sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Papai Noel subiu no telhado...

Por iniciativa de uma entidade assistencial ligada à Confederação dos Bispos da Alemanha, foi criada uma campanha intitulada “Zona livre de Papai Noel”. Seu objetivo é o de resgatar São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), no século IV, que, por ajudar as pessoas pobres e ser um amigo das crianças, serviu de inspiração para o símbolo do Natal. E a causa do resgate de seu culto relacionado a tal data é bem simples: porque este santo sempre foi o símbolo da celebração natalina naquele país (ao lado do Presépio, é claro, o primeiro e mais importante) e porque se pretende combater o “consumismo” nas festas de fim de ano, identificado com o “Bom Velhinho”. A pequena cidade alemã de Fluorn-Winzeln aderiu ao apelo da campanha e declarou seu território, portanto, uma “Zona livre de Papai Noel”: as escolas e os comerciantes retiraram as decorações relativas ao recém-banido Noel, e colaram, nas vitrines e muros da região, adesivos com um sinal de “proibido”. E cartazes com o rosto do personagem atravessado por uma faixa vermelha, semelhante às placas de trânsito de “proibido estacionar” podem ser vistos no interior de lojas, repartições públicas e junto à sinalização que marca as entradas do município. Especula-se que outras municipalidades irão aderir ao movimento.
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:

“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.

É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].

A Mais delicada pessoa que conheci

Voialtri pochi che drizzaste il collo
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo
...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.

Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].

Luz e sombra no Rio de Janeiro

Os últimos episódios ocorridos no Rio de Janeiro, ainda que saudados com entusiasmo pela imprensa, e necessários, frisemos, acabam por expor uma série de mitos à luz da verdade e, quais figuras de cera, não resistiram ao calor dos acontecimentos.
A primeira certeza que se dissipou do manto de escuridão que a envolvia foi a da pretensa organização do crime organizado. Não ponho em questão o quanto aquele se mostra bem preparado na corrupção de autoridades civis e militares em prol de seus negócios. Nem da ampla capacidade de suprir o seu mercado, graças a um preciso gerenciamento baseado na fidelidade de seus quadros à empresa, na eficiência da logística, no aparato de segurança que protege suas transações (da chegada do produto até sua entrega) e na maneira como sabem agradar a um público sempre em expansão. Alem disso, sabem lidar muito bem com seus ativos (capitalizam seus lucros através do investimento em mercadoria e maquinário de controle, boa parte dele importado – Browning.50., Desert Eagle e AK-47), têm um persuasivo modelo de cobrança que desestimula a insolvência, quase eliminando o passivo proveniente da inadimplência e, no que diz respeito às retiradas, são bastante modestos: um barraco com banheira de hidromassagem e cama de motel longe está de um iate, de um castelo, de uma ilha particular, de uma luxuosa casa de praia ou de um apartamento de cobertura. Refiro-me à falta de organização do crime organizado na medida em que seus membros se comportaram quais baratas surpreendidas num cômodo escuro tão logo se acende a luz: correm, tresloucadas, para todos os lados, fugindo em pânico, sem esboçar qualquer comportamento de defesa ou contra-ataque.
A segunda, que emergiu da cortina de sombras que impedia sua perfeita visão, foi a de que o crime organizado não declarou guerra ao Estado do Rio de Janeiro. Comparar a ação das quadrilhas de traficantes cariocas com as da FARC (que é criminosa, mas ideologizada e com organização militar) e outras guerrilhas que tais é absurdo e mentiroso. A prova encontra-se, do ponto de vista estratégico, no fato de não terem um plano conjunto de defesa e reação, de contra-inteligência capaz de se antecipar ao ataque nem, tampouco, terem conservado uma certa parcela de apoio popular suficiente para endossar suas atitudes – o que, todavia, tiveram no passado. E do ponto de vista tático, verificou-se uma completa fragilidade em suas cadeias de comando – foi um salve-se quem puder – além da inexistência de planos de fuga ou retirada, controle do território, etc. Os traficantes do Rio não são talebãs ou terroristas iraquianos, e uma prova é que, felizmente, não se registraram baixas nas forças governamentais em razão dos tiroteios. Como, também, não há sentido algum em chamar o conjunto de operações de Guerra ao Tráfico, nem como licença poética – visto que não há poesia nenhuma em toda a coisa. Pois não se trata de uma guerra civil, a menos que interpretemos o episódio como uma guerra do Estado contra uma parcela de cidadãos – criminosos, é verdade, mas cidadãos – o que causa uma confusão infernal com cheiros de Vendéia, Contestado e Canudos.
A terceira, subtraída às trevas que a obliteravam, diz respeito à confiança que podemos ter nos órgãos públicos de segurança, estaduais e federais. Pois já se fala em descaminhos de drogas de armas por parte de policiais e militares, e de possível cooptação de membros das tropas do Exército pelo tráfico. A isto chamam “contaminação”, que querem evitar através do rodízio de oficiais e soldados nas operações. Vá lá que os mal-pagos e humilhados praças do Exército, muitos deles moradores de favelas, capitulem diante de promessas de dinheiro e de proteção (ou não agressão) às suas famílias. Mas oficiais também? Que tipo de quadros o Exército está formando hoje em dia? Aí está uma coisa para realmente ficarmos preocupados.
A quarta e última, acossada do tugúrio onde vivia, fundamenta-se num, e apenas num fato: a ocupação dos morros pelo governo do Rio de Janeiro – uma medida esperada, desejada, implorada pelo grosso da população, não digo carioca, mas nacional – só se deu em razão da proximidade de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Percebeu-se que era preciso “mostrar serviço”, passar a imagem de que o Rio é uma cidade tranquila para os turistas, e atrair capital. Só e somente só isto.
De minha parte, sempre fui favorável à recuperação, pelo Estado, de áreas carentes que se encontravam à mercê dos criminosos. Minha objeção à certa glamourização das favelas, bem como a certas intervenções urbanísticas cosméticas, criticadas por certos grupos, baseava-se num ponto bem concreto: urbanizá-las não seria sinônimo de abrir ruas para a passagem de camburões e caveirões, mas de ambulâncias, entregadores de serviços, vans e ônibus escolares, e, também, veículos de patrulha comunitária, como se tem nos bairros melhores. Endosso ainda que manifesto o meu mais profundo respeito e solidariedade aos policiais e tropas militares envolvidas nestas operações. Estes, sim, são verdadeiros heróis. E é meu desejo que se desincumbam de tal tarefa da melhor maneira possível para eles e para a sociedade. Mas é lastimável que um clamor popular e nacional de décadas – a presença do Estado nos morros cariocas – só seja possível quando se quer fazer alguma coisa para turista ver. E vir.
A luz que banha a Baía da Guanabara é muito intensa. E parece brilhar um pouco mais nestes dias. Parece. Pois é a luz que projeta a sombra. Veremos o que delas, e graças a elas, surgirão.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de dezembro de 2010].

