sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Passado presente: viva o toca-discos!

Há muitos anos, em Brasília, pude observar um gosto curioso pela aquisição de antiguidades, verificado numa certa população endinheirada local. Lá por meados dos anos 1980, havia ali uma verdadeira febre de leilões, feiras de antiguidades, inaugurações de antiquários e coisas do gênero. Tratava-se, à primeira vista, de algo completamente paradoxal: se aquela era “a cidade moderna por excelência”, por que aquele resgate meio insensato do passado, um passo que ali não se manifestara, pelo contrário, passara longe daquelas plagas? Mais tarde fui entender a necessidade que muitas pessoas têm de se sentirem presas a uma tradição, qualquer que seja, mesmo que inventada. Hoje este fenômeno alastrou-se por toda parte. Há gente que compra em sebos, antiquários e feiras velhas fotografias de completos desconhecidos, emolduram-nas e dizem às visitas que se tratam de avós, tios-avós, primos distantes, etc. O mesmo se dá com objetos, móveis, livros: na ânsia de inventarem um passado, já vi muito traste de brechó que foi anunciado como uma herança de uma Tia Lídia, presente de uma avó Josefina, e por aí vai.
Mas voltando àquele surto arqueológico sofrido por Brasília naqueles remotos anos, lembro-me que, então, a oferta era inferior à demanda. E como nem todos podiam ter antigos quadros, relógios de carrilhão, pratarias ou móveis suntuosos, instaurou-se uma mania por antigas geladeiras. Não, não se trata daquelas Frigidaires, dos anos 1950 ou 1960, que ainda hoje são vistas nalgumas casas, ou disputadas a tapas por decoradores moderninhos. Eram verdadeiros armários de madeira, dos anos 1910 ou 1920, nos quais se metia uma barra de gelo para a conservação da comida. Peças raras, é verdade – quantas delas o Brasil as teve naquelas décadas, visto que as geladeiras, antes do presente governo, só para termos uma ideia, eram utilidades ausentes de muitas casas? Pouquíssimas, portanto, as que deveriam existir e, certamente, localizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nas capitais, bem entendido. Porém o aspecto mais curioso é que aquela mobília feia – porque era mesmo feia – ganhava posição de destaque nas salas dos brasilienses endinheirados, algo como a mesinha onde se encontra a Bíblia aberta sobre um atril, em certas casas, ou o oratório com os santos de devoção, noutras. Era realmente de embasbacar. E, rapazola que era na época, não pude me furtar a refletir quanto à diferença entre as antiguidades, reais, e os trastes velhos.
Continuo gostando de antiguidades, como sempre as apreciei. Alguns avanços da tecnologia, por exemplo, permitem até que as usufruamos melhor. Veja-se o caso dos laptops ou notebooks. Por sua versatilidade de conexão e alimentação elétrica, podemos usá-los em boas e velhas escrivaninhas, em lugar daqueles racks horrendos diante dos quais nos sentávamos, geralmente contra a parede, num ponto meio escuro do cômodo, meio espremidos, desviando-nos de mouses, impressoras, fios e mais fios.
Mas tenho criado, recentemente, uma certa simpatia por velharias, tenho que confessar. Pois quem já não perdeu a hora de acordar, graças a um rádio-relógio ou moderno despertador à pilha? Eu, várias vezes. E, digo, não adianta programar a função no celular. Em determinadas partes de nosso país, o aparelho entra em colapso. Como solucionei, então, o problema? Comprei um bom e velho despertador movido à corda, estridente, barulhento, e que nunca falha. Posso colocá-lo no banheiro, no quarto ao lado – para livrar-me do seu tique-taque – mas o som de sua campainha me desperta da mesma maneira.
Outra maravilha tecnológica do passado que resgatei foi um telefone dos anos 1960, pouco mais ou pouco menos. Tenho há um ano e nunca me deu um problema sequer, diferente de tantos outros descartáveis que se vendem por aí, ou que entram em pane depois da menor oscilação elétrica. Quem nunca ficou em palpos de aranha com um telefone sem fio? Eu não fico mais.
Meu próximo passo nesta viagem “de volta para o passado” – sem nostalgia boba – é comprar um velho toca-discos, ou vitrola, principalmente agora que novos títulos tem sido lançados no formato do vinil, e que os velhos são comprados de graça em sebos e lojas específicas. Pois aquilo sim é que era som.
Não sou um passadista. Gosto de conforto e eficiência. Se tais facilidades se encontram em velhos objetos, que eles sejam bem vindos. E que viva o LP!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de dezembro de 2009].

sábado, 5 de dezembro de 2009

Oklahoma,1935. Brasil, 2010?

Faz muito tempo que li o romance de John Steinbeck (1902-1968), As Vinhas da Ira (1939). Tanto tempo, aliás, a ponto de acreditar que me recordo mais de sua adaptação cinematografia – o excelente filme do mestre John Ford, de 1940, com Henry Fonda como protagonista – do que do livro em si.
Para quem não conhece a trama, ela conta a saga de uma família de agricultores do Oklahoma, EUA, que perde suas terras durante a Grande Depressão (1929-1939). Como a produção da fazenda ficara aquém do esperado, no ano anterior, o clã hipotecou as terras, e sem ter como pagá-la, foi executado. Assim, eles partem em busca de um lugar hipoteticamente melhor, na Califórnia. É claro que a história não se resume a isto. É movimentada, cheia de elementos, trata da questão da terra, da violência policial, e de uma série de outros temas interessantes, e tudo muito bem escrito. Mas a lembrança que mais se agarrou em minha memória, é a dos constantes ventos de poeira que acompanham os personagens, até eclodirem numa verdadeira tempestade de pó. Pensei, à época, que o fenômeno fosse uma certa licença poética do escritor. Ledo engano. Foi um evento real, como descobri esta semana, num programa do History Channel.
A tempestade ocorreu no dia 14 de abril de 1935, um domingo que se tornou conhecido pelos norte-americanos como o “Domingo Negro" (Black Sunday). Ventos de quase cem quilômetros por hora sopraram do Oklahoma à capital, Washington, levantando um volume de poeira que, dividido por cada habitante daquele país, corresponderia a três toneladas por pessoa. E quais foram as causas da catástrofe? O mau uso do solo.
Os especialistas, à época, já tinham conseguido identificar os motivos. O Oklahoma era um estado cujo solo era seco, ainda que coberto de pasto. Fôra, a região, por longo tempo, voltada à criação de gado, com bastante sucesso, alimentada pela rude flora local. Porém, no começo do século XX, acreditou-se, erroneamente, que se poderia plantar naquelas terras. Um programa de emissões de títulos de terras, equivocado, vendeu propriedades a milhares de famílias empobrecidas do Sul dos EUA, que às pressas, ocuparam o lugar. As pastagens foram arrasadas, os terrenos, arados – não como deveria ser para aquele tipo de solo, mas, sim, como os colonos estavam acostumados a fazer. O resultado? As terras tornaram-se inférteis, as chuvas lavaram as plantações e, depois, sobreveio uma tremenda seca. E como o estado era em grande parte desprovido de florestas, as ventanias foram se tornando cada vez piores. Até culminarem naquela do Domingo Negro. As autoridades tomaram suas providências, e o evento não mais se repetiu. Até agora. Ou, pelo menos, não lá.
Esta história me fez pensar no que o Brasil anda fazendo com o seu Cerrado, este imenso e frágil bioma que começa em São Paulo, chegando até as franjas da Amazônia, e que se tornou, pela cupidez e incompetência, um novo pólo de produção agrícola, uma nova fronteira do agronegócio. Seu desmatamento ocorre em ritmo muito maior do que o sofrido pela Floresta Amazônica em seus momentos mais críticos. Ipês, macaúbas e onças, tiveram seus espaços tomados por cana, soja e gado. E tal invasão, e destruição, não conta sequer com um motivo social para, senão abrandá-las, ao menos tolerá-las, pontualmente: ali não há o assentamento de famílias, de trabalhadores, mas de grandes grupos, mega-empresas – a exploração que não ousa dizer seu nome.
Os efeitos deste equívoco, mais do que isto, desta verdadeira má-fé, parecem que já se fazem sentir. Lembremos da tempestade de poeira que varreu Uberaba e outras cidades próximas em meados do mês passado. Não é um claro sinal de que com o Cerrado não se mexe?
Mas, no Brasil, parece que nunca aprendemos com os erros dos outros: fazemos questão de recriá-los, de repeti-los, desde que seja à nossa maneira. Erramos? Sim. Mas nosso erro... é do Brasil-sil-sil...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de novembro de 2009].

"As Fortunas" do Chirico

Numa crônica intitulada Sexta-Feira treze, outra vez, publicada neste mesmo espaço no dia 14 de março último, alertei aos leitores que acreditam no azar para que pusessem suas barbas de molho, visto que teríamos mais uma efeméride semelhante em novembro. Pois o nefando dia passou e seu saldo foi realmente digno de nota nos anais da urucubaca! Nele, eis que um viaduto, sequer ainda concluído, veio abaixo, destruindo dois automóveis e um caminhão. Pareceria até música de Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, mas o tombo do viaduto foi concreto, com perdão do trocadilho.
E não foi em qualquer obra, não. O caso não se deu numa estradinha vicinal de Ariquemes-RO, ou em Brejolândia-BA, numa obra de algum prefeito sem experiência. Ocorreu, isto sim, no bilionário Rodoanel, a menina dos olhos da administração tucana e um trampolim político para muita gente. É uma coisa de espantar. Um viaduto caiu graças, simplesmente, ao peso do ar, já que nenhum outro esforço lhe foi imposto. Imaginem, então, quando se trafegasse por cima dele: talvez ruísse todo o complexo!
Já numa outra crônica, cujo título era Tempos interessantes, publicada em 27 de abril de 2008, vejam o que escrevi:
De fato, nós, brasileiros e, sobretudo, paulistas, temos vivido tempos ‘muito mais do que interessantes’. Assistimos a crimes mal-solucionados, ao desmanche do ensino público, ao superfaturamento de obras públicas que resulta em buracos, tragando gente, carros, moradias. E, agora, até mesmo um terremoto entrou para o rol das mazelas paulistas. Já disse, noutras ocasiões, da urucubaca que cerca um dos maiores próceres da política paulista. Portanto, frente à possibilidade de que tal insigne tribuno galgue — um poleiro por vez, mas com uma velocidade acintosa — outras posições de relevo, sobretudo nacionais, temos de nos precaver. Pois azar tem nome. E, no caso, nome e sobrenome — seu raio de atuação mostrou-se, mais uma vez, bastante claro”.
Como podem ver, o Ilustríssimo Governador do Estado de São Paulo, o Chirico, parece que tem mesmo urucubaca. Tanto que, nome forte da disputa à Presidência para o próximo ano, tem caído nas intenções dos eleitores e sua proeminência é cada vez mais sombreada pela de Aécio Neves. O patinho feio – feio não, medonho – ao invés de ir se tornando um gracioso cisne, vai é dia a dia se convertendo num ganso desajeitado.
Resta saber, agora, se as fortunas do Chirico vão pesar ao seu favor, ao nosso, ou ao de quem quer que seja. Pois se ele é eleito Presidente, São Paulo livra-se dele, mas o Brasil inteiro arca com sua desdita. Se, por outro lado, for o Governador de Minas o escolhido de sua agremiação como candidato, os paulistas correm o risco de ter de enfrentar mais quatro anos de uruca. Isto se, retomamos, as fortunas do homem não contribuírem, mais uma vez, para um lado ou para o outro. Com a sua reforma intentada na Saúde, que lembra tanto o funesto PAS, de Maluf; com sua mania por grandes obras viárias (parece com quem? Maluf, novamente); perde, no entanto, o atual Governador, na comparação: pois até onde se sabe nenhum túnel do metrô aberto nos tempos de Maluf ruiu, tragando gente. Nem viaduto caiu. E o preço das obras, então, parecem bagatelas se comparados aos de hoje.
Vejam só como as coisas são: numa destas idas e vindas da sorte, de herdeiro eleitoral de Maluf, o Chirico acaba por se tornar seu principal cabo eleitoral, por contraste! Em todo caso, veja o peso do azango do homem: ou ele, ou Maluf: aut Caesar aut nihil (“ou César ou nada”)! Que tremenda urucubaca!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de novembro de 2009].

