sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Explicando as postagens de janeiro

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Atendendo ao pedido de amigos e leitores, reservei este mês de janeiro para reproduzir, aqui, as minhas crônicas que vêm sido publicadas pelo jornal A Notícia, de Leme, SP. Algumas remontam ao ano de 2004, mas, para minha grata surpresa, mostram-se ainda bastante atuais.
Minha sugestão de leitura é que se inicie pelos textos do topo da coluna, que são os mais antigos e que permitirão uma apreciação melhor, e cronológica, do conjunto.
Espero que gostem.

Quem semeia ventos...

Neste ano, chuvas torrenciais assolaram o semi-árido nordestino. Ao mesmo tempo, o comumente chuvoso Rio Grande do Sul foi afligido por uma inaudita e brutal seca. Não muito depois, o furacão Catarina — isto mesmo, furacão, pois este é o nome do fenômeno ocorrido, apesar de todas as tentativas de negá-lo enquanto tal — devastou inúmeras áreas do Sul do país. Por sua vez, Santos experimentou uma ventania de assustar e, mais recentemente, Saquarema, no Estado do Rio de Janeiro, passou algo semelhante. E agora sentimos um frio meio fora de época.
É inegável que o clima mundial tem mudado radicalmente nos últimos anos. Veja-se o calor indescritível que ocorreu na Europa no ano passado. As brutais nevascas que os norte-americanos enfrentaram no último inverno, a seca pavorosa que se abateu sobre a Austrália. Como também é inegável que o clima em geral sofre mudanças radicais de tanto em quanto tempo. Só não o sabemos mais porque os estudos de climatologia histórica são bastante recentes. Mas muitas mudanças do passado são bastante conhecidas.
Sabemos, por exemplo, das várias glaciações que acometeram a Terra, sendo que a última delas já contava com o Homem vivendo nela. Graças a uma elevação no clima, hordas e mais hordas de povos asiáticos migraram para o Ocidente. Estudos relacionam o Dilúvio bíblico a uma grande elevação do nível do Mar Negro. Sabe-se que o Egito dos faraós não era tão árido quanto hoje, e que boa parte do que atualmente é deserto já foi savana. A Roma imperial teve uma de suas vilas engolida por um lago que encheu demais, depois de chuvas anômalas.
Há relatos semelhantes durante a Idade Média de outros desaparecimentos assim. Várias cidades da Inglaterra, sobretudo na Cornualha, há muito se encontram sob o mar. Por outro lado, antigas pinturas ou gravuras mostram a tão conhecida Torre de Belém, em Lisboa, plantada em pleno Tejo, rodeada por suas águas, e não tão rente às margens como hoje vemos. No século XVII, o Rio Tamisa congelou em plena Londres, fato nunca então visto ou repetido.
Da mesma Inglaterra, diz-se que o século XIX foi inexplicavelmente chuvoso, e esta é em boa parte a imagem que até hoje temos daquele país. Grande parcela das secas que devastaram a Índia no mesmo século, que alteraram drasticamente sua economia, a vida de seu povo, a estrutura fundiária e permitiu a dominação estrangeira, é atualmente interpretada como efeito do El Niño. O mesmo fenômeno, só recentemente nomeado, teria sido responsável pelas agudíssimas secas do Nordeste brasileiro no século retrasado, que minaram a coragem dos homens livres e os lançaram quase à servidão. E a garoa de São Paulo hoje é só uma lembrança.
Em suma, mudanças climáticas são constantes, quer por “descalibragem” no eixo da Terra, quer devido às manchas solares, ou por qualquer causa de origem natural. O problema — enxergado por muitos especialistas, e não é de hoje, aliás o problema maior — é quando as alterações no clima se produzem pela excessiva interferência do Homem na Natureza. Pois é isto que estamos enfrentando.
Alguns especialistas acreditam que a poluição produzida no século XIX, época do florescimento da indústria nos países economicamente mais desenvolvidos — Inglaterra, França, Estados Unidos, Bélgica — e nalguns nichos de desenvolvimento fabril dentro de estruturas em geral mais arcaicas — norte da Itália, Catalunha, algumas cidades russas —, pois bem, alguns estudiosos avaliam que toda a poluição do ar gerada no período supera toda a que foi produzida pela Humanidade até então.
Com o surgimento do consumo de massas, o descalabro foi geral. Depois do automóvel, da popularização do ar-condicionado, das embalagens descartáveis para tudo e mais um pouco, parte do mundo tornou-se uma imensa lixeira: a outra parte pode ser limpa, mas não é menos fétida. E a tentativa de levar o mundo todo ao consumo desenfreado, principal proposta de dez entre dez governantes mundiais, sejam os poderosos dos países ricos, sejam os caciques dos miseráveis, só radicalizaria ainda mais o problema. É sabido que se o planeta inteiro consumisse nos níveis dos norte-americanos, a Terra toda se tornaria estéril em menos de cinqüenta anos.
Pois bem, agora estamos nós, pacatos brasileiros, sofrendo alterações climáticas que imaginávamos só possíveis noutros lugares. A Lei de Talião, que constitui mais da metade do arcabouço moral do brasileiro médio, sempre nos pareceu infalível: os países ricos fazem, os países ricos pagam. Nós agora estamos, também, pagando. O bom-senso não diria, então, que temos nossa parcela de culpa?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Sob o signo de Circe

Uma notícia recente de jornal deu conta de que uma nova geração de atletas “geneticamente modificados” poderá estar competindo nas Olimpíadas de Atenas. Tais atletas teriam acrescentado à sua composição genética outras combinações de DNA e, com isso, melhorado seus desempenhos esportivos. A informação consta de um livro recém-publicado na Inglaterra, "Genetically Modified Athletes" (“Atletas geneticamente modificados”, do Dr. Andy Miah, um cientista britânico, que alega que o “doping genético”, como já está sendo chamada este tipo de trapaça, não se trata mais de pura teoria, mas, sim, de uma realidade viável. Segundo ele, alguns atletas chegaram a fazer contato com cientistas na vanguarda das pesquisas em engenharia genética.
A possibilidade da criação desse golpe contra a ética no esporte, aliás, era tão presente na mente dos envolvidos no meio, que a própria Associação Mundial Anti-Doping (WADA, em inglês) antecipou-se ao desenvolvimento da ciência naquela área e proibiu esse tipo de alteração física, considerando-a, justamente, doping, tanto na forma de substância, quanto de método, desde o ano passado. De maneira que a transferência de genes extras para o corpo de um atleta, genes estes que possam vir a superdesenvolver áreas chaves da fisiologia como músculos, tecidos ou hemácias, passou a ser proibida antes mesmo de ser considerada possível pela ciência.
Por outro lado, o acima citado cientista britânico, que descobriu tais possibilidades de fraude, vê com bons olhos esse tipo de coisa. Acredita que o futuro do esporte passa por esse caminho e que a idéia de um atleta naturalmente perfeito é um contra-senso romântico. De acordo com ele, como os esportistas já se utilizam dos mais variados meios tecnológicos para melhorar seus desempenhos, o emprego desses novos métodos seria uma etapa normal na própria evolução dos esportes, garantindo performances surpreendentes, recordes extraordinários e outras “maravilhas”. Mas não disse uma palavra quanto aos possíveis efeitos colaterais na saúde de quem cometeria tal coisa. Tampouco dos eventuais efeitos na opinião pública.
Dentre os muitos aspectos relacionados ao sucesso de público dos eventos esportivos, creio que um dos principais, senão o principal, é resultado de uma certa identificação possível entre espectador e atleta. Pois o que é o atleta, em muitos casos, se não uma pessoa absolutamente igual a nós todos e que soube desenvolver além de nós certas habilidades físicas específicas? Qualquer pessoa que já apostou uma corrida com um amigo na infância reconhece-se num corredor dos 100 metros rasos. Pode até invejá-lo, achar que aquele teve oportunidades privilegiadas, e que ele, pacato espectador, poderia até estar no lugar do celebrado atleta se as mesmas oportunidades lhes fossem concedidas. E o mesmo se dá, sabidamente, em todos os demais esportes: quem assiste a um jogo de futebol sem se lembrar das peladas da infância ou da semana passada, sobretudo quando vê um gol perdido, e garante, em alto e bom som que, se fosse ele no lugar do craque, o gol seria feito?
Assim que graça poderia ser vista numa competição em que, digamos, e a grosso modo, veríamos um atleta que acrescentasse traços de DNA de cavalo para disputar uma corrida, outro com DNA de peixe lançando-se numa prova de natação e outro ainda com DNA de pulga competindo no salto em altura? Vá lá que estejamos simplificando muito a coisa, mas que graça todos nós, que não nos submetemos a tais procedimentos, poderíamos ver numa exibição em que seres híbridos, fingindo-se humanos, desempenham tarefas que nunca, jamais, sequer em sonhos, poderíamos desempenhar?
Não, isto não seria esporte, não seria algo com que possamos nos identificar nem mesmo tangencialmente. Para mim, parece-se mais com lutas entre feras, brigas de galo ou corridas de cavalo sem o jóquei, se tal é possível. Seria o caso, também, de se mudar a invocação olímpica dos esportes: os novos e grandes jogos quadrienais deveriam passar a homenagear Circe, aquela deusa da Odisséia que transformava os homens em animais.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