O Capitão de Köpenick, o Capitão de Tatuí e o micropoder

Friedrich Wilhelm Voigt (1849-1922) foi um sapateiro alemão que se tornou uma celebridade mundial não graças à sua profissão, mas por uma grande trapaça que perpetrou na cidade de Köpenick, Prússia, Alemanha, no dia 16 de outubro de 1906.
Voigt era um ladrão e um falsário que passou cerca de 42 anos de sua vida na prisão – entre 1864 e 1891, e, após alguns meses livres, voltou ao cárcere e lá ficou até 1906. Ou seja, esteve preso dos quinze aos cinquenta e sete anos de idade, tempo demais para um simples punguista. É de se imaginar os horrores que passou por lá: um adolescente na entrada, um velho na saída. Finalmente, posto em liberdade, teve uma brilhante ideia, inspirada pela sociedade de seu tempo. Voigt percebeu que a Prússia onde vivia era extremamente disciplinada e obediente, sobretudo às autoridades fardadas. E o que fez ele então? Comprou, em diversas lojas, peças usadas de um uniforme de capitão, vestiu-se com elas, e fingiu ser um oficial do exército. Tornado capitão por sua própria vontade, dirigiu-se a um quartel de Hamburgo, onde vivia, e convocou quatro soldados e um sargento para segui-lo, o que fizeram, acostumados que eram a obedecer a seus superiores sem questionamentos. Depois, arrumou mais outros seis praças, embarcou com o grupo num trem para a cidade de Köpenick, e lá ocuparam a prefeitura local. Voigt deu ordem para que sua tropa vigiasse todas as saídas do prédio, e, à polícia da cidade – que também o obedeceu – de que cuidasse da lei e da ordem e que não permitisse que fosse enviado, da agência de correios dali, nenhum telegrama para a capital, Berlim. Então, deu voz de prisão ao prefeito e ao tesoureiro municipal, supostamente por fraude na arrecadação, e confiscou a soma de 4.002 marcos e 37 pfennigs (centavos de marco). Por fim, ordenou a alguns soldados que levassem as autoridades presas para serem interrogadas em Berlim, e aos outros que mantivessem a guarda do prédio por meia hora, ao fim da qual deveriam regressar a Hamburgo. Por sua vez, Voigt, ou melhor, o Capitão de Köpenick, livrou-se da farda e fugiu.
Descoberto o episódio pelas autoridades e pela imprensa, tudo se converteu num escândalo. Caçaram o homem e o prenderam, mas a opinião pública já estava do seu lado. E até mesmo o monarca alemão, o Kaiser Guilherme II, que o perdoou e o libertou dois anos depois. Para o próprio imperador, tudo não passara de uma divertida aventura. E assim Voigt se transformou numa celebridade mundial, a ponto de vender fotografias suas autografadas, apresentar-se em espetáculos e dar palestras, até mesmo na Canadá, nas quais contava sua pilhéria pregada contra o excesso de obediência às autoridades que permeava o seu país. E chegou a publicar um livro a este respeito. Morreu pobre, por conta da inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e distante de seu lar, se é que teve algum: seus olhos se fecharam, definitivamente, no Grão-Ducado de Luxemburgo. Mas sua fama perduraria. Tornou-se o tema de uma peça teatral em 1931, e de vários filmes. Não é preciso dizer que a imprensa britânica da época – Grã-Bretanha e Alemanha viviam uma espécie de Guerra Fria à época da peripécia de Voigt – exultou com todo o episódio. Ele nada mais era do que um exemplo cabal do que o excesso de obediência, combinado ao militarismo, poderia causar. Uma situação que, em termos mais recentes, poderíamos chamar de o efeito de um micropoder (termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault) numa sociedade reverente e muda frente ao poder real: o mesmo fenômeno que faz com que um guarda de trânsito se comporte como um general de brigada frente a um cidadão que, digamos, estacionou seu carro na faixa amarela da calçada.
Mas deixemos a Prússia e voltemos às nossas terras. Mais especificamente a Tatuí, SP, onde o comandante do Corpo de Bombeiros local, Capitão José Natalino de Camargo, mandou retirar todos os crucifixos e imagens de santos católicos das unidades sob seu comando, visto que para ele imagens e crucifixos fazem “apologia” da religião católica e contribuem para a “manutenção da falsa crença de que aquela religião seria a única detentora da benesse estatal [sic]”. E, para tal, invocou ainda a Constituição Federal que, de fato, dispõe que Estado brasileiro é laico, mas, segundo seu entendimento, a exibição dos símbolos religiosos seria, portanto, ilegal e inconstitucional. E a comunicação foi repassada às unidades e postos dos bombeiros sob o comando do Grupamento de Tatuí, com ordem para cumprimento imediato.
Frise-se que a Câmara Municipal tatuiense, em moção aprovada por unanimidade, considerou que o militar usou termos desrespeitosos ao se referir aos símbolos católicos. “O ato é arbitrário, com expressões equivocadas, desrespeitosas e imprudentes sobre a religião católica, refletindo total falta de sensibilidade” e que a ordem de serviço fere o livre direito de professar a fé, também defendido pela Constituição”, diz a nota oficial daquela casa legislativa, que repudia a ação do Capitão de Köpenick, perdão, do Capitão de Tatuí. Este, ao que parece, é menos um defensor de um Estado laico, na forma da lei, e mais, é de se supor, um aguerrido militante de alguma igreja ou seita daquelas que combatem os crucifixos e imagens que os quinhentos anos de costume católico no país permitiram que fossem aceitos e reverenciados pela população e pela cultura pátria.
Em suma, trata-se de um puro exercício de seu micropoder que, para o Capitão de Köpenick, perdão, de Tatuí (que, acreditamos, está a léguas de distância, do ponto de vista moral, de Friedrich Voigt: pois este, é um tratante divertido; aquele, um militante empedernido, mas, acreditamos, honestíssimo servidor público) – é maior do que o do Executivo, Legislativo e Judiciário juntos, e comparável somente aos dos chefes de Estado que baniram símbolos religiosos de prédios públicos ao longo do mundo. Maior que Sarkozy é o Capitão de Tatuí!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de novembro de 2010].

Cerveja, publicidade e atraso

Considero, em geral, os publicitários pátrios de uma falta de sensibilidade, de gentileza e de cultura atrozes. Esses vendedores de cerveja – porque a grande comenda que gostam de exibir no peito é a de terem feito a campanha de tal ou qual marca de cerveja –, por mais que se digam ligados ao mundo, parecem que, com ele, nada aprendem. Vejamos alguns exemplos, no campo, justamente, das cervejas.
Uma cervejaria holandesa, cujo produto vem numa garrafa verde – sabem muito bem da qual se trata – fez um anúncio divertidíssimo. Nele, um grupo de mulheres, recebido na casa de uma amiga, é acolhido pela anfitriã em seu closet. Dado o espaço do mesmo, perfeito para se acomodarem roupas, sapatos, e tudo o mais, as visitas irrompem em gritos de felicidade, pasmo, êxtase, se não quase histeria, quer por inveja, quer por reconhecimento à amiga que fez por merecer tais dependências, e a qual, é de se supor, emprestaria às outras o que se conservava ali. Mas no meio de seus gritos, são interrompidas por outros, os de seus maridos ou namorados, que ecoam de um outro canto da casa – que, em sua natureza e diapasão, são idênticos aos primeiros – pelo fato do anfitrião mostrar uma câmara frigorífica, do mesmo tamanho do closet de sua senhora, mas abarrotado de garrafas da dita cerveja. Uma peça publicitária concisa, sutil, que prescinde de qualquer palavra e se torna praticamente universal. E justa: homens e mulheres são tratados da mesma maneira.
Já uma outra cervejaria belga põe a cena num vagão-bar de um trem onde um garçom esforça-se por tirar um chope perfeito, mas é impedido graças aos solavancos da composição. Tomando-se de brios, deixa o vagão e volta um pouco depois, conseguindo, finalmente, servir a bebida como deveria. E no fim vemos como ele se livrou do movimento do trem: soltando o vagão. Qual a mensagem? A cerveja é tão boa que deve ser apreciada da maneira correta: ela vale mais do que todo o resto.
E nós, somos brindados com o quê, por aqui? É curioso notar que nenhuma, absolutamente nenhuma, grande cervejaria nacional faz propaganda de seus produtos enaltecendo o sabor dos mesmos. Ou a qualidade. A ênfase recai sobre o fato da cerveja estar gelada, mas o gelo, convenhamos, não vem de fábrica. E estupidamente gelada, bebe-se, de fato, qualquer uma. No máximo fala-se que uma “desce redondo”, o que não quer dizer que é boa, só, talvez, mais bebível do que as da concorrência. Outra alega a sua tradição, feita desde fins do século XIX. Mas quem se lembra do gosto da mesma antes de ser comprada pela atual proprietária, há de concordar que, da origem, só conservou o nome. E de uma outra ainda, confesso que não compreendi a verdadeira intenção dos anúncios: querem vender cerveja ou uma loura norte-americana?
Mas a campeã de mau-gosto é a dos guerreiros. Aquela que colou, qual sanguessuga, à pífia seleção patrícia de futebol do último mundial: os tais guerreiros, que se mostraram muito mais cervejeiros e cascateiros do que tudo mais. Agora veio com uma peça em que um bando de homens sem camisa e pintados como torcedores europeus trazem letras no corpo para se transformarem numa espécie de cartaz humano. Da televisão, suas noivas, mulheres ou o que forem, interpretam a palavra como “amar”, como se a mesma fosse dita simplesmente assim, como se no modo infinitivo, e solto esse verbo significasse alguma coisa. Porém, logo depois, chega o resto do bando de homens e forma o nome da cervejaria – o que é uma tremenda bobagem, convenhamos: cores do time ou mesmo o nome dele, até que vai, mas torcedor fazendo propaganda de cerveja? Só se for paga. E o anúncio conclui com a vingança das moças frente à baldada declaração de amor: beberão toda a cerveja deles. Que pobreza de concepção! Que machismo chulo e ultrapassado! Que diferença do exemplo da cervejaria holandesa!
Com publicitários destes podemos entender o estado de mendicância das idéias neste país. E por que bebemos cervejas tão ruins.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de novembro de 2010].