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Saias curtas a idéias menores ainda

Acredito que o país inteiro tenha assistido ao episódio envolvendo uma moça, sua minissaia e o efeito que ambas causaram numa universidade particular. Além da repercussão na imprensa, nas rodas de bar, na conversa de fila de banco, e por aí vai. Todos pareciam ter sua opinião para dar, contra ou a favor. Nos jornais, foram vistos claros sinais de respeito à estudante e de censura ao comportamento de horda manifestado por seus colegas. Já nas ruas, uma vaga moralista bramiu enfurecida, desqualificando a pobre coitada, falando em falta de decoro, e coisas do gênero. Muitos pareciam até endossar a selvageria daqueles rapazes que a vaiaram e apuparam, aos gritos de “prostituta” – na versão rimada e mais chula do termo – e de “estupra, estupra!” e que tais. Decerto acrescentariam, mentalmente, “mas não mata”: um eco a certo pensamento reinante instituído por um político de má-figura.
O que mais chamou minha atenção, no entanto, foi uma série de fatores justamente relacionados à perseguição à moça. Vejamos quais são eles.
Em primeiro lugar, a estudante parecia bonita, assim como suas pernas. Ora, como todo mundo sabe, gente moça gosta de se exibir. Logo, nada mais natural que mostrasse suas qualidades aos olhos de todos. Não se faz isto nas ruas, nos dias e nas noites quentes? Nos bares, restaurantes, danceterias, boates, em toda parte? Quem nunca viu uma jovem com um imenso decote ou saias curtas numa sala de aula de faculdade – sobretudo numa noite em que “rola uma balada” – é porque nunca passou sequer na porta de uma instituição de ensino superior. E tal vestuário ofende alguém? Pelo que me lembro, só mulheres feias e invejosas ou rapazes que não apreciam semelhante paisagem... E não é que, para pasmo de todos, as vozes vociferantes que acuavam a moça não vinham justamente de homens? Que homens são estes? E, pior, que universitários são esses, que reagem quais fanáticos talebãs aos centímetros a mais de coxa mostrados pela jovem? Queriam que ela viesse de burka?
Se há uma típica canalhice dos povos latinos – mas não é exclusividade destas plagas, alguns mediterrâneos pensam ainda assim, e o Oriente quase inteiro adota esta causa – é a que consiste em depreciar e difamar uma bela mulher inalcançável. Em resumo, é mais ou menos assim: um sujeito deseja uma mulher, mas ela o rejeita ou sequer percebe que ele existe. Assim, ferido nos seus brios de macho desprezado, passa a dizer absurdos quanto àquela que o enjeitou – ou nem notou sua patética existência. É a versão humana da vingança dos mais fracos do bando, como se verifica na sociedade animal: também os macacos gritam estranhos impropérios quando um macho alfa arrebata-lhes a fêmea ou ela não lhes dá bola.
E não foi isto que verificamos no tal episódio?Foi, mas não só. Quem olhou com atenção para a jovem acuada, deve ter notado que suas formas, belas, contrastavam com cabelos mal pintados, um pouco secos, pouco cuidados, em suma. Seu polêmico vestido ou saia, também não pareciam dos mais caros que há na praça. Logo podemos inferir que a estudante longe está de ser rica. Acrescente-se a isto o fato de que a universidade que ela cursa, segundo todos os comentários, é freqüentada por jovens ricos preguiçosos ou esforçados rapazes e moças egressos da escola pública, cujo histórico recente, todos sabemos, é dos piores quanto à preparação para o vestibular (mais uma conquista do PSDB!). Em suma, ela pode não ser pobre, mas certamente não é endinheirada. Mas isto faz diferença? Faz, e muita.
Vivemos numa cultura de bajuladores, em que a maioria se comporta como cães à beira da mesa de seus donos. Abana-se o rabo e tolera-se tudo em troco das migalhas que os amos lançam. Só isso explica o sucesso de certas revistas e programas de televisão, por exemplo. Assim, os ricos são vistos como deuses, e os não ricos, investem-se como fiéis sem paga, adorando-os pelo prazer de adorá-los, perdoando-lhes as faltas, pois assim reza seu credo, e não se importando se os seus ídolos dourados percebem-nos ou não. De modo que, fosse a moça da minissaia ou microvestido alguém de posses, com roupa de grife e cabelos bem tratados, ninguém diria um ai a seu respeito. Antes, sairiam em sua defesa, até mesmo se a direção da escola objetasse ao seu vestuário – fosse ela rica, ou nem tanto, mas escandalosa como algumas o são, e talvez até lhe oferecessem um emprego de apresentadora de televisão, dessas emissoras que não tem o menor pudor em mostrar roupas curtíssimas de manhã, de tarde, de noite, etc., esses programas para a “família brasileira”...
Concluindo, cada um que se vista como quiser, onde puder. A moça não estava numa igreja, no fórum, na prefeitura, num velório ou numa escola de freiras. Mas numa universidade. Um local de tolerância, de mentes abertas. E ainda assim foi vaiada por seus colegas. É de se pensar que raios de universitários as privadas estão acolhendo e formando. Que raios de homens estão surgindo em nosso país, que não suportam, sequer, a vista das belas pernas de uma moça. A saia era curta? Pois a mentalidade deles é muito menor ainda.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de novembro de 2009].

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Celebrando Hemingway

Acima, o velho Hem fazendo duas coisa que sabia muito bem...

Na última quinta-feira, 29 de outubro, um noticiário da Globo News anunciava o aniversário de 110 anos de nascimento do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961). Achei estranha tal efeméride. Ninguém comemora cento e dez anos de nada e, além disso, a data me parecia incorreta. Li todos os livros sobre ele publicados em português, alguns em inglês e espanhol e, até onde me lembrava, seu aniversário era num 21 de julho. Assim, chequei minhas fontes: eu estava certo. De onde tiraram tal informação é que não sei. Em todo caso, não custa falar um pouco do velho Hemingway, hoje meio esquecido, sobretudo entre os brasileiros.

Durante sua vida, ou melhor, dos seus trinta e poucos anos até a morte, foi ele o escritor mais famoso de seu tempo. Gerações de escritores, aspirantes de escritores, ou mesmo fãs sem qualquer talento, procuraram imitá-lo na escrita, no tipo de vida ou, como tais feitos não eram para todos, pelo menos nas bebedeiras. E como ele bebia! O dramaturgo e crítico literário inglês Kenneth Tynan (1927-1980) resolveu contabilizar o quanto bebeu no espaço de um dia, o casal de protagonistas de Do outro lado do rio, entre as árvores (1950): o homem, com cinqüenta e poucos anos, alter ego do autor, e a moça, deixando a adolescência, sua namorada. O personagem, sozinho, bebeu três martinis duplos e um gim duplo com Campari. Ao encontrá-la, dividem oito Montgomerys duplos (martinis secos preparados numa proporção de quinze para um). No jantar, tomam uma garrafa de vinho branco, uma de vinho tinto e duas de champanhe – uma outra ainda seria bebida mais tarde. E o homem encerra a noite, sozinho, esvaziando uma garrafa de vinho. Se alguém acha que esta é uma quantidade normal – a ponto de pô-la por escrito, e Hemingway era um escravo da verossimilhança – imaginem o quanto ele entornava...

Mas não é justo falar apenas de seus porres. Pois que vida ele teve! Tomou parte da Primeira Guerra Mundial, pescou no Caribe, participou de safáris, cobriu a Guerra Civil Espanhola, a invasão japonesa da China e a Segunda Guerra, conviveu com os maiores artistas de seu tempo, salvou-se milagrosamente de dois acidentes aéreos, quando foi dado como morto, casou-se quatro vezes, foi amigo de toureiros, lutou boxe como quase um profissional e ainda teve tempo de ver a Revolução Cubana. Ganhou muito dinheiro – e pagou uma fortuna em impostos – graças aos seus livros e de suas adaptações para o cinema (alguns bons, mas sempre muitíssimo inferiores ao original). E ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Até que pôs fim à sua vida da mesma forma intensa e drástica como a levara: encostou o cano duplo de uma espingarda Boss & Co. na testa (não no céu da boca, como muitos acreditam) e puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo. O motivo? Hipertensão, depressão e paranoia, agravada por um tratamento à base de eletro choques.

Mas tudo isto, na verdade, não é o principal sobre ele. A vida de um escritor na verdade pouco importa e, sim, sua obra. Se é certo que seus personagens eram quase que uma cópia fiel do homem, é igualmente correto que ele escrevia muito, mas muito bem. Não sei se releria com prazer seus romances – salvo O Sol também se levanta, o primeiro publicado, de 1926 – ou mesmo sua única peça teatral, A Quinta Coluna, de 1938, mas, seus contos, soberbos em sua maioria, certamente que sim. Sua prosa seca, lapidar, clara onde deveria ser, porém altamente sugestiva na sua concisão, quando necessário, serviu de modelo a nove entre dez escritores, ou aspirantes a tal, seguramente, dos anos 1930 a 1970, ou 1980, eu arriscaria dizer. Tornou-se quase que um falar do século 20. O nosso Rubem Braga (1913-1990) que o diga: imitou-o na prosa e na vida – o que era aquela cobertura dele em Ipanema se não uma cópia em escala menor da casa de Hemingway em Cuba, a célebre Finca Vigía?