O retorno de Zeus

Como objetos esquecidos no fundo de um armário, adormecidos no escuro de um poeirento sótão ou porão, que se vêem retirados por um novo ditame do gosto, ou por saudade ou curiosidade, eis que uma antiga categoria de personagens começa a ensaiar novos passos rumo à luz. E não se trata de telefones de baquelite, mobiliário pé-de-palito, sapatos de saltos plataforma, calças boca-de-sino, presilhas de cabelo ou cartazes e camisetas com o rosto de Che Guevara. Não. Tratamos de personagens, e não de quinquilharias sujeitas a um gosto duvidoso ou à completa ausência deste. São personagens, não de carne e osso, que estes nada duram, mas de pano, papel, tinta, mármore, sonhos, anseios, desejos e terrores, pois tudo isto é o que, ao final, permanece. Falo, pois, dos antigos deuses e heróis da mitologia clássica, que depois de décadas de esquecimento fazem sua reestréia nas atenções do público brasileiro.
Uma rápida pesquisa nas livrarias mostra uma infinidade de títulos. Desde a Teogonia, de Hesíodo, o mais antigo do gênero e em edição bilíngüe, até as mais variadas adaptações para jovens ou adultos preguiçosos. Na última Bienal do Livro, por exemplo, O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro), uma seleção de meados do século XIX, tornou-se um grande sucesso de vendas e continua em tal patamar, desde a edição mais barata à mais cara, ilustrada em cores e de capa dura. Tamanho sucesso, aliado ao (bom) modismo dos 100 melhores contos disto ou daquilo, motivou a publicação, pela mesma casa editorial, dos 13 dos melhores contos da mitologia da literatura universal, em que grandes autores utilizam-se dos antigos temas. Há até uma editora que quase se pode dizer que é especializada no assunto, apropriadamente chamada Odysseus, e que publicou uma bem cuidada versão de alguns dos principais mitos. Sem falar em toda a vasta literatura lançada que tenta analisar os mitos e os deuses dos gregos e romanos.
Não sei se o fato de este ser um ano de Olimpíadas e delas justamente ocorrerem em Atenas contribuiu um pouco pela volta do interesse sobre o assunto. E, pelo menos no caso do Brasil, se toda a divulgação do filme Tróia não influenciou ainda o seu tanto. Mas se este for o caso, se tais forem os últimos motivos, ainda assim sejam louvados! Reintroduzir, pelo menos por estas plagas, um dos principais fundamentos da cultura ocidental no convívio da juventude, geralmente tão preguiçozinha e ignorantezinha, é uma obra e tanto.
Sob o pretexto que os antigos heróis e deuses não existiram, de que eram culto de uma gente morta e acabada, ninguém mais se ocupava do assunto. Vá lá, a religião dos gregos e romanos está morta, mas não suas influências. Qualquer estudo não muito superficial centrado nas representações de Heracles (o Hércules dos romanos, grande herói e semideus, filho de Zeus e de uma mortal) e Dioniso, qualquer estudo, dizia, revelará o quanto dos atributos destes personagens foram utilizados na construção histórica da imagem de Cristo, ao longo dos séculos. Se, lingüisticamente, e a língua é uma maneira das mais fortes de se urdir conceitos e mentalidades, a palavra “Deus” está muito mais próxima de “Zeus” (em grego, numa transliteração Diaus), do que o hebraico “Javé” ou “Jeová”, é de se perguntar o quanto daquele antigo deus clássico não migrou para a imagem da divindade cristã pelas mãos e idéias dos gregos e romanos — nunca é demais lembrar que Santo Agostinho, pilar do Cristianismo, foi um cultíssimo adorador de Júpiter e todo seu panteão.
Influências que atravessaram toda a Idade Média, a despeito do que geralmente se diz. E aqui fiquemos num só exemplo, e máximo: a Divina Comédia, de Dante, tem tantos personagens retirados da mitologia greco-romana quantos da tradição judaico-cristã, pouco mais ou pouco menos. A partir do Renascimento, então, abrem-se totalmente as comportas do vasto rio da tradição clássica. Os cupidos se tornam anjinhos (putti), Miguel Ângelo pinta a Criação do Homem, no teto da Capela Sistina, figurando um Deus que é mais Zeus que qualquer outro. Para cada grande de Espanha ou Nossa Senhora que saem dos pincéis de um Ticiano, sai um Apolo, uma Afrodite. E a lista é infindável, sucessiva, ininterrupta e abrangendo todos os ramos da arte e todos os períodos. Até a modernidade dela se impregnou: pois Jean Cocteau não fez sua releitura de Orfeu? Picasso não fez sua versão do minotauro?
Fechar os olhos ante a mitologia clássica é fechar os olhos a quase tudo o que de melhor as artes do Ocidente produziram. Tornam-se incompreensíveis, um código sem a senha. São prazeres, imensos, que deixam de ser desfrutados, coisa que a maior parte das pessoas não percebem. Perde-se a oportunidade de enriquecer a vida com modelos, idéias, saberes. Perde-se mesmo uma vaga na universidade, porque dos Lusíadas só se compreende, muitas vezes, que “havia um tal de Gama, não sei por que chamado Lusitano, e um monte de deuses que não existiram, fazendo não sei o quê”, como já ouvi de alguém.
Que voltem os velhos deuses, não como objeto de culto, mas de cultura. Que a juventude herde este tesouro tão vilipendiado e compreenda-o, dele descubra novos usos. Que Zeus e sua assembléia retornem, e que sejam bem-vindos. Evoé!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Os quarenta anos do golpe

Uma das primeiras coisas que se aprende acerca da história, ainda que pareça contraditório a muita gente, é que a proximidade no tempo entre um dado episódio e um historiador que deseja estudá-lo acaba mais por atrapalhar do que ajudar. Se ele, historiador, participou do episódio, ou viveu o momento, então é pior ainda. Dificilmente teremos um relato desinteressado sobre o assunto, qualquer assunto.
De modo que, apesar dos quarenta anos do golpe militar de 1964, considero muito cedo ainda a possibilidade de uma avaliação isenta de todas as suas causas, aspectos e conseqüências. Algumas certezas, evidentemente, existem, pois durante os vinte e um anos em que durou a infeliz aventura militar à testa do país, observou-se toda a sorte de desmandos e brutalidades possíveis, e outras tantas somente imagináveis pelas mentes mais doentias. A tortura, o assassinato sistemático e o “desaparecimento” de pessoas são os aspectos mais pungentes, que ferem o homem em toda a sua integridade. Mas o confisco de bens de dissidentes, a cassação dos direitos políticos e a mixórdia que a classe fardada fez com as leis nacionais, por muitos considerados aspectos de menor importância, clamam aos céus da pátria por justiça.
Outros aspectos da quartelada de abril de 64 saltam-nos igualmente aos olhos como indecifráveis. Se a “Marcha com Deus, pela Família e a Liberdade”, o estopim da intervenção, era representativa da maior parcela da população brasileira, os “comunistas” deveriam ser tão ínfimos que para debelá-los sequer seria necessário um golpe: bastaria uma maior aplicação dos órgãos de “inteligência” (sic) militar ou civil. Da mesma maneira, se o levante anticonstitucional de 1964 foi movido para impedir o “evidente avanço vermelho sobre o Brasil”, porque estes temíveis e tão organizados opositores foram incapazes de deter a movimentação das tropas golpistas? Alegou-se também que o movimento procurava substituir os principais nomes “torpes” da política nacional. Então por que depuseram Carlos Lacerda, adepto de véspera ao golpe e queridinho da Aeronáutica? Ou Adhemar de Barros, aderente de primeira hora? Pôr para fora os corruptos? Pensemos antes duas vezes quanto aos seus seguidores colocados à frente dos governos municipais e estaduais a partir de então: seriam assim tão honrados? Pensemos rapidamente nas criaturas que foram alçadas à cena pública naquele período e que até hoje aí estão. Grande exemplo moral!
Também não resta dúvida do legado econômico deixado pelo clã de patente. Lado a lado ao crescimento de uma bolha de aparente fartura, inchava-se a nossa dívida externa, acomodava-se nossa indústria a produzir o menos por mais, criava-se uma irrealidade fiscal, aliada a uma irresponsabilidade financeira, cujos frutos pagamos até hoje, e investia-se bom e são dinheiro em obras “imprescindíveis”, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra... (vá lá: Itaipu é obra do período e é indispensável até hoje, tanto que quem quer que estivesse no governo à época teria de fazê-la, mais cedo ou mais tarde).
Já quanto ao legado cultural do infausto movimento, renderia toda uma série de crônicas, ao invés dos poucos parágrafos que aqui nos restam. Pois alguém, em sã consciência pode concordar com a reforma da Educação levada a cabo durante aqueles anos? A Universidade foi engessada, o rádio tornou-se esta mixórdia que hoje vemos, a televisão tronou-se o oráculo nacional, a imprensa amesquinhou-se e a literatura foi calada. Pregavam tanto o patriotismo e aleijaram-no em seu primeiro sustentáculo: a discussão política. Não, patriotismo para eles era o fundamentalismo ao hino, o fanatismo à bandeira, a idolatria à seleção de futebol. Bela herança.
Por outro lado, a tão temível “esquerda” do período não foi nem tão heróica nem mártir. Alguns poucos, muito poucos, talvez. E que descansem em paz. Mas se acreditavam-se capazes de uma revolução, o mínimo que se pode dizer é que eram uns alienados. O que não lhes tira a culpa de mandarem tantos jovens tresloucados à morte, em estúpidas e ineficazes guerrilhas urbanas e rurais com meia dúzia de gatos-pingados. E, curiosamente, para dizer o mínimo, a maior parte dos graúdos sobreviveu.
Na verdade, o problema de se tratar com a história recente, é que reconhecemos com muita facilidade os cafajestes: o mau cheiro deles ainda nos impregna as narinas. E qualquer e eventual ato de menor sordidez, ou até mesmo, por mais implausível que nos pareça, de grandeza, acaba por passar despercebido no meio de toda a sujeira. De modo que adeus à imparcialidade, adeus à correção.
É muito cedo, como dizíamos, para tratar deste assunto. Por ora, vamos deixar que os mortos descansem e que muitos ainda vivos se apressem em fazer-lhes companhia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Dia onze, mais uma vez. Coincidência?

Depois do atentado terrorista em Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001, quando a poeira começou a baixar e já parecia inequívoca a participação do malfadado grupo islâmico radical Al Qaeda, esboçou-se uma curiosa teoria quanto à escolha da data em que a ação foi encetada. “Por que aquilo ocorreu no dia 11 de setembro e não no dia 10 ou 12, ou em qualquer outro?”, foi uma pergunta que instigou muitos especialistas pelo mundo inteiro. Outros é claro, nem pensaram no assunto por um bom motivo: por mais planejada que seja qualquer ação, existe sempre o perigo de que não dê certo em razão da vigilância, do cerco ao seu redor. Assim, num gesto desesperado, para não perder meses de planejamento é muito comum que um grupo extremista lance o seu ataque “de véspera”, digamos assim. A história, aliás, é pródiga em exemplos deste tipo.
Mas naquela ocasião, julgando que o dia específico de 11 de setembro sinalizasse alguma efeméride especial, quem sabe o aniversário sangrento de algum episódio que a Al Qaeda procurasse vingar, eis que se lançou a hipótese de que o atentado vindicava a deposição do presidente chileno Salvador Allende. Sim, daquele bravo socialista covardemente apeado do poder e da vida no dia 11 de setembro de 1976 graças ao direto empenho norte-americano. Daquela forma, celebrando a brutal intervenção estadunidense num país soberano, a Al Qaeda identificar-se-ia com o sofrimento dos explorados do mundo todo e poria o Império de joelhos.
Confesso que desde o primeiro momento duvidei desta interpretação. Sectário como o grupo islâmico deu provas de ser, voltado integralmente aos interesses nem tanto de sua religião, mas da vertente mais violenta da mesma, alegando-se um defensor do mundo islâmico somente quando lhe convinha e de uma forma tão vaga, tão ampla, que qualquer um de nós não deixaria de concordar com certas alegações, não me pareceu em nem um momento que fossem capazes deste, digamos, altruísmo às avessas.
A verdade, todavia, é que a lógica e o bom senso nos pregam peças às vezes. Sobretudo quando procuramos entender a lógica do louco, não um louco varrido ou doido de pedra, mas um louco furioso, homicida. Que possuem também o seu arremedo de lógica, muito mais inflexível, e com métodos muito mais precisos que as pessoas de bem. A prova maior seria a escolha de um outro dia 11 para mais uma série de cruéis atentados, com exatos seis meses de diferença do aniversário do atentado de Nova Iorque.
Assim, pus-me à cata de fatos relacionados à data específica do 11 de março e de uma possível ligação entre ela, o Ocidente (cuja liderança, hoje, é encarnada pelos Estados Unidos da América) e o mundo islâmico. E há curiosas correspondências. No dia 11 de março de 1845, os Estados Unidos anexam o Texas, roubando uma parte considerável do México. No mesmo dia, em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, os ingleses tomam Bagdá das mãos do Império Otomano (islâmico, para quem não se lembra). Já na mesma data, mas em 1938, a Alemanha invade a Áustria, como aperitivo antes da Segunda Guerra Mundial. Idem, mas em 1997, membros do ETA assassinam o psicólogo da penitenciária de Martutene, na Espanha. E, por fim, no dia 11 de março de 2001, o Papa João Paulo II Beatifica 233 mártires da guerra civil espanhola.
Não vejo correlações entre o atentado na Espanha e a anexação austríaca pela Alemanha que não uma infeliz coincidência. Nem creio que o horrendo ato tenha sido obra do ETA “marcando presença”, comemorando um assassinato antigo com tanto derramamento de sangue e tanta eficácia. Como uma vingança da tomada de Bagdá? Então por que não perpetrar o atentado em Londres? Além disso, ao lado dos ingleses, naquele episódio, estavam muitas tribos árabes, muçulmanas, que lutavam contra um império decadente até do ponto de vista religioso. Da mesma maneira, parece-me um pouco implausível que a coincidência de datas se relacione à beatificação dos 233 mártires espanhóis. Esta na minha opinião, seria a hipótese com mais terríveis conseqüências, urdida pelas mais nefastas intenções. Pois o que pretenderia o grupo com isto? Com uma resposta desaforada ao Papa que na ocasião disse, citando Tertuliano, “que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, já estariam declarando uma guerra santa contra toda a Cristandade? O que pretenderiam? Uma eclosão de novos cruzados contra o Islã?
Sou da opinião que tudo não passou de uma afronta, retrospectiva, à anexação do Texas pelos Estados Unidos da América. Pois a Al Qaeda parece nutrir muito mais ódio àquele país do que amor aos seus confrades ou a antigas causas perdidas de outros povos. E, acima de tudo, um particular e pessoal ódio ao texano George W. Bush. Que ofensa maior que, em pleno ano eleitoral, criticar o expansionismo americano quanto ao quintal mais querido de seu Presidente? Mas então, por que a Espanha como cenário? Como é sabido, a Espanha foi aliada de primeira hora na “guerra contra o terror”, foi também um grande Império e, certamente, em Madri a vigilância seria menor do que em Londres, Washington, etc.
O episódio evidentemente foi de uma crueldade e covardia sem limites. Mais triste ainda pelo fato de tantos inocentes pagarem com a vida. Muitos dos quais, aliás, provavelmente estiveram naquela grande manifestação contra a invasão do Iraque, semanas antes da mesma. Pagou o povo pelo que fizeram seus governantes. Mas igualmente quanto a isso, a história é pródiga em exemplos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