O Fim da baixaria e o triunfo do novo

Eis que finalmente terminou uma das mais sórdidas campanhas políticas da história do Brasil. E concluiu-se da melhor maneira possível: com a vitória da candidata que foi vítima de calúnias, mentiras, boatos maliciosos, além de virulentos e torpemente fantasiosos ataques pela imprensa e pela internet.
Os neo-reacionários não pouparam seus esforços no bombardeio à candidata do governo. Gente que se orgulhava do seu livre-pensamento, correu para agarrar santinhos, beijar imagens sacras e mãos de bispos, levando-os para o seu lado, de cambulhada. Antes orgulhosamente ateus em seus salões sofisticados – ou nem tanto – regozijaram-se quando até o Papa pareceu dizer algo contra a, enfim, vencedora do pleito. Até o Papa, considerado excessivamente conservador por uma imensa parte de seu rebanho, passou a ser um modelo de opinião a ser seguido pelos auto-intitulados bem-pensantes, os mesmos que, publicamente pouco antes, consideravam-no uma fera da ortodoxia. Ou simplesmente o ignoravam, envolvendo-o nos fumos de um marxismo do qual comungaram no passado, segundo o qual, aliás, o sumo-pontífice só tem alguma coisa a dizer aos seus prosélitos, não à imensa massa das gentes. Afinal, “quantas divisões militares tem o Papa?”.
Se o novo governo que assumirá em 1º de janeiro de 2011 será bom, só o tempo dirá. Os indícios de que poderá ser, são muitos e auspiciosos. Pôs-se, de fato, um quadro técnico na Presidência, em lugar de um político que posava de técnico, seu adversário, e em sucessão a quem não era nada técnico, só político. O que já é um grande avanço. Além disso, não teremos a quebra definitiva da cadeia de comando, nem a suspensão dos programas de governo que têm dado tão certo para milhões de pessoas neste país. Ficam faltando só alguns ajustes e abre-se espaço para mais inovações. E, cá entre nós, por quantas inovações esperamos! Com uma, pelo menos, já contamos: uma mulher governando 190 milhões de habitantes de um país que é o quinto em tamanho no Mundo e cuja economia encontra-se entre as 20 maiores, é algo francamente inédito. E interessantíssimo de se observar.
Ficam aqui, portanto, meus sinceros votos pelo sucesso da Presidente eleita, desejando-lhe que melhore ainda mais um país que, finalmente, parece ter tomado um rumo certo. Além de minha ampla gratidão por ter tirado do cenário político nacional, por pelo menos quatro anos, alguém de tão triste carantonha, que tinha urucubaca, ainda que posasse de santarrão, além de mau-humor e falta de espírito esportivo. Além de muito frágil, física e psicologicamente, como se viu pelos danos causados por uma bolota de papel lançada em sua calva. Não, o lugar de um homem destes não é o Palácio da Alvorada, nem mesmo o dos Bandeirantes: é, sim, uma bolha de plástico asséptica numa clínica de saúde ou uma estufa climatizada. Ufa! Não ter que pensar nesta orquídea ou mata-pau da política brasileira pelos próximos quatro anos, já é um presente e tanto!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de novembro de 2010].

Halloween 2010: entre a bruxa e o vampiro, quem ganha?

Graças a uma ironia do calendário, a votação do segundo turno para a Presidência – e para alguns governadores, em vários estados (infelizmente, não no nosso) – coincidirá com a festa neopagã do Halloween, ou Dia das Bruxas.
Já manifestei publicamente, inclusive neste espaço, minha implicância com a dita festa, ao que parece introduzida no Brasil pelas escolas de inglês, com supostos fins didáticos, e que, na verdade, se converteu – se não era esta intenção desde o início – num daqueles claros exemplos de colonização cultural, por meio do qual a classe-média brasileira finge que é norte-americana. Louve-se, portanto, o esforço de alguns patriotas que querem transformar a data em Dia do Saci. Uma iniciativa divertida e curiosa, mas com pouco apelo mercadológico, visto que o Saci é fumante, não usa roupas e tem uma perna só: ou seja, não pode ser garoto propaganda de roupas, nem de sapatos, nem de tabaco, ou cachimbo, proibida por lei.
De minha parte, sou muito mais favorável – exotismo por exotismo, globalização por globalização – a que importemos algo como o Dia dos Mortos mexicano, mais carnavalizado, menos sombrio, colorido, alegre, que ri da Morte, convertendo seus símbolos – a caveira e o esqueleto – em doces de açúcar, caricaturas das classes sociais e profissões, e numa festa não para meninos e meninas, mas para toda a gente. Não digo o mesmo para o Holi, o festival das cores indianos, realizado entre fevereiro e março de cada ano, porque coincide com o nosso Carnaval. Se é que não é o próprio Carnaval deles. Tem, aliás, muitas semelhanças com o antigo entrudo português e é de se perguntar se este não deve o seu tanto àquele.
Porque em matéria de cópias de festas, em grande parte alheias à nossa cultura, creio que somos os campeões da imitação sem juízo. E, assim, por que não copiar mais algumas? Já que introduzimos o rodeio de feição norte-americana, por que não outros eventos de igual natureza? Algo como a corrida do Palio, que ocorre em Siena, Itália, muito melhor que estes enduros e rallys bestas que ocorrem em nossas estradas rurais, e que matam um sem número de galinhas, cabras e vacas pelo país afora: no Palio quem quebra o pescoço não é o cavalo, mas a besta que o monta. Ou, por outro lado, a Corrida de Touros à portuguesa, mas sem os cavaleiros e bandarilheiros, só com os forcados tentando imobilizar o touro? Tal espetáculo, mais que lusitano, beira as proezas minóicas, as famosas competições dos antigos cretenses sobre touros: mais que venerando, seria um clássico espetáculo. E me incomoda verificar, também, já que raramente copiamos algo bom, e na maioria das vezes impedimos seu igual de aqui florescer, porque temos tão poucas comemorações nacionais relacionadas ao Candomblé. Com exceção da Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, forte em cidades litorâneas, mas inexistentes em todo o resto, assim como umas tantas celebrações que se veem na Bahia, e restritas ali, nada mais se verifica. É chegada a hora dos adeptos das religiões afrodescentes, dos espíritas, maometanos, budistas e quem mais se sentir negligenciado, reivindicar suas datas santas, com peso de feriado nacional. Ou este, afinal de contas, não é um país de todos?! E até àquele Deus desconhecido, reverenciado em Atenas, e que São Paulo disse se tratar do próprio Javé: pois se o Deus Desconhecido é igual a Javé, este também é igual àquele. E celebremos o Deus desconhecido!
Retornando às plagas sublunares, às mundanidades, lembremos que o nosso Halloween de 2010 será assinalado pela eleição presidencial em segundo turno. De um lado temos uma candidata que alguns consideram uma bruxa. De outro, um sujeito cujo apelido, de longa data, é vampiro. Um velho ditado espanhol sempre asseverou que ainda que não acreditemos nas bruxas, elas existem, mesmo assim. Já os vampiros, também não pertencem ao campo meramente da ficção: lembremos da Máfia dos vampiros, ou dos sanguessugas, que cometeu barbaridades contra a Saúde no Brasil, através do Ministério responsável por aquela pasta, entre os anos de 1998-2002 – justamente o período de gestão de um certo candidato: dizem por aí que o apelido não se refere apenas à sua encantadora figura pessoal.
Pois bem, que os eleitores avaliem se preferem uma bruxa ou um vampiro, como se tem falado por todos os cantos. Somente gostaria de lembrar que as bruxas são capazes de bons feitiços e, não por acaso, o maior escritor brasileiro, Machado de Assis, foi apelidado de “Bruxo do Cosme Velho”, por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, graças ao poder encantatório de sua pena. Já os vampiros – não os da versão água-com-açúcar de certos pífios romances infanto-juvenis, mas os canônicos – são notórios por sua teimosia, arrogância, sede de vingança e de perseguição: nada esquecem, no interior de seus sepulcros, como, também, nada aprendem, repetindo, até a exaustão, seus erros, seus despotismos, presos à sua empáfia e revanchismo, e cegos à luz da razão. Então: quem vocês acham que deva ganhar?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de outubro de 2010].