De uns tempos para cá, entretanto, pouco se fala dele por aqui. O que é uma pena. Sua obra é sólida. Meritória. Um homem escrevendo para os homens do seu tempo. De forma dura e pontual. Não se entende, aliás, o comportamento masculino do século XX sem ler os seus livros. Nem a educação que muitos filhos receberam, e ainda recebem até hoje.
Pois que seja então celebrado o seu centésimo décimo aniversário, ainda que em data equivocada. O velho Hemingway, aliás, nem se incomodaria com isto. Desde que se levante um brinde a ele e que se leia algo do que escreveu, já ficaria contente. Reconhecido. Satisfeito.
Da minha parte, é isto que vou fazer. Tão logo tenha posto o ponto final desta crônica, prepararei um drinque e lerei um de seus contos. Isto sim é que é homenagem.
À sua saúde, Papa Hemingway!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de outubro de 2009].

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Incêndios não deixam apenas cinzas

A destruição pelo fogo de uma grande parte do acervo legado pelo artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), foi um episódio mais do que lastimável. E quando se sabe os motivos, não do incêndio, mas das obras estarem quase todas reunidas entre uma sala e a garagem de uma casa de família, à lástima soma-se a raiva: a família, guardiã do espólio, desentendeu-se com a Prefeitura do Rio e com o Centro Municipal Hélio Oiticica – que até então abrigava o que poderia ter sido poupado das chamas– por que este não haviam pago 267 mil reais pelos direitos de uma exposição. Em suma, por cobiça, os herdeiros mataram a galinha dos ovos de ouro!
Quem viu as fotos ou as imagens da casa ficou de cabelos em pé. Via-se que parte do acervo estava praticamente na rua, na já mencionada garagem, protegida do tempo por uma reles grade de ferro. Qualquer fagulha de um cigarro esmagado na calçada por um inocente transeunte poderia ter causado o fogo. E mil outras coisas de menor monta. Mas a família escolheu por reunir as obras ali, um local que julgou mais seguro que a instituição municipal – criada para este único fim, frise-se – já que esta não tinha aparelhos desumidificadores suficientes! E, trágica ironia, não foi a umidade, tão temida pelos herdeiros, a causa da destruição do legado...
Nestas horas, qualquer pessoa de bom senso pensaria algo assim: “bem, eu herdei um conjunto de obras expressivas de um dos mais aclamados artistas brasileiros. Mas não tenho dinheiro para cuidar disto tudo, nem um local conveniente para abrigá-lo. O que faço então? Escolho algumas peças da coleção, vendo-as e, com o que apurar, construo um prédio para tal finalidade: vão-se os anéis, ficam os dedos. Ah, e como eu vivo – pago as minhas contas, tenho um papel na sociedade, etc. – graças à minha posição de guardião deste acervo, vou tratar de pô-lo no seguro: afinal, quem sabe o dia de amanhã?”, concluiria alguém ajuizado. Mas, ao que parece, não quiseram por a mão no bolso nem pra isto, para garantir o pão do dia seguinte.
Depois, há um fato a mais nesta história toda que é difícil de entender. Se a família é a legítima herdeira da coleção, mas era o poder público que a preservava, por que é que este ainda tinha de pagar aos herdeiros uma fortuna pelo direito de abri-la ao público, exibi-la, algo que, em princípio, é a função da obra de arte e a função de um museu? Podem dizer que é o que a lei determina. Mas que leizinha mais besta, sô! Que poder público mais bonzinho este, não? Um verdadeiro pai. Zela pelos bens alheios e ainda paga por isso. Não, decididamente, não são boas leis que regem esta relação.
Por outro lado, se do ponto de vista histórico, afetivo e mercadológico a perda das obras foi terrível, do ponto de vista estético até que não foi tanto assim. Quase toda a coleção já havia sido fotografada, catalogada, etc. A maioria delas pode ser literalmente refeita por conta de tais dados, e isto em nada desagradaria seu criador, pelo contrário. Ele próprio, por suas convicções pessoais e estéticas, era contra a idéia de que suas criações se tornassem – como vinham se tornando – uma espécie de fetiche, intocável, inviolável, único, e por aí vai. Queria que suas obras fossem tocadas pelo público, utilizadas, vestidas, e não trancadas e idolatradas por detrás de uma vitrine. É claro que a aura – e o valor de mercado – diminuem com a reprodução das obras. Mas e a intenção do autor, onde fica?
A destruição do acervo, portanto, apesar de triste, talvez tenha seu lado bom, num sentido, pois trouxe à tona uma série de discussões – direito de herança, finalidade da obra de arte, intencionalidade do artista, etc. – que há muito necessitavam vir à público e serem questionadas. Quem sabe se, destas cinzas, não nasça uma fênix?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de outubro de 2009].

Quem é o selvagem, afinal?

Na última quinta-feira fui encontrar uns amigos mineiros em São Paulo. Estavam ali num trabalho de reconhecimento de alguns museus paulistanos: uma turma de Museologia e os professores, um deles de História, que é um grande amigo. Fomos à Pinacoteca – sempre irrepreensível – e ao Museu da Língua Portuguesa – do qual cada vez mais gosto menos.
No começo da noite, foi sugerida uma visita ao Instituto Itaú Cultural – isto mesmo, o nome segue esta ordem. Aliás, o Instituto vai por minha conta: na placa na rua, no site e nas publicações consta apenas Itaú Cultural, com este jeitão de instituição gringa. Fomos até lá: era a inauguração de uma mostra fotográfica, com obras pertencentes à Maison Européenne de La Photographie: mais um destes eventos homenageando o Ano da França no Brasil.
Confesso que só estive uma vez no tal Itaú Cultural, e logo bati em retirada. O espaço é grande, quatro andares, ligados por escadas não propriamente suaves, e somente um banheiro, do tamanho de um desses de bar. Lembrei-me a todo momento do ex-prefeito Jânio Quadros que dizia que São Paulo, no entendimento de muitos, era uma cidade habitada por anjos: nela não se construíam sanitários públicos (a mesma crítica, aliás, vale para o Museu da Língua Portuguesa, mas isto é outra história).
Voltando ao tema, a exposição em tela chamava-se A Invenção de um Mundo e, segundo o texto de divulgação, suas obras “questionam o conceito de realidade e ficção no registro fotográfico e abrem um painel de discussão do estágio atual da fotografia. São trabalhos assinados por artistas que, à revelia do registro do que existe, escolheram a construção de cenas, de personagens para inaugurar outros mundos. A fotografia como documento cede lugar a narrativas subjetivas. Ela não mais é um registro do real. Ela cria realidades e, ao fazê-lo, resvala em teatro, cinema, pintura”. E prossegue afirmando que essa nova fotografia, “por vezes denominada pós-moderna, que transgride os códigos tradicionais da imagem, se apodera das novas tecnologias e reinventa tudo aquilo que são lembranças, sonhos e desejos”.
Mas, resumindo a história, tudo não passa de uma série de colagens, fotografias de maquetes e brinquedos, montagens, brincadeiras de Photoshop, e coisas do gênero, que também poderia ser chamada de O Ontem, Hoje, O Hoje, Ontem, Zero mais Infinito, Sombra e Luz, Eros Enjaulado, Antigos olhares: Novas abordagens – em suma, qualquer nome que se quisesse dar, porque nada é muito claro na coisa toda, que se propõe como nova.
Muitas, aliás, nem tão novas assim: contei várias obras de 1978, 1979, ou por aí. Outras tantas, aproveitando-se de antigas imagens pornográficas francesas, cartões postais de mulheres nuas que se vendiam aos marinheiros e aos turistas libertinos no século XIX e início do XX. O que é também problemático: se a vanguarda do século XXI bebe tão sofregamente das fontes da retaguarda do século anterior, alguma coisa vai mal...
Outro aspecto curioso da mostra foi a extrema hostilidade – verdadeira misoginia – no tratamento das imagens das mulheres. Sobre um pretenso registro sensual, havia toda uma coleção de beldades (ao lado de verdadeiras monstruosidades) nuas ou seminuas em posições degradantes, simulando como se estivessem mortas ou feridas de morte, deformadas, ou ridicularizadas. Já a representação masculina, primava por jovens esbeltos, ou musculosos, em cenários floridos, bem iluminados... Não tenha nada contra os gostos pessoais de quem quer que seja. Se o artista prefere uns a outras, isto é lá problema dele. Mas quando ele transfere suas preferências para a arte, e aparentemente, apenas suas preferência, eu não só posso como devo discordar. Arte não é um mero catálogo das inclinações particulares.
O registro mais curioso, no entanto, se deu por um acontecimento fortuito. Entre o público que compareceu à exposição, encontravam-se dois índios, acompanhados por seus anfitriões brancos. E quando digo índios, quero dizer isto mesmo. Estavam vestidos, evidentemente. Mas seus adornos faciais e corporais, seus cortes de cabelo, davam-lhes o ar de terem recém-chegado da aldeia onde vivem.
No que diz respeito à reação deles às obras expostas, não pude perceber muito. Os rostos indígenas são, muitas vezes, imperscrutáveis, enigmáticos: seus códigos para a manifestação de gosto ou desgosto não raro são opostos aos nossos. Mas num deles notei um inequívoco olhar de reprovação a certas obras, sobretudo àquelas de temática violenta e degradante. Via-se claramente que ele não gostava do que fora feito às mulheres das fotografias.
A conclusão a que cheguei, e as ilações que fiz, é certo, já pairavam no ar. A associação entre França, índios e costumes, faz pensar imediatamente no célebre ensaio Dos Canibais, de Michel de Montaigne (1533-1592), no qual este pensador, comparando certas práticas dos tupinambás (se a memória não me trai), mostra-as como até superiores às de seus compatriotas, chegando mesmo a dizer que na guerra eles se portavam de maneira mais digna do que a soldadesca que infernizava a vida dos franceses durante as guerras de religião (entre católicos e protestantes).
E quase quinhentos anos depois, eis que suas palavras se confirmavam no simples olhar desgostoso daquele índio em São Paulo, diante da fotografia pós-moderna francesa. Preso ainda aos seus elegantes grafismos geométricos, aos requintados arranjos plumários, aos seus inocentes e belos animais entalhados na madeira das matas, nosso índio certamente só poderia deplorar aquela violência e gratuidade: civilizados resultados dos gostos corrompidos, como diria Montaigne.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de outubro de 2009].