A Razão e as razões do Sr. Presidente

Circula há certo tempo uma piada envolvendo o Sr. Presidente, piada que o coloca num aeroporto perguntando a um assessor: “Diz uma coisa aí, meu filho: eu estou indo ou estou voltando?”.
Pois bem, conversando com um amigo meu um dia desses, veio à tona a idéia de que o Sr. Presidente viaja tanto que, de fato, deve mesmo se confundir vez ou outra. Pois são mais de vinte e sete viagens internacionais nestes dois anos e meio de governo. E não se trata só de Mercosul, ou Venezuela, ou Cuba, estes, a um pulinho daqui. Não, foram também terras longínquas. Ora, o Sr. Presidente foi até à Índia e à China! E em viagens diferentes, que talvez seja para mostrar que ele não é o líder de um país pobre, mas de uma potência, já que isto de engatar dois destinos distantes na mesma viagem é coisa de governante de república das bananas, e não de um líder com sua indiscutível estatura. Mas temos de concordar que deva ser muito cansativo. Estafante mesmo. Capaz de exaurir as capacidades mentais de qualquer um, até mesmo as de nosso preclaro chefe do governo. Assim, não é difícil que possa vir a dar provas de não saber em que país está.
Não quero dizer aqui que desconfio da extensão e profundidade dos conhecimentos geográficos do Sr. Presidente. Sabemos que, à diferença de alguns chefes de Estado, ele sabe, sim, e muito bem, que a capital do Brasil é Brasília, e não Buenos Aires. Mas nunca podemos nos esquecer que, no ano passado, na capital da Namíbia, Windhoek, em plena África, referiu-se à cidade como se ela não parecesse fazer parte da África. Seria mais ou menos o mesmo que o governante do México, de passagem por São Paulo, dizer ter estranhado não ver cobras, antas e hordas de índios seminus atravessando as ruas de nossa metrópole.
De modo que talvez seja mesmo para evitar a possibilidade de se confundir que o Sr. Presidente tenha comprado o novo avião, este mimo de R$ 170 milhões — quase nada, como vemos, pouco mais de 22 mil Fuscas 1.6, modelo 96 à gasolina. É verdade que nesses Fuscas poderiam ser transportados todo o Executivo e o Legislativo, mas sabemos, e o Sr. Presidente também, que Fuscas agüentam qualquer terreno, mas não podem cruzar o oceano. Logo, um avião era indispensável. Compre-se, então, um avião. Mas não pode ser qualquer um.
O Sr. Presidente, um homem viajado, não é afeito a provincianismos reles, ao chauvinismo, ao ufanismo sem crítica — tem dado contínuas provas de que é aberto ao Mundo e às suas influências. Vimos como se relacionou muito bem, desde o início, com aquele grande líder mundial, George W. Bush. Vimos também seu apreço pelos carros australianos e roupões de algodão egípcio. Vimos, recentemente, como perdoou parte da dívida externa que a Bolívia contraíra com o Brasil, e como sugeriu que nosso país importasse produtos acima do preço de mercado para colaborar com a economia de nações mais pobres. Sendo pertinente a tais atitudes, provas insofismáveis da sua grande visão de mundo, na hora de escolher “o” avião que o transportaria pelo globo, não poderia dar um gesto de bairrismo, de visão paroquial. Nada mais justo que importasse um avião!
Porque também, é bom que se diga, o modelo brasileiro era um bocado aquém do que acabou sendo escolhido. Ao que parece, o similar nacional não teria uma banheira dentro da suíte presidencial, e uma banheira, como todo viajante sabe, é indispensável para reduzir o estresse durante as viagens transcontinentais. Outro problema seria a relativamente pequena autonomia de vôo do avião nacional. Se o Sr. Presidente quisesse, por exemplo, ir a Paris a bordo da aeronave brasileira, seria obrigado a fazer uma escala técnica em Lisboa, o que só desgastaria o seu bem-estar físico. E que diabos, ora, o homem tem de chegar descansado! É direito do Presidente! Depois, este negócio de chefe de Estado viajar em avião fabricado no próprio país só dá certo nos EUA. O ex-líder russo Boris Yeltsin, por exemplo, só voava em avião russo, que de tão instável, vivia deixando-o enjoado. Então, quando chegava nalgum país, se demorava a desembarcar, todos diziam que estava de pileque! Calúnia, simples calúnia. Não podemos querer que digam o mesmo do Sr. Presidente, porque, como todo o Brasil sabe, não há o menor motivo para tal suspeita.
De forma que concordo, sim, com todas as razões que venham a ser apresentadas para manter a razão do Sr. Presidente, para livrá-lo de possíveis e indesejáveis confusões. Que envide todos os esforços, é o que desejamos, para que não repita mais frases infelizes como aquela recente — dentre tantas outras desde o início de seu governo — relativa ao seu estranhamento quanto àqueles cidadãos que tomam empréstimos a 12% ao mês. Se ante aos seus olhos este comportamento parece estranho, sem motivo, deve ser porque, mais uma vez, confundiu o país em que estava...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

A triste sina de Tomás Antônio Gonzaga

Peço a licença do leitor, mas hoje não trataremos da Olimpíada de Atenas. Muita água há de correr ainda debaixo desta ponte entre a antiga Grécia e os dias atuais e, portanto, hoje este espaço tenta reparar uma tradição meio esquecida. Trata-se de fazer uma justa menção a um vulto do passado no dia de seu aniversário de nascimento (ou o mais próximo possível do dia). Pois sabia o leitor que no último dia 11 de agosto celebraram-se exatos 260 anos do nascimento do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga? E alguém, por acaso, leu alguma linha a respeito? Ou se lembra de alguma celebração feita há dez anos? E, convenhamos, 250 ou 260 anos, em se tratando de América, é muita coisa — não me ocorre um poeta de tanto peso quanto ele em todo o continente e em tempo tão recuado. Foi pensando nisso que procurei pesquisar todas as homenagens feitas a ele nos últimos dois séculos. E o resultado foi estarrecedor, como o leitor verá.
A primeira grande homenagem deu-se justamente num 11 de agosto, o de 1827, em que foram criados os dois cursos de Direito no Império do Brasil, o de São Paulo e o de Olinda, data escolhida em razão do aniversário do poeta e por ter ele idealizado a primeira faculdade no Brasil. E qual a retribuição dos estudantes de Direito? No dia 11 de agosto celebram Gonzaga? Que nada, dão calotes na praça!
A segunda foi grande e auspiciosa: Gonzaga, ou a Revolução de Minas, peça do poeta Castro Alves, estreou em 1867 com muito sucesso, sendo a consagração do jovem poeta baiano. Grande mesmo, apesar de alguns deslizes ou de certo excesso de imaginação do autor de Espumas Flutuantes: na cena final um visionário Tomás Antônio Gonzaga profetiza o aparecimento de Napoleão Bonaparte no cenário mundial, ao som dos primeiros acordes do Hino Nacional, que só seria composto trinta anos depois da trama encenada no palco...
A terceira ocorreu em 1897, quando o nome de Gonzaga foi escolhido como patrono da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras — bem atrás de nomes como Adelino Fontoura (Adelino quem?), cadeira número1, Artur de Oliveira (Artur de quê?), na cadeira número 3; vá lá que seus contemporâneos Basílio da Gama e Cláudio Manuel da Costa estejam entre os primeiros (cadeiras número 4 e número 8, respectivamente), mas por que Gonzaga está tão longe? Por que não a de número nove, ou doze, por exemplo?
A quarta veio a ser — alguns dizem que precisamente, outros, indiretamente — na escolha do nome do centro acadêmico da Faculdade de Direito de S. Paulo, e deu-se em 1903. Precisamente, querem alguns, por ser a escolha do nome do centro acadêmico uma homenagem ao natalício do poeta. Indiretamente, pretendem outros, por que então já quase ninguém mais se lembrava do inconfidente: entrava o onze de agosto mais como aniversário da criação do curso que homenagem ao antigo vate.
Já em 1909, em Juiz de Fora, foi nomeado patrono da cadeira número 27 (atual número 34) da Academia Mineira de Letras. Esta é realmente de espantar! Por mais que Minas Gerais seja pródiga em literatos, colocar 26 nomes antes de Gonzaga é um prodígio! Meterem-lhe ainda mais sete no meio, então...
No ano do bicentenário de seu nascimento, 1944, finalmente, uma grande homenagem. Inaugura-se o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Vasculharam-se também alguns cemitérios da África e do Brasil e com os restos dos inconfidentes que acharam, o de Gonzaga inclusive, naquele belíssimo monumento criaram o Panteão da Inconfidência, um espaço, no mínimo, comovente. Mas uma ironia paira por sobre esta homenagem: há quem diga que os ossos não são do poeta, mas de um seu neto africano de mesmo nome.
Quatro anos depois, outra celebração, de cunho mais popular: Carmen Santos, portuguesa de nascimento e grande atriz brasileira, dirige o filme Inconfidência Mineira, que conseguiu ser um raro caso de fracasso de público e de crítica no Brasil. Um filme que levou onze anos para ser terminado, que ficou desaparecido por algumas décadas e que até hoje pouca gente viu ou se lembra. Nele, ao que consta, os protagonistas seriam os personagens de Tomás Antônio Gonzaga, Dirceu, e de sua noiva e musa Marília, Maria Dorotéia de Seixas. Que o poeta não se deu bem no cinema, prova-o o fato de que seu vulto só retornou à tela em dois filmes, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1972, e Tiradentes, de 1998, dirigido por Oswaldo Caldeira, impiedosamente malhados pela crítica e, quanto ao último, até mesmo por historiadores.
E entre estas datas, que homenagens recebeu o poeta?
Em 1953, talvez a maior delas. São os belos versos dedicados a ele por Cecília Meireles no seu Romanceiro da Inconfidência. Incontestavelmente a maior homenagem e sem um senão a ela relacionada. Mas em 1978, virou nome de rua no Jardim Tango (bairro nada conhecido), em São Paulo. E em 1994, os Correios lançaram um selo comemorativo aos 250 anos de nascimento do poeta. Francamente!
E hoje, quem se lembra? Quem lhe mostra gratidão? Matou-se o dia de Gonzaga. Que viva o Dia do Pendura! Isto lá é homenagem que se preste? Triste, triste a sina de Gonzaga...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas por volta do 11 agosto de 2004].