A Bravura do Chirico

Lula perdeu dedo, Dilma venceu câncer,
Serra leva uma bolinha de papel e
pede tomografia
... http://twitter.com/@maudiz

O candidato José Serra, o Zé Chirico, nosso defuncto governador, é uma personagem surpreendente.
Primeiro, ele deixou que sua filha quebrasse o sigilo fiscal de milhões de brasileiros – expondo os dados dos mesmos – e depois reclamou quando fizeram o mesmo com a dita cuja – sendo que as informações sobre ela não foram publicadas.
Mais tarde, sua ignorância permitiu uma série de e-mails, correntes e panfletos atacando sua opositora por ser ela defensora da união civil entre pessoas do mesmo gênero. E posou em Aparecida, comungando – será que se confessou? Duvide-o-dó... – rodeado de padres e devotos, com uma cara que nunca fez mais jus à expressão “rã-de-água-benta”. Com todos aqueles gestos, ao que tudo indicava, refutava a citada união, para o gozo nada misterioso do clero. Porém, pouco depois, saiu abraçando e beijando a causa, como se nada houvesse. Disse, no que está certo, que a questão é de natureza jurídica, e não religiosa: casamento, como todos sabemos, é outra coisa. Mas por que não disse em meio à padraria, às beatas e às carolas? Aliás, desde quando ele frequenta tal meio, e de maneira tão assídua? Como bem disse o colunista José Simão, da Folha de São Paulo, “Ele tá parecendo o Salazar. Aquele ditador português carola que vivia cercado de beatas!” E que era tão preparado quanto ele. Só que levou Portugal a uma viagem “de volta para o passado” que durou 36 anos, rodeado por assessores tão preparados quanto ele: dá o que pensar. Aliás, a beatice dele dá no que pensar. Acostumado a pular de poleiro em poleiro, rezemos para que o Papa não morra tão cedo: pois o eterno candidato pode se achar no direito de pleitear a vaga...
Continuando sua trôpega trilha de anedotas sem graça, Zé Chirico negou que conhecesse o tal Paulo Preto. Depois, viu-se que ele não somente conhecia “a Erenice do PSDB paulista”, como à sua filha. E tergiversou – expressão querida por ele – como sempre: “E Paulo Preto é um apelido que se dá preconceituoso e racista” (sic). Ao mesmo tempo, questionou o Portal Terra por notícias desabonadoras à sua pessoa, e alegou que a imprensa nacional segue uma pauta petista e contrária a ele. Pauta petista? Onde, cara-pálida? Ou melhor, cara-lívida? Pois é público e notório que todos os grandes jornais e grandes revistas do país – salvo Carta Capital e Istoé – adotaram massiçamente sua defesa. Mas, ainda assim, ele criticou a imprensa. Curioso é que a mesma, nesta ocasião, não manifestou seu temor de que tais palavras do Chirico fossem uma ameaça à liberdade de Imprensa e à democracia. Muito curioso...
Mas a piada da vez foi o suposto atentado sofrido por ele, e sua reação. Falou-se, a princípio, que o bólido lançado contra ele era “bobina de fita crepe” (Rede Globo), “bobina de rolo de papelão” (Agência Estado) e até “bandeira de petista” (segundo a assessoria do PSDB). Todavia, o que se verificou – vejam em http://br.eleicoes.yahoo.net/blog/post/221/serra-piada-no-twitter – foi que o projétil não passou de uma bolinha de papel, da qual o alvo – atingido em plena calva acaciana (no conteúdo: quanto à formosura, Dona Felicidade, d'O Primo Basílio, discordaria) – sequer se deu conta, como mostram as imagens. E qual foi sua reação, posterior? Procurou um hospital para fazer um exame de ressonância magnética, onde obteve a recomendação de um repouso de 24 horas! Ressonância magnética e repouso de 24 horas por um choque de uma bolinha de papel?! Isto é motivo para tal estardalhaço? O finado Mário Covas, já doente, recebeu uma pedrada na cabeça e se portou com galhardia. A atitude do Chirico chega a ser uma afronta a todos aqueles que precisam, por razões reais, de tal exame!
Agora, a propaganda serrista na televisão tem dito a respeito da candidata Dilma que “ela não vai dar conta”. E ele, vai? Se uma bobagem como uma bolinha de papel lançada em sua vasta calva o leva a tais excessos de preservação de sua pessoa, a ponto de criar tanta celeuma, como se comportará diante de uma verdadeira crise? Ou capitulará frente ao mais tênue episódio? Diante de um ataque de perdigotos, convocará a Vigilância Epidemiológica? Ou o SIVAM e o Comando-geral de Operações Aéreas? Irá considerar as gotas de saliva de um interlocutor como um “deliberado ataque com armas bacteriológicas” contra a sua augusta pessoa? Convenhamos que, até hoje, o aspecto físico do candidato sempre sugeriu que ele não seria capaz de enfrentar uma brisa sequer. Mas nem uma bolota de papel?
Os fatos parecem indicar que lhe falta bravura, e abunda-lhe braveza. E fica a pergunta: será que quem se cobre, voluntariamente, com o manto do escárnio, pode envergar a faixa presidencial?
Que papelão, Zé Chirico...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de outubro de 2010].