Nenhum crime é pequeno

No Brasil, proclama-se a cada instante que todos os políticos são corruptos e ineptos. Que a iniciativa privada, esta sim, é eficientíssima, livre de vícios. E que a prática de esportes fortalece o caráter.
O recente episódio – ainda não concluído – do roubo da prova do Enem desmonta uma por uma as afirmações acima. Não que, por isso, muitos políticos sejam imediatamente inocentados, o empresariado torne-se, todo ele, incompetente, nem faz supor que a totalidade dos esportistas seja fraca de caráter. Mas toda esta embrulhada dá o que pensar.
A prova roubada não o foi de uma gráfica pública e, sim, particular. Não houve também nenhum funcionário do governo envolvido, mas três da dita empresa privada. E o mentor da história toda vem a ser, por coincidência, um esportista, praticante de capoeira, uma atividade “relaxante”, “honesta”, “altruísta”, como dizem por aí... E quanto aos políticos nesta história toda? Fizeram o que deveriam fazer e em prazo recorde. Aliás, como a Polícia Federal também o fez, com uma ligeireza notável: já indiciou os envolvidos por extorsão, peculato e violação de sigilo funcional. As penas para cada crime são: de quatro a dez anos para extorsão, de dois a doze para peculato e de dois a cinco para a quebra de sigilo. Todavia, são réus primários, tem bons antecedentes e, por isso, nenhum deles foi preso e responderão ao processo em liberdade. O Ministro da Justiça qualificou-os de meros “marginais”. E a Polícia Federal afirmou que o grupo é “amador”. Moral da história: provavelmente vão sair ilesos ou, depois de uns cascudos, com uma pena alternativa, ou coisa do gênero. Entretanto, amadores ou não, palermas ou não, acho que mereceriam um tratamento mais duro. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar, há os crimes propriamente cometidos, que falam por si. O problema é que eles não se extinguem neles mesmos, pois causaram um prejuízo milionário aos cofres públicos, graças a todas as alterações que o governo foi forçado a fazer depois do episódio. Mas não foi só o governo que perdeu com tal patifaria, nós também perdemos, porque o dinheiro, na verdade, é nosso, dos nossos impostos. O fato é que milhões de estudantes em todo o país foram prejudicados por conta disso. Financeira e emocionalmente. Estudantes têm gastos com livros, material de estudo, inscrições de vestibulares. Muitos se preparavam para provas de acesso a universidades fora de seus domicílios e entram aí gastos com transporte (a passagem aérea comprada na promoção, meses antes do embarque), depósitos adiantados para hotéis ou pensões, e mais uma infinidade de outros. E ora veem-se ameaçados de não poder prestar os exames pela mudança da data do Enem. Ou, em boa parte, os prestarão com prejuízos, já que algumas universidades não mais aceitarão as notas da avaliação nacional como elemento classificatório disponível a tais candidatos. Não se trata do caso de dizer – como alguns babaquaras disseram em entrevistas – que “todos os seus esforços foram perdidos”. O que se aprendeu se aprendeu: o intervalo para a próxima prova não produz nenhuma lavagem cerebral ou surto de amnésia. Aliás, quem pensa assim, em minha opinião, já foi reprovado. Entretanto, convenhamos, ter os sonhos e planos adiados – às vezes até por um ano – é coisa muito séria.
Em segundo lugar, há algo também muito sério no procedimento dos três patetas responsáveis pelo roubo. Eles insinuaram à reportagem, para qual tentaram vender as provas, que as mesmas teriam sido fornecidas por alguém graúdo do Ministério da Educação, o que foi completamente desmentido pelos fatos. Ora, não se envolve uma instância do governo numa tramoia destas tão levianamente que se possa passar impune. O risco de uma crise institucional foi imenso. Boatos não são tão inocentes quanto se pensam, muito menos um de tal envergadura. O Código Penal trata muito bem destes casos e, creio, o Ministério Público deveria estar atento a isto.
Uma coisa é o furto de parafusos. Outra coisa é o furto de parafusos de uma ponte pela qual passam trens. Se eles seguem incólumes, fica-se somente no furto. Mas se um deles descarrila tudo muda de figura. O Trem do Enem descarrilou, causando prejuízos a milhões e de milhões, além de ameaçar o funcionamento do Estado. Vamos só dar um croques na cabeça dos culpados?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de outubro de 2009].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trabalho sem fim

Depois da metade de um dia de pesquisa na Biblioteca dos Bispos de Mariana, num ambiente escuro, cercado por raridades, julguei que merecia uma pequena pausa. Deixei o prédio e fui esticar as pernas, num banco da praça fronteira.
Por sorte, àquela hora da tarde, a temperatura abrandara um pouco, o sol se escondera atrás das nuvens e um vento bastante ameno passara a soprar. E vi que a ideia de aproveitar aquele ambiente sombreado não fora só minha. Por toda a praça viam-se pessoas, refesteladas, nos bancos. Chamaram minha atenção três senhoras, em pontos distantes uns dos outros, com vassouras apoiadas nos encostos de madeira. Eram, evidentemente, varredoras de rua, que aproveitavam um breve descanso.
O tempo foi passando e aquela ligeira pausa se seguia, aparentemente sem fim. Até que todas, ao mesmo tempo, se levantaram, varreram algumas folhas – poucas, e nada do lixo que as circundava – e recolheram-nas com uma pá. Poucas folhas foram para uma lixeira, já transbordante e, claro, a maior parte delas voltou para o chão. As mulheres pareceram não se importar. Tanto que voltaram, logo em seguida, placidamente, aos seus bancos. Novo descanso.
Não fiquei ali para ver por quanto tempo mais repetiriam aquela rotina. Afinal, tinha meus afazeres. De volta à biblioteca, entre a consulta de um livro e outro, eu aproveitava para dar uma espiada pela janela. E a toda vez as via sentadas, mas agora mais próximas, e conversando.
Perto do fim da tarde, finalmente atingiram o canto da praça mais próximo do prédio onde me encontrava. Não precisava mais acompanhá-las com o canto dos olhos. Agora, o ruído da varrição me informaria de seu ritmo de trabalho. E os ouvidos confirmaram aquilo que tinha visto. Varriam muito pouco e, logo em seguida, paravam. E conversavam, conversavam, conversavam...
Para mim, já bastava daquilo. Atirei-me aos livros, e me esqueci delas, de seu trabalho duplamente leve, fingido e um tanto inútil.
Ao fim do dia, saí e passei por elas. A praça continuava coberta de folhas e de um pouco de lixo, em idêntica forma a que a vira horas antes. Mas, naquele instante, um vento súbito, razoavelmente forte, soprou por entre as árvores, desfolhando-as com rigor. O calçamento, então, cobriu-se quase completamente. E ouvi de uma das varredoras, que contemplava a mesma cena e seus resultados, a seguinte frase, lançada às outras:
– Que coisa! Todo um dia de trabalho perdido...
Um dia de trabalho perdido! Pensei na tarefa inútil e sem fim que é varrer folhas. Inútil e infinito porque elas sempre, e sempre, continuarão a cair. Mas dia após dia, lá estão as mulheres, que são pagas para isto, a varrer e a fingir que varrem, ignorando o lixo, enchendo transbordantes cestos que devolvem ao calçamento as folhas que deveriam conter. Pensei, mais brandamente, que talvez fosse pelas varredoras saberem da inutilidade daquele trabalho, que as levava a simular algum esforço. Pode ser. Em todo caso, ainda que finjam por conhecerem aquela faina infinita, tal fingimento não desvia um palmo de um fato inquestionável: há algo, naquela atividade constante e sem frutos, de vagamente infernal...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 03 de outubro de 2009.]

Nenhum idílio resiste a um escrutínio

Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte III: Castas e raças na ficção científica

Já tratei, noutra ocasião, aqui, da dita ficção científica, embora eu considere que o termo mais apropriado seria fantasia futurística, ou mesmo ucronia. E, ainda assim, é de se ficar tentado ante a possibilidade de se utilizar a expressão romance – ou novelaapocalíptico contemporâneo.
Volto ao assunto porque acredito que o gênero revele muito mais curiosidades do que um leitor apressado é capaz de notar. Não falo das engenhocas futuristas com maior ou menor grau de verossimilhança ou possibilidade, nem das excêntricas teorias científicas que justificam o funcionamento das mesmas. Nem, tampouco, dos seus mundos implausíveis, das suas viagens no tempo e no espaço, das múltiplas coincidências necessárias para a sustentação das tramas. Muito menos, por fim, do fato de que seus personagens parecerem se comunicar num único e mesmo idioma com relativa facilidade, sejam ingleses ou marcianos, norte-americanos ou nativos da galáxia de Andrômeda, franceses ou seleníticos (uma forma elegante de dizer “habitantes da lua”, já que lunático é outra coisa). Não, o que tem chamado minha atenção, com maior espanto, é a freqüente polarização entre raças ou castas irreconciliáveis dentro das tramas, numa visão não só enviesada como maniqueísta.
Lembremos o romance A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells. Lá estão as duas raças, Elois e Morlocks. A primeira, bela e apática, morando na superfície. A segunda, monstruosa e operativa, escondendo-se nos subterrâneos. Uns descendentes da alta classe ociosa. Outros, dos trabalhadores braçais. E estes, alimentando-se, literalmente, daqueles. Quando ouvimos a justificativa do autor, então, ficamos estarrecidos. Tais naturezas foram criadas pela evolução da humanidade nos termos seguidos pelo século XX. Chocante! Quanto mais se pensarmos que Wells era um profundo conhecedor do marxismo e um influente socialista (fabiano) inglês.Em suma, para ele não haveria luta de classes e, sim, uma evolução genética derivada do trabalho e dos hábitos: menos Darwin e mais Lamarck. É, realmente, de cair o queixo.
Poderíamos proceder com o mesmo autor e a outras de suas obras. Nos romances A Guerra dos Mundos (1898), e O Primeiro Homem na Lua (1901), os vilões da vez serão marcianos irredutíveis e os homens-insetos implacáveis que habitam o nosso satélite. Nenhum diálogo com eles é possível. Nossos únicos argumentos perante eles são as armas, em resposta às suas iguais proposições.
Saltando alguns anos, temos o Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, que não deixa de ser uma espécie de releitura de alguns trechos d’A Máquina do tempo, acrescida de drogas e de culto à juventude (criticado). O canibalismo está implícito, assim como uma evolução degenerativa, se podemos assim dizer. E as relações antagônicas são praticamente as mesmas.
A tradição deste diálogo irreconciliável, ou apriorística ausência de diálogo entre os diferentes não pertence somente a este gênero: utopias e ucronias, por vezes, trazem o mesmo traço. Basta pensarmos nos povos de Lillipute e Blefuscu, minúsculos e beligerantes personagens da novela Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Indo mais longe ainda, poderíamos ainda ecoar resquícios da Titanomaquia, a luta que opôs os belíssimos deuses olímpicos aos horrendos e disformes titãs numa antiguidade muito mais que remota.
A vertente inglesa – e, por extensão, norte-americana – não é difícil de compreender do quê procede. Filhos e netos dos cismas que dividiram a cristandade a partir do século XVI, e ardentes defensores de seus propósitos, para além da racionalidade que professavam seguir, muito cedo demonizaram todo o resto do mundo católico, o qual não deveria ser convertido, mas, sim, exterminado.
Já se pensarmos na escola francesa do gênero, em grande parte também moralista, o pano de fundo é outro e há bem mais tolerância entre os povos aparentemente rivais, já que seu modelo foi o contato com o Oriente e com as Américas. Basta lembrarmos, por exemplo, das novelas História cômica dos estados e impérios da Lua (1657) e História cômica dos estados e impérios do Sol (1662), de Cyrano de Bergerac (1619-1655). Sem falarmos em Micrômegas (1752) de Voltaire (1694-1778).
E da alta literatura às histórias em quadrinhos, a mesma relação frente ao outro se repete segundo aquelas mentalidades que as produziram. Basta comparar o alienígena em Buck Rogers (1928), de Anthony Rogers, ou Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, a Valérian, agente espaço-temporal (1967), de Pierre Chrsitin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé: é quase como confrontar o conquistador Hernán Cortés (1485-1547) ao nosso beato José de Anchieta (1534-1597).
Em suma, até a leitura da ficção mais desvairada é capaz de revelar muito do povo que a escreve. Fiquemos atentos ao que virá...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2009].