Um novo olhar sobre a Inquisição

Em 1998, o papa João Paulo II admitiu que era "oportuno" um mea culpa da Igreja Católica sobre o "capítulo doloroso" da Inquisição, mas para isto era necessário um julgamento "sereno e objetivo" da história, "sem emoções pessoais", nem condicionamentos da opinião pública. Chega o ano 2000 e, durante a celebração do milênio da Igreja Católica, o sumo pontífice pede perdão pelos pecados que os católicos cometeram em nome de sua fé através dos séculos, incluindo os abusos da Inquisição. E eis que no útlimo dia 16 de junho, o Vaticano publicou um novo estudo sobre os atos cometidos durante a Inquisição, um relatório de 800 páginas, que inclui todas as atas oficiais do simpósio internacional realizado em 1998 por iniciativa da comissão teológico-histórica do Comitê do Jubileu e que contém os relatórios de 50 historiadores e outros especialistas, inclusive não católicos, da Europa e América do Norte.
Segundo o documento, a Inquisição, que espalhou temor na Europa a partir da Idade Média, não praticou tantas execuções ou torturas como dizem os livros de história. Ele reconhece que, no começo, os procedimentos planejados foram aplicados com rigor excessivo, que em alguns casos foram degenerados e se tornaram verdadeiros abusos, e propõe que a Inquisição não foi tão má como se costumava crer.
Em vista de tais conclusões, o papa João Paulo 2º novamente pediu desculpas pelos excessos dos interrogadores, expressando pesar por "erros cometidos a serviço da verdade por meio do recurso a métodos não-cristãos". Além de reafirmar o que já havia dito no documento anterior, de 2000, na carta atual, foi ainda mais longe, dizendo que o pedido de perdão valia "tanto para os dramas relacionados com a Inquisição quanto para as feridas deixadas na memória [coletiva] depois daquilo E ressaltou que os teólogos devem entender “a mentalidade dominante em determinada época.” “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa quase um símbolo do escândalo”, escreveu o sumo pontífice numa carta sobre a pesquisa. Em que grau essa imagem é fiel à realidade?”, argumentou.“Antes de pedir perdão, é necessário ter um conhecimento preciso dos fatos”, acrescentou, no mesmo documento,expressando uma “grande apreciação” pela pesquisa. O papa, porém, não criticou seus predecessores. Gregório IX, que criou a Inquisição em 1233, não foi mencionado no comunicado, pois segundo o cardeal Georges Cottier, um dos responsáveis pela apresentação do relatório: “quando pedimos perdão, não condenamos. Estamos todos condicionados pela mentalidade de nosso tempo. Daqui a 50 anos, podemos ser acusados de não ver certas coisas", disse.
O documento revela que a Inquisição espanhola, que se tornou independente do Vaticano no século 15, praticou os abusos mais extremos. Todavia, o professor Agostino Borromeo, professor de história das religião católica e outras confissões cristãs na Universidade Sapienza, de Roma, e que supervisionou o volume, sustenta que, na Espanha, dos 125.000 julgamentos por suspeição de heresia, apenas 1,8% dos investigados pela Inquisição espanhola foram executados. Em Portugal, 5,7% de mais de 13.000 julgamentos diante da tribunais eclesiásticos, no século 17 e início do 17, foram condenados à morte. Já a Alemanha teria matado mais bruxas e bruxos que em qualquer outro lugar, cerca de 25 mil, dentre uma população de 16 milhões de pessoas. Mas, em termos proporcionais, o recorde pertence a Liechtenstein, onde 300 pessoas, ou 10% dos 3.000 habitantes da região, foram mortas por bruxaria. Borromeo nega que o Vaticano estivesse planejando reduzir os erros da Inquisição com a apresentação de tais dados. “Não quero dizer que a Inquisição fosse uma instituição ética”, disse na entrevista. “Isto não muda a natureza do problema – pessoas foram traídas por suas convicções religiosas. Mas, para os historiadores, números têm um significado”.
Não é preciso apontar a saraivada de críticas que a Igreja tem sofrido por conta desse documento. Talvez a melhor seja do historiador italiano Carlo Ginzburg, presente à conferência de 1998 — e bem conhecido no Brasil por seu livro O queijo e os vermes, que versa sobre a Inquisição e a heresia. Segundo ele, existem certas dúvidas sobre usar estatísticas para chegar-se a um julgamento sobre o período. “Em muitos casos, não temos a evidência, a evidência perdeu-se”, disse. E meio que em resposta a esta afirmação, o cardeal Georges Cottier, teólogo do Vaticano próximo ao papa, reforçou a necessidade de analisar os fatos antes de fazer julgamentos sobre um período da história. “Não se pode pedir perdão por ações que não estão aqui”, alegou este prelado.
Como vemos, a Inquisição ainda é fonte de muitas polêmicas e boa parte da censura que se faz a ela mais parece ter como fim criticar a Igreja do que entender aquele processo histórico. Porque o que muito dos críticos parecem esquecer é que a Inquisição não foi um fenômeno uniforme e local. França, Inglaterra, Alemanha, Itália, etc., tiveram, na maior parte do tempo, fenômenos inquisitórios distintos. Da mesma maneira, nem sequer foi um fenômeno exclusivamente católico: as igrejas e seitas protestantes também tiveram, embora com outros nomes, violentos tribunais de fé que, em várias épocas, executaram muito mais pessoas que a Inquisição Católica, excetuando a espanhola.
Há que se levar em conta, também, que por ser o cristianismo uma religião missionária, julgava-se na obrigação de propagar seu modelo de fé o mais amplamente possível, mesmo que para tal fosse necessário se utilizar de táticas aparentemente questionáveis, pois em seu raciocínio, o fim justificaria os meios.
Quanto à “caça às bruxas”, ela sempre existiu, antes mesmo da própria Igreja, visando aos praticantes de técnicas de cura natural, rituais pagãos ou pessoas com algum comportamento diferenciado. Aliás, pode-se mesmo dizer que a Inquisição, para boa parte destas pessoas, foi até bem vinda. Seria mais fácil escapar de um processo organizado movido pela Igreja do que da descontrolada fúria popular, pronta a condenar à morte, sem investigação ou julgamento, qualquer indivíduo “estranho”: bastava um doença contagiosa para que a população desconfiasse de bruxaria e procurasse um culpado, invariavelmente executado e da pior maneira. Assim, a Inquisição constituía um tribunal no qual o réu poderia, pelo menos teoricamente, defender-se.
Em suma, católicos e protestantes perseguiram e mataram milhares de pessoas em nome de sua fé por um longo período conhecido por sua violência. Uma violência endêmica, presente em todas as instituições. A Justiça incluía a tortura em todos os interrogatórios, as escolas castigavam severamente, os exércitos saqueavam e matavam aldeias inteiras, o povo divertia-se com as execuções e martírios públicos, com lutas de ursos contra cães, com esfolamentos de gatos e, por um bom tempo, acreditava-se que para a carne ser saborosa, o animal deveria sofrer uma morte dolorosíssima: há inúmeros registros de animais metidos ainda vivos em fornos e panelas. Diante de um tal quadro, todos os excessos passam a ser compreensíveis.
A Igreja Católica fez sua parte, reconhecendo seus erros e pedindo o perdão. Que seja louvada por isto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Um enigma chamado Getúlio

Nesta semana, seria impossível tratar de outro assunto que não relacionado aos cinqüenta anos da morte de Getúlio Vargas. Pois além de ser uma das efemérides mais importantes da história recente do Brasil, todos se viram frente a frente com esta questão, em razão dos inúmeros comentários e alusões nos meios de comunicação, com cadernos e edições especiais de jornais e revistas. Em suma, foi tal o volume de informações, tantos os testemunhos de quem viveu a época, tantas as cronologias, da vida de Getúlio, de seu governo, da crise em que foi envolvido nos seus últimos dias, tanto e tanto foi dito, que seria por demais pretensioso, neste breve espaço que nos cabe, procurar resumir quer o personagem, quer seu governo, quer o que representou para a história. Seria, talvez, o trabalho de toda uma vida.
Se as pessoas, por mais próximas de nós, pessoas por vezes muito comuns, apresentam-se como insondáveis mistérios, que dizer de homens públicos? E que dizer, então, de um grande homem público? Sim, pois para o bem ou para o mal, ninguém pode negar o imenso papel desempenhado por Getúlio Vargas em nossa política e em nossa história, e — poderíamos ir ainda mais longe — na própria história mundial, esta em que parecemos só querer entrar pela porta dos fundos ou como material anedótico. Sim, da história mundial, pois seu apoio aos Aliados, tenha sido ele relutante, ou não, foi importantíssimo durante a Segunda Grande Guerra. Ou alguém acha que se o Brasil, com todos os seus recursos e seu imenso litoral, se aliasse às forças do Eixo, o resultado seria o mesmo? Imaginemos a Alemanha com bases no nosso território, com o controle do Atlântico Sul, com possíveis novos cenários para batalhas aéreas e navais, com um trampolim para a África? Teria a guerra terminado do mesmo jeito?
Depois, há outros aspectos na trajetória política e de vida de Getúlio Vargas que o fazem único na história do mundo. Um latifundiário que derruba um Regime que era a mera representação dos interesses de outros latifundiários. Um conservador que se alia a rebeldes e um legalista que faz uma revolução. Um aristocrata que será chamado de “pai dos pobres”. Um representante do capitalismo que cria as férias, o salário-mínimo e a previdência social para a totalidade dos trabalhadores. Um ditador que será reconduzido ao poder nos braços do povo, depois de uma imensa quantidade de votos justamente de um Estado da União onde, dizia-se, ele era detestado. Um homem que se vinga de seus inimigos não com a morte deles, mas com a sua própria morte. Um homem que governou um país de 1930 a 1945, com plenos poderes, de vida e de morte, e de 1950 a 1954, com amplos poderes, e não ficou um só centavo mais rico — dizem mesmo que ficou, sim, menos, muito menos rico. Como pode ser compreendido um homem assim?
Milhares de artigos, monografias, teses, livros, tomos e tomos de estudos sobre Getúlio Vargas jamais explicarão a sua tremenda singularidade.
Mas, ainda assim, arrisco aqui uma modesta opinião, que certamente não explicará nada, pelo contrário, só irá se somar a outras tantas mais e mais abalizadas. Trata-se de um simples registro pessoal, crítico, levando-se em conta a geração à que pertenço e a este ponto da história no qual nos encontramos.
Não consideraria errado dizer que Getúlio, aos olhos de hoje, parece encarnar uma somatória de virtudes do passado e defeitos do presente, ou melhor, de virtudes do século XIX e defeitos do século XX. Ou melhor ainda, virtudes e defeitos que atribuímos a estes dois séculos. Nele convivem, lado a lado, a honestidade pessoal e apego ao Poder, a modéstia e o culto à personalidade, o respeito à ordem e a tentação em perturbá-la — a intempestividade de um caudilho gaúcho e a frieza de um moderno chefe de Estado.
Se há, de fato, mais um outro consenso que pode ser atribuído à figura pública e pessoal de Getúlio Vargas, à “Esfinge de São Borja”, como já foi chamado, seria o quanto ele foi contraditório, o quanto ele foi enigmático, o quanto ele ainda nos intrigará por muito e muito tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de agosto de 2004].