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Heróis e heróis

O humorismo, espontâneo, em nosso país não poupa nada. Digo espontâneo, porque o profissional anda cada vez mais chapa-branca, quando não infantilóide, reciclando pretensos sucessos de vinte anos atrás: Marcelo Tas, do CQC, por exemplo, não faz outra coisa que não repetir o seu personagem, Ernesto Varela, dos anos 1980. E, depois, datado seria o Chico Anysio... Mas, voltando ao tema inicial, o fato é que nem o episódio ocorrido recentemente no Chile escapou das piadas. Uma das boas que ouvi afirmava que tudo correu bem entre os 33 homens debaixo da terra porque eles eram mineiros: se fossem cariocas, teriam se dividido em facções pelo controle dos cigarros. Outra garantia que todos sobreviveram porque não eram gaúchos: se fossem, pelo menos um teria virado churrasco. Piada, aliás, que valeria para argentinos, também. Mas um comentário geral que ouvi foi que tudo até que pareceu bem lucrativo para eles, afinal, tornaram-se heróis nacionais, ganharam ingressos para disputadíssimos jogos europeus, cruzeiros para as ilhas gregas e muito, muito dinheiro. Houve gente que até disse que gostaria de ter passado o mesmo que eles passaram, só pelo prêmio, chamando o episódio de “um Big Brother com uma câmera só”.
E que circo foi aquele armado pela imprensa! Muitas vezes eu acho que, diante de tais espetáculos, sobretudo porque são involuntários, seus participantes deveriam ser regiamente pagos. Desastres como este, por exemplo. Aliás, todos eles. Pois vejamos bem alguns pontos. As únicas pessoas que deveriam realmente assistir, dia e noite, à cobertura do resgate, seriam os familiares, amigos, patrões e colegas daqueles mineiros. Os demais, vidrados nas telas de televisão, nada mais procuram nelas que, em tais casos, uma espécie de divertimento macabro (muitas vezes torcendo para que alguém morresse), ou voyerismo da desgraça alheia. Estes, de um lado. De outro, temos as emissoras de TV, rádio, jornais, etc., que percebem estes gostos mórbidos de sua clientela e apressam-se em satisfazê-lo da maneira mais ininterrupta possível – salvo para os comerciais, evidentemente. Fico imaginando a fortuna que deve render àquelas empresas... E aos atores do drama, nada. Ou quase nada...
Outra coisa que dá o que pensar é o tratamento de heróis dados às vítimas daquele infortúnio. Heróis não seria um pouco de exagero? Está certo, padeceram horrores ali, longe de suas famílias, sem conforto algum, etc. Por outro lado, o que poderíamos esperar deles? Que matassem uns aos outros? Que se alimentassem dos mais fracos quando a comida estivesse acabando? Que regredissem a uma condição inferior à selvageria? Que se tornassem algo abaixo do humano? É por que não sucumbiram a descalabros que se tornaram heróis? Convenhamos, é esperar muito pouco do gênero humano e de profissionais cujo interior de uma mina é o seu dia a dia ou sua noite sem fim. Acredito sinceramente que o termo correto seria vítimas, ao qual se poderia somar a expressão que se comportaram bravamente. Pois heroísmo, de fato, vi na equipe de socorro que desceu por aquele tubo numa engenhoca que ninguém sabia se daria certo. E voluntariamente, para salvar seu próximo. Estes sim, em minha opinião, foram os verdadeiros heróis.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de outubro de 2010].

Um pesadelo sem fim

Na semana passada, manifestei aqui minha extrema frustração e tristeza com o debate dos candidatos ao governo federal (e, no calor das emoções, até grafei um “observrador”, em lugar de “observador"), quer em relação aos participantes, quer à organização do mesmo. E concluí, numa tentativa honrada, exortando os leitores a evitarem votar nos “tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos”, visto que a “democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários”.
Porém muito mais triste foi o resultado das urnas! A corriola que deveria ser evitada foi consagrada nas urnas, a começar pelo inclassificável deputado federal mais votado no país. Sua eleição, sem dúvida, deporá contra o eleitorado paulista durante muitos anos. Por muito tempo não se poderá falar mal, como era costume, nestas terras, dos outrora famigerados políticos nordestinos, eleitos por uma malta de ignorantes. Pois em matéria de ignorância e irresponsabilidade política, São Paulo marcou um tento sem par, digno de entrar no rol das infâmias públicas nacionais. E que não se argumente que o voto no circense candidato foi uma mera reação de protesto: uma coisa é preencher a cédula eleitoral do rinoceronte Cacareco (100 mil votos para vereador na eleição paulistana de 1959), outra, muito diferente, é contabilizar votos, válidos, numa urna eletrônica. Em suma, observou-se a um desastre. E o pior é que ele foi anunciado. Mesmo assim, 1.353.820 abestados paulistas elegeram como seu representante uma figura, para dizer o mínimo, incapaz: pois quando um palhaço, que vive do riso, não se mostra sequer hábil o bastante para provocá-lo (palhaço, aliás, valeria como um título de pós-graduação frente às parcas atividades e míseros recursos cômicos que o citado senhor sempre apresentou), o que se pode dizer quanto a qualquer outra atuação pública? “Como palhaço, ele é um ótimo político”? Ou “como político, ele é um perfeito palhaço”? Duvido muito quanto à primeira proposta. Quanto à segunda, é bem possível que seja válida. Mas por que elegê-lo, em detrimento de outros vários, que cumpriam, à risca, igual papel?
Porém, o mais cruel resultado das urnas foi a eleição, em primeiro turno, do picolé de chuchu, do Senhor Pedágio, também conhecido como Mestre dos Presídios. Ela comprova não só a falta de organização política dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, como, ao mesmo tempo, o supremo descaso do eleitorado paulista frente a assuntos cruciais como a Educação, a Saúde, a Previdência Social em âmbito paulista e a Segurança Pública. Mais, do mesmo, mais uma vez, será sempre menos, e menos do mesmo. Todavia nossos bravos conterrâneos devem estar satisfeitos com o resultado. Quem sabe, agora, todas as cidades de nosso Estado poderão contar com presídios, pedágios, postos de saúde e escolas sucateadas. Poderemos ver grassar, em todas as nossas plagas, o ensino técnico – este prêmio de consolação que os governos dão aos filhos dos pobres que não ingressam nas universidades públicas. Pois, afinal, por que pretender entrar em universidades públicas, visto que elas são mais um ponto fraco das políticas educacionais da emplumada administração que governa nosso Estado faz duas décadas? Não! Que os jovens se lancem às privadas! Isto é, aqueles que sobreviverem ao analfabetismo funcional, endêmico, que nos assola desde os anos 1990.
Outro lastimável aspecto desta campanha eleitoral, que aqui ventilamos quando nos referimos à censura (?), melhor dizendo, à omissão da grande imprensa quanto a fatos relevantes ou críticas aos candidatos, plasma-se, claramente na atitude de um grande diário paulista quando demitiu uma de suas colunistas por estar não seguir a cartilha ideológica de seus patrões. E, depois, é o Presidente da República quem ameaça a liberdade de Imprensa? É ele, e tão somente ele, quem conta com órgãos jornalísticos intrinsecamente ligados à sua pessoa?
Quanto ao cachorro morto, confesso que o subestimei. Mas o que poderia fazer? Nada entendo da sobrevida dos vampiros, e de seus poderes, macabros, de regeneração... Cumpre agora, ao eleitorado nacional, exorcizá-lo de uma vez. Cravar uma estaca (ou poste) em seu peito. Porque o eleitorado paulista, longe de execrá-lo, só o alimentou com mais e mais sangue, de inocentes e ignorantes. Ou abestados...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de outubro de 2010].