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte II: Ateísmo e revolução em Vila Rica

Acredito que todos os leitores aprenderam na escola a seguinte lição: no Brasil colonial, não existiam manufaturas, de espécie alguma, porque a Coroa portuguesa proibia sua instalação na Colônia. Para quem duvidasse, citavam-se uns tantos decretos que reforçavam o fato, o último deles de 1785. E muitos historiadores de um passado nem tão remoto, presos a certas correntes ideológicas bem específicas, abraçavam esta teoria, justamente se baseando nas tais leis que impediam a criação de pequenas metalúrgicas, fábricas de pólvora e de pano grosso, e por aí adiante. Hoje, a interpretação é completamente outra e, à primeira vista, até óbvia: ora, se sucessivas leis eram promulgadas proibindo uma dada coisa, é porque, na realidade, as leis não eram cumpridas, sendo necessárias outras que as reafirmassem. Pois bem, parece tudo muito natural, não é? Mas levaram-se décadas para que a sua naturalidade fosse enxergada.
Outro mito corrente é de que no período chamado de Renascimento, os homens de letras e estudos voltaram suas costas para a Igreja, renegaram suas práticas como atos supersticiosos e por bem pouco não mergulharam num feroz ateísmo, ainda que disfarçado hipocritamente. As provas seriam a valorização do homem nas artes, uns tantos ou quantos livros escandalosos (uns, cheirando à heresia, outros tresandando ao que hoje chamaríamos de pornografia). Pois tal legenda também foi desmontada há muito tempo graças ao estudo da obra de um genial e desbocado escritor francês: François Rabelais (1483-1553). E por duas autoridades em suas áreas: o linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), no seu “Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais” (na sexta edição em 2008, e mais uma vez esgotado), e pelo historiador também francês Lucien Febvre (1878-1956), em “O Problema da incredulidade no século XVI: A Religião de Rabelais” (um clássico publicado em 1942 e só traduzido – inexplicavelmente – em nosso idioma neste ano). Ambos os autores demonstram muito bem como era impossível ser ateu naquele período, visto que o catolicismo se entranhara não só em todos os aspectos da sociedade como também em cada nervura dos indivíduos.
E for falar em ateísmo, há também aqueles que interpretam que se não se deu no Renascimento o seu berço, teria sido no século dezoito a sua crisma. E citam o iluminista Voltaire (1694-1778) a torto e a direito, quando nada há de concreto que ateste que o mesmo era ateu: um grande questionador de absolutamente todas as religiões, mas nunca um total incrédulo. Não importa: vendem-no como tal, e dão de brinde os seus leitores da época, que seriam, evidentemente, também ateuzinhos. Para não dizer revolucionários. Por conta disto, muita gente embarca na canoa furada que é propor que os inconfidentes de Minas Gerais, eram todos uns acerbos críticos da política e da sociedade de seu tempo, bafejados de incredulidade e, acima de tudo, anticlericais. E, desta vez, segundo estes marinheiros desavisados, a prova encontrar-se-ia nas bibliotecas dos envolvidos na conjura, apreendidas pelas autoridades. Porque lá estavam livros de Voltaire, as obras completas de Montesquieu (1689-1755), o proibido abade Raynal (1711-1796), mais uns, poucos, heréticos e, outros, vários, polêmicos, entende-se que aqueles mineiros eram todos ateus e, repitamos, revolucionários. O que se esquecem de dizer os partidários de tal teoria – que leram apressadamente O Diabo na livraria do Cônego, o pioneiro, e insuperável, estudo de Eduardo Frieiro (1889-1982) sobre as bibliotecas dos inconfidentes – é que Voltaire era também muito lido por suas qualidades poéticas (era reputado, então, como o maior poeta do século XVIII, o que era um evidente exagero). Como também não mencionam que, para cada polemista, havia mais de três ortodoxos, consagrados, conservadores. Os livros de temática sacra (Teologia é só uma das suas subdivisões) eram os que mais se contavam nos acervos dos inconfidentes. É esta, sim, uma prova do quanto a religião fazia parte de suas vidas e pensamentos.
Em suma, tal como o livro, que não se compra pela capa, que não se tome o homem apenas por um ou outro livro que tenha lido como tudo que leu e que o formou. Eles são indícios, muito bons, por meio dos quais podemos conhecer seus leitores enquanto homens de letras, mas daí a vislumbrar radicais de gabinete, ou de barricadas não passa de especulação. Forçada, aliás.

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de agosto de 2009).

Literatura e História — Parte I: Seguindo pistas

Há muito tempo, acredito que a melhor forma de se compreender a cultura de um povo ou país num determinado período de sua história seria bastante viável não pelo estudo das grandes obras que um e outro produziram então, mas pela análise do que subjazia e era compreendido, e consumido, pela população em geral.
Explicando melhor, quero dizer que se entende mais a sociedade romana, por exemplo, à leitura das peças muitas vezes vulgares de Plauto e Terêncio, e tendo próximo dos olhos os combates dos gladiadores entre si e contra feras, do que pela plácida contemplação dos textos de Virgílio, Sêneca e Marco Aurélio. Quer porque o povo não lia estes últimos, quer porque povo, elite e estamentos médios assistiam àquelas comédias e freqüentavam os circos e arenas.
Vá lá que os gregos norteassem suas vidas públicas e privadas por Homero. Mas não deixa de ser curioso que o número de comédias de Aristófanes (onze, remanescentes) supere o das tragédias de seu contemporâneo Sófocles (sete, conservadas).
Já foi dito, alhures, que se apreende muito mais a Inglaterra e a Itália medievais através dos Contos de Cantuária, de Chaucer, e do Decamerão, de Bocaccio, do que pelas crônicas oficiais ou oficialescas daqueles tempos. Mas os modernos fizeram vistas grossas a isto em sua época. Tudo o que viesse do povo, ou cheirasse à literatura barata, foi escorraçado do horizonte dos historiadores do século XVI ao XVIII. Os românticos até que tentaram, reabilitando os contos de fada e tentando compreender o período em que foram escritos, ou presumivelmente escritos. Todavia o fizeram mais como antiquários do que pesquisadores sérios, científicos, metódicos.
Já os norte-americanos foram bastante espertos quanto a esta percepção, muito antes mesmo da L'École des Annales e da Microstoria italiana. E o testemunho é de ninguém menos do que o de um seu ex-presidente. Abraham Lincoln, quando encontrou a escritora Harriet Beecher Stowe, no início da Guerra Civil, teria chegado a dizer: “Então esta é a pequena senhora (little lady) que causou esta grande guerra (big war)”, tal a repercussão de seu romance junto aos leitores. Em suma, naqueles tempos, o grande livro, para tal povo, foi A Cabana do Pai Tomás, e não Moby Dick, de Melville, ou A Casa das Sete Torres, de Hawthorne, ambos publicados em 1851, um ano antes daquele. E os dois últimos, que já nasceram clássicos, e modernos – pela visão de congraçamento racial do primeiro, e pelas pontuais inovações críticas às tradições fossilizadas, do segundo – parecem não ter feito qualquer eco na consciência de seus contemporâneos.
De modo que, acredito, compreende-se menos a França do século XIX por Balzac do que, por exemplo, por um Eugène Sue, ou um Alexandre Dumas, ou qualquer outro autor de folhetins. Ainda que não fossem repórteres de seu tempo, como o primeiro, e não escrevessem tão bem – é inegável este ponto – como o autor da Comédia Humana, eram eles muito mais lidos pelo público. Eram formadores de opinião, de desejos e esperanças. Nutridos por histórias cheias de reviravoltas, de tirar o fôlego, de ações providenciais de príncipes até então incógnitos, que disfarçavam sua real natureza até o grande lance em que desatavam os nós do destino, entende-se porque os franceses foram tão complacentes com a ascensão, folhetinesca, de Napoleão III.
No Reino Unido, cujo público leitor era muito mais amplo, chegando mesmo à ralé mais explorada, uma análise do apogeu do Império, creio, seria muito melhor realizada não à leitura de Dickens, ou Thackeray, mas sim à das sanguinolentas páginas dos Penny Dreadfuls (em tradução livre, mas apropriada: “horrores a um centavo”), com suas narrativas escandalosas, violentas, terríveis, muitas delas incluindo fantasmas, monstros e assassinos impiedosos. Em boa medida, as Dime Novels (valendo a regra anterior: “novelas a um centavo”), suas correspondentes norte-americanas, com crimes urbanos e facínoras do Oeste Selvagem, cumprem também o seu papel quanto a revelar aquela sociedade. Como, a seu tanto, a bibliothèque bleue, na França, e os cordéis, na Espanha, Portugal e Brasil.
Há poucos anos, foi publicado um livro bastante interessante que contém, em boa parte, uma série de fontes preciosas para o desenvolvimento desta questão. Trata-se de Páginas de Sensação, de Alessandra El Far. Nele, a autora não se detém sobre os integrantes do cânone literário, mas, sim, no que liam os populares – e nem tão populares assim, mas em segredo – entre fins do século XIX e começo do XX no Brasil. A lista de escritores e livros desconhecidos é grande e instigante. Muito mais porque, somos informados, contaram eles com um grande público então (lembrando-se, todavia, que, então, o analfabetismo grassava em grande número e por toda parte em nosso país).
Através dele podemos vislumbrar os gostos da população urbana brasileira de então, dos mais humildes aos mais proeminentes – ainda que secretamente lidos por estes. Uma pesquisa realizada em certos acervos pessoais de alguns notáveis talvez nos enchesse de espanto. Fica, aqui, portanto, uma proposta, neste sentido : vasculhar a baixa literatura nas bibliotecas dos homens de subida fama. É um bom projeto, e uma forma de melhor conhecê-los e ao seu tempo. Imaginem só : pornografia na bilioteca de Rui Barbosa ; romances policiais na de Joaquim Nabuco. Daria o que pensar. E muito...

(Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de agosto de 2009).