Uma revisão histórica

O sociólogo francês Roger Bastide, que morou no Brasil na década de 1930 e visitou nosso país umas outras tantas vezes, publicou um livro, em 1957, que se tornou famoso, muito questionado e consultado, que se chamava “Brasil, terra de contrastes”, o qual será republicado em breve, depois de estar por décadas esgotado.
Ainda que muito pouca gente o leia hoje em dia, foi durante longo tempo considerado um clássico dentre os estudos brasileiros. Foi, sem dúvida, uma das primeiras obras a abordarem os abismos existentes entre as classes sociais brasileiras, o caráter mais nominal do que efetivo do Estado, de uma certa hipocrisia travestida de educação, de fiéis com um pé na barca de Cristo e outro na piroga do Caboclo Sete Flechas, além dos demais contrastes e desequilíbrios vários com os quais até já nos acostumamos a conviver. Foi, também, à época de sua publicação, um tapa na cara de muitos dorminhocos que pareciam “deitados eternamente em berço esplêndido”. Daí que os defensores de Bastide, ou gente que só ouviu falar do livro, passaram a sacar contra o oponente a frase “Brasil, terra de contrastes” a cada disparate que viam. E os outros, propagandistas frouxos do “impávido colosso”, em sua defesa brandiam o bordão do “Brasil, País do Futuro”, título do livro escrito mais de uma década antes pelo austríaco Stefan Zweig, e também uma outra obra muito lida e hoje quase esquecida.
É verdade que a sorte pareceu pender mais para o lado de Bastide do que para o de Zweig. Por mais traumático que seja para os brasileiros, o diagnóstico do francês se cumpriu como realidade e como previsão deste futuro de desigualdades atrozes que hoje é o nosso Presente. Já o pobre austríaco, nestas terras, não teve muito futuro. Nunca nos esqueçamos que este apóstolo de um novo paraíso tropical acabou por dar cabo de sua vida e de sua mulher, tal o desespero que sentiu em nosso torrão bem amado. Mas é verdade também que são livros muito pouco lidos hoje, e que parecem ter se tornado mais em chavões invocados aqui e ali do que de alguma espécie de guia para a compreensão da terra pelos nativos.
Todavia há ainda alguns outros pontos, também, que parecem enfraquecer a possibilidade de uma ressurreição desta opus magna de Bastide. Pois ela parece meio velha, datada, como se descrevesse um mundo que não mais existe, partindo de pressupostos que hoje não parecem fazer mais sentido. E por quê? Porque ninguém pode ter dúvidas da imensa diferença entre o Brasil então retratado e o Brasil de hoje, que tem por intermeio nada menos do que o fim do governo Vargas, Juscelino e Brasília, Jango e a Renúncia, Jango e o golpe, a Ditadura, a tortura e a Transamazônica, a abertura e Tancredo, Sarney e a inflação, Collor e a bandalheira, Itamar e o Plano Cruzado, FHC e o “desmanche da Era Vargas”, Lula e sua apatia ingênua.
Ninguém pode perder de vista que o cenário em que Bastide escreveu seu livro era o da reconstrução da Europa, da extensão do conceito de “Bem-Estar Social” para classes da sociedade que até àquela época só conheciam salários de fome, analfabetismo, chicote e tacão de botas.
Não se pode esquecer ainda que havia uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com seus satélites e imitadores, que pareciam — sim, não se pode negar — um tipo de sociedade em que não havia a exploração do homem pelo homem, onde não havia ricos, mas onde também não havia pobres, e com educação, saúde, trabalho e moradia para todos; e eram, além disso, uma potência econômica, científica, militar e espacial, que seduzia meio mundo e que tinha como credenciais além disso, o fato de ter derrotado o nazismo.
Também naquele tempo, havia um país como os EUA que envergava no peito, como real condecoração que era, a reputação de ter, também, vencido o nazismo, e mais o expansionismo japonês; um país que marchava firme rumo às liberdades raciais e que passava a prodigalizar a seus cidadãos um nível de conforto doméstico como nunca se viu na história, conforto que afirmava ser extensível a todos que com eles compartilhassem do “sonho americano” e que encantava a outra metade do mundo.
Por fim, resta a própria questão do “contraste”, cara ao autor, da diferença, que hoje soa para nossos ouvidos de outra forma. Pois não vivemos sob o signo da aceitação das diferenças, da entronização da alteridade, do culto à diversidade? Se esta compreensão moderna foi insinuada, sem que nos apercebamos, pela argúcia de um mercado ávido por transformar em mercadoria tudo no que possa pôr as mãos — o que pode bem vir a ser — é coisa a ser estudada.
Se nos tempos de Bastide o cinema, a música, as artes plásticas, a literatura tomavam o modelo europeu, soviético ou americano como modelos, hoje são as peculiaridades dos mais diferentes povos a verdadeira tônica das produções. Não se trata mais de levar Beethoven ao Agreste, Verdi ao Cairo, Tchaikovsky a Pequim, ou Villa- Lobos ao Cerrado. Hoje escuta-se a música egípcia em Berlim, as composições chinesas da Rússia à Espanha, hoje queremos exportar os violeiros goianos para o mundo. Se preconizava-se a derrubada das favelas e a construção de moradias salubres e ordenadas no traçado urbano, já há mais de duas décadas prescreve-se à urbanização das favelas — quanto à eficácia disso, confesso, discordo veementemente, e por uma questão de humanidade, como também acredito que os ouvidos do Agreste sempre merecerão ouvir Beethoven, Verdi, Tchaikovsky e Villa-Lobos, mas isto já seria assunto para outra crônica. Em suma, “Brasil, terra de contrastes”, é um grande livro, talvez já um pouco impregnado pela pátina do tempo, mas a qual, longe de embaçar seu interesse, acaba por instigar ainda mais a procura pela matéria de que é feita: é saudável saber — depois que erramos — desde quando, por que e como erramos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2004].

O Terremoto do início do Milênio

O recente terremoto no Oceano Índico, seguido das ondas gigantescas que devastaram toda a região sul da Ásia, é um destes fenômenos que dão muito o que pensar, sobretudo a nós, cristãos — lembremos que toda a coisa teve seu início em pleno dia de Natal — e ocidentais, para não dizer, também, falantes do português — porque outro evento igualmente horrendo vitimou não só a Europa, mas mais especificamente Portugal.
Pois no dia 1 de Novembro — Festa de Todos os Santos, uma das mais importantes da Cristandade àquela época — do ano de 1755, pouco depois das 9 horas da manhã, quando as igrejas estavam cheias de fiéis e as ruas tomadas pelo povo que ia ou voltava dos cultos, um dos mais violentos tremores de terra de que há memória ou registro destruiu quase toda Lisboa. Prédios sucumbiam, incêndios surgiram de toda parte, e os muitos, apavorados, que se meteram em barcos ou navios para fugir daquele terror, foram colhidos por uma onda de proporções inimagináveis que convulsionou todo o Mar da Palha — como é chamada a larga embocadura do rio Tejo — e varreu toda a parte baixa da cidade. E o resultado de tantos desastres foi terrível: uma metrópole em ruínas e mais de 60 mil mortos.
Tudo isto, note-se bem, ocorrido no espaço limitado de uma cidade que era grande, mas longe estava de ser uma das maiores da Europa, e no correr de um único dia, ao fim do qual, um rei, D. José I, quase em estado de choque, perguntava a um ministro — que não era o mais poderoso, mas tivera a audácia a presteza de ser o primeiro a se apresentar frente à sua majestade — “o quê fazer agora?”. E, segundo a tradição, respondeu-lhe o ministro — Sebastião José de Carvalho e Melo, que ainda não era Conde de Oeiras, nem muito menos Marquês de Pombal — num exemplo de praticidade e larga visão: “Agora é sepultar os mortos e cuidar dos vivos”.
Se para os portugueses foi um horror indescritível, emocional e materialmente falando, do ponto de vista espiritual também foi um terror. Portugal era uma das nações mais religiosas, das mais ferrenhamente católicas da Europa, com proporções altíssimas de clérigos regulares e seculares dentre a população, com um sem fim de catedrais, igrejas, capelas, santuários, ermidas, cruzeiros, conventos e mosteiros. Tinha, como defensor da Pátria, como seu "Anjo da Guarda Nacional", por assim dizer — então chamado "Anjo Custódio" — ninguém menos que o Arcanjo São Miguel, que teria sido visto combatendo, lado a lado com os portugueses; como protetor, havia São Jorge, e como padroeiro, Santo Antônio, que era também padroeiro de Lisboa e, mais do que tudo, nascido ele próprio naquela cidade (Pádua é o local de sua morte). E não bastasse o que já era tanto, mal cumpriam-se sete anos desde que seus monarcas foram reconhecidos como grandes defensores do Catolicismo, através do título de Sua Majestade Fidelíssima — concedido pelo Papa Benedito XIV ao Rei D. João V, e extensível a seus descendentes —, honraria que só se rivalizava à de Sua Majestade Católica (pertencente aos reis de Espanha) e de Sua Majestade Cristianíssima (esta, aos Reis da França) e que representava o quanto a Santa Sé devia em preito de gratidão a Portugal.
É preciso dizer que a violência do fenômeno e suas conseqüências impressionaram fortemente toda a Europa, e os mais ilustres personagens a deixarem um testemunho a respeito do episódio, em razão também de seu grau de envolvimento, foram Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778). Pois ambos os autores travaram uma célebre polêmica justamente em razão daquela hecatombe.
O primeiro não só utilizou-se do terremoto para rebater parte das teorias de Leibniz, grande filósofo de meados do século XVII, princípios do XVIII, como o mesmo desastre lhe serviu de tema para um longo poema, intitulado o “O Desastre de Lisboa” — em que indaga como um Deus benevolente e onipotente teria permitido tamanha destruição e sacrifício.
Já o segundo, que discordou da interpretação do fato dada por Voltaire (mas que também era admirador de Leibniz), respondeu a ele por meio da “Carta sobre a Providência”, na qual procurava eximir de culpa tanto a natureza quanto Deus, e atirando-a toda para as costas dos homens pelo fato de viverem em casas sólidas de mais de dois andares dispostas numa área relativamente pequena e quase incitando a humanidade a viver em cabanas ou choças como as dos índios em geral.
Não é preciso dizer o quanto o argumento utilizado por Rousseau foi, e até hoje ainda o é, massacrado por boa parte dos leitores. E Voltaire, cuja pena era um chicote, não deixou por menos: volta ao desastre de Lisboa e dele faz referência no capítulo VI de seu clássico romance, cômico e filosófico ao mesmo tempo, “Candido, ou o otimismo”, no qual ironiza justamente certas idéias de Rousseau, que julga um otimista para além da realidade ... por causa do terremoto.
Bem, o fato é que, quanto ao terremoto de Lisboa, duzentos e quarenta e nove anos já se passaram e, parafraseando a célebre frase atribuída ao Marquês de Pombal, já sepultaram seus mortos e já cuidaram dos vivos que, por sua vez também morreram, e não são mais pranteados porque ninguém mais se lembra deles, porque a vida dos homens continua, o tempo segue, as cidades são refeitas, como Lisboa também o foi.
O que se viu recentemente nas terras banhadas pelo Oceano Índico foi, indubitavelmente, tristíssimo e assombroso. Mas não devemos circunscrevê-los à esfera a qual pertencem os conceitos de bem ou mal, ou àquela outra onde gravitam as noções de bom ou mau. O horror que vitimou aquela região da Terra não foi a vontade de um Deus em querer punir cristãos hedonistas que trocam um Natal em família por exóticos e distantes ambientes, ou não-cristãos que não reconhecem o nascimento de Jesus, como muitos têm ouvido nos últimos dias. Pois o que, em suma, aconteceu foi um mero, ainda que imenso, fenômeno da natureza, cujos efeitos poderiam ser muitíssimo minorados se houvesse nas regiões atingidas algum monitoramento contra esse tipo de ocorrência, além de condições básicas para a atuação de uma defesa civil eficiente. Vale lembrar que a natureza é imprevisível, porém manda avisos, cabe aos homens democratizar as tecnologias que decifram esses comunicados, ao invés de imputá-los a qualquer outra força maior.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de dezembro de 2004].