Últimas palavras (não no sentido de definitivas, pois não sou pretensioso) sobre as eleições

Confesso que um dos episódios mais frustrantes a que assisti em toda minha vida, não só como cidadão, mas como observrador da política instaurada em nosso país, foi o último debate dos candidatos à Presidência exibido pela Rede Globo. Sobretudo em razão do apresentador e de um ou outro participante terem feitos comentários ao caráter democrático da iniciativa. Democrático uma ova! Iniciar um programas às dez e tanta da noite e encerrá-lo mais de meia-noite passada, não tem nada de democrático. O povo, que acorda cedo para o trabalho, jamais teria oportunidade de assisti-lo a contento. Democrático seria o debate se invadisse o sacrossanto espaço da telenovela das nove horas, da mesma maneira como um pífio jogo entre São Paulo e Grêmio o fez na véspera. Pois aos milhões de eleitores do país interessa muito mais ouvir as idéias dos postulantes ao cargo máximo de nossa República, do que o desempenho futebolístico de uma equipe do Sudeste e de outra do Sul.
Igualmente frustrante foi observar, no nefando debate, um venerando e honrado homem público paulista, da melhor grei, bater-se não por causas perdidas, mas, sim, por questões equivocadas, procurando abater seus aliados de outrora, e preservando de seus ataques seus inimigos de sempre.
Tristíssimo foi também observar que a nova oposição, dogmática, pouco tem a apresentar que não uma verdejante utopia mal sustentada pelas nuvens de sonho que a embalam em seus devaneios, justos, mas ainda assim devaneios.
E foi também de se lamentar o comportamento da candidata do governo. Suas palavras não inspiravam confiança, nem no tom, nem na dicção, nem nas propostas. Até o cachorro morto que é seu principal concorrente pareceu sobressair-se com uma ligeira vantagem.
Faltou à candidata oficial do poder ora em exercício ter explicitado certas pujantes questões não mencionadas pela grande imprensa, esta mesma que afirma que seu padrinho quer cassar-lhes os direitos de pública manifestação. Se o “líder” da candidata falou de um “partido da grande imprensa”, não estava totalmente equivocado. Vejam-se as análises de campanha da grossa media, os malabarismos que esta faz com os números das pesquisas, e sua tentativa de inocentar, ou tomar como mártir, uma jovem senhora cujo sigilo bancário teria sido violado, ao passo que a mesma, quando proprietária de uma empresa de inquietantes relações com o poder público, escancarou os dados financeiros de mais de quarenta milhões de contribuintes! Por que o silêncio, da grande imprensa ante a tal fato, divulgado pela revista Carta Capital? Acaso ninguém a lê? Duvido. Os homens de grosso cabedal, os ricos, de fato, do país, a lêem. E saltaram da campanha do azarão tristonho. Ah! Mas ele, como já dissemos, é só um defuncto governador. Ainda que bem relacionado, diga-se, Pois conseguiu sustar por um dia, ao menos, junto a um seu contato no STF, e por telefone, o pleno acesso ao voto: o quase derrotado candidato queria impedir que os eleitores votassem com apenas com a universal célula de identidade, insistindo que todos comparecessem com ela e o título de eleitor, aquele documento que, junto com o certificado de alistamento, sempre perdemos em mudança de uma casa para outra, ou do armário para a cômoda.
O que tinha a dizer quanto aos candidatos em nível federal, já disse. No âmbito estadual, vale o mesmo raciocínio. Vejam quem está , ou procurando chegar , e quem está aqui, ou tentando chegar aqui, ou não querendo largar o osso que aqui rói. Aliás, é patético verificar que um partido, ajudado por umas tantas ou quantas instituições da dita sociedade civil, prega mudanças e alternância do poder e, ao mesmo tempo, não quer largar a carcaça, da qual sugou o tutano e mais além, perpetuando-se como se fossem eternos donos desta presa.
Opa! Agora me dei conta de que devo parar por aqui! Estas linhas sairão na véspera do pleito! E algum zelota, fariseu, sicário ou militante partidário poderia entender estas linhas como propaganda política fora de hora, além do prazo determinado por lei. Então, me calo. Ou melhor, irei sugerir apenas alguns pontos que não hão de ferir nenhum saduceu ou fiscal partidário. Nem, tampouco, aos soberanos, augustos, infalíveis e magníficos magistrados que nos regem.
Se minhas palavras, que os leitores estão acostumados a ler neste espaço, têm algum valor, que as valham nesta eleição. Portanto, sugiro que não votemos em palhaços, esportistas aposentados e sem futuro, tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos. A democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários. Política é para a maioria, não para a minoria: a qual deve ser respeitada, sem dúvida. E quem nega tal princípio, não é somente um safado eleitoreiro: é alguém que procurará, de fato, atentar contra a liberdade. De todos. E de cada um.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de outubro de 2010].

Repúdio aos homens de um livro só

O Antigo Testamento refere-se a alguns causos curiosíssimos. Não falo dos sete dias da Criação, de Adão ser feito de barro e Eva de sua costela, porque, afinal, um Deus supremo é capaz de tudo. A curiosidade começa a partir de Gn 4:14, quando lemos o que Caim diz ao Criador temer que o primeiro que o encontre acabe por matá-lo. Como assim? Havia mais gente no mundo, que não os filhos do casal primordial? E foram criadas pelo mesmo Deus? Ou por outro? Interessantíssimo...E a confusão só aumenta quando vemos que, logo em seguida, nos versículos 17-19, “Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Enoque. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Enoque. /Enoque gerou Irade, Irade gerou Maviael; Maviael gerou Matusael, Matusael gerou Lameque./ Lameque tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela”. E tudo se agrava ainda mais quando sabemos, no mesmo capítulo, versículo 26, da descendência do caçula da família adâmica: “Sete teve também um filho, que chamou Enos”. Filho, não filha, logo a mulher de Caim não poderia sequer ser sua sobrinha. E o que dizer da mulher de Sete? E com quem casaram-se Enoque, Irade, Maviael e Matusael? E filhas de quem eram Ada e Sela? Mistério... Quem baseia-se no princípio da Sola Scriptura deve se sentir num mato sem cachorro. Daí a importância da tradição, andando lado a lado com a Bíblia, ao menos no que diz respeito a dirimir certas dúvidas, se não de natureza místicas, ao menos, vá lá, históricas. Pois, segundo Genebrardo (Chronographiae libri quatuor...,1580, l.1), Caim teria uma irmã gêmea, Calmaná, e Abel, outra, de nome Delbora, de acordo com a tradição rabínica, conforme Frei Bernardo de Brito em sua Monarchia Lusitana, 1597, l.1. Mas boa parte das perguntas feitas acima ainda não foram esclarecidas.
A coleção de causos é incomparável. Como aquela infinidade de personagens gerando filhos aos noventa nos de idade e morrendo com mais de trezentos. Ou a arca prodigiosa que abrigou sabe-se lá quantos milhões de indivíduos em 64.745 m3, ou aproximadamente 26 piscinas olímpicas. E lá estavam, protegidos do dilúvio, e alimentados por oito pessoas, incontáveis indivíduos, macho e fêmea de cada espécie, do tamanduá ao ornitorrinco. Como estes últimos desceram do monte Ararat, na atual Turquia, e vieram parar, um na América do Sul, outro na Austrália, infelizmente a Bíblia não revela. Nem o que ocorreu com os peixes de água salgada ou de água doce, já que todas, em princípio, se misturaram.
A série não tem fim. Basta pensarmos em Sansão dizimando um exército inteiro, Elias levado aos céus num carro de fogo, Josué parando o sol nas alturas, e na burra falante de Balaão.
Todavia o que parecia ser um tremendo causo dos bons, parece que de fato foi verdade. Este seria o caso da travessia dos hebreus através do Mar Vermelho, liderados por Moisés. A passagem é a seguinte: “Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se/ e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda” (Ex 14: 21-22).Pois segundo dois pesquisadores norte-americanos, de acordo com simulações por computador, um vento cuja velocidade fosse próxima a 100 km/h, soprando sobre a desembocadura do rio Nilo durante 12 horas, seria capaz de fazer regredir as águas e abrir uma passagem com alguns quilômetros de largura. Quer dizer, não teria sido o Mar Vermelho a ser aberto, mas sim o chamado “mar de Caniços”, uma área pantanosa onde o Nilo encontra o mar Mediterrâneo. Um evento que, documentadamente, teria ocorrido também em 1882, na região, segundo o depoimento de oficiais britânicos ali sediados. Mas não consta que, nesta época mais recente, nenhum “povo escolhido” estivesse fugindo do cativeiro egípcio.
Pois bem, ainda que causas climáticas, que podem ter se repetido várias vezes, mesmo que sem registro, no exato local, possam ter sido as que permitiram a travessia de Moisés, tais, ao contrário do que muitos possam pensar, em nada depõem quanto à veracidade do relato tradicional. Santo Agostinho muito bem esclareceu, em várias ocasiões, que Deus pode ter se utilizado de meios naturais diversos para o cumprimento de Sua vontade. Soa meio como um Deus ex machina mas é melhor que uma ação divina ex nihilo: um milagre hollywoodiano em cinemascope, como a maioria das pessoas parecem enxergar a maneira como o Criador costumaria agir.
Mas resta um problema sério quanto ao episódio – diga-se, antes de tudo o que se segue, que os pesquisadores não alegaram, em momento algum, terem provado a veracidade do relato tal como consta do Êxodo. E tal se daria, segundo diversos historiadores e arqueólogos, por diversos fatores. O primeiro decorre do fato de que não há uma menção sequer à fuga dos hebreus nos registros egípcios. Tudo bem, pode-se dizer que os dominadores não quiseram deixar rastros de tal acachapante derrota. Mas, em segundo lugar, jamais se encontrou qualquer artefato relacionado à errância de quarenta anos do povo de Moisés pelo Deserto – um tempo, aliás, que deve ter se baseado na mesma cronologia insólita que fazia as pessoas morrerem com trezentos anos de idade, pois quatro décadas, perdidos, é demais, só se andassem em círculo, o que logo perceberiam: e se assim não o fosse, ou teriam chegado à Europa ou à Índia, senão à China. E, em terceiro lugar, tanto a língua, quanto os objetos pertencentes aos povos que formariam mais tarde o reino de Israel, são quase idênticos àqueles dos povos que já habitavam a antiga terra de Canaã. Ou seja, não haveria êxodo algum: se tanto, uma migração.
No fundo, quer a travessia das águas tenha se dado em razão de uma causa natural, ou pela vontade de Deus, ou por esta agindo sobre aquela, ou ainda que todas elas jamais tenham ocorrido, isto é o que menos importa, ou menos deveria importar, para quem toma as Escrituras como um guia espiritual. E nem digo moral, porque a conduta de alguns patriarcas e profetas do Antigo Testamento é de eriçar os cabelos, de tão cabeludas que foram. Sem falar do comportamento do velho Javé veterotestamentário, cuja cólera faz mais lembrar um impaciente Júpiter, do que a justíssima primeira pessoa da Trindade. Disse que tais questões acima expostas não importam, porque o Antigo Testamento não pode, nem deve, ser tomado como o único e absoluto vade mecum da Cristandade, nem, muito menos, enciclopédia da vida na Terra, da qual retiramos placidamente nossos conceitos quanto às ciências biológicas, quanto à física, à história, economia, tributação, política, etc.
É um livro de um “reino que não é deste mundo”. E tão só. O que, de maneira nenhuma, diminui sua importância e valor, pelo contrário. Pois seu objetivo é completamente outro, e que, no entanto, só é conhecido individualmente, quando o é, e caso, de fato, o possa vir a ser. Mas, reiteramos, ele nunca será o único livro. E é bom desconfiar de quem afirma isto e diz-se pautar apenas por ele. Pois como bem dizia São Tomás de Aquino, odie hommo liber unicum: “repudio o homem de um livro só”. O que certas pessoas fazem a partir do Corão, aliás, é um ótimo exemplo disto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de setembro de 2010].