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Bela Senhora do Deserto

A cidade de Santana do Deserto, em Minas Gerais, nada tem de deserto e pouco tem de cidade. Ela localiza-se no chuvoso vale do Paraíba mineiro, foi grande produtora de café no século XIX e hoje vive da criação de gado e do turismo rural. Ouvi dizer que tem alguns belos casarões de fazenda e uma igreja matriz antiga. Mas ela e seus menos de quatro mil moradores mal estão no mapa. Mineiros, diz a tradição, estão em toda parte. Mas não tenho notícias de ninguém que tenha se avistado com um morador de lá, ainda que transplantado. Eu, pessoalmente, não conheço ninguém de lá. Ou melhor, conheço sim. Aliás, trata-se de sua moradora mais importante: ninguém menos do que a imagem de Nossa Senhora Santana do Deserto, a padroeira do lugar.
Quis o destino que eu a visse sendo restaurada no consistório da matriz do Pilar em Ouro Preto em julho passado. Pelas hábeis mãos de duas amigas restauradoras, a velha e feia pintura foi retirada, as antigas e belas cores vieram à luz e os seus douramentos, poucos, foram reavivados. Tudo para a festa da padroeira, no dia 26 de julho. Mas não só para aquele único dia. A imagem, antes de voltar para o trono do altar mor, percorreria, como é tradição por lá, todos os bairros rurais do município, acompanhada de círios, orações, banda de música e comemorações. Só então voltaria ao seu lugar de direito, na data exata da celebração.
E com que expectativa a aguardavam! Segundo me contaram, dia sim, dia não, alguém da paróquia telefonava para Ouro Preto, para saber do andamento do restauro. O próprio pároco, em duas ocasiões, se abalara até ali, com o fim de apressar os trabalhos e resgatar a padroeira. Mas como tal não era obra que se faz de maneira açodada, teve que engolir seus sacerdotais brios de dono da imagem, e voltar de mãos abanando.
Ainda que seja muito má educação criticar a aparência de uma senhora, e muito pior ainda de uma dama tão ilustre, devo dizer que a Santana do Deserto não é propriamente uma bela imagem. Seu executor não foi muito hábil. Os traços são demasiado rudes, os ângulos e as arestas muito agudos. Em suma, de uma maneira geral, não louvaríamos suas qualidades estéticas.
Por outro lado, se a intenção do artista anônimo era acentuar as dores e os sofrimentos de uma mulher idosa, a tarefa foi realizada com muito acerto. Parecemos ver a mãe de Maria, do alto de seus muitos anos, ensinando as Escrituras à Filha que, atenta, se prepara para sua dolorosa vida. Dor, contenção, mistério e graça, inegavelmente, irradiam das duas Senhoras, de uma já tão velha, de outra ainda uma criança. Desde o nascimento humilde, a perseguição aos primogênitos e a fuga para o Egito, toda a Paixão do Senhor já parece prefigurada em seus rostos, em seus olhos, em seus gestos.
Em suma, é bela, porque é sofrida. É elegante porque é sábia. É grandiosa porque é humilde. É um paradoxo porque é verdadeira.
Desculpe, Senhora Santana do Deserto, por não ter percebido, de imediato, sua beleza tão rara. Mil desculpas.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de agosto de 2009]

domingo, 26 de julho de 2009

Festival ou funeral?

O Festival de Inverno de Ouro Preto foi, por décadas, um dos eventos culturais de maior importância no país. Para ele vinham artistas e público das mais diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas apresentações, peças e oficinas tornaram-se lendárias, e o número de inscritos para muitas atividades superava em muito o de vagas. Este quadro durou, seguramente, até alguns poucos anos atrás, quando a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que cuidava do festival, desentendeu-se sabe lá com quem e montou um outro evento em Diamantina. De lá para cá, a decadência mostrou-se visível, ainda que não acentuada. E, neste ano, a situação revelou-se traumática. Poucos espetáculos, muitos artistas desconhecidos, oficinas entre passáveis e sofríveis e um sensível esvaziamento de espectadores e participantes.
O motivo, alegado, para a edição deste ano ter sido muito abaixo de passável, foi, segundo os organizadores, a crise mundial. Poucas empresas teriam encampado o patrocínio e dado menos dinheiro que o esperado. Vá lá que isto seja verdade. Todavia nada justifica o fato de que a programação completa somente foi divulgada no exato primeiro dia do festival. Assim, nem quem quisesse vir poderia estar por aqui. Faltou-se apenas culpar a gripe H1N1, a outra vilã da vez, pelo pouco comparecimento de público e artistas...
Está bem, não sejamos tão duros. Se faltou dinheiro, poderiam caprichar nos cuidados gerais, certo? Na valorização dos artistas regionais, etc. Pois é, isto também não ocorreu.
O som era péssimo, a ponto dos próprios técnicos queixarem, bem como da acústica do local e do palco. Em suma, ou tinha-se barulho, ou uma chiadeira miserável. Num espetáculo de dança, por sinal, o som foi interrompido durante toda uma cena!
Os sanitários químicos eram insuficientes, mesmo com a reduzida audiência – e neste ponto, até que foi bom: não quero nem imaginar o resultado de uma multidão tendo a seu dispor apenas doze cabines.
Quanto aos artistas locais e regionais, que são muitos, não tiveram o destaque que mereciam. Nem mesmo quando eram as estrelas da noite. Ou apresentavam-se longe do palco principal, em horários inexequíveis, ou tinham ordem de deixar o palco logo depois do espetáculo, sem bisar uma vez sequer. E, à meia-noite, pouco mais ou pouco menos, encerrava-se completamente o espetáculo, quando, pela tradição, o evento estendia-se madrugada a fora.
Os únicos pontos positivos a serem destacados foram três. Em primeiro lugar, a mudança do palco principal, da combalida Praça Tiradentes para a nova Praça da UFOP, junto ao centro de convenções, no Pilar. Uma boa medida para preservar os monumentos do centro da invasão de uma massa saltitante, gritante e dançante. O segundo ponto foi a ótima apresentação daquele estupendo grupo teatral que é o Galpão, adaptando de maneira circense a história de Till Eulenspiegel, uma mistura de Pedro Malasartes e Macunaíma alemão. Ótimos, como sempre, e brindando a cidade com uma encenação que recém estreou em Belo Horizonte. E, por fim, a apresentação daquele jovem mestre do violão que é Yamandú Costa. Perfeito, simpático, brilhante.
No mais, foi tudo muito fraco e triste. O ácido bom humor ouropretano sequer poupou, em represália, o nome do festival. Era comum ouvir as pessoas perguntarem umas às outras o que estavam achando do “Funeral de Inverno”.
Esperemos que fique só na blague, pois o Festival, quando bem feito, é ótimo. Mas o clima geral era de melancolia. Fim de festa. Quase velório. O que é uma pena...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de julho de 2009]

Gringos

Há alguns dias, um antigo professor meu, que se tornou um grande amigo, convidou-me a acompanhá-lo numa visita a algumas igrejas de Ouro Preto. Ele estava recebendo um grupo de universitários norte-americanos em visita ao Brasil, estudantes de português que quiseram testar seus conhecimentos da nossa língua in loco. E, ao mesmo tempo, conhecer um pouco do país. O grupo era capitaneado pelo professor deles, que organizara a viagem segundo um método bastante incomum para nós. Geralmente, nestes casos, os alunos são hospedados num único lugar, pousada, hotel ou albergue, e sua interação com os habitantes locais acaba bastante reduzida. Talvez prevendo tal possibilidade, o que ele propôs era algo diferente: dividiu-os em duplas e cada uma delas deveria se hospedar numa república estudantil diferente. E, mais do que isto, deveria atuar de alguma maneira na cidade. Como, nestes dias, está ocorrendo o Festival de Inverno, não foi difícil arrumarem algo para fazer, e se inscreveram como monitores nalgumas das atividades propostas pela organização do festival. Resumindo: a redoma que geralmente é posta sobre os estudantes em viagem, isolando-os do resto do mundo, foi estilhaçada. Vê-se, portanto, o quão arrojada foi a aposta.
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]

A Biblioteca de Alphonsus

Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.

[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]

O Fantasma pálido

É quase impossível acrescentar alguma coisa a mais ao muito que foi dito sobre a vida e a morte de Michael Jackson. Nos últimos dias, em qualquer meio de comunicação, discutiu-se sua música, seus escândalos, sua difícil infância, as alterações em sua aparência, sua situação financeira, etc. Tudo, absolutamente tudo, foi vasculhado, exposto, comentado. Se o seu corpo passou por duas necropsias distintas, sua história pessoal foi retalhada em mil peças, exibidas com a rudeza das carnes nos ganchos dos açougues.
Mesmo assim, não posso me furtar a tecer alguns breves comentários quanto à vida do astro. Em primeiro lugar, que cabecinha fraca ele tinha, para não dizer pior. Aquilo de morar num parque de diversões, francamente. Até a arquitetura lembrava a da Rua Principal dos parques da Disney, réplica de tempos dourados, como os enxergam os norte-americanos mais conservadores. Não é contraditório para um símbolo da rebeldia, como foi dito, querer viver em supostos dias melhores, nos quais, todavia, se vivesse neles, tudo o que ele foi, fez ou teve lhe seria negado? Quem quiser saber como era a vida de um negro nos EUA do início do século XX – a época dos sonhos dos reacionários – leia o romance Ragtime, de E.L. Doctorow. Em segundo lugar, fico pensando como alguém pode ser chamado de inteligente, gênio, o que quiserem, sendo que deu aos filhos os nomes de Prince Michael e Prince Michael II.
O que eu gostaria de comentar com mais cuidado acerca deste assunto é que, em minha opinião, Michael Jackson envelheceu mal. Não digo só física e mentalmente – há quem afirme, por outro lado, que neste último campo ele sequer cresceu: pensava e comportava-se como uma criança. Quando digo que ele envelheceu mal é porque sua figura acabou por demais caricata. Reconheço que muitas de suas coreografias e músicas foram inovadoras em seu tempo. Mas revendo e tornando a ouvir algumas delas, pareceram-me por demais datadas: tiveram seu sentido em sua época, mas hoje, na minha opinião, têm um ar muito afetado, amaneirado, pouco natural, quase mecânico. Vendo algumas cenas de espetáculos, clipes, etc., tive a impressão de assistir a uma grande marionete acionada por cordas invisíveis. Que se move e se agita com presteza e eficiência tão demasiadas que seus movimentos sequer parecem humanos. Noutros momentos, lembravam algo completamente falso e exagerado. Não como as imagens agitadas de uma comédia do cinema mudo dos anos 1910 ou 1920, mas uma paródia moderna daquelas imagens, muito mais frenética que a versão original e, portanto, falsa. Da mesma maneira, seus trejeitos, poses e gesticulação, de evidente conotação sexual, vão perdendo o seu sentido na medida em que ele envelhecia e sua figura, cada vez mais anódina, sugeria justamente a supressão de toda sexualidade. Algumas vezes, tive a impressão de assistir a uma dança lasciva, sim, mas praticada por um eunuco: ou seja, um imenso paradoxo entre a intenção e a natureza.
Em suma, acho que ele retirou-se de cena no momento certo. E que isto sirva de consolo aos fãs. Caso realizasse a longa temporada de espetáculos prevista, e fracassasse, sua imagem ficaria arranhada para sempre. Caso triunfasse, talvez não fosse tanto pelos seus méritos, mas sim pela boa vontade de seus admiradores, saudosismo, curiosidade de assistir a uma relíquia dos anos 1980 ainda em atividade. Mas, em todo caso, a ilusão de um eventual sucesso é sempre melhor do que a dureza da realidade e os riscos que ela nos apresenta.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de julho de 2009]