Notícias da Babilônia

Já tratamos anteriormente neste espaço dos graves riscos contra o patrimônio histórico causados com a invasão do Iraque pelas tropas da coalizão anglo-americana. A situação era por demais preocupante porque, como devem estar lembrados, o território do Iraque corresponde ao que foi a antiga Mesopotâmia, a terra entre os rios Tigre e Eufrates em que se desenvolveram as culturas suméria, assíria e babilônica, dentre outras, e que são consideradas o “berço” de nossa civilização, na medida em que muitos dos processos que estabelecem a passagem das sociedades pré-históricas para sociedades mais complexas ocorreram pela primeira vez justamente ali. Tal foi o cenário onde se deram as primeiras tentativas de domesticação de animais, da agricultura, da construção das primeiras cidades da história e, até onde sabemos, do primeiro registro escrito pelo homem. Em suma, o território iraquiano, em quase a sua totalidade, é ocupado por milhares de sítios arqueológicos, cuja importância é capital não só para um povo, país, ou grupos de países mas, sim, para toda a humanidade. E foi para um destes sítios arqueológicos que a atenção do mundo voltou-se há poucos dias. Pois graves notícias vinham da Babilônia, a 88 km ao sul de Bagdá, que por mais de mil anos foi uma das cidades mais importantes do mundo. Se foi ali que o rei Nabucodonosor mandou construir os Jardins Suspensos, uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo, reza a tradição que foi ali também que o monarca passou seus últimos dias, completamente louco, comendo o mato que crescia por entre os tijolos que calçavam as ruas, tijolos gravados com seu nome e com a afirmação de ser ele o maior dos reis.
A notícia, recente, dava conta de que forças militares lideradas pelos Estados Unidos estariam cometendo verdadeiros “crimes arqueológicos” no Iraque. Já se sabia que mais de cem mil peças do acervo do Museu Arqueológico de Bagdá foram retiradas ou destruídas — apesar dos desmentidos norte-americanos numa verdadeira ofensiva de contra-informação — mas o fato novo é que a depredação estava se dando diretamente num sítio arqueológico. Um relatório do Museu Britânico sobre a situação na Babilônia, ocupada desde os primeiros dias da invasão pelos fuzileiros norte-americanos e atualmente sob controle polonês, conta que tanques esmagaram parte da pavimentação da cidade, feita com tijolos de 2.600 anos, e soldados usaram o solo rico em fragmentos arqueológicos para encher sacos de areia para uso militar, fatos que os militares poloneses negam, ainda que um levantamento fotográfico revele a falta de certas peças arqueológicas: segundo o relatório, imagens de dragões nos tijolos que compõem as fundações da conhecida Porta de Ishtar foram danificadas de uma maneira que indicam a clara intenção de que alguém tentou arrancá-las à força. Não bastasse isso, foram cavadas trincheiras no local em que existiam depósitos de fragmentos arqueológicos, que ficaram espalhados pelo local, entre eles tabletes de barro com o selo de Nabucodonosor — para que se tenha uma idéia do descaso um pequeno tablete em escrita cuneiforme pode valer algumas dezenas de milhares de dólares.
O relatório afirma ainda que, inicialmente, a presença de tropas serviu para inibir saqueadores, mas a decisão de cobrir vastas áreas do sítio com pedras trazidas de outras áreas —para a construção de estacionamentos e bases de pouso — e o vazamento de combustível perto de um anfiteatro grego nas proximidades, provocaram danos generalizados.
Na verdade, a região foi vítima de uma longa linhagem de destruição e saque de seu patrimônio histórico. Não bastassem todas as guerras imemoriais travadas ali entre culturas locais que tentavam se sobrepor umas às outras, havia também as dominações estrangeiras, como a dos persas, iniciada por volta de 538 a.C., a dos gregos, dois séculos depois, seguida pela dos romanos, no alvorecer de nossa Era, da expansão islâmica, do jugo otomano, etc. Da mesma maneira, quando as explorações arqueológicas começaram, no século 19, pareciam mais com grandes operações de pilhagem organizada. Mais recentemente, com o embargo econômico após 1991, uma parte da população viu-se forçada a pilhar os sítios arqueológicos e a vender os objetos no mercado ilegal de antigüidades. As zonas de exclusão aéreas impostas pela ONU diminuíram a capacidade de ação do governo de Bagdá na zona xiita e curda, onde ocorreu grande parte dos saques. Perto da cidade de Mossul, no local da antiga cidade real de Nínive, transformada em um museu a céu aberto, este sítio arqueológico foi completamente pilhado após a guerra de 1991. Paredes de pedra com relevos foram removidas inteiramente ou retalhadas pelos saqueadores. Muitos fragmentos reapareceram nos últimos anos no mercado de antigüidades da Europa e Estados Unidos. Mas ainda que muito tenha sido dali retirado, muita coisa também ficou, bem conhecida já ou para ser descoberta ainda.
Os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra foram insistentemente alertados pelos cientistas e pela Unesco sobre os riscos que a guerra, os bombardeios e os saques representariam para a cultura da Mesopotâmia, mas nada fizeram para impedir a destruição. Restrições legais ao fato existem, pois uma convenção da ONU, de 1954, regulamentou a proteção dos bens culturais de uma região em caso de conflito armado. Mas os Estados Unidos não a assinaram, o que os exime de responsabilidade nessa questão. Curioso, não? Não bastassem o controle do petróleo, a alteração do quadro geopolítico, os lucrativos contratos de reconstrução do que eles mesmos destruíram, aproveitam-se também das antigüidades. E nada mais fácil para pilhá-las abertamente do que uma situação de caos e destruição generalizada, como esta, na Babilônia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de janeiro de 2005].

Dois exemplos de uma mesma fé

Nesta semana em que a maior parte da imprensa nacional conferiu uma ênfase muito mais do que exagerada a um assunto que, convenhamos, é somente de interesse dos envolvidos diretamente com ele (a saber: o casamento, que alguns dizem ser de “conto-de-fadas” e, outros, de “faz-de-conta”, do astro de futebol e da modelo), houve espaço também para duas notícias que nunca ocupam as primeiras páginas dos jornais: a morte de duas freiras. Todavia, a coincidência cessa no fato de serem duas religiosas católicas que morreram, assunto, como dissemos, geralmente negligenciado pelos grandes meios de comunicação. Pois, quanto às duas irmãs, quanta diferença entre elas...
Uma era a freira carmelita Lúcia de Jesus dos Santos, de noventa e sete anos e que, entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917, foi uma das três crianças que declararam ter visto a Virgem Maria em Fátima, Portugal — uma vez por mês naquele espaço de tempo — e que por meio destas visões foram-lhes revelados três segredos. O primeiro segredo era que a guerra iria terminar. O segundo era duplo, por assim dizer, e revelava que, se os homens não se corrigissem, haveria uma Segunda Guerra Mundial no tempo de Pio XI e que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Já o terceiro, mantido no mais absoluto sigilo até poucos anos, seria o atentado contra o papa João Paulo 2º, ocorrido em 1981.
O curioso nisso tudo, em primeiro lugar, é que Pio XI só ia começar a reinar em 1922 e, obviamente, em 1917, não havia ninguém chamado Pio XI... Em segundo lugar, dizer, em julho de 1917, que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, era algo mesmo inconcebível, na medida em que a revolução Russa de Outubro de 1917, comunista, liderada por Lênin, ocorreria somente em 7 de novembro (outubro, no calendário russo de então) daquele ano. Quanto ao atentado contra João Paulo II, ao darmos crédito a esta explicação, seria igualmente prodigioso, pois como poderia uma simples menina portuguesa imaginar uma tentativa de assassinato a um Papa que sequer havia nascido? Então, se não foi um milagre, ninguém poderia arriscar dizer o que foi.
Mas o fato é que irmã Lúcia morreu por falência do coração, depois de anos reclusa num convento. E sua morte parou Portugal, tendo o governo decretado luto oficial e os principais partidos políticos cancelado campanha para as eleições do próximo domingo.
No mesmo dia também, os jornais estamparam, com maiores detalhes, mais precisão, a notícia da morte da freira Dorothy Stang, de setenta e três anos, missionária da congregação católica Irmãs de Nossa Senhora de Namur, comunidade fundada há 201 anos e que reúne mais de 2.000 freiras em missões humanitárias em 15 países. Vinha esta irmã atuando há pelo menos trinta anos junto aos movimentos sociais no Pará, sendo seus esforços reconhecidos em todo o país, ao ponto de receber o prêmio “José Carlos Castro”, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) daquele Estado, elogios por parlamentares no Senado, ser considerada uma referência na história da colonização amazônica e receber o título de Cidadã do Pará. Foi recebida até pelo atual Ministro da Justiça, que prometeu olhar pela grave situação de periculosidade encontrada na região em que a religiosa vivia, onde fora já ameaçada de morte. Ameaças que se cumpriram, e que tiraram sua vida por meio de seis tiros disparados por um pistoleiro.
Irmã Dorothy, até onde se sabe, não foi contemplada com uma tal prodigiosa visão da Virgem Maria qual a de que foi testemunha Irmã Lúcia. Se seu coração estava devotado aos céus, seus olhos contemplavam o triste quadro social do Pará, onde, unida às mulheres e aos agricultores da comunidade Sucupira vinha desenvolvendo projetos sustentáveis para geração de emprego e renda através do reflorestamento de áreas degradadas, pois sabia que era a vontade de Deus que nem a terra, nem o mar, nem as árvores deveriam ser danificadas (Ap. 7:3). E longe de viver reclusa, trabalhava intensamente na tentativa de diminuir os conflitos fundiários, pois sabia que “do Senhor é a terra e tudo quanto ela contém” (1Co 10:26), não de alguns poucos e poderosos que dela se apropriam até mesmo contra a lei.
Sua morte, por outro lado, não foi motivo de luto nacional — mesmo sendo ela brasileira naturalizada. Nem os partidos nacionais alteraram um movimento sequer de seu contumaz jogo político. Quanto ao governo, sentiu-se constrangido — afinal, a religiosa era de origem norte-americana — e tão somente isso, como de praxe.
Ambas as irmãs morreram nesta semana, cada qual com suas próprias trajetórias de vida, trajetórias aparentemente opostas, mas só na aparência. Amaram a Cristo, Suas obras, Seus ensinamentos e Seus filhos e praticaram Seu amor intensamente, como cada uma sabia ou podia praticar. Uma se foi em meio ao olor da santidade. A outra, carregando a palma do martírio. Mas ambas foram respeitadas e dignificadas pela Igreja e pelos fiéis por suas obras e por suas vidas de doação. E há ainda quem afirme que a comunidade dos católicos é um todo inerte, monolítico, no qual uma única forma de prática religiosa é tolerada... Que os exemplos de Irmã Lúcia de Jesus dos Santos e de Irmã Dorothy Stang brade nas consciências destes críticos afobados e ignorantes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de fevereiro de 2005].