Coronéis de meia pataca e o novo curralismo eleitoral

O eleitor de bom senso geralmente torce o nariz quando sente o cheiro de um candidato tresandando a curral eleitoral. É por este motivo, de um modo geral, que poucos coronéis são eleitos por um estado como São Paulo, por exemplo. O que não quer dizer que estejamos livres deles.
Alguns analistas políticos e historiadores, entretanto, vêm analisando a reformulação do coronelismo eleitoreiro nos últimos anos e têm chegado a interessantes constatações. A velha figura do senhor de terras, de terno branco e botas, já desapareceu da agenda política. Mas muitos de seus herdeiros – alguns de sangue, outros de ideário político – ainda estão aí, tratando a política na base de favores pessoais: o seu voto por uma “quebrada de galho” minha, parecem dizer. Neste rol entrariam os candidatos médicos – esta proliferação de Doutores Fulanos e Doutores Beltranos que vemos por aí, com direito ao Dr. antes do nome até no santinho e na, verbi gratia, cédula eleitoral: no nome de guerra, que aparece na urna eletrônica. Outros seriam os donos de rádios, que, por um dia terem cobrado das autoridades a pavimentação da rua dos Lírios na Vila Oncinha, ou mais iluminação na avenida dos Cravos, no Jardim Jabuti, até hoje contam com os votos daquelas comunidades. Mas é claro que há os grandalhões da turma, os proprietários de retransmissoras de televisão, que coíbem toda a crítica, sufocam a oposição, e repetem, em escala maior a defesa da Vila Oncinha e do Jabuti, a meia dúzia de municípios ou microrregiões. Um exemplo perfeito que abarca todos estes níveis de coronelismo moderno é o do defunto Antônio Carlos Magalhães (ex-Demo, porque morto: se vivo fosse, continuaria naquela agremiação). Outro que mistura o assistencialismo à política paroquial, e é herdeiro de sangue de uma das mais antigas oligarquias do país, é o deputado Bonifácio de Andrada, de Minas Gerais, do PSDB. Outro ainda, segundo o historiador cearense André Heráclio do Rego (Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº. 60, setembro de 2010), seria o seu conterrâneo, o senador Tasso Jereissati, também do PSDB. Coronelzinho agrário, do tipo dos velhos tempos, seriam poucos hoje em dia, e o mais evidente – que também é médico – é Ronaldo Caiado, outro Demo.
Porém as análises mais modernas consideram um coronel de uma forma mais ampla. De modo que os eternos detentores de cargos eletivos, gente que está no seu quarto ou quinto mandato, no mesmo posto, entraria para a lista dos mandões da política, dos mantenedores de currais. São eles os eternos defensores da microrregião tal, da cidade qual, desta ou daquela categoria de profissionais, empresários, funcionários públicos, militares, etc. Coroneizinhos de fancaria. Porque uma andorinha não faz verão. Que o digam todos os eleitores iludidos que votam nos “defensores” dos aposentados, do funcionalismo civil e militar, e por aí vai, mantendo eternamente certos nomes em trocas de migalhas, quando não em troca de coisa alguma, porque suas situações só deterioraram ao longo do tempo. Ex-delegados da Polícia Civil e ex-oficiais da Polícia Militar são verdadeiros modelos da inoperância frente às suas representações: que o digam os seus “representados”. É verdade que a turma do agro negócio (leia-se: “latifúndio monopolista”) consegue emplacar seus defensores, e estes são muito ativos em agradar seus amos. Mas fazem alguma coisa pelo grosso dos eleitores? Nada!
Aprendi com meu pai – homem honradíssimo, filho de um deputado federal mineiro e constituinte de 1934, e este também um homem de olímpica honradez – que acima dos interesses do curral e da paróquia está o bem publico universal. De modo que não se vota no Dr. Manuel dos Anzóis porque ele trará um quartel para Esperantópolis, em detrimento da Dra. Maria das Couves, que levaria o dito quartel para a vizinha Bonitolândia. Antes, é de se perguntar: necessitam, quaisquer uma delas, do tal quartel? E se, de fato, precisam, não está de bom tamanho que o mesmo venha para a microrregião onde elas se encontram?
Esta história de querer eleger um candidato desta ou daquela região, deste ou daquele segmento, é coisa ultrapassada e atenta contra a amplitude dos direitos de cada cidadão. E é de estarrecer verificar que o curralismo eleitoral parece que só aumenta. Vejam-se os candidatos de torcidas organizadas de times de futebol. O que era para ser uma pura diversão, ou entretenimento, se converteu numa espécie de ideologia, de razão ética, de modo de vida, para além da sociedade como um todo. Deplorável. Ou a proliferação de pastores candidatos, alguns ameaçando com o fogo do Inferno quem neles não votar, outros proclamando que o voto neles seria a própria manifestação do Espírito Santo! Ora, o Estado é laico e plural: não pode, nem deve, ser aparelhado por esta ou aquela religião ou doutrina. Pois tal não passaria de um golpe branco contra a impessoalidade do Estado e contra os direitos dos católicos, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, evangélicos tradicionais, umbandistas, maçons, rosacruzes, e o que mais se quiser – inclusive ateus – que têm todo o direito de se proclamarem enquanto tal e contam com a salvaguarda da lei para tanto: graças a Deus! Ou será que pretendem, no fundo, uma guerra religiosa: não mais as Cruzadas, mas a antecipação do Armagedom?
Aliás, é realmente preocupante quando vemos certas pessoas que pertencem a seitas apocalípticas ou flagrantemente fanáticas – “a Verdade está comigo e com meus irmãos, e que o resto arda no fogo do Inferno” – tentando formar blocos no Legislativo. A sociedade laica e ordeira não precisa de talebãs neopentecostais. A visão do Paraíso alheio não tem que ser, necessariamente, a minha. Nem, muito menos, o mundo tem de ser moldado – este mundo com o qual convivemos dia a dia – pelo filtro estreito de caçadores de danados. Devemos aceitar o direito dos outros dizerem o que bem entendem. Se é que entendem: mas desde que os mesmos não queiram cassar nossa palavra.
Trato deste assunto enquanto cidadão de uma República laica, e também membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), por meio da qual conheço e me relaciono com inúmeras pessoas das mais variadas vocações religiosas – neopentecostais, inclusive, ainda que poucos – que temem, de forma absoluta, a tomada do Estado pelo fanatismo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de setembro de 2010].