Sebos e histórias – Parte III: o reencontro com um amigo

Esta história aconteceu há quinze dias, pouco mais ou pouco menos.
Minha mulher procurava, havia muitos anos, um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Ela tivera um exemplar, que emprestara certa vez a um amigo, o qual jamais lhe devolveu o livro. Quem gosta de ler já passou por isso. Temos um livro de que gostamos, o emprestamos a alguém em quem confiamos, e eis que um dia perde-se tanto um quanto outro. Mas, no caso dela, o exemplar era sobremodo precioso por ter sido um presente de uma pessoa muito querida e que lhe incentivara no hábito da leitura na adolescência. Em suma, não era só o conteúdo que lhe era caro, havia todo um aspecto afetivo envolvido.
Desde que me contou a história de como o perdera, passei a procurá-lo em todo sebo, saldão de livros ou livraria que visitava. Encontrei várias edições, mas nunca aquela de que me falava. E que fiz questão de que descrevesse. Era, segundo ela, um livro de capa vermelha, com letras brancas e pretas e nenhum outro enfeite, fotografia do autor, ilustração, nada. Na capa, somente o nome do escritor e o título: Bertolt Brecht. Antologia Poética. E, para piorar as coisas, lembrava-se de que fora publicado por uma editora pequena e pouco conhecida. Como disse, procurei por anos o livro, e encontrei as mais variadas edições e versões da obra. Uma de capa amarela, outra amarela e vermelha, outra branca, outra ainda com o retrato do autor, outra com ilustrações. Mas nada daquela que ela queria.
Eis que, finalmente, encontrei um livro, no sebo recém aberto de Leme, na rua Newton Prado. Mal acreditei quando o vi. Sim, só podia ser aquela edição a que tanto buscava. Comprei-a imediatamente.
Voltando para casa, tirei-o da pasta, escondi-o atrás das costas e pedi à minha mulher que estendesse as mãos e fechasse os olhos. E entreguei-lhe o livro. Quando ela reabriu os olhos e viu-o em suas mãos, emudeceu, engoliu em seco e lágrimas correram por seu rosto. Estava comovida, exultante de felicidade. Fiquei até um pouco aborrecido, afinal, já tinha lhe dado outros presentes muito mais caros e raros e a reação, em tais ocasiões, não chegara aos pés da que manifestou diante daquele livro.
Mas, claro, lembrei-me, aquele não era só um livro. Era um verdadeiro amigo com quem se reencontrava. Tanto isto era verdade que bastou folheá-lo e o volume, quase naturalmente, abriu-se na página onde estava a poesia preferida por ela, Perguntas de um operário que lê, que, como soube, foi lida por ela, inclusive, em seu discurso de formatura no colegial.
E eis que aquele seu amigo, de papel, tinta e cartolina, retornava ao seu convívio como se estivesse separado por uma longa ausência. Pergunto-me como há pessoas que ainda dizem não gostar de ler. O quanto perdem com isto! Até a possibilidade de um reencontro afetivo, e inesperado, como o que ela experimentou. Livros são, verdadeiramente, grandes amigos. Sempre o soube. E fiquei feliz naquela tarde, quando minha mulher confirmou-me, de forma tão clara e tão bela, esta verdade.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de junho de 2009]

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sebos e histórias – Parte II: uma curta novela epistolar e manuscrita

Na semana passada, prometi mais algumas histórias curiosas de sebos. São muitas, mas uma, até hoje, conservo com uma espécie de carinho. Descobri-a através de alguns livros que comprei, os quais tenho até hoje, nos quais se encontra toda a crônica do final de um relacionamento amoroso.
Os antigos donos – um jovem casal universitário – tinham o curioso hábito de fazer longas anotações na folha de rosto e nas páginas em branco do final dos volumes, às vezes avançando mesmo pela parte interna da contracapa. Nunca escreviam juntos na mesma obra, e os registros dela eram mais longos e mais frequentes. Somente ela assinava: Ana Maria. E chamavam um ao outro, brejeiramente, de Patolina e Patolino, ou os Patolinos.
As notas iniciavam-se com um breve comentário acerca da leitura, se tinham gostado ou não e o porquê. Depois, seguiam-se curtos relatos sobre as condições da leitura.
Para que tenham uma idéia, seleciono alguns trechos.
Na folha de guarda de um livro (A Micro-história e outros ensaios, de Carlo Guinzburg), está escrito, de próprio punho:
“Quencão amado: 194 semanas de nossa parceria...”. Fala então da visita de uma amiga, do que fizeram nas férias, etc., etc., e termina: “E o que mais falar de nossa parceria? Já nos dissemos e escrevemos tantas coisas, mas é um sentimento, o amor, que se renova sempre, pois compartilhamos a vida um com o outro. Amo muito você.... Sempre, Feliz dia: a Patolina: Ana Maria: 09/10 fevereiro. 92. 22:35 segunda. Patolândia Encantada. Obs. Hoje foi a volta ao cativeiro. A sua foi adiada para 4ª feira. Sortudo!”.
No mesmo volume, na última folha em branco, vinha o seguinte.
“Este livro acabou de ser originalmente lido às 16:36 hs do dia 20 de Agosto de 1992, uma quinta-feira fria, no laboratório da Teresinha, enquanto ele vota para presidente e vice desta muvuca industrial cabocla. Espero a Teresa”. E, logo abaixo: “Quenco amado, logo sairá do ninho rumo ao cativeiro” “E, à noite, ou no começo da madrugada, será minha vez de retornar ao ninho, para o Patolino querido. A vida...”.
O tom de pieguice, concordemos, é bastante forte, chega a ser mesmo cômico. Mas até o mais endurecido dos leitores há de concordar que estas linhas, quase infantis em sua singeleza, palpitam de pura vida. Sabemos que dividem, há três anos e meio (194 semanas) o mesmo teto, o qual chamam de ninho e Patolândia Encantada, em contraponto ás aulas na faculdade, o cativeiro. Que ele tem três apelidos que de certo obedecem a graus diferentes de tratamento: ele é o Patolino, mas, para ela, também, Quenco e Quencão. Que eles se amam e estão felizes num período que vai das já referidas semanas até seis meses depois (de 9 ou 10 de fevereiro até 20 de agosto). Podemos inferir, também, que ao menos um deles, senão ambos, perdeu ao menos um semestre universitário (todos os livros onde escrevem suas cartas são de História – um curso de quatro anos, como é sabido – e constam da ementa dos dois últimos semestres), já que estão junto há quatro anos e não se formaram. Sabemos também que estudam em turnos diferentes (ele pela manhã, com alguma disciplina optativa às 17 horas, e ela à noite). E que ele é ativo politicamente – vota no Centro Acadêmico ou nalguma associação classista, que ela chama de “muvuca industrial cabocla”.
Dos demais livros que pertenceram ao casal, dois tem a letra dele, quase ilegível, da qual pode-se ler, com clareza, somente que a ama, etc., etc. Muito menos enfático do que ela. Outros quatro pertencem à Patolina. Num deles, há um registro de inícios de novembro do mesmo ano, em que ela descreve uma tarde de amor (“fizemos quém-quém a tarde toda”). Noutro, de fins do mesmo mês, descreve, com os mesmos termos, os mesmos prazeres, mas que, queixa-se, “não era mais como antes: Patolino anda distante, frio”. No terceiro, de meados de dezembro, ela começa a se questionar quanto à relação: “ele está mudado, meu Patolino já não parece pensar em mim”. O último registro é de fins de dezembro. Ela se lastima pelo andar das coisas, mas afirma que há de sobreviver. E indica já estar pensando noutra pessoa: “pode haver outros patolinos na lagoa, se ele não quiser enxergar”.
Como disse no início, não sei quem são eles e é quase impossível saber. Três dos livros comprei em São Paulo. Um deles em Santos (o único que traz a indicação de lugar, Santos, onde presumo que moraram e estudaram), dois em Campinas e o último, acreditem, em Belo Horizonte. Talvez existam outros mais, detalhando aquela relação, espalhados por outros sebos, ou com novos donos. É possível. Mas não me canso de pensar que, sem o saberem, escreveram indiretamente uma pequena novela epistolar, com momentos de alegria e de tristeza, esperança, desencontros. Uma novela que, além deles, somente eu pude conhecer. Não sei se estão juntos – acredito que não, do contrário conservariam os livros. E não sei como terminaram sua relação. Tristes? Furiosos? Com desdém? De comum acordo? Houve morte? Violência? Lágrimas, certamente. E nunca poderei saber ao certo que fim tiveram. Nem os leitores, que agora compartilham comigo esta história.
E de tudo isto tive ciência por simples obra do acaso, freqüentando sebos, comprando aleatoriamente livros que me interessavam e que, decerto, interessaram também a outras pessoas, daí sua dispersão por tantas cidades. Livros que me trouxeram, como uma espécie de brinde inesperado, uma curta novela epistolar, que não é alta literatura, certamente, mas que é tão cheia de vida, vida real, que chega a comover mais do que muitas grandes obras escritas com muito intelecto e nenhuma paixão.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de junho de 2009].

