. Mas a proliferação de tais lugares de moradia acabam por se tornarem prejudiciais à sociedade como um todo. Pois além de avançarem, freqüentemente, sobre áreas de mananciais, reservas naturais, florestais, etc., acabam também por gerarem demandas sociais novas, pois toda uma infra-estrutura urbana tem de ser criada para levar recursos básicos até áreas muitas vezes distantes dos centros tradicionais. Nesse processo, perdem as cidades, vítimas do natural descaso de uma população que cada vez mais delas se afasta, freqüenta, olha por ela. E , o que é pior, esgarça violentamente o tecido da sociedade, a noção de igualdade entre os homens, de fraternidade entre cidadãos, na medida em que acabam por criar duas naturezas de seres: os que vivem dentro dos muros e os que vivem fora. Uns achando-se quase que pertencentes a uma linhagem real ou divina, olhando para fora com olhos aterrorizados e preconceituosos. Outros espichando o olhar por cima do muro, vislumbrando, distorcidamente, o que lá se passa como algo invejável, ou algo que deva ser destruído. É uma questão sobre a qual vale a pena refletir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de agosto de 2005].

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

Uma idéia do Chirico. Ou de jerico?

A grandeza da cidade de São Paulo fala por si só. Não bastasse suas próprias dimensões físicas e populacionais (11.434.252 habitantes disputando uma área de 1.523 km²), ela é a cidade mais rica da América do Sul e, sabemos todos, sua influência econômica determina os rumos do Brasil. Como centro de serviços e entretenimento, só é comparável a cidades como Paris ou Nova Iorque. E, dizem, quanto à oferta gastronômica, bate sua rival norte-americana. Como polo cultural, então nem se fala. Não bastasse a imensa gama de museus, galerias, bibliotecas, institutos culturais, etc., está aí a Universidade de São Paulo, ainda a melhor universidade do país e ponto final. Está a Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, e o “Paulista” aqui, em princípio só uma referência geográfica, tornou-se todo um modo de pensar e de fazer a Medicina, uma “Escola Paulista” na completa acepção do termo. Como grandes universidades particulares também, que investem mais em pesquisas do que em contadores para aferir o lucro mensal, como é prática disseminada em muitas partes de nosso país. E, ainda assim, com todo este arcabouço cultural, com largas parcelas da população não só alfabetizadas como detentoras de títulos universitários, eis que a cidade de São Paulo freqüentemente padece dos mais estúpidos desvarios imaginados por seus próprios administradores.
Não faremos um longa viagem no tempo, mas cabe recordar certas burrices idealizadas por alguns prefeitos de São Paulo. Pensemos em Paulo Maluf e em sua ênfase no transporte particular, que inundou a cidade de automóveis e de congestionamentos, além de depreciar toda uma região metropolitana com seu horrendo “Minhocão”. Não me ocorrem à lembrança eventuais maluquices de Olavo Setúbal, e quanto à passagem de Reynaldo de Barros, então, não foi das piores, pelo que me recordo. Mas lembremos de Mário Covas e seus corredores de ônibus criados às pressas e que, continuados por Jânio Quadros, porém seguindo os planos originais de seu antecessor, ganharam o curioso, para não dizer trágico, apelido de “atropelódromos”. Das invencionices de Jânio, então, nem falaremos: mereceriam o espaço de toda uma crônica. Depois veio Erundina, que fez mais bem do que mal — naqueles intervalos em que seu partido de então, o PT, permitia a ela fazer alguma coisa e não sabotava cada ato seu. Ainda assim, a transferência da prefeitura para o Palácio das Indústrias e a tentativa de tombamento da mansão Matarazzo para ser convertida num futuro “Museu do Trabalhador” são idéias, no mínimo, questionáveis. Quanto às estapafúrdias idéias de Maluf e Pitta, cujos interesses tornaram-se bem claros, é assunto que cabe à polícia e à Justiça. Marta Suplicy teve algumas boas idéias, veja-se o CEU. E outras bem ruins, também. Infelizmente, estas granjearam maior espaço na mídia.
Pois eis que, agora, veio Serra com sua contribuição pessoal ao anedotário, infeliz, das más idéias dos prefeitos de São Paulo: permitir propaganda em uniformes escolares dos alunos da rede pública. Propaganda dupla, aliás. Porque, em primeiro lugar, as cores empregadas nas roupas dos meninos e meninas serão as mesmas que identificam o PSDB do Oiapoque ao Chuí, o azul e o amarelo — só isso, para um Judiciário atento, já seria motivo para um tremendo processo. Mas, e que é grave também, será permitida a publicidade de empresas, das mais variadas naturezas, impressas ou bordadas nos uniformes estudantis, ou seja, vão transformar as crianças das escolas municipais paulistanas em mostruários de produtos, pequenos homens-sanduíches anunciando, quem sabe, de cremes para rugas a óleo diesel, de financeira caça-níquel a monopólios de cimento, e sabe-se lá o que mais.
Mas por que tal absurdo é considerado possível? Porque os uniformes são para filhos de pobres. Queria ver um colégio particular inventar a mesma coisa! Os pais honestos fariam a maior gritaria, e os desonestos cobrariam “cachê”: ou seja, tudo se inviabilizaria em dois tempos.
Por isso, fico pensando no Sr. Francisco Serra — pai do atual prefeito — , imigrante calabrês, dono de uma barraca de frutas no Mercado da Cantareira, e em sua mulher, Dona Serafina Chirico, filha de imigrantes conterrâneos do marido. Imagino o que ele diria se seu filho, José Serra Chirico, fosse obrigado a usar um uniforme, em sua escolinha da Moóca, em que estampasse, junto ao peito, a propaganda da barraca de frutas de um seu rival? E se, no bolso traseiro da calça, trouxesse o anúncio de um fabricante de fumos? Esses são os lugares para a propaganda previstos pelo projeto atual (quanto aos anunciantes, no caso, são fruto de uma liberdade poética a respeito dos possíveis patrocinadores daqueles tempos). Será que os humildes pais dele aceitariam tal coisa, ou irromperiam numa sonoro e pesado palavrão calabrês?
Quem diria que o excelso alcaide paulistano tivesse tal idéia, justo ele que a todo momento proclama ao universo todo e até mais além sua incontestável competência e sublimes conhecimentos, certamente únicos no território nacional, senão perante toda a humanidade... Pois é. Parece que o José Serra Chirico teve, isto sim, uma idéia de jerico.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2005].