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Volta dos mortos-vivos, mais uma vez

Nos anos 1980, foi exibido um filme de terror com o mesmo título desta crônica. Ou, melhor seria dizer: esta crônica que o leitor tem em mãos leva o idêntico título de um filme dos anos 1980. Não o assisti, e me parece que foi uma bobagem. Sua trama tomava como referência uma produção dos anos 1960, A Noite dos mortos-vivos (Night of the living deads, EUA, 1968), de George A. Romero, independente e que foi bastante cultuada pela crítica. Era uma trama envolvendo zumbis, e que foi aclamada à época como uma velada crítica à falta de bom-senso e ao comodismo dos norte-americanos de então, que não pareciam mais pensar por suas próprias cabeças e que seriam contrários a quem assim procedesse. Para quem não lembra o que são zumbis, tratam-se estes de criaturas amaldiçoadas, num estado entre a vida e a morte, pertencentes ao folclore caribenho – especialmente haitiano. No cinema, tornaram-se criaturas em estado de decomposição que se alimentam de carne humana viva, infectando suas vítimas com o mal que sofrem: vagar, sem força de vontade, boçalizados, em busca de comida. A temática dos zumbis nunca fez muito sucesso entre o público brasileiro: veja-se, por exemplo, a pouca acolhida que um filme tratando do mesmo tema – Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) obteve junto ao nosso público. Uma infeliz adaptação do clássico romance inglês Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, Inglaterra, 1813), de Jane Austen (1775-1817), que mescla esta trama original àquelas criaturas imbecis – Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA, 2009) parece ter granjeado alguns leitores. Mas seus efeitos, à primeira vista, parecem irrelevantes.
Mas o título desta crônica refere-se menos a filmes e livros e mais a uma expressão cunhada lá por fins dos anos 1980, meados dos 1990 e de vez em quando resgatada desde então. E que se referia ao ressurgimento de alguns políticos, cujas carreiras pareciam já encerradas por esgotamento e cansaço, nas disputas eleitorais daquelas ocasiões. Quem ficou, por muito tempo, particularmente marcado enquanto um morto-vivo, foi um ora candidato a senador por São Paulo, da coligação governista paulista. Um outro postulante ao mesmo cargo, nas atuais eleições, que se encontra misteriosamente desaparecido nas suas próprias campanhas televisivas, também compartilhou da alcunha. Ressalve-se, entretanto, que são homens bastante idosos e, de alguma maneira, tiveram uma trajetória política de peso. E desse modo, portanto, a volta dos mortos-vivos a que nos referimos, que parece ser a nova e mais forte tônica das presentes eleições, sobretudo em São Paulo, relaciona-se diretamente aos esquecidos da mídia, a uma quase que confraria dos ex-alguma coisa, que procuram um espaço na política.
Nunca vi uma leva tão grande de ex-atletas, ex-apresentadores de televisão, ex-locutores de rádio, ex-cantores, ex-celebridades instantâneas se candidatando ao Senado, à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados quanto agora. Até um costureiro de vestidos de noivas, famoso por ter sido pego roubando um vaso de mármore de um túmulo, que já participou de um programa televiso, investe-se como tribuno do povo, defensor dos humildes, ou nova e desbocada voz no plenário do Congresso. Isto sem falar nos famosos de um passado não tanto remoto, mas igualmente esquecido, que procuram nos empurrar seus filhos, maridos, mulheres, etc., como salvadores da Pátria.
Então as nossas casas legislativas estão a virar asilos dos deserdados da mídia, dos rejeitados pelos holofotes, dos extenuados talentos de um parvo e isolado mérito – por vezes questionável – de um passado pouco notável? E os partidos políticos, um misto de museu de cera, cemitério de navios e agência de empregos para desajustados? A representação política está se tornando um abrigo da obsolescência?
O que é de pasmar é que tais zumbis estejam despertando justamente em São Paulo, um estado que, tradicionalmente, apresentava uma certa lucidez política. Serão indícios de um novo – e horrível tempo – ou a consolidação de um conduta, de uma visão de mundo, que nos últimos anos passou meio despercebida, e que irrompe, para nosso horror, justamente nesses dias de campanha eleitoral? Os pleitos se transformarem num misto de Big Brother e Show de Calouros, ou Recordar é Viver e Vale a pena ver de novo, fazem bem para a democracia? Tenho absoluta certeza que não.

[Crônica originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, em 4 de setembro de 2010].

domingo, 29 de agosto de 2010

Vinhos raros salvados de adegas velhas

Durante uma campanha eleitoral, com a magnitude desta que ocorre, é muito difícil tratar de outro tema que não este: quem pode ganhar, quem pode perder, e seus satélites erráticos gravitando ao redor dos astros, são temas que não nos saem da cabeça.
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:

Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.

Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:

Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.

E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].

Zé Chirico, o argentinito e popular, e sua trupe

O defuncto governador de São Paulo, José Serra Chirico, deu agora, em sua campanha, de anunciar suas origens humildes, um aspecto nada desabonador na vida de qualquer um, pelo contrário, mas que o mesmo parece ter omitido o quanto pôde e quis, e que só agora vem à tona, e a público. Tudo isto porque está interessado em pegar uma carona – deve ser no bagageiro – de Lula: se este tem sua biografia de homem humilde como um fator relevante em seu prestígio, o Chirico resolveu dizer que também é de extração baixa, trabalhador, filho de um vendedor de frutas no Mercado da Cantareira: o Zé, em suma, em mais um lance demagógico.
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].

Violência policial francesa?

Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].

Permissão para rir

Li recentemente, e com bastante assombro, que os programas humorísticos da televisão em breve irão censurar piadas e não mais fazer paródias de candidatos às próximas eleições. Tudo isto por causa da interpretação feita pelas emissoras da resolução 23.191./2009 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].

Citazione

Há décadas, para dizermos pouco, muitos alegam que nenhuma história, enquanto trama, narrativa, é essencialmente original.
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...

P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].