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sebos e histórias – Parte I: Tesouros submersos

Muitos jovens de hoje não sabem que a palavra sebo nomeia as lojas de livros, revistas, discos, cds e vídeos, todos eles usados, não só de segunda mão, mas de terceira, quarta e, às vezes, incontáveis mãos. Tanta manipulação, aliás, está na origem de tal nome: os livros, passados por tantos leitores, acabariam ensebados — o que, hoje em dia, não é inteiramente verdade: sim, existem ainda algumas lojas que, em higiene e organização, mais lembram uma borracharia que um lugar para a venda de livros, mas há outras, a maioria hoje, que de tão organizadas e asseadas, parecem uma livraria comum. A palavra tinha mais sentido no século XIX, quando surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando ainda se lia à luz de velas e os estudantes eram criativos o suficiente para inventarem gírias que atravessavam gerações, cruzavam o país, entravam nos dicionários e neles permaneciam.
Disse que algumas parecem até uma livraria comum. Mas isto não é exato. Muitas são muitíssimo mais agradáveis do que a maioria dos pontos de vendas de livros que vemos por aí, ainda que nelas, por vezes, impere um certo caos. Pois os sebos lembram um pouco as antigas livrarias de um dono só, onde tudo é pensado e planejado por ele, da escolha dos livros à sua disposição nas vitrines, sobre as mesas, nas prateleiras, o que é de fundamental importância, e fazia do proprietário mais do que um simples comerciante, mas um livreiro, um autêntico divulgador cultural, que oferecia algo totalmente diferente da mecânica organização que impera hoje em dia, ditada por grandes e impessoais redes de lojas. Um livreiro, claro, expunha nas vitrines os best-sellers, mas, também, livros de que ele próprio gostava, ou apostava como promissores, ou garantia como valiosos, imprescindíveis: como havia espaço, evidentemente, para o novo romance de Chico Buarque, havia-o, também, para uma nova tradução de um Sófocles, de um Ésquilo ou o livro de estreia de alguém que ele julgasse bom. E ele não só vendia o seu produto, como formava leitores. Os sebos, evidentemente, não têm tanto poder de escolha quanto aos títulos: compra o que lhe oferecem. Mas fazem toda a diferença quando privilegiam certos gostos em detrimento de outros, montam seções mais especializadas e bem abastecidas e, sobretudo, exibem com clareza os melhores e mais interessantes títulos ou autores, sejam fácil saída ou não – geralmente não.
Em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, há sebos cujo forte é a Literatura. Outros, ótimos para quem busca livros de História. Outros ainda para a História da Arte, para a Crítica e Análise Literária, para raridades, para a Filosofia, para o Direito. Conheci um, no Rio de Janeiro, especialista em teatro. São lugares que transcendem o mero comércio, e se tornam pontos de irradiação de cultura. E com preços, na maioria das vezes, possíveis à maioria dos bolsos.
Sou frequentador de sebos desde os meus quatorze anos. A um deles eu ia tanto, que me ofereceram um emprego ali, graças, também, ao fato de ter trabalhado noutras livrarias – pequenas, de livreiros. Já no primeiro mês tinha me tornado gerente. E que festa eu fazia! Mas do meu salário, seguramente, eu retirava em mercadorias, para o meu próprio consumo, graças aos ótimos descontos que tinha por ser funcionário. Quantos clássicos e raridades só assim pude comprar, então! E havia também uma espécie de bônus. Pois sempre que um novo lote de livros chegava, qualquer coisa que viesse entre as páginas, esquecida pelo antigo dono, passava a pertencer a quem o achasse (no caso nós, que ali trabalhávamos). E como se encontravam curiosidades!
Fotografias e postais antigos eram comuns. Encontrei, em duas ocasiões diferentes, um retrato autografado da cantora argentina Libertad Lamarque (1908-2000), e outro do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), feito em Paris, nos anos 1950, por um conhecido fotógrafo daquele tempo. Anotações de leitura. Cartas dos mais variados tipos. E até dinheiro. Ficaram célebres, à época, no meio, o caso de dois funcionários de sebo que encontraram, um, quinhentos dólares americanos, cinco notas de cem, esquecidas num livro, e, o outro, uma carta autografada de Monteiro Lobato a um leitor. Cartões de visitas eram também comuns, convites de posse na Academia Brasileira de Letras, e coisas assim. Como cédulas já saídas de circulação. Eu mesmo encontrei uma nota de quinhentos cruzeiros – aquela com os rostos e o mapa do Brasil – que me encheu de pena. Estava novinha em folha, ou seja, nunca mais fora utilizada e, à época de sua emissão, 1972, valera bastante. Fiquei pensando se o seu esquecimento não pusera o antigo dono em dificuldades reais, palpáveis, terríveis, visto que o valor correspondia a dois salários mínimos de então.
Eram as cartas de amor, entretanto, as que mais punham a imaginação a dar voltas. Pensar se aqueles amores foram correspondidos, ou não, se terminaram bem, ou mal, se jamais terminaram. Aquilo realmente mexia com o coração de quem lia, tantos anos depois e sem mais nada conhecer da história. Mas isto fica para uma próxima vez.

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 13 de junho de 2009.]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Raios, trovões e falatório





África do Sul, Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Filipinas, França, Gâmbia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Itália, Líbano, Marrocos, Noruega, Polônia, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça e Turquia. O que estas nações têm em comum? Seriam elas as participantes da Copa do Mundo de Futebol em 2010? Não, porque o número excederia o dos países que se classificarão para o evento, exatos trinta e um, e a lista acima enumera trinta e dois. Ou seria o quorum de uma importante votação numa assembléia da ONU? Não. O que fez com que ficassem lado a lado foi o recente desastre aéreo envolvendo o jato da Air France. Pertenciam às nações referidas acima as vítimas deste mais novo episódio. Isto sim é que é a globalização da morte!
E que relação! Desde o atentado às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e da onda gigante que arrasou tantos locais banhados pelo Oceano Índico em 2004, não me lembro de algum episódio envolvendo pessoas de tão distintas origens. Claro que, nestes casos, morreram muito mais pessoas. Aliás, o tsunami nem deveria entrar aqui como comparação. Não se podem opor algumas dezenas, ou mesmo milhares, às quase duas centenas de milhares que pereceram no Índico.
Mais uma vez, solidarizo-me com os parentes e amigos das vítimas neste momento tão doloroso, etc., etc., etc... Mas, novamente, discordo quanto ao emprego do termo tragédia para este tipo de acontecimento, ainda que largamente empregado pela grande imprensa e pelos comentaristas mais afoitos e vulgares. Tragédia, para eles, parece ser apenas mais uma palavra pertencente a uma escala iniciada por acidente, seguida por desastre e catástrofe e concluída por ela, a tragédia, tornada uma espécie de superlativo de todos os males. O que não passa de uma bobagem, como não me canso se referir. Tragédias envolvem culpas a serem expiadas, transgressões que precisam ser punidas para a restauração da justiça, divina ou humana. Considerar um desastre aéreo como trágico só seria possível se, ao mesmo tempo, criticássemos nos homens seu desejo de voar e o uso de aviões, como provas de sua soberba, arrogância, como se tivessem desafiado os elementos e por tal merecessem ser punidos. O que, convenhamos, é uma grande tolice.
Um aspecto curioso a ser notado é que o interesse da população brasileira quanto ao caso já começa a diminuir. Até algumas piadas já estão circulando como aquela que se refere à tecnologia francesa não ser à prova d’água...
Porém o que mais chamou minha atenção em todo este caso foi a resistência que os peritos em aviação têm manifestado em responder uma simples pergunta: quer dizer, em suma, que se um raio atingir um avião, no meio de uma turbulência, ambos derrubam o aeronave? Por que não falam com todos os ff e rr? Medo de que embarquemos? Que fujamos de tão frágeis estruturas? Parece ser isso. Lembra aquela história, no fundo, de que os aviões e os besouros voam, é fato, mas não peçam para que a Física explique, que ela não tem respostas. E já decidi que só levarei a sério o especialista que disser, para todo mundo ouvir: voar com mau tempo é, sim, perigoso; raios e turbulências, de fato, podem derrubar um avião. Chega de meios termos, num momento destes!

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de junho de 2009.]

sábado, 30 de maio de 2009

Retratos por uma câmera fora de foco

Por conta do tal Ano da França no Brasil, o governo daquele país e o nosso bancaram um anúncio, veiculado nas tevês abertas e por assinatura, que pretende mostrar que a terra dos franceses não é só feita de tradições, mas de modernidade também. Desta maneira, alternam-se, naquela peça publicitária, imagens dos eternos cartões postais (Torre Eiffel, Arco do Triunfo, etc.) com novas criações arquitetônicas (a pirâmide de vidro em frente ao Louvre, do arquiteto chinês I. M. Pei, e o Grande Arco de la Défense, de seu confrade dinamarquês Otto von Spreckelsen).
Seguindo a seara de tentar mostrar que aquele país se abre aos ventos da mundialização, eis que se vê um tradicional café parisiense com pessoas sentadas às mesas na calçada e, ao invés dos tipos tradicionais que se espera ver em tais cenas (os estereótipos variavam dos tipos intelectuais aos galãs e às modelos), vemos, brevemente, um grupo multirracial ou multicultural: há até uma moça muçulmana, de véu, entre os convivas.
O aspecto musical também é brevemente apresentado, num instantâneo em que se percebe um grupinho de rap e, creio, alguns roqueiros. Pronto! Esta seria a mescla atual da cultura francesa, o seu novo legado para o mundo.
Não tenho nada contra, previamente, a imagem que um país quer passar a seu respeito para que o mundo o compreenda melhor. Não falo, evidentemente, dos casos das ditaduras asiáticas da China, Coréia do Norte, Mianmar (antiga Birmânia) e outras menores, mas não menos cruéis (menos, tão somente, por uma questão de escala, frente às maiores). Nem de tantas pequenas nações islâmicas, falsos oásis de prosperidades, onde a riqueza de fato se concentra nas mãos dos emires, reis e seus parentes: à raia miúda, o silêncio e as leis medievais. Nestes casos, a falsidade é gritante, os discursos não passam de propaganda e os horrores nunca vêm a público. Quando da Olimpíada de Pequim, em que mostravam a todo momento os ginásios, estádios e quejandos, os novos prodígios da arquitetura local, o que me vinha à lembrança eram aquelas cafonices megalômanas dos arquitetos nazistas, fascistas e stalinistas (somente os materiais e os sinais eram novos: a ideia de fundo era a mesma).
Mas, como dizia, que triste imagem a França quer passar de si mesma para o Brasil.
Alguém, por acaso, já ouviu o roque francês? Eu já. É tão discernível e relevante quanto o roque, digamos, finlandês, colombiano, paquistanês ou canadense. Em suma, mais do mesmo. Quanto ao rap, então...Que tipo de nação, aliás, gostaria de ser associada, oficialmente, por suas relevantes criações artísticas no campo do rap? É de chorar de rir...
Curiosamente, não há uma única menção ao cinema. Deve ser porque já entregaram os pontos. Independente de toda a belíssima tradição cinematográfica francesa, é como se dissessem que cinema, de fato, é para norte-americanos.
Da pintura e escultura, nem uma imagem. Pudera. Desde Matisse (1869-1954), a França não dá mais as cartas nesse assunto. Salvo por Picasso (1881-1973) que, aliás, era espanhol. E Niki de Saint Phalle (1930-2002) tem algumas coisas graciosas, mas tão relevante na história da arte quanto, digamos, Fernando Botero e seus gordinhos serão daqui a algumas décadas: um curiosidade engraçadinha, se tanto.
A França, que verdadeiramente importa, é a das catedrais e castelos do medievo; do Renascimento e dos Luíses; de Napoleão I e Napoleão III; da República até os tempos de Gaulle. Ali, então, se construiu, se compôs, se escreveu, se dançou, se pintou e se esculpiu o Belo. Estes, sim, foram seus grandes legados. Suas proporções clássicas, claras, elegantes e humanas – daí toda a crítica em torno da Torre Eiffel, à época de sua construção e que, com os tempos, foi assimilada.
Portanto é incompreensível que a terra que tem a Cidade Luz como sua capital queira ser vista pelo mundo por uma música ruim que qualquer um é capaz de fazer, e por novos e gigantescos prédios que qualquer milionário grosseiro e inculto de Miami, Xangai ou Dubai pode fazer ainda melhor.
Não, definitivamente, não! Não é este o verdadeiro legado francês.