Maritacas na gaiola

Muitos arquitetos e urbanistas concordam que a praça, a boa e velha praça com árvores, coreto, igreja ou prédios públicos de importância, cedeu seu lugar de convívio social, a partir de meados do século XX (no caso dos EUA), aos shopping centers. Nosso país — sempre em atraso em relação aos grandes centros de decisão e, nesse caso, felizmente — só passou por este fenômeno a partir da década de 70 do mesmo século. Nos anos 80, explodiram os shoppings por toda parte, qual cogumelos depois da chuva. Mas foi na década de 90 que se tornaram, efetivamente, o lugar de convívio, por excelência, de milhões de pessoas no Brasil. Sabem disso não só o público que os freqüenta, como também os donos de lojas, cinemas, bares e restaurantes do lado de fora das paredes dos shoppings, acossados pela perda de consumidores que a todo custo evitam o caos que se instalou nas ruas de nosso país.
Se esta modalidade de espaço particular, privado, acabou por tomar ares de espaço público, e se, de fato, para inúmeras pessoas ele se tornou imprescindível, sua receita de local único de convívio, todavia, passou a sofrer graves abalos com a ampliação de acesso à Internet. Sim, é um fato que as pessoas freqüentam tanto quanto antes, se não mais ainda, os shopping centers. Vão ao cinema, comem bebem, olham muito, mais do que compram — dados os tempos bicudos dos quais parecemos ser eternamente vítimas — e andam, andam, andam... Mas não conversam. Não se fazem novos conhecimentos ou relações. Não se trocam impressões. Porque o lugar praticamente não permite, não há ambiente para isto. Quem vai se lembrar do último filme que assistiu, música que particularmente lhe tocou ou assunto interessante que gostaria de discutir, em meio à feérica e frenética sucessão de anúncios, cartazes, luminosos, vitrines de bolsas, sapatos, vestidos, camisas, etc? Impossível.
Assim, o que aconteceu, foi que toda uma geração que teve por babá a televisão, por parquinho infantil o playground do prédio, por praça da matriz os shoppings centers, geração que aprendeu que era “sensível” — as que a precederam eram o quê? inanimadas? — e que queria “expressar suas idéias”, sem todavia consegui-las naqueles espaços impessoais, eis que lançou-se ao bate-papo via internet. E como se bate-papo! E quão rasas são as idéias!
É um fato de todas as maneiras inegável que a Internet representou uma revolução nos meios de comunicação. Por outro lado, a quantidade de bobagens que circulam pela rede também é inacreditável, como é sabido. Mas o pior é justamente quando este lixo chega até nossas caixas de mensagens. Não falo das piadas, mais ou menos — geralmente menos — engraçadas, que nos enviam. Há todo um entulho que, francamente, não sei como pode existir público para tal.
Como é possível que gente que se diz séria, que presume ter idéias, as quais pretende exprimir em público, ocupe seu tempo a pesquisar imagens bizarras de acidentes vários e enviá-las aos amigos? Ou teorias conspiratórias, montagens fotográficas que são verdadeiras aberrações, senão de técnica, pelo menos de tema? Como é possível que se gaste uma inteligência — rala, talvez, mas bastante artificiosa — formulando frases banais, pieguices no campo da auto-ajuda, versos mancos, mutilados mesmo, e atribuir tal chusma de sandices a algum autor conhecido? O quê uma pessoa ganha em fazer seus pensamentos — ou melhor os balbucios de uma cabeça minimamente organizada, pouco superior a dos chimpanzés — passarem como se de autoria de algum grande nome? Nada, ora. O frasista desconhecido continuará anônimo e só lançará a uma boa reputação meia dúzia de patetadas que alguma especialista ou admirador logo irá desmascarar. Mesmo assim, como há bobagens circulando por aí como se fossem de pena de um Fernando Pessoa, de um Jorge Luís Borges...
E o que dizer, então, desta nova praga chamada Orkut? Que mixórdia! O footing dos acanhados. Os classificados pessoais dos imodestos inseguros. O pregão de inibidos exagerados. Mero congraçamento de tímidos metidos a gabolas cujas personalidades viriam a pique se expostas à luz franca das relações diretas, pessoais, olhos nos olhos.
O que é de lastimar é que tanto engenho, tanto esforço tecnológico seja empregado por um bando que mais faz pensar em maritacas do que em qualquer outro tipo de criatura. Pois maritacas não cantam, não reproduzem voz humana, só emitem um barulho sem sentido e desencontrado. Na natureza, pode ser até bonito. Elas voam, passam, vão embora. Numa gaiola — porque a Internet, para muitos, não passa de uma gaiola da qual não enxergam as grades — só o que fazem é palrar, gritar, sem motivo, para sempre e sem razão.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de março de 2005].

João Paulo II no Céu. E a nós, a Terra...

Depois de quase quatro meses em que a grande imprensa brasileira pareceu de férias, tal a exiguidade até mesmo física das edições dos jornais e a pouca relevância das reportagens, eis que os últimos quinze dias irromperam com um exagero de fatos, a ponto — é de se pensar — de desesperar muitos editores, redatores, chefes, dos mais variados meios de informação. Não é muito difícil mesmo imaginar o seguinte raciocínio, formulado por um deles, ou pela maioria deles: “Morte e agonia do Papa; massacre no Rio de Janeiro; eutanásia nos EUA; escândalo envolvendo um novo ministro; casamento do Príncipe de Gales e morte do Príncipe de Mônaco... Por que tudo numa só quinzena? Quanto não venderíamos se tudo isso fosse distribuído ao longo dos últimos meses?”.
Para nós mesmos, convenhamos, foi uma sucessão vertiginosa de fatos, sendo alguns, evidentemente, cruciais, e outros nem tanto, mas ainda assim capazes de um certo interesse. Então, comecemos por contar os centavos para depois contarmos os milhões.
Se um escândalo envolvendo um ministro, no Brasil, é quase que de ocorrência semestral nas últimas décadas, este afigura-se mais grave, depois deste verdadeiro “parto da montanha” que foi a mais recente reforma ministerial, dando à luz tão esquálidos frutos, mas que de tão anunciados esperava-se que fossem sublimes — e, pois, fiel como nunca à antiga locução que ora empregamos. Mas se ainda que modestas as mudanças, diz o governo que foram feitas a dedo. É de se perguntar quem apontou este dedo, então, e com que objetivo e significado.
Outros assuntos, agora envolvendo a nobreza européia, também figuraram com destaque: o casamento de Carlos, Príncipe de Gales, e herdeiro do trono britânico e a morte de Raniero de Mônaco, titular da coroa deste principado.
Quanto ao primeiro, estimo que seja feliz e aconchegado nos próximos invernos que a vida lhe reserva. Eclipsado pelo sol real de sua mãe, a Rainha, e por aquele fulgurante cometa — porque disto não mais passou — que foi sua primeira mulher, que este herdeiro, que à sombra há tanto tempo tem vivido, contente-se com seu quarto-minguante, já infelizmente refletindo sobre o seu caçula, já alcunhado de o “Bobo da Aldeia”.
Já no que diz respeito ao recém-falecido titular do Principado de Mônaco, ainda que seu Estado seja muitíssimo menos influente do que o do precedente, algumas considerações são bem cabíveis. Houvesse sua morte ocorrido em dias menos abarrotados de notícias, e o mundo inteiro veria seu coruscante reinado, a graciosa rainha que também era estrela cinematográfica, sua trágica morte, a esquisitice de seus filhos e a manifestação do grande desejo do monarca, que era tornar a imagem de seu país algo diferente do que era quando herdou a coroa: uma monarquia de opereta, um paraíso fiscal e um bom cenário para o carnaval. De fato, parece que ele conseguiu: hoje o mundo todo conhece Mônaco não só pelas já mencionadas circunstâncias, mas como Meca dos mais famosos cassinos e o palco das corridas de automóveis. Grandes mudanças, sem dúvida.
Crescendo em densidade e importância, vem a eutanásia na Flórida. É de se pensar as circunstâncias em que tal grave acontecimento ocorreu. O mundo inteiro já teve notícias de centenas de casos semelhantes ocorridos nos EUA e, mais recentemente, no próprio Brasil, que seria induzida, dizem, por muitos seguros de saúde, na medida em que não cobririam um tempo maior de internação em UTI ou CTI do que aquele coberto pelo plano do paciente, e que foi cogitada pelo próprio governo de Lula, como vimos nesta mesma semana. Mas a pergunta que paira no ar é se tal assunto não teria recebido um ainda maior relevo depois do filme ganhador do Oscar que tratava desta questão? Ou pela agonia do Papa, extrapolada, afirmamos, através de fotografias que só expuseram seus momentos de dor, desconforto e quase inconsciência, em detrimento, reconhecemos, das imagens televisionadas, que quase até o final de sua longa vida revelaram ao mundo sua lucidez, sua razão, seu comprometimento junto aos fiéis? Pois poucas vezes, na história recente, a fotografia, para alguns considerada ainda como a verdade dos fatos, mostrou-se tão cabalmente um instrumento de vontades e interesses determinados, quanto na agonia do Papa.
Não bastasse tudo isso, houve a horrenda chacina no Rio de Janeiro, cidade que a cada dia que passa vai merecendo mais e mais o título de “terra sem lei”. Pois não importa se muitos dos envolvidos tinham longa folha corrida de delitos ou crimes. Não existe lei que autorize ninguém neste país a tirar a vida de quem quer que seja. Legítima defesa? Sim, nos casos específicos. O que lá se viu foi barbárie. Crimes mais hediondos do que aqueles que, em tese, seriam capazes as possíveis vítimas mais “culpadas”.
João Paulo II, talvez o Papa que tenha mais lutado pelo direito e o respeito à vida de toda a história da Igreja, entregou sua alma ao Senhor, e gloriosamente deve ter sido acolhido nos céus. A nós, por enquanto, restou-nos esta Terra, esta miserabilíssima Terra, tão leviana e fugaz, mas que ele, no entanto, ajudou a modificar, para melhor. E que está ainda muito distante de qualquer ideal desejado por qualquer pessoa de bom senso, caridade, honradez e que respeite a vida.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2005].

