Em 1998, o papa João Paulo II admitiu que era "oportuno" um
mea culpa da Igreja Católica sobre o "capítulo doloroso" da Inquisição, mas para isto era necessário um julgamento "sereno e objetivo" da história, "sem emoções pessoais", nem condicionamentos da opinião pública. Chega o ano 2000 e, durante a celebração do milênio da Igreja Católica, o sumo pontífice pede perdão pelos pecados que os católicos cometeram em nome de sua fé através dos séculos, incluindo os abusos da Inquisição. E eis que no útlimo dia 16 de junho, o Vaticano publicou um novo estudo sobre os atos cometidos durante a Inquisição, um relatório de 800 páginas, que inclui todas as atas oficiais do simpósio internacional realizado em 1998 por iniciativa da comissão teológico-histórica do Comitê do Jubileu e que contém os relatórios de 50 historiadores e outros especialistas, inclusive não católicos, da Europa e América do Norte.
Segundo o documento, a Inquisição, que espalhou temor na Europa a partir da Idade Média, não praticou tantas execuções ou torturas como dizem os livros de história. Ele reconhece que, no começo, os procedimentos planejados foram aplicados com rigor excessivo, que em alguns casos foram degenerados e se tornaram verdadeiros abusos, e propõe que a Inquisição não foi tão má como se costumava crer.
Em vista de tais conclusões, o papa João Paulo 2º novamente pediu desculpas pelos excessos dos interrogadores, expressando pesar por "erros cometidos a serviço da verdade por meio do recurso a métodos não-cristãos". Além de reafirmar o que já havia dito no documento anterior, de 2000, na carta atual, foi ainda mais longe, dizendo que o pedido de perdão valia "tanto para os dramas relacionados com a Inquisição quanto para as feridas deixadas na memória [coletiva] depois daquilo E ressaltou que os teólogos devem entender “a mentalidade dominante em determinada época.” “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa quase um símbolo do escândalo”, escreveu o sumo pontífice numa carta sobre a pesquisa. Em que grau essa imagem é fiel à realidade?”, argumentou.“Antes de pedir perdão, é necessário ter um conhecimento preciso dos fatos”, acrescentou, no mesmo documento,expressando uma “grande apreciação” pela pesquisa. O papa, porém, não criticou seus predecessores. Gregório IX, que criou a Inquisição em 1233, não foi mencionado no comunicado, pois segundo o cardeal Georges Cottier, um dos responsáveis pela apresentação do relatório: “quando pedimos perdão, não condenamos. Estamos todos condicionados pela mentalidade de nosso tempo. Daqui a 50 anos, podemos ser acusados de não ver certas coisas", disse.
O documento revela que a Inquisição espanhola, que se tornou independente do Vaticano no século 15, praticou os abusos mais extremos. Todavia, o professor Agostino Borromeo, professor de história das religião católica e outras confissões cristãs na Universidade Sapienza, de Roma, e que supervisionou o volume, sustenta que, na Espanha, dos 125.000 julgamentos por suspeição de heresia, apenas 1,8% dos investigados pela Inquisição espanhola foram executados. Em Portugal, 5,7% de mais de 13.000 julgamentos diante da tribunais eclesiásticos, no século 17 e início do 17, foram condenados à morte. Já a Alemanha teria matado mais bruxas e bruxos que em qualquer outro lugar, cerca de 25 mil, dentre uma população de 16 milhões de pessoas. Mas, em termos proporcionais, o recorde pertence a Liechtenstein, onde 300 pessoas, ou 10% dos 3.000 habitantes da região, foram mortas por bruxaria. Borromeo nega que o Vaticano estivesse planejando reduzir os erros da Inquisição com a apresentação de tais dados. “Não quero dizer que a Inquisição fosse uma instituição ética”, disse na entrevista. “Isto não muda a natureza do problema – pessoas foram traídas por suas convicções religiosas. Mas, para os historiadores, números têm um significado”.
Não é preciso apontar a saraivada de críticas que a Igreja tem sofrido por conta desse documento. Talvez a melhor seja do historiador italiano Carlo Ginzburg, presente à conferência de 1998 — e bem conhecido no Brasil por seu livro
O queijo e os vermes, que versa sobre a Inquisição e a heresia. Segundo ele, existem certas dúvidas sobre usar estatísticas para chegar-se a um julgamento sobre o período. “Em muitos casos, não temos a evidência, a evidência perdeu-se”, disse. E meio que em resposta a esta afirmação, o cardeal Georges Cottier, teólogo do Vaticano próximo ao papa, reforçou a necessidade de analisar os fatos antes de fazer julgamentos sobre um período da história. “Não se pode pedir perdão por ações que não estão aqui”, alegou este prelado.
Como vemos, a Inquisição ainda é fonte de muitas polêmicas e boa parte da censura que se faz a ela mais parece ter como fim criticar a Igreja do que entender aquele processo histórico. Porque o que muito dos críticos parecem esquecer é que a Inquisição não foi um fenômeno uniforme e local. França, Inglaterra, Alemanha, Itália, etc., tiveram, na maior parte do tempo, fenômenos inquisitórios distintos. Da mesma maneira, nem sequer foi um fenômeno exclusivamente católico: as igrejas e seitas protestantes também tiveram, embora com outros nomes, violentos tribunais de fé que, em várias épocas, executaram muito mais pessoas que a Inquisição Católica, excetuando a espanhola.
Há que se levar em conta, também, que por ser o cristianismo uma religião missionária, julgava-se na obrigação de propagar seu modelo de fé o mais amplamente possível, mesmo que para tal fosse necessário se utilizar de táticas aparentemente questionáveis, pois em seu raciocínio, o fim justificaria os meios.
Quanto à “caça às bruxas”, ela sempre existiu, antes mesmo da própria Igreja, visando aos praticantes de técnicas de cura natural, rituais pagãos ou pessoas com algum comportamento diferenciado. Aliás, pode-se mesmo dizer que a Inquisição, para boa parte destas pessoas, foi até bem vinda. Seria mais fácil escapar de um processo organizado movido pela Igreja do que da descontrolada fúria popular, pronta a condenar à morte, sem investigação ou julgamento, qualquer indivíduo “estranho”: bastava um doença contagiosa para que a população desconfiasse de bruxaria e procurasse um culpado, invariavelmente executado e da pior maneira. Assim, a Inquisição constituía um tribunal no qual o réu poderia, pelo menos teoricamente, defender-se.
Em suma, católicos e protestantes perseguiram e mataram milhares de pessoas em nome de sua fé por um longo período conhecido por sua violência. Uma violência endêmica, presente em todas as instituições. A Justiça incluía a tortura em todos os interrogatórios, as escolas castigavam severamente, os exércitos saqueavam e matavam aldeias inteiras, o povo divertia-se com as execuções e martírios públicos, com lutas de ursos contra cães, com esfolamentos de gatos e, por um bom tempo, acreditava-se que para a carne ser saborosa, o animal deveria sofrer uma morte dolorosíssima: há inúmeros registros de animais metidos ainda vivos em fornos e panelas. Diante de um tal quadro, todos os excessos passam a ser compreensíveis.
A Igreja Católica fez sua parte, reconhecendo seus erros e pedindo o perdão. Que seja louvada por isto.
[Publicado originalmente no jornal
A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].