Preconceito em nova roupagem

Acredito que todo católico veja cada novo pontificado como uma esperança de renovação e, ao mesmo tempo, como a continuação de uma obra que se pretende perene. Aparentemente, tais afirmações podem até assemelhar-se como contraditórias, mas não são. Pois não há duvida de que a substituição de um Papa por outro, seja ele quem for, trará naturalmente mudanças, correções de rumo e, para sermos mais precisos, uma atualização do proceder da Igreja frente às mudanças e clamores da sociedade. Neste ponto, sem dúvida, é uma renovação. Mas uma renovação é, também, a reafirmação das verdades ancestrais, dos votos tradicionais, a revalidação das responsabilidades assumidas, a reiteração daquela tão antiga e tão fresca boa nova: o Evangelho, a mensagem da salvação pelo amor, paz, tolerância, fé, fidelidade e compromisso.
Portanto, é de se lamentar como as revistas semanais de maior tiragem, neste que é o maior país católico do mundo, reagiram a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao trono de São Pedro. A revista Época, do conglomerado Globo, brada em sua capa, sob a imagem de Bento XVI, que a “Igreja se fecha”. Já a revista Veja, que semana a semana mais esguia se torna, ataca com a chamada “A Igreja congelada”. Nem mesmo a revista Carta Capital, voz dissonante das acima citadas, eximiu-se de uma infeliz, e tendenciosa, abordagem, sotopondo à imagem do Sumo Pontífice a legenda: “Miserere Nobis (Tende Piedade de Nós)”. E tudo isto sem falar no que, aqui e ali, foi disseminado por jornais e telejornais, sítios e blogs na Internet.
Pois o que se viu divulgado por estes meios de informação nada mais foi do que uma copiosa sucessão de vis preconceitos travestidos de objetividade supostamente jornalística. Vejamos alguns dos argumentos lançados por tais publicações, seu exageros e verdadeiros absurdos, e o que de fato se sabe sobre a pessoa e a trajetória de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI.
Acusam-no pelo fato de que, quando jovem, tenha se filiado à juventude hitlerista, já na década de ‘40 do século vinte, ou seja, em plena Segunda Guerra Mundial. Ora, só aqueles absolutamente ignorantes quanto ao contexto vivido por um adolescente alemão daquele período poderiam repudiar tal fato. Pois, naquele momento agônico do regime nazista, não aderir a juventude hitlerista seria, para um jovem, uma condenação à morte — se não à sua própria, a de seus pais e familiares.
Depois, é lembrada sua participação como artilheiro do exército alemão nos últimos dias daquele conflito. Fato também que não seria de surpreender. Nos últimos meses da guerra, de anciãos a meninos de doze anos — mas há quem fale em dez também — eram alistados às pressas e designados para toda parte. Negar-se a servir acarretava em imediato fuzilamento, por traição à pátria.
Curiosamente, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a década de ‘70, os detratores do novo Papa — que talvez nem sejam mesmo opositores reais, mas sim um bando de gente que se deixa levar por fofocas e idéias alheias — não encontram um só fato que desabone sua figura. Mas com o início da década de ‘80, tudo muda, porque então era ele nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Não, isto, para seus detratores, é imperdoável. Houve até um que o chamou de Torquemada de João Paulo II, em alusão ao terrível inquisidor espanhol de fins do século XIV, início do XV. Vamos, portanto, novamente ao fatos.
O primeiro é que, de fato, a Congregação para a Doutrina da Fé nada mais é do que a herdeira das atribuições e funções do antigo Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Santa Inquisição. Mas é herdeira em termos: seu poder e seu alcance não é nem de longe o mesmo do passado, também, como é sabido, não anda por aí prendendo e condenando quem quer que seja à fogueira. Atacar, nesses termos, a Congregação para a Doutrina da Fé, pelo o que sua antecessora tenha feito remotamente, é o mesmo que condenar uma moça pelos erros de sua avó. Depois, não tem sentido comparar o papel de Torquemada com o do então Cardeal Ratzinger à testa da referida Congregação. A inquisição espanhola associava-se àquela promovida pelo Vaticano apenas no nome: era independente, sujeita apenas à coroa de Espanha. Para não falar na diferença de métodos, valores e princípios que nortearam uma, no passado, e outra, no presente.
Em suma, o que vemos, mais uma vez, é uma dessas polarizações sem sentido que boa parte da imprensa tenta nos impingir como algo crucial, um momento de debate, de considerações definitivas, como se houvesse mesmo como opinar. Não é nada disso. Eleição de Papa não é como eleição de presidente ou prefeito, síndico de prédio, música mais pedida ou Garota do Fantástico. Não cabe “eu acho isso”, “eu acho aquilo”, “eu quero esse”, “eu preferia aquele”. Não é momento para caóticas declarações de pessoas cujas idéias são ainda mais caóticas e pouco católicas.
Porque os eleitores, de fato, são poucos e os mais capacitados e quem define mesmo tudo, no fundo, é o Espírito Santo. E é possível se opor a tal qualidade de elementos?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2005].

Um negócio das Arábias?

A reunião de cúpula envolvendo representantes dos países árabes e chefes de Estado sul-americanos, realizada em Brasília nesta semana, foi um evento em que se misturou a inutilidade ao cômico, culminando no patético, e motivado pelas mais interesseiras preocupações. Tudo porque o nosso Exmo. Sr. Presidente quer porque quer o tal do assento brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, quer também dar algumas alfinetadas nos Estados Unidos da América e fazer uns chamegos à Venezuela. Estes são os interesses diplomáticos do Sr. Presidente, no presente momento. Custe o que custar, principalmente os conceitos de democracia e liberdade. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar, por maior respeito que as nações árabes possam despertar — e despertam, a nós todos — por suas trajetórias de luta, pela antigüidade de suas culturas e artes, a maioria delas não passa de ditaduras que oprimem todas e quaisquer minorias étnicas ou religiosas em seus territórios, quer por meio de mil malabarismos eleitorais — aos quais chamaríamos de fraudes — quer pela pura e simples violência militar ou policial, travestida de “cumprimento à lei e à ordem”. Este é o argumento dos poucos governos que se intitulam laicos na região, como o Egito, o Iraque, o Líbano, a Argélia e o novo Iraque, para ficarmos somente entre aqueles de algum relevo político mundial. Argumentos que, acreditam, fazem com que se difiram dos demais países, monarquias ou repúblicas assumidamente teocráticas, em que toda diferença de fé culmina na morte ou na mais abjeta privação de direitos. Ninguém fala das privações pelas quais passam os cristãos no Egito, ou os xiitas no Líbano, como os xiitas no Iraque, ao lado dos curdos, que por sua vez também são massacrados na Turquia — ainda que esta não esteja aqui representada, mas que é o fiel da balança da política local.
Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kwuait são monarquias teocráticas, a primeira, aliás, se auto-intitula “monarquia absoluta”. Imaginem, portanto, o grau de liberdade política de que usufruem seus cidadãos...
E Líbia, Síria e Sudão são mundialmente reconhecidas como ditaduras de fato, sendo a última, inclusive, uma das mais violentas da história da África. Para não falarmos do caso da Somália, cuja situação política é extremamente confusa: o poder político encontra-se dividido por vários senhores da guerra, que dominam várias zonas do país — é de se pensar qual a legitimidade de seu representante.
São estes estados que desejamos como “parceiros”? Queremos inundar seus mercados com nossos produtos em troca de quê? De artesanato? Será que nosso Presidente quer que todos os brasileiros possam comprar “bem baratinho” tapetes persas para suas casas? Ou lanternas e artefatos de couro do Marrocos para iluminar nossos serões e descansarmos nossos pés tropicais? Ou será ainda que tudo isto é feito para comprarmos, a preço de banana, tâmaras, figos e damascos secos no final do ano? Pois que outra coisa os países árabes produzem se não isso?
Petróleo, dirão alguns. Mas não nos dizem que o Brasil já é praticamente auto-suficiente neste combustível, e que chegamos mesmo a exportá-lo? Não dizem que todos os nossos esforços agora são em busca de energias “limpas”? Porque insistir no malcheiroso e ultrapassado petróleo?
Resta somente o dinheiro. Dinheiro os países árabes têm de sobra, circulando entre seus governantes e os amigos do poder. Mas será que queremos este dinheiro sujo do sangue de todos os opositores daquelas sangrentas ditaduras?
Dinheiro sujo de sangue e uma vaga no Conselho de Segurança da ONU — estes são os objetivos dos impolutos defensores e organizadores do convescote em Brasília, onde se fez vista grossa a toda e qualquer arbitrariedade política. Houve mesmo um embaixador brasileiro que disse, com todas as letras: “A questão da democracia é relativa. Há entre os países árabes estreita união entre Estado e religião. Para eles, a visão de democracia é uma” — talvez querendo dizer, “uma outra completamente oposta a de todas as civilizações ocidentais”, mas se omitindo porque a conclusão era feia demais para ser proferida em público.
Em suma, é de se pensar o que é pior, se o governo ou seus parceiros neste pretenso negócio das Arábias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de maio de 2005].

Alguns roteiros e um destino

Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].

As Telenovelas e seu olhar míope sobre a realidade

Por motivos de trabalho — e de gosto pessoal, também — não tenho nem hábito, nem tempo, de assistir às telenovelas, estes híbridos de teatro popular e cinema realista que ocupam as emissoras de televisão no horário entre as seis da tarde e quase dez da noite. Confesso, entretanto, que já assisti a muitas delas e realmente gostei de algumas. Faço parte daquela geração intermediária de espectadores que viveram no período compreendido entre os primeiros tempos da televisão — quando ainda se acreditava em seu poder educacional — e àquele mais recente, em que o citado aparelho, com sua programação derrisória, se transformou em verdadeira “babá eletrônica”. De modo que posso me sentir um privilegiado, de uma certa maneira, pois não só pude assistir ao canto do cisne de uma época de experiências fundadoras daquele meio de comunicação, como também já me encontrava bastante crescido quando a televisão se transformou numa mera máquina de fazer dinheiro para alguns poucos — e, nem digo de fazer doidos, como então se acreditava, mas pelo menos de fazer espectadores nada críticos — como se verificou desde então.
Sem querer desfiar, aqui, uma relação dos programas mais conhecidos dos anos ‘70 e ‘80 do último século, numa espécie de memorialismo precoce em que tem incorrido boa parte de minha geração — e, muitas vezes, sem critério algum que não o de uma nostalgia pouco crítica, mera saudade por saudade — há que se reconhecer que boas coisas foram realizadas no gênero. Não falo de desenhos animados, que por piores ou melhores que fossem, não tratavam nem de longe da realidade ou de temáticas brasileiras, justamente porque nunca houve uma série de desenhos nacionais de longa duração ou permanência. Mas, por outro lado, quem não se lembra do “Sítio do Pica-pau amarelo”, apresentado pela Rede Globo de Televisão a partir de meados da década de ’70? Ou da “TV Globinho”, apresentada por Paula Saldanha, mesclando desenhos animados, informações relativas ao ambiente e à necessidade de preservá-lo e assuntos puramente infantis, como fabricação de brinquedos caseiros e mesmo industriais? Quando se compara este quadro de outrora ao que o sucedeu, com suas Xuxas, Angélicas e quejandas, sentimo-nos como os romanos que sobreviveram às invasões bárbaras: os cidadãos permaneceram vivos, mas haveria ainda uma civilização que os acolhesse?
Até as novelas de temática dita “adulta” — e que temática, convenhamos, não é adulta, ao fim e ao cabo? Que fábula infantil não está crivada das mais maduras implicações? — pois até mesmo elas eram apresentadas de tal maneira naturais, no humor e no seu paralelo com a vida quotidiana, que não havia choque, estranhamento, “apelação”. Como bem o disse um amigo, recentemente, “naqueles dias havia o sexo, como sempre existiu desde o princípio dos tempos: hoje o que há é safadeza, grosserias, vulgaridades e violências que tentam nos impor como norma e modelo”.
Aliás, violência é o que mais vemos, injustificada e, o que é pior, alçada a uma verdadeira estética. Certas telenovelas parecem competir entre elas em busca da cena apresentada como a mais crível no que se refere a um estupro, à tortura, espancamentos, agressões várias, etc. Como se buscassem um grau de excelência não na complexidade de suas tramas, na qualidade de seus diálogos e na beleza das imagens, mas sim na mais completa verossimilhança na apresentação de uma surra e dos hematomas por ela gerados.
A origem deste desvio na percepção dos produtores de entretenimentos para televisão deve residir na pretensa admissão de que vivemos numa época em que o comportamento violento tornou-se dominante e, o que é pior, irreversível, e presente em absolutamente todos os lares, negócios, empregos e relações pessoais. Assim, os autores de telenovelas, que se julgam os sumos cronistas da sociedade brasileira — e que, todavia, não distinguem muito bem o que é realidade, o que é ficção e o quanto arbitrariamente misturam uma e outra em suas obras, por razões várias — acabam impingindo a toda uma nação suas abordagens limitadas de uma realidade brasileira que é muito mais facetada do que eles imaginam.
Mas o que esperamos deles, afinal? A jornada de trabalho que lhes é imposta sacrifica um olhar mais longo por cima dos ombros e em torno da realidade. Ao mesmo tempo, vão perdendo o foco na observação dos costumes, porque sob a determinação de enxergarem o mundo por um determinado e rígido ponto de vista, que satisfaça os olhos todos poderosos do Ibope, e das expectativas de merchandising dele decorrentes, suas visões se obliteram: tornam-se “míopes”, por obediência, ocasião ou já porque perderam a capacidade de ver com clareza.
E será justo, ou ponderado, serem esses senhores e senhoras aqueles que nos dizem como devemos enxergar os fatos, o mundo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2005].